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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

liberdade, liberdade

Às vezes eu reflito sobre quais de minhas ações são realizadas em plena liberdade.

Antes de mais nada, já mudei minha noção de liberdade milhares de vezes. A primeira ideia que tive era que liberdade é quando você tem a possibilidade de fazer escolhas - mas é fácil pensar em situações nas quais você tem escolhas, mas não tem plena liberdade. Por exemplo, quando você vai a uma sorveteria e só encontra dois sabores de sorvete. Você escolhe entre os dois, mas, como só há dois sabores, você não foi totalmente livre em sua escolha - sua escolha foi ditada pela contingência, por uma coisa pré-estabelecida; sua ação não foi totalmente autônoma. Logo, nunca uma escolha entre várias opções é totalmente livre.
Alguém poderia dizer que é melhor ter opção do que não ter - e que, mesmo a escolha sendo restrita, ainda assim se tem a liberdade de fazê-la. Sim, pior ainda seria se fôssemos escravos da contingência - e muitos o são. Acredito que os indivíduos que constituem as classes mais baixas da sociedade, assim como grupos estigmatizados (negros, homossexuais, e, infelizmente, mulheres), muito dificilmente agirão de forma autônoma. Quaisquer de suas ações serão feitas baseadas em escolher o que se pode escolher, e não necessariamente o que se quer fazer. E o que é pior: movimentos que tentem igualar a liberdade das pessoas, tentando, assim, anular fatos arbitrários, exteriores ao indivíduo, são vistos com maus olhos - ações afirmativas e os movimentos negro, LGTB e feminista.
"Mas, afinal", você se pergunta, "o que é ser livre pra você, Bruna?". Digo que concordo com Kant: somos livres quando agimos com autonomia - ou seja, quando agimos de acordo com um princípio criado por nós mesmo, que tem uma finalidade em si mesmo (ou seja, quando fazemos algo para atingir tal resultado, essa ação não é autônoma). Ou seja, ser bom por ser bom. Ser justo por ser justo. Escolher por escolher. É claro que damos significado para todas as nossas açõs - caso contrário, viveríamos num vazio de sentido. Mas o que eu quero dizer é que o princípio que rege todas essas ações é algo que foi criado por você mesmo, e, mesmo que você faça algo pressupondo uma finalidade, essa finalidade será apenas consequência de seu próprio ato, já que ele termina em si mesmo. Quando você é justo por ser justo, você o faz por acreditar que essa é a forma ética de agir, esperando, com isso, corrigir alguma injustiça ou dar um exemplo.

Porém, quando percebi que, sim, de fato, concordo com isso, fiquei angustiada. Muito angustiada. Porque parei pra pensar se alguma vez na minha vida eu já fui livre. E voltamos ao começo do texto.

Claro que, prontamente, já excluí todas as minhas ações baseadas numa escolha com opções restritas. Mas depois pensei melhor. E quando, dentre as opções apresentadas, há algo que eu realmente queria? Algo que eu continuaria querendo se não estivesse dentre minhas opções? Algo que eu faria como finalidade em si? Como, por exemplo, escolher um livro dentre os disponíveis na livraria. Escolher ouvir uma música dentre as disponíveis no youtube. Escolher assistir a um programa dentre os que estão passando na televisão. Sob essa perspectiva, as coisas melhoraram!, e não mais me senti tão escrava da contingência.
É claro que alguém poderia argumentar que os motivos que me fizeram fazer determinadas escolhas autônomas são fruto da contingência (que eu escolho o livro x e não o y porque a maioria das mulheres assim o fazem, ou porque é o livro valorizado pela minha classe social, ou porque meu pai gosta do livro e eu tenho complexo de édipo, interprete de acordo com sua corrente filosófica), mas eu prefiro acreditar que não, porque eu, aos meus 17-quase-18 anos já tive tempo suficiente para decidir meus próprios gostos sem interferência direta ou predominante de grupo ou instituição nenhuma.
Também excluí ações básicas do dia-a-dia, de rotina, porque, bem, não sei vocês, mas tudo o que eu faço no dia-a-dia faço ou por obrigação ou com alguma finalidade. Sobra o final de semana. No final de semana (para aqueles que o tem livre), no feriado, nas férias temos nosso momento de liberdade. E isso nos angustia. Liberdade dá angústia!, afinal, o que é o tédio dominical senão angústia devido a ociosidade? Sim, pois liberdade dá medo - quando fazemos tudo automaticamente, é fácil, é indolor, agora quando temos de fazer decisões por nós mesmos, a situação se complica, e sentimos angústia (segundo Kierkegaard, angústia é a vertigem da liberdade). Mas enfim.

O que eu realmente quero dizer é que eu me encontro livre nas coisas pequenas que faço. Ler o final de um livro, e não o começo, só pela graça do ato. Segurar as mãos do meu namorado só pelo prazer de segurar. Sentar do lado de fora de casa e olhar pro céu só por sua beleza. Sentar ao meu piano e tocá-lo só pela felicidade que isso me proporciona. Sentar à frente do computador e escrever... e escrever, e escrever.

Autonomia é um negócio complicado.

domingo, 23 de dezembro de 2012

2012, 2013

Cara, 23 de dezembro de 2012.
Não sei o que me deu pra escrever aqui. Acho que saudades. Culpa por não ter escrito durante tanto tempo. Vontade de escrever pensamentos regurgitados sem precisar colocá-los em ordem. Nostalgia de ouvir o barulho do bater incessante no teclado .
Mas eu gosto de fazer um balanço de final de ano.
Esse ano foi bem diferente do que eu esperava.
Conheci pessoas novas, entre elas, uma que me fez muito bem. Fiz novas amizades, fortaleci outras mais antigas. Surtei muito. Decidi o que queria prestar, mudei de ideia, me decidi de novo, fiz inscrição, não dava mais pra voltar atrás. Ultrapassei meus limites físico-psicológicos ao estudar. Consegui achar certo tempo pra diversão. Não consegui achar tanto tempo para leitura. Não consegui achar fôlego pra me distrair a ponto de criar uma estória e postá-la aqui, apesar de constantemente inventar situações, inícios de contos, personagens, paisagens, momentos. Decepcionei-me comigo mesma quanto a isso. Amadureci muito. Mudei de opinião algumas vezes, conheci outros pontos de vista, identifiquei-me com uma filosofia ou outra. Percebi como algumas opiniões vêm da maturidade. Percebi como algumas atitudes vêm da maturidade. Vez ou outra quis desistir. Senti falta de não viver em função de algo tão prático. Senti falta do lirismo. Fiquei (e estou) de saco cheio de ciências. Senti falta de ter um momento em que não precisasse fazer nada e pudesse só olhar pro céu. Senti falta do cheiro da chuva. Senti falta de nadar. Senti saudades do frio. Viajei. Sinto falta do Rio de Janeiro. Frustrei-me mais com Ribeirão Preto. Frustrei-me mais com as pessoas de Ribeirão Preto. Percebi que Ribeirão Preto é assim e não tem jeito. Pintei o cabelo diversas vezes. Mudei completamente de estilo de roupa. Cansei de ser chamada de "adolescente" e de não ser levada a sério. Cansei dessas pessoas que subestimam as outras por estas não terem graduação ou idade. Cansei de gente que acha que entende de literatura, cinema ou filosofia por ter lido um livro, visto um filme, lido um ensaio. Cansei de muita coisa, percebi que minha revolta não é evanescente. Quis dormir.

Quero dormir.

Quero paz. Não paz sinônimo de prosperidade econômica ou afetiva, mas paz de saber que estou no caminho certo, que vai dar tudo certo, que eu vou conseguir, que eu não vou estar sozinha, e que não vai me prejudicar se eu quiser tirar um dia pra deitar no quintal de casa e ficar olhando as nuvens indo de um lado a outro.
Quero viver por mim, não pela sociedade.
Quero conhecer (mais) gente que me aceite como sou, revoltada, chata, nerd e deslocada.
Quero ler mais.
Quero ser menos egoísta, menos impulsiva, menos dramática, menos ansiosa.
Quero passar no vestibular, pra que eu não precise passar por tudo o que eu descrevi de novo.

Quero voltar a escrever. Quero ter tempo pra voltar a escrever. Quero voltar a ter disposição pra voltar a escrever. Quero não precisar ter de escrever mais nenhuma dissertação na minha vida.

Eu preciso, preciso muito resgatar pedacinhos de mim que foram fragmentados e empoeirados ao longo do ano. Porque precisar decorar zoologia animal fez anular a bruna espontânea. Porque decorar a lei dos cossenos fez anular a bruna lírica. Porque decorar a geografia da China fez anular a bruna inventiva, imaginativa. Porque esse ano me estragou completamente.

Não respirei. Respira. Respiro.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Day 5 — Your dreams

Oi, sonhos.
Vocês me dão muito trabalho, sabe... vocês vão longe, longe demais, tão longe a ponto de eu perdê-los de vista e desistir pra sempre de reencontrá-los... eu só queria que vocês se definissem, que ficassem aqui perto de mim e perto do chão, e que parassem de mudar tanto de tonalidade e intensidade. É difícil escolher o que eu quero pra mim, pra minha vida e pra minha carreira se vocês não se definem também, entendem.
É claro que o que eu mais queria era poder seguir todos, mas alguns de vocês estão tão altos que minhas tentativas de segui-los acabaria na cena ridícula de uma menina sonsa pulando em vão pra tentar alcançar algo que só se distancia dela. Miserável. Então, olhem, eu fico realmente triste e ter de lhes dizer isso, mas eu só posso ficar com um por vez; o resto de vocês deverá ficar numa prateleira, quietos, até que eu tenha capacidade e força suficientes para realizá-los. Eu sei, isso é triste, e eu, de todas as pessoas no mundo, sou a que mais quer realizar todos de uma vez, conseguir tudo de uma vez, com certo prazo, aliás. Mas era preciso - é preciso - tomar uma boa dose de Realidade de vez em quando (não sempre, não todos os dias, pois corre-se o risco de a vida se tornar chata, monótona e insuportável).
Alguns de vocês foram abandonados há tempos, alguns são novos, alguns nasceram num dia e morreram no dia seguinte, e são poucos que sobreviveram/resistiram a todos os tipos de provações e decepções que eu já vivi. Alguns de vocês são extremamente realistas, alguns são vergonhosamente materialistas, alguns são ridiculamente adolescentes e alguns são tão corajosos e ambiciosos que fazem-me refletir de onde eles saíram. Alguns de vocês são expectativas e planos que moldam uma futura Bruna, um futuro marido, uma futura família, uma futura casa, um futuro emprego... e alguns de vocês vão mais longe e querem que eu entre para a história, de alguma forma (boa)...
Mas o que eu realmente quero dizer é: obrigada por existirem. Obrigada por darem sentido à minha existência; sem vocês eu provavelmente estaria num poço de descrença e melancolia. Por mais que alguns de vocês me façam perceber o quão insignificante eu sou na esfera macro - mundial -, outros me mostram que a esfera micro também merece atenção, e que toda contribuição para a melhoria dessa esfera é válida. Muitos de vocês me fizeram questionar acerca dos meus valores e da minha  moral; e alguns dos meus momentos de maior amadurecimento são quando eu tenho de repensar meus sonhos e metas.
Novamente, obrigada. De verdade. E por favor, não me abandonem nunca, pois vocês fazem grande parte de quem eu sou.
Bruna.

domingo, 1 de janeiro de 2012

day 30: your reflection in the mirror

Como posso começar?

Cara Bruna,

  Eu tenho muitas coisas para falar-lhe. Não sei por qual começar. Primeiramente, da última vez que a vi você parecia tão abatida, tão desesperançosa, que com muito esforço contive meu ímpeto de abraçá-la. Eu perguntaria o que aconteceu, mas sei que você simplesmente responderia "a vida; a vida é que aconteceu".
  Sei que temos muitos assuntos mal-resolvidos, grande parte de nossos problemas caíram em oblívio, o que permaneceu foi aquele sorriso forçado e a frase dita em um semi-sussurro "está tudo bem". Sei bem que você - assim como eu - é uma criatura absurdamente obstinada, soberba, mas isso tem limite. Veja, todos temos problemas e é perfeitamente aceitável - e saudável - assumi-los e tomar uma atitude para resolvê-los.       Sim, eu sei que seria infinitamente mais fácil esconder-se por trás de uma máscara sociofóbica e antissocial, mas no fundo você é uma alma em agonia desmanchando-se no frio suplicando para que alguém a cubra com seu cobertor de afeto e atenção. Também sei que é mais fácil colocar a culpa na sociedade, nos valores sujos e corrompidos, no vazio niilista e por vezes dadaísta presente nas pessoas, no sistema massacrante capitalista, na mídia e no Jornal Nacional que desinforma... mas este é o comportamento padrão do ser humano: não admitir seus erros e colocar a culpa em outro alguém. Você acha que age muito diferentemente? Pois não age. Em vez de encarar a dor da difícil tentativa (pois ela pode levar a uma mais dolorosa ainda rejeição), você se esconde na conveniente indiferença. O quão patético é isso, Bruna?!
  Olha, perdão. Eu sei que não sou a pessoa mais amável do mundo, também tenho minhas preguiças sociais, também tenho alergia a futilidade e a ignorância, mas pra isso existe homeopatia. A homeopatia da internet, da psicoterapia, dos professores. Algumas horas com um desses pode servir de tratamento por até uma semana, acredite. E quanto ao borbulhar de ideias acontecendo na sua cabecinha e que você insiste em condensar e negar... deixe-o evaporar. Deixe-o borbulhar, esparramar-se no chão. É uma ótima prevenção contra o inevitável enlouquecimento. Eu tenho dó de você, mas não um dó ruim e sarcástico - um dó sincero, daqueles que fazem todo o ar sair dos seus pulmões só de você pensar no sofrimento da pessoa. E eu realmente quero que você melhore, que você mude, que você consiga tornar esse 2012 pelo menos um pouco melhor do que os dois anos que passaram, porque olha... dentre todas as pessoas que eu conheço, você é uma das poucas que merece, que realmente merece pelo menos um vislumbre do que significa ser feliz. E não digo isso porque, bem, você é meu reflexo, mas porque eu sei de tudo por que você passou, o quanto você é forte, e, bem, isso fez-me gostar bastante de você. Ao mesmo tempo que a acho incrivelmente estúpida, miserável e infeliz por você ser uma peça de quebra-cabeça que não sei encaixa em lugar nenhum, admiro-a justamente por isso.
  Então, enfim...
  Por favor. Mais surrealismo e menos barroco na sua vida.
Com todo o respeito,
Bruna S.F.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

o tempo

O tempo. O tempo escorrendo pelas minhas mãos, dançando pela superfície de um plano intocável como mercúrio à temperatura ambiente, zombando de minha incapacidade de segurá-lo, achando graça de meu desespero, e, ainda assim, seduzindo-me a ponto de me fazer querer saber qual é a sensação de tê-lo sob controle.
E ele passa. E ele passa e dança, e ele não quer saber se você está preparado para vê-lo dançar ou não, ele simplesmente vai, vai e o abandona como uma amante que deixa seu homem na cama; mas o tempo é frágil. E ele o sabe forçosamente. E ele teme e respeita aqueles que sabem moldar suas vidas a partir da fragilidade e evanescência dele, ah, sim. E esses indivíduos são aqueles que sabem aproveitar de forma certa a vida, com sapiência, que sabem que tudo tem sua hora, que não tem pressa, que o tempo é que tem que se apressar as pessoas e não as pessoas que têm que apressar o tempo, e que se deve fazer acontecer mais do que deixar acontecer. Porque o tempo zomba, o tempo ri de quem é ingênuo o suficiente pra achar que tudo vai se resolver sozinho.
O tempo é que deve se adequar às pessoas, ou as pessoas ao tempo?
O tempo é uma entidade que assusta. Eu às vezes tenho medo de como o tempo vai se comportar - ele será piedoso? compreenderá minhas necessidades? colaborará para que eu tenha qualidade de vida? ou simplesmente continuará rodando, rodando, de forma assustadora que faz-nos sentir absurdamente impotentes, inconsoláveis? juntamente a esse ritmo de vida moderna, vida essa que nos exige rapidez, fluidez, atualização e movimento constante, constante, constante, r-r-r-r-r-r-r-r-r, como se eu fosse uma máquina que pudesse ser reparada com um simples aperto de brocas e óleo nas engrenagens.
E enquanto eu dava vazão a todas essas ideias o tempo passou por mim, passou e não deixou marca nenhuma a não ser pela vaga sensação de vazio, de impotência, de ter algo nas mãos mas que o ato de tê-lo nas mãos não me é útil em nada, absolutamente nada, e eu fico aqui, no ta-ta-ta-ta-ta-ta das teclas do teclado sendo apertadas e no z-z-z-z-z-z-zumbido na minha cabeça que constantemente me diz palavras de despedida e de provocação.

Devo eu viver como se o tempo fosse acabar amanhã ou como se amanhã o tempo fosse acabar comigo?

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

sobre meu doppelgänger

Sabe aquela premissa de que se todos são especiais, ninguém o é?
Eu parti da premissa de que se há várias possibilidades de sentido para a minha vida e eu não consigo escolher é porque minha vida não tem sentido. Entendem? Eu enxergo tantas possibilidades, tantos futuros, tanto crescimento (tanto intelectual quanto humano) que me sinto intimidada por todas essas possíveis Brunas, muito melhores do que a Bruna atual, indecisa e irracionalmente infeliz.
Essa imagem de uma Bruna mais evoluída, mais sábia, mais culta, mais humana, mais tudo; essa imagem me assombra, como se fosse um doppelgänger que constantemente me segue e está comigo toda vez que devo fazer uma decisão. É como se eu me olhasse no espelho me visse em duas: o que eu sou, e essa imagem eu tendo a deturpar ao máximo possível, e esse doppelgänger, essa assombração (porque é isso que essa imagem faz: me assombra! em vez de me animar, me põe pra baixo; em vez de eu ficar feliz com todas as minhas possibilidades, eu me deixo deprimir por ter medo de fazer a decisão não errada, mas a menos certa).
E, tendo em vista a minha nova filosofia prática de tentar incorporar a essência do espírito de Poliana, tentei olhar as coisas de um outro ângulo. Eu posso não ter decidido o que eu quero fazer ou qual das inúmeras possibilidades eu vou seguir, mas isso não esvazia minha vida de sentido - na verdade, o meu objetivo de vida é justamente escolher qual sentido minha vida terá. Pois eu não acredito que a vida tenha apenas um sentido, eu acho que esse sentido muda de acordo com seu momento e suas vontades, por isso, a minha maior aspiração agora é descobrir o que eu posso fazer de melhor e como eu posso me tornar útil para alguém ou para o mundo.

[Um sentido para a vida não precisa ser algo grande, algo macro. Não é porque a pessoa não é aspirante a revolucionária que ela é corroída pelo vazio de sentido. A incredulidade no próprio sentido também não tira o sentido das coisas: o niilista pode achar que suas ações são desprovidas de um sentido, mas as pessoas ao seu redor podem discordar. O logos se encontra também em ações pequenas, como em fazer o bem ao próximo, pois quando você o faz, se sente bem com você e sente que fez sua parte. O sentido pode se encontrar em dedicar-se a uma causa, ou mesmo dedicar-se a alguém - à pessoa amada, à família, ou a você mesmo.]

Toda essa epifania teve muitos agravantes e catalizadores, e após uma pseudo-reclusão (sim, pseudo, pois a minha ideia de reclusão é ficar dias sem falar com ninguém para garantir que sua linha de raciocínio não será interrompida, mas como isso não é possível no momento, tentei fazer o máximo possível), decidi olhar as coisas do alto da montanha e apagar a infelicidade e miserabilidade que estava contida dentro de problemas muito pequenos e insignificantes comparados com os problemas que existem no mundo - um mundo muito mais real do que o meu, uma burguesinha de classe média alta metida a besta.

Meu objetivo agora é tentar ser a melhor versão possível do que eu sou; aprimorar meu ser; lapidar meu ente; aprender a fazer boas decisões e não me deixar derrubar por questões demasiadamente racionais pois, cá entre nós, o ser humano não é tão racional quanto julga ser.
E em vez de me deixar deprimir pela constante imagem da doppelgänger que me invade, vou emoldurá-la e pendurá-la na minha parede de possibilidades.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Tenho muito medo de ser bem-resolvida com minhas questões e dores.
Tenho muito medo de, uma vez resolvida, perder toda a minha inspiração pra escrever, perder meus objetos de estudo e reflexão, e me tornar só mais um ser despreocupado e estupidamente feliz andando por aí.
Não que eu tenha medo de ser feliz. O objetivo, o sentido da minha vida é a busca pela felicidade, não em um sentido hedonista, mas no sentido de fazer algo que me preencha. E acredito que só é possível descobrir aquilo de que você gosta quando se tem bem definido tudo de que você não gosta. Só se pode saber o que quer quando se sabe o que não quer. Mas eu tenho medo de definir tudo, definir exatamente o que eu quero e o que eu não quero, porque e aí?, o que eu faço depois? Enquanto estou cercada pela indefinição, ainda tenho muitos leques de possibilidades, muitas alternativas, muitas reflexões para fazer, tenho muito o que discutir e argumentar. Mas a graça da dialética é a troca de ideias e informações, e ter uma opinião já formada e bem resolvida acerca de tudo torna o ato sem graça para os dois lados.
Outro dia assisti a um episódio de House em que justamente essa questão é trabalhada. House tem medo de fazer terapia, de resolver seus problemas e de se livrar da dor na perna porque acha que, feito isso, ele perderia seu diferencial como médico. Eu também sinto que, sem minhas dores, eu poderia perder minha habilidade de reflexão. Eu fiquei com a impressão, depois de começar a fazer terapia, que eu não tinha mais sobre o que escrever. Visto que a escrita é um dos meus únicos talentos que eu mesma reconheço e que até aprecio, deparei-me com uma problemática.
O sofrimento nos faz, nos obriga a crescer. Quando não há mais sofrimento, como se cresce? Não que eu acredite que é possível viver sem sofrimento - não é, mas quando muda-se as formas de lidar com tal, os resultados também mudam.

Inutilidade é o pior sentimento do mundo.

terça-feira, 24 de maio de 2011

a paz

- Antes de eu encerrar esse encontro - Dama começou - queria perguntar-lhes: como alcançar a paz?
- A paz de espírito? - Eduardo perguntou. - É um conceito bem... complicado. Não ouso dizer que seja inalcançável, mas até hoje temo que eu não tenha encontrado um método que me guie à paz de espírito...
- Depende do seu conceito de paz de espírito. - Hermann começou. - Acredito que nossa vida seja um círculo vicioso: temos um objetivo, batalhamos, alcançamos, nos entediamos e logo encontramos um outro objetivo, e por mais nobre, mais complexo que seja tal objetivo, a tendência é de nos frustrarmos quando alcançamos tal, pois sempre parece que o esforço foi maior que a recompensa. Superestimamos a recompensa, quando o contrário é que devia ser feito, mas, enfim. Acredito que a paz de espírito, olhando desse ponto de vista, seja alcançada quando conseguimos aproveitar mais a viagem do que o destino, o esforço do que a recompensa, o processo do que o grand finale.
- Acredito que a paz de espírito está no coração dos ignorantes. - Fitz disse, pausadamente. - Para aqueles que não saem da "cotidianice", que olham para seus problemas por um prisma egoísta e totalmente não-relativista. Não ter o peso do intelecto e de séculos de reflexões sobre seus ombros é, sem dúvida, a maior paz de espírito que existe.
- Algumas religiões e filosofias orientais acreditam que você pode se libertar de todas as angústias e problemas desapegando-se de tudo o que é material - Dibs disse - e isso inclui não só bens e objetos, mas também envolve que você não se relacione com ninguém, seja esse relacionamento familiar, amoroso ou amigável. O ato de desprender-se, de certa forma, de toda a sua vida implicaria uma paz de espírito constante por não haver com o que se preocupar. Tudo é passageiro.
- Não gosto dessa ideia. Se eu me desprendesse de toda a minha vida, eu me desprenderia também de mim e de minha identidade, minha história. Eu realmente teria paz de espírito, porque não teria de refletir nem de me preocupar com nada, já que tudo é passageiro! - Apontou Eduardo. - Eu, quando jovem, gostava de pensar que eu alcançaria a paz o dia em que estivesse fazendo algo bom para mim e útil para o fator externo, seja esse fator a sociedade ou minha família. Esse equilíbrio, assim como Hermann disse, tendo a acreditar que só pode ser acessível quando começamos a pensar o valor das coisas por que passamos na nossa vida. Isso está incluso no gigante pacote definido por "aproveitar a viagem". Acho que essa determinação do que é válido e do que não é só pode ser feita se olharmos para nossa vida de fora, de cima, como se estivéssemos no topo de uma montanha: o que é pequeno some, apenas grandes formações continuam visíveis, e são essas grandes formações que merecem nossa atenção.
- Mas para alcançar-se essa forma de visão, tão cósmica, primeiro precisa-se reconhecer que, apesar de tudo por que passamos ter certa influência, mesmo que minúscula, na nossa identidade, deve-se aprender a valorizar acontecimentos ou reflexões realmente importantes: formadores de caráter, questionadores de nossa ética... e isso exige um certo desprendimento, sim, da predominância das emoções, as quais geralmente influenciam no nosso juízo de valores do que é realmente importante e o que pode ser considerado fútil - Fitz disse. - Tal atitude só pode ser esperada dos mais ricos intelectualmente. Não sei vocês, mas eu vivo em constante angústia e, apesar de eu também não gostar de utopias, como Dibs, tendo a pender para o lado cético da questão, o lado que grita "estás louco?!, paz de espírito é para parvos, sem grandes questionamentos ou grandes angústias!".
- Vocês acham que tudo na vida é muito fácil. - Dibs disse, de forma disparata. - Tudo é ou inalcançável ou só digno de idiotas. Não é você mesmo que estava falando sobre aproveitar a viagem, Hermann? E não é essa a beleza? Acompanhar a sua evolução como ser humano, (racional, social e de alma muito rica), enquanto busca a paz de espírito, a solução dos problemas e uma forma mais saudável de encarar a vida? Não é isso o que torna a vida cheia de significado e aprendizado? Você acha, Fitz, que a vida de um parvo, em seu final, terá muito significado? Não que eu esteja desvalorizando vidas, cada um a aproveita da forma que bem quiser, só que um ser que se questionou e refletiu durante toda sua existência tornará sua vida muito mais significativa do que alguém que só cumpriu sua função biológica de existência. - Dibs então parou para tomar fôlego. - E não me venham com a ladainha de "mas o destino inexorável de todos é a morte". Isso só deveria fazer com que aproveitássemos mais, tendo a consciência de que, provavelmente, essa será nossa primeira e última chance.
Dibs revelava-se e os outros três homens encolhiam-se em suas roupas, envergonhados por terem deixado morrer dentro de si o Dibs que ali um dia esteve.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Toska

Eu estava lá, sentada ao teu lado. Observando tua respiração, admirando teus cabelos, respeitando-te pela vontade de viver. Em cada suspiro teu eu via a dificuldade e a dor, e ao mesmo tempo, a imensa resistência em continuar respirando. Tu querias continuar viva. E eu não entendia isso. Hoje já há formas indolores de se morrer, como se a alma simplesmente saísse do corpo alguns instantes depois do fechar dos olhos. Como se a pessoa simplesmente fosse posta para dormir.
Minha intenção era acompanhar-te nos teus últimos momentos, mas depois cheguei à conclusão de que teria sido melhor se eu tivesse ficado em casa, se minhas últimas lembranças fossem do teu rosto sadio, rosa e com uma expressão alegre, inocente, infantil. Ver-te pálida era muito difícil. Teus olhos sempre foram tão vivos e transmitiam perfeitamente o que passava-se-te na alma. Agora parecia que, aos poucos, tua essência dissipava-se-te pelos poros.
"Vai ser melhor para você quando eu sucumbir," tu me disse. "Você e seus eufemismos", respondi. "Você e sua dificuldade de confrontar a realidade", foi-te a resposta.
Eu apertei tua mão e teimei em segurar as lágrimas que insistiam em rolar-me pelo rosto. Eu tinha de permanecer forte, pelo menos na tua frente. Se eu mostrasse qualquer sinal de fraqueza, tu ficarias ainda mais relutante e insegura de partir. Mas nós duas sabíamos que tu e tua doença eram as mais fortes daquela sala.
Eu estava ali desde a semana anterior, não podia sair do teu lado. Depois de dois ou três dias, comecei a aceitar a ideia de que a tua hora havia chegado, começava a me preparar psicologicamente para o acontecimento, tentei fazer as pazes com a morte, pensei que aquilo poderia me ajudar a amadurecer. Mas tu, foi contigo que eu amadureci mais, tu sempre esteve lá por mim. Compreendes?
Então aconteceu. Tu me disseras que ia dormir pois o cansaço tomara conta de ti, e alguns instantes depois, ouvi aquele temido zumbido constante vindo do monitor. Teu peito não mais subia e descia. Tua mão não segurava mais a minha. Acho que a palavra que mais define o que eu senti no momento é toska. Senti como se alguém tivesse, impiedosamente, arrancado-me metade da alma e jogado ao relento, como se só por prazer, como se só para assistir ao meu espetáculo de agonia. Eu realmente me enganei quanto às pazes que supostamente fiz com a Morte.
Foi difícil ver aquele pedaço de mim morrer. Ver os médicos cobrindo aquele meu corpo e dizendo a hora da morte foi realmente assustador, mas necessário. Eu precisava deixar aquela parte minha... ir.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

vida de modelo

O desfile acabou. Após entrarmos batendo palmas, eu e minhas companheiras seguimos pelo backstage para descobrir o que faríamos a seguir. Enquanto uma mulher tirava minha roupa, a outra minha maquiagem, um cara desarrumava meu cabelo, um tentava tirar minhas botas e dois ou três fotógrafos pesquisarem ângulos bons, ouvi de longe meu agente dizendo minha programação para essa semana. Eu teria duas horas de sono, depois seguiria para 3 castings seguidos, depois vôo para Milão, depois voltamos a Paris, depois ensaio fotográfico com mais 4 marcas diferentes e vôo para New York. Tudo bem, eu pensei. A temporada do ano passado, em que eu era novidade, consegui fazer mais coisas ainda. Com ajuda da metanfetamina, claro. Muitas amigas minhas usam cocaína ou meta. Não sabiam?
Mas eu não sabia se queria fazer tudo isso. Olhei ao meu redor. Eu com meus 24 anos já era uma das veteranas dali. Moças, não, meninas de 14 anos desfilavam ao meu lado. Deve ser difícil, quero dizer, e se pedirem para ela fazer uma pose sensual, uma expressão sensual? Como ela vai fazer, se ela provavelmente nunca fez sexo? E todos os abusos que eu já sofri em ensaios fotográficos? Elas estão psicologicamente prontas para isso? Não sei.
Não sei se eu ligo. Isso me entristece. Sinto-me muito vazia, às vezes. Quero dizer, recebemos toda essa atenção, estamos tão acostumadas a mimos, a motoristas, a tendo alguém para controlar nossa vida, que me pergunto se eu saberia, se eu conseguiria viver sozinha amanhã. Já visitei todos os continentes, mas não sei pegar um ônibus. Eu não saberia administrar meu dinheiro, porque nunca precisei. Acho que nunca vivi.
Convivo com essas meninas que são consideradas maravilhosas, mas nem elas são tão bonitas como elas mesmas. Quero dizer, toda a beleza delas é uma combinação de produção com edição. E às vezes eu fico imaginando a repercussão disso tudo... pois tenho certeza de que essas meninas bobas de 13, 14 anos realmente acreditam que é saudável ter 1.75m e pesar 45kg, ou que é normal uma modelo de 17 anos não ter absolutamente nenhuma espinha. Quero dizer, em alguns castings aos quais eu vou a privada do banheiro fica entupida de vômito.
Às vezes me sinto só um corpo. É assim como sou vista. Um corpo que desfila roupas chiques, porque estas caem bem nesse. A agência, os agenciadores, meu agente, eles não ligam para meu estado, para minha saúde, eles só querem ganhar dinheiro em cima da minha imagem. É muito estressante às vezes, quero dizer, eu só paro para trabalhar quando preciso tomar soro no hospital...
Penso que às vezes seria bom se eu recebesse atenção por outro motivo que não fosse meu corpo, sabe? Quero dizer, sempre me perguntam com quem eu estou, quanto eu peso, quantos anos eu tenho, qual minha marca favorita e qual minha cor de esmalte preferida, nas entrevistas, mas nunca me perguntam o que eu gosto de ouvir, ler, assistir, fazer... Eu sou uma pessoa, sabe? Apesar de toda a materialização do meu corpo, eu ainda sou uma pessoa, eu choro, eu como, eu me arrependo, eu fico cansada, eu fico doente, eu choro mais... porque você acha que modelos usam tanto óculos escuros?
Mas apesar de tudo isso, eu nunca sei o que fazer, se eu continuo trabalhando e ganho dinheiro ou se paro e, sei lá, corro atrás de estudo... ambas opções são muito difíceis, pois, como a maioria das modelos, parei de ir à escola muito nova... além do mais, vou fazer faculdade do quê?
Bom. Acabou meu intervalo. Meu agente disse que ultimamente tenho passado um exagero de tempo no banheiro. Ele diz que mais rumores sobre uma possível anorexia ou bulimia poderiam arruinar de vez minha carreira.
Mas não é como se eu ligasse.

(baseado em um documentário que vi outro dia na GNT.)

domingo, 9 de janeiro de 2011

mônica e paola,

Era uma vez uma Mônica e uma Paola.
Andavam sempre juntas. Não faziam o estilo amigas de infância, não podiam se gabar de uma amizade de dez anos, ultrapassavam aquele clichê de serem "quase irmãs", ultrapassavam aquele clichê de uma amizade perfeita sem brigas, ultrapassavam aquele clichê de as qualidades de uma preencherem os defeitos da outra. Eram melhores amigas, de uma forma diferente. Uma não se espelhava na outra. Mônica não era nem de longe o projeto de amiga perfeita de Paola, e Paola nunca imaginara que poderia ser amiga de alguém como Mônica. Mas aconteceu. E uma era o que a outra precisava naquele momento. Paola era totalmente louca, inconsequente e sensível demais. Mônica era rígida e não se permitia fazer muitas coisas. Viviam num equilíbrio instável.
Trabalhavam no mesmo lugar e se conheceram numa reunião. Ficaram bêbadas, riram muito juntas e desse começo muito saudável iniciou-se uma amizade. Desde então, faziam tudo juntas. Iam às compras, à academia, ao shopping, aos bares, e quando não existia a possibilidade de algo melhor para fazer, abriam uma Sprite e jantavam Twix na casa de Mônica. Tudo muito normal.
Até Paola conseguir uma promoção em sua área. Naturalmente, começou a trabalhar mais, a se esforçar mais, coisas que Mônica sempre recomendou que ela fizesse. Começou a não ser tão inconsequente, coisa que Mônica sempre recomendou que ela fizesse. Começou a sair com colegas de trabalho, não por simpatia, mas por interesse.
Mônica, um tempo depois, também conseguiu uma promoção. Mas ela não mudou seus hábitos, pois não havia necessidade. Ela fez amizade com seus novos colegas de trabalho, e nenhum ocupou o tempo de Paola em sua agenda, mas não era mais tão recíproco.
As duas começaram a brigar por motivos bobos, mas a implicância estúpida era só uma forma de demonstrar a insatisfação com aquela repentina mudança no relacionamento. Agora era desgastante, e as duas se encontravam meio que por obrigação. Já não era mais tão divertido e espontâneo.
Então, um dia, Paola mudou de cidade. E as duas simplesmente pararam de se falar. Paola seguiu com sua vida, sempre conhecendo gente nova, se apegando a alguns, ajustando-se a cada ambiente que ia. E Mônica voltou a viver a mesma vida de antes de Paola, saía de vez em quando para uns drinks com os amigos, mas nada além. Depois de anos e anos de separação, Mônica ainda sentia que parte da alegria e da espontaneidade dela se foram junto com Paola, mas aprendeu a conviver com isso. Ela não tinha escolha, tinha? Ela só se perguntava às vezes se Paola sentia a falta dela, também.
Mônica, eu tenho assistido você de longe. Adapte-se. Mude. Faça amizade com seus colegas de trabalho. Pinte suas paredes. Deixe o passado onde ele deveria estar.
No passado.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Os melhores de 2010.

Sim, um pouco atrasado, mas o post contendo os melhores tudo de 2010 está aqui. Juntei muita paciência e informações pra escrever tudo. Começaremos, então.

Os melhores filmes vistos em 2010 (e que não são necessariamente de 2010) (esse foi o mais difícil): As melhores Coisas do Mundo; Le Huitième Jour; Mindwalk; Fight Club; the Godfather; Inception; Whatever Works; Cold Souls; Shutter Island; Die Welle.
Bandas mais ouvidas em 2010: Muse, Beatles, Cazuza, Carla Bruni, Glenn Miller, Porcelain and the Tramps, Mindless Self Indulgence, Wolfmother, Trio Los Panchos, e muito bolero, tango e blues.
3 Músicas mais marcantes:
Please, let me get what I want (The Smiths Cover) - Muse
Cherry Bomb - The Runaways
O Tempo não Pára - Cazuza
3 frases mais marcantes:
- In Omnia Paratus;
- If you don't claim your humanity you will become a statistic. You have been warned;
- Quem cala, consente.
3 sensações que mais me marcaram: frustração, decepção e amor.
3 Melhores Momentos: ida à Londres, ida ao Hopi Hari, e quando fui surpreendida por um buquê de lírios, na escola, mandado pelo meu namorado lindo.
3 Piores Momentos: a espera pelo avião na ida, a espera pelo avião na volta, o primeiro mês de aula.
3 personagens preferidos: Tyler Durden, Hermione, Elizabeth Bennet.
3 coisas que eu quero decidir em 2011: o que vou fazer de faculdade, o que vou fazer de faculdade, o que vou fazer de faculdade.
3 metas para 2011: estudar mais, ler mais, me informar mais.

Frase que representa 2010: pelo filósofo moderno ocidental M. Jagger, "you can't always get what you want"

domingo, 5 de dezembro de 2010

sobre minha raiva

É muito comum eu me deparar (vendo no orkut, por exemplo) com situações que não têm relação direta comigo mas que mesmo assim me irritam. As atitudes das pessoas me irritam.
E como hoje parei para pensar sobre isso, descobri que o que me irrita nessas situações é a ignorância das pessoas. Os indivíduos fazem coisas que eu considero ingenuidade e, em certos casos, ignorância. Muitas vezes penso isso porque vejo-os passando por algo que eu mesma já passei e gostaria de ter feito diferente. Muitas vezes eu me espelho nessas pessoas, e enxergo o quão estúpida eu mesma já fui, apesar de, na época, eu saber que eu estava me iludindo acerca de alguma coisa, de algum jeito.
Encolerizam-me as ilusões. Ilusões de que há um método alternativo para conseguir o que queremos, ilusões de que de fato conseguiremos o que almejamos... ano passado eu havia prometido a mim mesma que, este ano, eu começaria a acompanhar o jornal todos os dias, leria todos os livros difíceis, veria todos os filmes "cults" mas adivinhem só. E isso é um alerta para todos os individuozinhos entrando no colegial ano que vem: NÃO É ASSIM TÃO FÁCIL MANTER-SE CULTO E POLITICAMENTE ATIVO QUANDO SE ENTRA NO COLEGIAL. É extremamente fácil ler muitos livros até a oitava série. Agora experimente, em pleno setembro, tendo duas provas, 26 aulas e um mol de quilos de matéria por semana, pegar o Crítica da Razão Prática para ler, tendo que conciliar as horas de leitura com as (muitas) horas de estudo, as horas de amigos, as horas de computador, as horas de lazer, as horas de jornal e as horas de sono e necessidades básicas.
Abespinham-me as falhas. Falhas no plano. Era pra ser de um jeito e aconteceu de outro. Mas além das falhas, a minha impotência para com essas situações falhas. Não pude fazer nada para que acontecesse de outra forma. Eu adoraria chacoalhar algumas cabeças agora e falar "isso não vai dar certo, não bote fé", e eu adoraria que alguém tivesse feito isso comigo antes de me eu me decepcionar.
E depois de escrever tudo isso, descobri que tudo o que realmente me assoma são as minhas frustrações. Tenho raiva das coisas porque sou frustrada, porque comigo não aconteceu diferente.

E acho que meu blog é o melhor psicólogo que existe, obrigada.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

perdas

Nesse ano foi tudo muito drástico e intenso. Do nada começo a ter duas provas por semana, começo a ter que realmente estudar, a ter mols de quilos de matéria por dia... a quantidade de coisas que eu aprendi esse ano é absurda, tudo é absurdo, o ano passou tão rápido, eu tenho mais um ano e meio pra decidir o que eu vou ser da minha vida, me explica, como lidar?

Mas o problema não é isso.

Depois do segundo ou terceiro mês, você se adapta à rotina de ter que estudar um pouco mais, duas provas toda semana, mols de quilos de matéria por dia e assim por diante. O triste, triste de verdade, é ver pessoas de quem você gostava, quem você apreciava, mudar para algo totalmente nada a ver. É triste se distanciar de gente com quem você conviveu a vida inteira. É triste saber que enquanto algumas pessoas mudam para melhor e amadurecem, algumas decidem que não querem isso. É pesado estar numa escola em que seus antigos amigos estudam e você olhar para eles e dizer, "eu não tenho mais nada a ver com isso". As pessoas mudam tanto.
Me lembro que nessa mesma época ano passado eu estaria escrevendo sobre como tenho uma segunda família, sobre como nós nunca nos separaríamos, sobre como nossa amizade é pra sempre. E lembrar disso é tão frustrante, e eu me sinto tão impotente!
Era tudo tão fácil... tínhamos uma cumplicidade, só de olhar nos olhos de alguns dos meus antigos amigos nós já começávamos a rir, e hoje somos como estranhos... eu acho que tenho essa tendência de afastar pessoas, acho que tenho essa tendência a mudar rápido de mais e não dar tempo para os outros me acompanharem.
Sempre ouvi falar que sou muito séria, muito mãe, muito preocupada e coisas assim, mas o que eu posso fazer? Eu sou assim, nem sempre fui assim, mas acho que quando se faz 15 anos é hora de olhar para o futuro de daqui 3 anos, e não para a festa do próximo fim de semana, certo?
Mas, de qualquer forma, nesse aspecto eu sou triste, sou inconsolável, eu queria que tudo tivesse ficado do jeito que era. Eu mudei, mas várias pessoas também mudaram do avesso, fizeram outros amigos que não têm nada em comum comigo, e eu?, que sou uma pessoa muito bem aceita e que se encaixa em qualquer grupo social, fiquei aí, perdida. Tentei explicar esse fenômeno de ruptura de relacionamentos de muitas formas. Eu comecei a namorar, amadureci muito em pouco tempo, e da mesma forma que eu mudei, as pessoas mudam, da sua forma, também... Se eu sei bem quem eu sou e não gosto de ficar indo na onda de grupos específicos, também há gente que não é tão certo assim de sua personalidade e não vê problemas em mudar de estilo, comportamento ou atitudes. E não digo isso de forma pejorativa, pois somos adolescentes, a nossa maior crise existencial é com relação à nossa personalidade. (Bom, pelo menos, os 1O% da população adolescente que reflete um pouco mais a respeito de si próprio passa por essa crise em algum momento)

Bom, o que eu quero dizer, no final das contas, é que eu sinto falta de tudo. De ter uma turma grande, de ser cúmplice de alguém, sinto falta de sair com vocês. :/

(Acrescentando, sou eternamente grata por ter conhecido pessoas tão legais também, esse ano... acho que eu teria ficado deprimida sem vocês <3)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

happy ending part 1

Annie chegou à frente da porta de Tiago e lá ficou, sem coragem pra mover o braço e tocar a campainha., torcendo a barra de seu casaco. Ironicamente, Tiago estava parado do outro lado da porta, sem coragem para sair. Ao mesmo tempo que ela toca a campainha, ele abre a porta. Encararam-se com um sorriso tolo durante algum tempo que pode ter sido de alguns segundos a vários minutos. Annie abriu a boca para falar alguma coisa, mas nada saiu além de um suspiro. Mas enfim tomou coragem.
- É, então, eu vim aqui pra...
- É... tô vendo. Então...
- É.
- Ahn... então as coisas não deram certo com meu irmão? - Tiago disse rispidamente, como se estivesse com algo azedo na boca. - Eu te disse que ele não prestava.
- Na verdade, ele é um cara legal. - Annie pensou em dizer isso, mas tudo o que saiu foi: - É, né...
- Hã, quer entrar?
- Ah, claro. - Annie disse,
torcendo a barra de seu casaco.
O clima estava péssimo. Estava óbvio que os dois tinham certos assuntos para resolver, mas nenhum dos dois tomava iniciativa. Tiago porque era tímido e não sabia dos sentimentos de Annie, e esta porque não queria ser impulsiva e não sabia dos sentimentos de Tiago. Entraram, sentaram-se nos grandes pufes na sala de televisão e ficaram encarando os próprios pés. E Annie torcendo a barra de seu casaco.
- Sabe - Tiago começou -,pra falar a verdade, eu não gosto da sua irmã.
Annie sentiu-se aliviada. Então ela não precisaria começar o assunto. Isso não precisava ser tão difícil.
- Ah, é? Então você não está apaixonado por ninguém no momento? E mentiu pra mim?
Tiago encarou Annie com raiva. Ele sabia o que ela estava fazendo. E não gostou disso.
- Eu não falei que gostava da sua irmã. Eu fiquei quieto. E eu não menti, eu gosto de alguém, sim.
- Então por que não me revela a identidade dessa sua amada?
- Por que você não me revela a identidade do SEU amado?
- Acho que você não se importa, porque está ocupado demais tentando esconder as coisas de mim!
- Ótimo, então, se é isso que você pensa!
- Ótimo!
Annie se levantou, torcendo a barra de seu casaco freneticamente, e começou a andar em passos largos até a porta. Mas parou antes de sair.
- Sabe, não sei por que eu me dei ao trabalho de vir até aqui. Foi uma total perda de tempo.
- Mas você veio. - Tiago olhou para Annie de forma intensa. - E você, por algum motivo, teve a necessidade de parar antes de sair e me dizer isso. Você quer que eu saiba que era importante para você vir aqui.

(continua)

domingo, 17 de outubro de 2010

estereótipos

Cansei de pré-julgamentos, pré-conceitos, estereótipos, cansei disso tudo.
Primeiro porque eu nunca consegui me encaixar (completamente) em nenhum dos estereótipos que eu conheço (e por mais que eu ODEIE estereótipos, eu me sentiria um pouco melhor sabendo que eu me encaixo em algum lugar, pois afinal, sou adolescente e estúpida), e segundo porque, toda vez que dizem que eu pareço me encaixar mais ou menos em um grupo ou outro, sempre tem algo de muito errado comigo que impede que esse grupo seja 100% certo pra mim.
Explico.
O estereótipo que eu conheço para intelectuais são aqueles que gostam de: branco e preto, café e romances russos densos e músicas que ninguém conhece; são anti-sociais, anti-tudo, cínicos, sarcásticos e tratam mal as pessoas; são ateus; fumam. E são cercados de pequenos fãs que idolatram todo o cinismo, a grosseria e a exclusão social. Acham tudo isso muito lindo. Isso é que é ser intelectual hoje e...
Não, pera aí... não.
Quem disse que pra ser intelectual ou ligado no que acontece, precisa ser ateu, anti-social e só ler/ouvir coisas que ninguém conhece? Qual o problema em ser um indivíduo sociável, que tem amigos, que vez ou outra assiste a um blockbuster ou lê um best-seller? Eu falo mal SIM de muitos deles, mas eu não falo nada sem ter antes visto ou lido. Outra, socializar-se não é a mesma coisa que corromper-se. Quem torna-se anti-social, na minha opinião, é inseguro dos próprios valores e/ou tem medo de mudar de ideia por ser influenciado por quem está ao redor.
Quando você é cínico e rude com outra pessoa, por que isso te torna melhor? Por que o ato de saber ser grosso com outras pessoas e 'dar foras' é considerado uma habilidade? Não é muito melhor saber fazer um elogio? Acho que quando você não tem nada de bom para dizer é melhor não dizer nada; se for criticar, faça uma crítica construtiva. Destruir o caráter de uma pessoa sem motivo é tão triste e baixo. As pessoas apreciam quando são elogiadas e incentivadas. E algumas pessoas realmente têm gosto por conversar com os tidos por 'intelectuais' só pra se sentirem piores que os mesmos. E isso é normal e...
Não, pera aí... não. Isso é doentio e masoquista.
Mas o que mais me irrita é o fato de que todo intelectual precisa ser ateu. Que raio de pessoa disse que acreditar em qualquer Deus que seja é burrice ou ignorância? Só porque eu acredito em Deus não significa que eu concordo com tudo que a Bíblia diz, que eu acredito cegamente em 'milagres', que eu duvido da ciência. Muitas pessoas criticam a Bíblia e Deus sem conhecer, e usam desculpas do tipo 'se Deus existe, então por que ele permite tanta violência no mundo?'. Eu poderia escrever uma dissertação sobre o assunto, mas vou me limitar a dizer que isso é falta de conhecimento; e nem tudo que está escrito na Bíblia pode ser LITERALMENTE interpretado.
Acho que todo e qualquer tipo de estereótipo é errado, pessoas NÃO SÃO PRODUTOS para serem rotuladas, por mais ignorante ou fútil que uma pessoa pareça, eu acho que NUNCA ela pode ser chamada de APENAS um ou outro estilo ou estereótipo. Isso pode até prejudicar na formação dela como indivíduo, limitando-se a apenas uma opção de vida ou existência.

E eu tenho muitos amigos, já assisti aos três High School Musical e sou simpática com todos que vierem conversar comigo, obrigada.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

a busca pela felicidade

A busca do homem pela excelência é refletida em suas ações, pensamentos e escolhas. Minha teoria é de que as pessoas, no geral, buscam melhorar sua personalidade, aprimorar suas habilidades, expandir seu conhecimento; na área considerada mais importante ou interessante; e acham que, com isso, terão alcançado, enfim, a felicidade. O que move a existência do ser humano é um sentido pra vida. Até aí tudo bem. A questão é: quando isso deixa de ser saudável? Quando a busca pela felicidade e excelência passa a tornar o homem infeliz? Ou, quando essa busca é, de fato, inexistente?
Na minha cabeça, essa busca é feita de três formas, nessa ordem: primeiro ocorre o ato de definir o que seria a felicidade, o que nos torna feliz; depois viria o ato de descobrir ou procurar os meios de se alcançar essa felicidade; e, por fim, viria a busca em si, o ato de buscar, a ação de tentar melhorar o próprio caráter. Ênfase nessa última palavra. Caráter. Logo, eu acho que toda essa busca deve ser por algo existencial, ideológico; e não por coisas materiais. Na minha opinião, o homem deve tentar sempre ser o melhor que tem capacidade de ser, mas agindo com autonomia, e não com heteronomia. Explicando.
Essa busca pode e torna o homem infeliz quando é feita por aparências ou vontades de terceiros. Então, nesse caso, a busca, em si, não existe - o homem está apenas se condenando a um destino insatisfatório, longe de seu ideal de felicidade, satisfazendo apenas os valores de um terceiro. E isso é surpreendentemente comum. Ao chegarem ao terceiro colegial, indivíduos escolhem fazer medicina por pressão dos pais. Fazem medicina. Passam anos trabalhando naquilo, se tornam os melhores, e, de repente, têm um surto de frustração e largam tudo pra ir atrás de algo mais. E isso é triste, porque todos os anos investidos em manter outras pessoas felizes não tiveram significado nenhum para o indivíduo. Foram anos desperdiçados.
O homem busca pela sua função no mundo. E quando essa função não é bem sucedida ou simplesmente encontrada, ele se sente vazio e inútil. Acho que esse é o pior sentimento que existe. Sentir-se inútil torna a vida sem sentido, sem objetivo, e se você não tem um objetivo, pra que viver? Quando você vive pelos outros, e não por você, o quão infernal deve ser acordar todos os dias sabendo que você vive uma vida que não tem significado?
A busca por felicidade por meios materiais também não tem sentido. Depois de comprar o televisor mais moderno do mercado, dois meses depois esse produto será desvalorizado. O indivíduo estaria constantemente infeliz e insatisfeito, mas pelos motivos errados. Ele não estaria preocupado com o seu interior, o seu caráter, e sim pela sua imagem. A procura por uma felicidade que é baseada em uma melhoria na própria imagem é incoerente. É procurar algo que não pode ser encontrado. A felicidade não pode ser palpada, como bens materiais. A felicidade é mutável e imprevisível.
É curioso, essa necessidade do ser humano de sempre precisar ter um objetivo; eu queria ser capaz de me acomodar. Mas acho que é a vontade de algo mais que move revoluções, inovações e descobertas. Se todos estacionássemos no momento de vida em que estamos, seria uma sociedade sem movimentação - como em Admirável Mundo Novo, em que as pessoas não têm aspirações.
Então, para finalizar, eu digo: eu, Bruna, estou em constante busca pela minha felicidade, e o meu conceito é completamente mutável, pois varia de acordo com a fase pela qual estou passando. Sou feliz, mas não sou acomodada; quero ser tudo que posso; quero mudar o mundo; quero ser filósofa; quero fazer as pessoas acordarem pra vida; e meu objetivo de vida está demarcado numa área que é o misto de tudo isso. Já parou pra pensar qual o seu ideal de uma vida feliz?

terça-feira, 10 de agosto de 2010

...impressões

Bom, pros primeiros posts, decidi fazer uma lista de sensações, percepções e impressões sobre os lugares em que estive. Tentarei ser o mais fiel possível. Começarei com Londres, depois seguirei com Oxford, e por fim Swanage.

Londres
Fui duas vezes à Londres, e nessas duas vezes senti basicamente as mesmas coisas. Londres é uma cidade incrível, uma mistura do mundo velho com o que há de mais novo e tecnológico, tomemos como exemplo o Buckingham Palace em contraste com a Prefeitura. Muitos prédios antigos, construções restauradas; a arquitetura de lá é fantástica.
Londres é uma miscigenação de vários elementos muito distintos. Dei o exemplo da arquitetura - lá contém construções tanto antigas quanto bem recentes -, mas a miscigenação não se limita a isso. Lá há muitas culturas diferentes, ouvi muitas línguas, vi muitos rostos, muitos costumes, roupas diferentes, cabelos, comportamentos... Vi muçulmanos, indianos, espanhóis, turcos, marroquinos, muitos japoneses e por aí vai. E é tudo tão misturado, tudo em (aparente) harmonia. As pessoas andam na rua tão preocupadas com seu destino que não têm tempo de olhar pro lado e reparar que tem alguém de outro país ali.
Eu poderia fazer a comparação de Londres com São Paulo para exemplificar como o centro da cidade é, mas seria muito errado... Eu posso estar falando besteira porque adorei Londres, posso estar sendo cega, mas Londres é bonita. As ruas são bonitas, os prédios, as lojas, os cartazes. O trânsito londrino, isso sim, pode ser comparado ao paulistano (para atravessar Londres, é preciso de 2h30min). É uma cidade urbana que exala cultura e história por todos os cantos; seja por seus monumentos; seja por seus museus; seja por seus palácios.
Do que eu mais gostei em Londres? Difícil escolher. Acho que, de uma forma revoltada ou não, me senti mais em casa lá do que me sinto aqui em Ribeirão. Não que Ribeirão seja ruim. Mas Londres tem um quê de modernidade, cultura, liberdade, novos horizontes que eu simplesmente não consigo encontrar aqui. Sem falar que andando a pé lá eu me senti a pessoa mais livre e poderosa do mundo. É idiotice, mas eu fiquei inspirada a ser maior. A pensar grande, a ser diferente, a não ter vergonha de mim, a não ligar pra o que os outros pensam (sejam esses outros as pessoas da minha escola, que me conhecem, ou pessoas que me veem uma vez na vida e dão aquela medida no meu visual). Afinal, o mundo é maior do que Ribeirão Preto, que tem 600mil habitantes mas tem alma e aparência de cidade de 50 mil. De novo, eu até gosto daqui, mas não vou ficar aqui minha vida inteira, não.
Voltei, criei coragem pra fazer o corte de cabelo que eu queria desde fevereiro e lancei uma piscadela de olho praqueles que olharam com desprezo.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

frio

- Alguém me escuta? - Bruna berrou e suspirou. Após isso, perdeu todas as suas forças. Estava muito frio, e juntar forças para gritar daquela altura, intensidade e força demorou. Com certeza em vão, quem estaria nas proximidades naquele instante, naquele frio?
O aquecedor começava a dar problemas. O frio tentava dominar aquele lugar, Bruna podia ver as massas de ar congelante entrando e saindo de seus pulmões. Seus lábios estavam roxos, assim como as pontas dos seus dedos. Perdera toda sua sensibilidade, não conseguia chorar - a lágrima esfriava ainda mais seu rosto, já vermelho de frio. Desejava ser uma máquina. Bom, de certa forma, ela já era uma máquina.
Bruna olhou ao redor do que era para ser o chalé em que ela passaria suas férias de inverno. Agora era apenas uma casinha de onde não era possível sair. As portas e janelas estavam todas impossíveis de serem abertas por dentro. Só com a ajuda de alguém de fora ela conseguiria sair daquele lugar tão frio.
Passou algum tempo. Impossível dizer se foram instantes, minutos ou horas, mas ela ficou ali, sentada, esfregando as mãos perto do que restava de fogo e ocupando sua mente com o que restava de esperança.
- Tem alguém aí? - Bruna ouviu uma voz de fora. Primeiro achou que estava ficando louca, depois fez o máximo de silêncio para ouvir a voz de novo. - Oi, tem alguém aí dentro?
- Tem sim! Eu estou presa! - Bruna disse com a voz surpreendentemente rouca, e rezou para que a voz escutasse. - Por favor, me ajude a sair daqui...
- Fique calma, eu vou tentar te tirar daí - a voz era masculina. - Vou tentar abrir a porta, e depois a janela.
Bruna suspirou. Seu rosto ficou mais liso. Até apareceu um esboço de sorriso ali naquela boca torta. Agora ela tinha alguma chance de sair dali e de viver de novo. Enquanto ouvia a voz cavando a neve e realmente se esforçando para tirá-la de lá, sentiu-se desmerecedora de toda aquela atenção. Sentiu-se preguiçosa. Levantou-se e foi até a porta, para tentar abri-la também.
- Sem chance de entrar pela porta. Tem uma camada imensa de água congelada aqui, moça - a voz masculina disse. - Vou tentar abrir a janela.
Mesmo sabendo que ele não via seu rosto, ela balançou a cabeça, consentindo. Foi até a janela, embaçada, esperar. Foi quando viu o rosto de seu salvador. Combinava bastante com a voz. Seu sorriso passava uma segurança que agora ela tinha certeza absoluta de que sairia dali. Ele retirou muita neve da janela, do lado de fora. Quando conseguiu chegar ao vidro, fez um pouco de força mas o vidro cedeu e quebrou, abrindo uma enorme passagem. Bruna estava livre. A voz masculina deu um sorriso, ofereceu-lhe luvas e disse:
- Ah, meu nome é Pedro.

quarta-feira, 31 de março de 2010

carta aos robôs

Eu realmente te adoro. Adoro sua futilidade, adoro sua incapacidade de percepção do mundo de hoje, adoro a sua capacidade obtusa pra reconhecer a sua insignificância, adoro as coisas aculturadas que você lê, adoro os lugares com cheiro de vômito a que você vai, adoro as pessoas acéfalas com quem você fica, adoro as músicas mastigadas que você ouve, adoro sua falta de objetivos e desejos, adoro sua falta de admiração por sucesso profissional, adoro seu desprezo por notas altas, adoro seu desejo de ser como todos os outros, adoro seu conformismo, adoro o modo como você me olha como se eu fosse de outra galáxia, adoro sua roupa uniformizada, adoro a forma como você segue a moda, adoro como você aceita tudo o que te é dito e que te soa agradável como verdade absoluta.

É em pessoas como você, caro ser praticamente abiótico, que eu encontro forças pra nadar contra a corrente, pra me superar, estudar, não ter medo de ser eu mesma, pesquisar, me informar, desenvolver habilidades extra-curriculares, preocupar-me com meu futuro, não preocupar-me com o que os outros pensam. Afinal, por que razão eu deveria me preocupar com robôs uniformizados e sistematicamente programados pra repelir conteúdos diferentes? Seria um ato de extremo rebaixamento eu me sistemalizar, burguesalizar, modernizar, chame como quiser.

Dessistemalize-se.