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domingo, 1 de janeiro de 2012

day 30: your reflection in the mirror

Como posso começar?

Cara Bruna,

  Eu tenho muitas coisas para falar-lhe. Não sei por qual começar. Primeiramente, da última vez que a vi você parecia tão abatida, tão desesperançosa, que com muito esforço contive meu ímpeto de abraçá-la. Eu perguntaria o que aconteceu, mas sei que você simplesmente responderia "a vida; a vida é que aconteceu".
  Sei que temos muitos assuntos mal-resolvidos, grande parte de nossos problemas caíram em oblívio, o que permaneceu foi aquele sorriso forçado e a frase dita em um semi-sussurro "está tudo bem". Sei bem que você - assim como eu - é uma criatura absurdamente obstinada, soberba, mas isso tem limite. Veja, todos temos problemas e é perfeitamente aceitável - e saudável - assumi-los e tomar uma atitude para resolvê-los.       Sim, eu sei que seria infinitamente mais fácil esconder-se por trás de uma máscara sociofóbica e antissocial, mas no fundo você é uma alma em agonia desmanchando-se no frio suplicando para que alguém a cubra com seu cobertor de afeto e atenção. Também sei que é mais fácil colocar a culpa na sociedade, nos valores sujos e corrompidos, no vazio niilista e por vezes dadaísta presente nas pessoas, no sistema massacrante capitalista, na mídia e no Jornal Nacional que desinforma... mas este é o comportamento padrão do ser humano: não admitir seus erros e colocar a culpa em outro alguém. Você acha que age muito diferentemente? Pois não age. Em vez de encarar a dor da difícil tentativa (pois ela pode levar a uma mais dolorosa ainda rejeição), você se esconde na conveniente indiferença. O quão patético é isso, Bruna?!
  Olha, perdão. Eu sei que não sou a pessoa mais amável do mundo, também tenho minhas preguiças sociais, também tenho alergia a futilidade e a ignorância, mas pra isso existe homeopatia. A homeopatia da internet, da psicoterapia, dos professores. Algumas horas com um desses pode servir de tratamento por até uma semana, acredite. E quanto ao borbulhar de ideias acontecendo na sua cabecinha e que você insiste em condensar e negar... deixe-o evaporar. Deixe-o borbulhar, esparramar-se no chão. É uma ótima prevenção contra o inevitável enlouquecimento. Eu tenho dó de você, mas não um dó ruim e sarcástico - um dó sincero, daqueles que fazem todo o ar sair dos seus pulmões só de você pensar no sofrimento da pessoa. E eu realmente quero que você melhore, que você mude, que você consiga tornar esse 2012 pelo menos um pouco melhor do que os dois anos que passaram, porque olha... dentre todas as pessoas que eu conheço, você é uma das poucas que merece, que realmente merece pelo menos um vislumbre do que significa ser feliz. E não digo isso porque, bem, você é meu reflexo, mas porque eu sei de tudo por que você passou, o quanto você é forte, e, bem, isso fez-me gostar bastante de você. Ao mesmo tempo que a acho incrivelmente estúpida, miserável e infeliz por você ser uma peça de quebra-cabeça que não sei encaixa em lugar nenhum, admiro-a justamente por isso.
  Então, enfim...
  Por favor. Mais surrealismo e menos barroco na sua vida.
Com todo o respeito,
Bruna S.F.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

carpe diem?

Acho que o conceito de hoje sobre "aproveitar a vida" está um pouco equivocada. O uso da famosa frase "Carpe Diem" é extremamente errôneo. Focam-se no conceito "viva como se todo dia fosse seu último". Nessa frase não estão incluídos nem atos inconsequentes nem ter sua juventude transviada. Explico. Carpe Diem. Aproveite o momento. Realmente dá abertura para muitas interpretações.
Essa frase é a desculpa pseudo-filosófica de pessoas, de uma forma geral, que querem agir impulsivamente e estupidamente, e que muitas vezes não sabem da ideologia, mas se aproveitam da imagem consumista e materialista que cresceu em torno da frase. Aproveitar tudo ao máximo. Não ligar para seu futuro. Não ligar para as consequências. Não ligar para as repercussões, sejam elas uma ressaca ou uma reputação estragada. Embriagar-se e inebriar-se. Experimentar da essência de muitas pessoas diferentes. E deixar o estudo para a prova para o dia seguinte do dia seguinte. Essa é a imagem muitas vezes difundida pela mídia. Esse realmente é o significado de Carpe Diem?

"[...] sapias, vina liques et spatio brevi spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem quam minimum credula postero."
("[...]sê sábia, filtra o vinho e encurta a esperança, pois a vida é breve. Enquanto falamos, terá fugido ávido o tempo: Colhe o instante, sem confiar no amanhã.")

Colher o instante. Isso nos dá a ideia de colher frutos. O que poderiam ser esses frutos? Oportunidades, por exemplo. O trecho nos fala sobre como o tempo passa rápido e que não volta. O que eu considero que sejam essas oportunidades? Encontrar alguém, experimentar algo novo, plantar a semente de algo que no futuro poderá dar frutos muito benéficos e frutíferos. O sentido de "viva como se fosse seu último dia" que está presente nessa frase significa deixar sua vida pronta e em ordem, sem pendências, para que, quando o dia de sua partida chegar, não existam arrependimentos ou atrasos.
O único conflito que a interpretação da frase pode gerar é: e os arrependimentos? É melhor arrepender-se de não ter feito ou arrepender-se de ter feito? Na minha opinião, quando uma porta se fecha, a outra abre; acho que para todas as más decisões feitas abrirão-se portas para consertá-las; e sempre que não aproveitamos uma oportunidade nos será oferecida outra. O problema é que nem sempre temos os olhos abertos o suficiente para reconhecer o que é uma oportunidade, de fato.
E não acho que tudo isso que escrevi significa uma limitação para a vivência da juventude. Faz parte ir a festas, voltar bêbado pra casa, viajar com os amigos, experimentar coisas, mas tudo de uma forma saudável.

Típico discurso de mãe, certo? Mas todo mundo sabe que quando a mãe fala que vai dar merda, dá merda.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

carta suicida

Não estava chovendo, não estava nublado, o ambiente não estava denso por causa de um clima triste. Não havia nenhuma gota de álcool em volta dele, muito menos drogas, muito menos remédios para dormir. Nada que pudesse justificar tal atitude.
Na verdade, o dia era definitivamente muito bonito, claro e ensolarado, quente, aconchegante, um perfeito fim de tarde de primavera com cheiro de baunilha. A hora do dia era aquele momento entre o crepúsculo e o fim da tarde; quando o sol está lá no horizonte e a cor do céu fica indefinida por um dégradé do azul quase preto para o verde.
Quando encontraram-no já era tarde, estava inconsciente e seus lábios estavam azuis. Uma carta foi encontrada.
A carta foi publicada num jornal nacional no dia seguinte à morte.

"A todos e qualquer um que se importe, de alguma forma, ao ponto de ler esta carta.
Eu não ligo se a minha morte entristeceu-te, alegrou-te ou enraiveceu-te. O importante é que você foi afetado. A minha vida inteira tentei afetar as pessoas, e seria uma ironia se só em morte eu conseguisse, de fato.
A questão é que senti que minha batalha foi perdida em algum momento de fraqueza... tantas pessoas me dizendo o que e como fazer chegou a me tresloucar, eu estava sendo mais afetado do que estava afetando as pessoas, entende, caro leitor?
A causa da minha morte é simples. Trancarei-me na garagem e inalarei monóxido de carbono. Entende? O monóxido aos poucos me envenenará, me tomará por completo, assim como o veneno da minha infelicidade e insatisfação. Não busquei refúgio em drogas, pois sei que o cigarro e os alucinantes seriam uma saída finita. Não busquei substituir água por álcool, pois morrer aos poucos por causa de uma cirrose não seria agradável. Escolhi uma tarde simples e perfeita, uma tarde que não me faria mudar de ideia, uma tarde que não me faria sentar numa varanda e pensar sobre como sou (fui?) miserável.
A questão, novamente, é que fiquei louco depois de começar a trabalhar no jornal. Sim, faz anos, e sim, eu dizia a todos que estava feliz, mas é óbvio, devido às circunstâncias atuais, que era uma mentira. Poder finalmente dizer minhas ideias sem me esconder foi ótimo, mas as críticas me corroíam e me faziam perder minha fé nas outras pessoas. Diziam-me para escrever sobre atualidades, ninguém quer saber sobre o fascismo, as pessoas querem saber das novelas e das celebridades... como se tudo que acontece hoje não dependesse do que aconteceu anos atrás. Novamente digo, perdi a fé nas pessoas. Estavam, aliás, são tão ocupadas em criticar, em não refletir e em vituperar tudo que não vai de acordo com seus valores superficiais que até olhavam para meus textos, mas não os liam. As pessoas são tão ocupadas em provar que elas mesmas estão certas que agem da forma errada.
Veja bem, amigo ou amiga, ignorância é uma bênção, de fato. Mas a ignorância pura, como a das crianças. A partir da adolescência não é possível encontrar indivíduos ignorantes. Todos são espertos, mas tão espertos que sabem que a alienação é o caminho mais fácil e indolor. E por eu não ter escolhido esse caminho, bem, cá estou, frio e inconsciente. Eu, finalmente, inconsciente! Ah, as ironias da vida... ou da morte.
Eu sei que você, leitor, lerá esta carta, olhará para o horizonte, balançará a cabeça e refletirá por alguns instantes. Mas depois sua vida vai voltar ao normal e seu pensamento nunca mais retornará à minha morte, pois é isso que as pessoas fazem.
Mas eu não estou escrevendo isso por você. Eu faço isso por eles, aqueles jovens que estão prestes a percorrer o mesmo caminho que eu percorri. É nesses jovens que a minha nova esperança instalou-se. E o meu conselho é: vendam-se. Vendam-se bastante. E quando estiverem totalmente comercializados, quebrem toda essa hipocrisia e mediocridade, chacoalhem a cabeça das pessoas, essas pessoas que um dia foram suas fãs. Afetem quem quer ser afetado, e acreditem, eles vão querer ser afetados por uma celebridade. Vão ao talkshow da Oprah, dêem-lhes o que eles querem, depois mostrem o quão estúpido superficial é o que eles querem. Afetem esses seres. E, por obséquio, realizem esse pequeno desejo desse cadáver putrefato: usem a minha morte para afetar as pessoas em vida.
À sociedade o que é da sociedade. Minha breve existência e último suspiro"

domingo, 5 de dezembro de 2010

sobre minha raiva

É muito comum eu me deparar (vendo no orkut, por exemplo) com situações que não têm relação direta comigo mas que mesmo assim me irritam. As atitudes das pessoas me irritam.
E como hoje parei para pensar sobre isso, descobri que o que me irrita nessas situações é a ignorância das pessoas. Os indivíduos fazem coisas que eu considero ingenuidade e, em certos casos, ignorância. Muitas vezes penso isso porque vejo-os passando por algo que eu mesma já passei e gostaria de ter feito diferente. Muitas vezes eu me espelho nessas pessoas, e enxergo o quão estúpida eu mesma já fui, apesar de, na época, eu saber que eu estava me iludindo acerca de alguma coisa, de algum jeito.
Encolerizam-me as ilusões. Ilusões de que há um método alternativo para conseguir o que queremos, ilusões de que de fato conseguiremos o que almejamos... ano passado eu havia prometido a mim mesma que, este ano, eu começaria a acompanhar o jornal todos os dias, leria todos os livros difíceis, veria todos os filmes "cults" mas adivinhem só. E isso é um alerta para todos os individuozinhos entrando no colegial ano que vem: NÃO É ASSIM TÃO FÁCIL MANTER-SE CULTO E POLITICAMENTE ATIVO QUANDO SE ENTRA NO COLEGIAL. É extremamente fácil ler muitos livros até a oitava série. Agora experimente, em pleno setembro, tendo duas provas, 26 aulas e um mol de quilos de matéria por semana, pegar o Crítica da Razão Prática para ler, tendo que conciliar as horas de leitura com as (muitas) horas de estudo, as horas de amigos, as horas de computador, as horas de lazer, as horas de jornal e as horas de sono e necessidades básicas.
Abespinham-me as falhas. Falhas no plano. Era pra ser de um jeito e aconteceu de outro. Mas além das falhas, a minha impotência para com essas situações falhas. Não pude fazer nada para que acontecesse de outra forma. Eu adoraria chacoalhar algumas cabeças agora e falar "isso não vai dar certo, não bote fé", e eu adoraria que alguém tivesse feito isso comigo antes de me eu me decepcionar.
E depois de escrever tudo isso, descobri que tudo o que realmente me assoma são as minhas frustrações. Tenho raiva das coisas porque sou frustrada, porque comigo não aconteceu diferente.

E acho que meu blog é o melhor psicólogo que existe, obrigada.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

mamãe, quero uma barbie!

Good times for a change. See, the luck I've had can make a good man turn bad.
So please, please, please... let me, let me, let me, let me get what I want this time.
Haven't had a dream in a long time. See, the life I've had can make a good man bad.
So, for once in my life, let me get what I want.
Lord knows, it would be the first time.
Lord knows, it would be the first time.

Sim, por favor, me deixe conseguir o que eu quero dessa vez.

É que eu cresci com a idéia na cabeça de que eu ia morar numa casa tão grande, e todo dia ia acordar e me pentear sentada numa penteadeira linda, branca, com detalhes dourados, feito uma de princesa, sabe?, e não aconteceu bem assim. Eu queria uma pantera preta, e hoje tenho um cachorro pequeno. Eu queria um quarto grande pintado inteirinho de verde limão e prata, mas a cor das paredes é bege. Eu queria um laço vermelho pra amarrar no meu cabelo, mas só tenho uma tiara. E as bonecas, queria ter tido tantas Pollys, tantas Barbies, e eu até tinha algumas, mas eu queria sempre mais, sempre muito mais, e eu não tinha. Não tinha.

E isso é tão horrível!
Não o fato de eu não ter conseguido todas essas coisas, mas o fato de que desde pequenos somos condicionados a querer mais e mais, nunca nada é o suficiente. Se você ganha uma boneca, logo quer a roupa de festa da boneca, e a casa da boneca, e o carro da boneca e os amigos e namorados da boneca. Quando ganhamos o que queremos, ao invés de nos contentarmos, queremos mais coisas ainda. É a sociedade do descartável, da insatisfação, do instantâneo. E essa geração de crianças insatisfeitas e mimadas hoje cresceu, e é a geração dos adolescentes promíscuos e sem amor próprio.
Sim. A menina que antes queria a Barbie agora quer beijar um garoto. E ela consegue esse garoto com a facilidade com que conseguiu a Barbie. E essa garota vai descartar o menino assim como descartou a Barbie.
Não há mais a espera, a ansiedade, a alegria ao abrir os presentes de Natal e ver que aquele brinquedo que você vem pedindo há meses finalmente é seu. Não há mais a paquera, a sedução, a demora. Tudo se entrega com a mesma facilidade e praticidade com que se descarta.
Somos uma geração de consumistas, de insatisfeitos, de instantâneos; desde comida até relacionamentos. E, estendendo o assunto um pouco, até drogas. Quando questionados sobre a razão pela qual os adolescentes usam drogas, respondemos que é uma 'forma de escape'. Isso reflete 100% os ideais a que somos apresentados hoje. É uma forma de escape? Sim, enquanto dura o efeito da droga é uma forma de escape. É muito mais fácil se drogar todos os dias do que frequentar uma psicóloga e ter que encarar seus problemas, porque isso leva tempo e esforço por parte de quem tem o problema.

E quando/se eu tiver uma filha, vou pensar muito bem antes de surpreendê-la com uma Barbie.

domingo, 17 de outubro de 2010

estereótipos

Cansei de pré-julgamentos, pré-conceitos, estereótipos, cansei disso tudo.
Primeiro porque eu nunca consegui me encaixar (completamente) em nenhum dos estereótipos que eu conheço (e por mais que eu ODEIE estereótipos, eu me sentiria um pouco melhor sabendo que eu me encaixo em algum lugar, pois afinal, sou adolescente e estúpida), e segundo porque, toda vez que dizem que eu pareço me encaixar mais ou menos em um grupo ou outro, sempre tem algo de muito errado comigo que impede que esse grupo seja 100% certo pra mim.
Explico.
O estereótipo que eu conheço para intelectuais são aqueles que gostam de: branco e preto, café e romances russos densos e músicas que ninguém conhece; são anti-sociais, anti-tudo, cínicos, sarcásticos e tratam mal as pessoas; são ateus; fumam. E são cercados de pequenos fãs que idolatram todo o cinismo, a grosseria e a exclusão social. Acham tudo isso muito lindo. Isso é que é ser intelectual hoje e...
Não, pera aí... não.
Quem disse que pra ser intelectual ou ligado no que acontece, precisa ser ateu, anti-social e só ler/ouvir coisas que ninguém conhece? Qual o problema em ser um indivíduo sociável, que tem amigos, que vez ou outra assiste a um blockbuster ou lê um best-seller? Eu falo mal SIM de muitos deles, mas eu não falo nada sem ter antes visto ou lido. Outra, socializar-se não é a mesma coisa que corromper-se. Quem torna-se anti-social, na minha opinião, é inseguro dos próprios valores e/ou tem medo de mudar de ideia por ser influenciado por quem está ao redor.
Quando você é cínico e rude com outra pessoa, por que isso te torna melhor? Por que o ato de saber ser grosso com outras pessoas e 'dar foras' é considerado uma habilidade? Não é muito melhor saber fazer um elogio? Acho que quando você não tem nada de bom para dizer é melhor não dizer nada; se for criticar, faça uma crítica construtiva. Destruir o caráter de uma pessoa sem motivo é tão triste e baixo. As pessoas apreciam quando são elogiadas e incentivadas. E algumas pessoas realmente têm gosto por conversar com os tidos por 'intelectuais' só pra se sentirem piores que os mesmos. E isso é normal e...
Não, pera aí... não. Isso é doentio e masoquista.
Mas o que mais me irrita é o fato de que todo intelectual precisa ser ateu. Que raio de pessoa disse que acreditar em qualquer Deus que seja é burrice ou ignorância? Só porque eu acredito em Deus não significa que eu concordo com tudo que a Bíblia diz, que eu acredito cegamente em 'milagres', que eu duvido da ciência. Muitas pessoas criticam a Bíblia e Deus sem conhecer, e usam desculpas do tipo 'se Deus existe, então por que ele permite tanta violência no mundo?'. Eu poderia escrever uma dissertação sobre o assunto, mas vou me limitar a dizer que isso é falta de conhecimento; e nem tudo que está escrito na Bíblia pode ser LITERALMENTE interpretado.
Acho que todo e qualquer tipo de estereótipo é errado, pessoas NÃO SÃO PRODUTOS para serem rotuladas, por mais ignorante ou fútil que uma pessoa pareça, eu acho que NUNCA ela pode ser chamada de APENAS um ou outro estilo ou estereótipo. Isso pode até prejudicar na formação dela como indivíduo, limitando-se a apenas uma opção de vida ou existência.

E eu tenho muitos amigos, já assisti aos três High School Musical e sou simpática com todos que vierem conversar comigo, obrigada.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

violência

Nove horas da noite. Carlos está quase chegando ao carro, onde sua mulher, Júlia, o aguarda, no banco de trás. Ele havia estacionado numa esquina escura. Vem chegando perto dele um jovem de gorro e calças largas. Carlos suava frio.
- Ô moço, dá licença...
- Tudo bem. Tudo bem, já entendi. É um assalto. Mas eu não tenho nada. Estou sem carteira. Quer conferir? Deixei dentro do carro. Só não quero que ninguém se machuque.
- Não moço, eu só queria...
- Entendi. Você quer a carteira. Vamos entrar no carro, então. Sem violência. Eu te dou o dinheiro que tenho na carteira.
- Mas...
- Pode entrar, meu filho. Eu não tenho arma nenhuma.
O jovem olha para o carro, confuso.
- O que foi, jovem? Quer conferir? Certo, vamos conferir. Olha, o porta-malas. Não tem nada além de compras. Quer alguma coisa? Comprei cervejas...
- Carlos, o que está acontecendo? - Júlia diz, desnorteada.
- Nada, meu bem, o jovem aqui é uma vítima da sociedade... - Carlos diz, balançando a cabeça e colocando sua mão no ombro do jovem. - Vamos pegar a carteira.
- Não, moço, não é isso, eu só queria...
- Quer o meu relógio, também? E as jóias dela? São todas falsas, apenas folheadas. Tome. Aqui. É todo o dinheiro que tenho. Pegue, meu filho, pegue o dinheiro e o meu relógio e vá comprar comida! - Carlos dizia e ia empurrando o jovem pela rua.
O jovem ficou encarando-o.
- Eu não vou chamar a polícia. Fique com meu celular também. Aqui. Pronto. Sem violência, certo?
O jovem observou o carro sair disparado, e olhou o relógio de Carlos.
- Eu só queria saber as horas.

No dia seguinte, Carlos e Júlia se gabavam de como lidaram bem com a situação, ficando com a maior parte do dinheiro (que estava na bolsa de Júlia), com as jóias (que eram verdadeiras) e que o relógio era apenas uma réplica. E de não terem usado violência.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Eleições 2010

Não vou falar que não gostei do resultado das eleições. Não é preciso. Primeiro que é redundante eu dizer que não concordo com alguma coisa, e segundo que o resultado geral das eleições foi um reflexo da hipocrisia, estupidez, ignorância e negligência das pessoas que dela participaram. Mais precisamente, das 1.353.820 pessoas que votaram no Tiririca, equivalendo a (6,35%) dos votos válidos, de uma lista de 1170 candidatos a deputados federais, de um total de 21.317.327 votos. Eu acredito que quem votou nulo - 2.149.100 votos, equivalente a 8,49% - tem mais opinião e leva a política brasileira mais a sério do que quem votou no Tiririca.
(E o Acre, hein? Que vergonha. O acreano votou mais no tucano do que em sua conterrânea Marina Silva.)
Eu não tenho preconceito NENHUM contra o Tiririca. Ele quis se candidatar, ótimo pra ele, democracia é isso, governo de todos. Diferente de muitos políticos que são formados, estudados, mestrados, doutorados, o Tiririca não tem um histórico de corrupção. Passou pela lei da Ficha Limpa. Em sua campanha, ele não nos prometeu várias coisas que não vai cumprir, ao contrário; ele foi o mais honesto e brasileiro possível. "Sabe o que um deputado faz? Eu também não! Mas vota em mim que eu te conto!". Sem comentários.
Visto que essa foi a campanha do Tiririca, o que leva um cidadão a votar nele? O que o indivíduo acha que ele poderá fazer atuando como deputado federal? Ele foi eleito, logo, a ÚNICA explicação plausível é que ele é perfeito para seu cargo porque, dentre todos os candidatos, ele realmente representa perfeitamente a parcela da população - que não é pequena - que nele votou.
Mas sempre tem quem diga "votar no Tiririca é um voto de protesto". Não. Votar no Tiririca é BURRICE. É negar o seu direito de mudar o cenário político brasileiro. Votar NULO é um gesto de protesto, porque, diferente do que muitos acham, votar NULO significa que, na sua opinião, não há candidatos satisfatórios ou aptos para atuarem no cargo para o qual estão disputando. Tanto que, segundo o Código Eleitoral Brasileiro, se os votos nulos atingissem a marca de 50%, uma nova eleição deveria ser feita, e quem havia se candidatado na antiga não poderia participar da segunda.
OU SEJA, VOTAR NULO NÃO SIGNIFICA NÃO PARTICIPAR. NÃO PARTICIPAR É VOTAR BRANCO!

E, pelo menos pra mim, é ÓBVIO que votar deve ser obrigatório. É obrigação de todo e qualquer indivíduo com mais de dezoito anos ajudar a decidir quem estará no comando do país, do estado, da cidade, do bairro. Nós vivemos em sociedade, e devia ser nosso dever sempre aspirar por uma política de estado melhor e indivíduos melhores representando a população. Não é porque o nosso sistema é uma democracia que algumas coisas não devem ser obrigadas. Se não fosse proibido passar no sinal vermelho, podem apostar que muita gente não respeitaria... Se não fosse obrigatório votar, muita gente se ausentaria e taparia os olhos para a política. A obrigatoriedade do voto faz com que os cidadãos alienados prestem atenção durante alguns minutos, uma vez a cada quatro anos, e considerem o que seria bom e o que não seria bom para o país. Mas obviamente que, se todos fossem ligados em política o tempo todo, não haveria eleição coisa nenhuma porque todos votariam nulo.

Mas de uma, UMA coisa eu gostei nessa eleição, e foi justamente a quantidade de votos nulos. No estado de São Paulo, cujas opções para Senador não eram lá das melhores, votos nulos atingiram a marca de 16,25%, o que dá 8.224.020 de votos. Para deputado estadual, foram 2.152.147 votos, 8,50%. Para governador, 1.326.601 votos, 5,24%. E para presidente, 6.124.254 votos, 5,51%.

E não, não vou falar em quais candidatos eu teria votado. Mas posso afirmar que não teria votado no Tiririca.

P.S.: o que eu falo tem fundamento. Sobre a nulidade dos votos:
"Art. 224. Se a nulidade atingir a mais de metade dos votos do país nas eleições presidenciais, do Estado nas eleições federais e estaduais ou do município nas eleições municipais, julgar-se-ão prejudicadas as demais votações e o Tribunal marcará dia para nova eleição dentro do prazo de 20 (vinte) a 40 (quarenta) dias."

sábado, 25 de setembro de 2010

nota sobre meu blog

Bom...
Acho que cada um tem o direito de falar o que pensa. Admiro a liberdade. Acho que se alguém tem o direito de falar que eu falo besteira, eu tenho o direito de falar que essa pessoa está falando besteira. Eu não tento dar lição de moral em ninguém. Eu não tento dar discursos de professor de ensino médio. Se os meus textos parecem discursos, ótimo! Sinal de que eu escrevo bem!. Por meio deste blog eu me expresso. Não vou parar de me expressar. Não vou "baixar a bola". Não gosto de gente que se cala quando discorda de alguma coisa, então não vou agir da mesma forma.
Eu digo o que penso, digo como me sinto. Nunca citei nomes. Nunca difamei ninguém. Só cito ações e comportamentos gerais. Se eu não posso escrever no MEU blog, que EU fiz, o que eu penso do mundo... um BLOG; algo que não me dá dinheiro, não sou paga pra escrever, eu escrevo o que eu QUERO.
Falar que eu escrevo besteira é algo extremamente baixo; falar que eu acho que sou melhor que os outros é extremamente baixo. Eu nunca disse que sou melhor do que ninguém. Aliás, se as pessoas se dessem ao trabalho de ler antes de falar mal, teriam visto um texto, ainda nesta página, no qual eu falo sobre a minha insegurança e a minha NECESSIDADE de auto-afirmação. Ou seja, de arrogante eu não tenho nada. A minha tendência é de me achar pior que os outros.
Há quem diga ainda de que as críticas feitas ao meu blog não são com o intuito de me ofender, e sim de abrir os meus olhos. Abrir os meus olhos pra quê? Pois tudo o que eu vi nas críticas que fizeram foi muita falta de conhecimento ao meu respeito e a respeito do que eu escrevo. Sempre digo que antes de falar mal de qualquer coisa, deve-se conhecê-la a fundo. Nesse caso, acho que não sou eu quem é arrogante, pois o indivíduo se acha tão melhor do que tudo que se dá ao luxo de julgar sem conhecer.

Nessas horas eu me pergunto se a pessoa que me ofende não possui um conhecimento tão vasto ou é rebelde sem causa para comigo. Sentiu-se ofendida? Bom, é porque eu falei alguma verdade.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

sobre uma sociedade (i)moral

Certo. Estava eu a estudar filosofia, quando me deparo com alguns conceitos um tanto interessantes.

"Sujeito moral é aquele que é consciente; dotado de vontade e autonomia; responsável e livre."
"Ter consciência moral é ter capacidade de escolher, ter autonomia, questionar valores e pensar antes de agir. Agir com integridade. Implica em entendermos nossas ações como intencionais e voluntárias; sermos responsáveis por nossas escolhas. Integridade é a coerência entre nossos valores e nosso comportamento."

Eu particularmente adorei o conceito de integridade dado no livro. Mas enfim.
Se ter consciência moral implica em questionar valores, e não aceitar sem refletir o que nos é dado, dito, e apresentado; então a mídia e a televisão seriam os maiores criadores de seres imorais do mundo. O J.N. apenas vomita as informações em nossos ouvidos, e, sem nos dar tempo para refletir (as reportagens mais importantes não têm comerciais logo depois), mudam de reportagem, para algo menos sério ou importante. Todos aceitam as verdades ditas pelo Bonner como universais. Ninguém desenvolve sua consciência moral.
Se ter consciência moral implica em entendermos nossas ações como intencionais e voluntárias; por um lado não poderíamos culpar a mídia ou o J.N. pela alienação das pessoas, pois existem meios de se conseguir algo mais próximo da verdade. Qualquer um pode assistir a mesma reportagem por vários lados diferentes, seja assistindo a outro jornal, seja lendo na internet. Se o sujeito hipoteticamente diz "eu sou alienado por culpa do J.N." (sim, hipoteticamente, pois ninguém sabe quando é alienado), ele estará sendo imoral? Eu acho que sim. Ele não é alienado por fatores externos, e sim por uma escolha dele. Hoje todos têm acesso a toda a informação do mundo. Ele escolheu assistir ao jornal e ser alienado, ele escolheu não se informar sobre o assunto. É responsabilidade dele. Ele age assim intencionalmente e voluntariamente.

Se ter consciência moral implica em agir com integridade...
Essa parte, para mim, é a mais difícil. Retomando o conceito: "Integridade é a coerência entre NOSSOS valores e NOSSO comportamento". Logo, integridade está diretamente relacionada a nossa autonomia, que Kant contrapõe à heteronomia - que é o indivíduo estar sujeito à vontade de terceiros ou de uma coletividade.
Já deu pra entender a que ponto eu quero chegar?
Resumindo todo o meu ponto de vista, digo que a nossa cidade não é autônoma. É heterônoma.
Posso contar nos dedos as pessoas que agem com autonomia, integridade, e que não se deixam levar por vontades ou imposições de terceiros (sejam eles os amigos, a mííííídia - adoro falar mal da mídia - ou quaisquer outros).
Se ser moral implica em agir com integridade que implica em ser autônomo...
A maioria das pessoas que eu conheço age com heteronomia, o contrário de autonomia; logo, essas pessoas estariam agindo imoralmente. É lógica. Aristotélica, aliás.

É... dá bastante trabalho pensar.

domingo, 5 de setembro de 2010

eu e o sadismo

Eu odeio muitas coisas. Tenho rancor de muitas coisas.

Tenho mania de achar defeitos nas pessoas e de apagá-las da minha vida, do meu orkut, da minha vida. Divirto-me em apontar seus defeitos (em uma sala privativa, em minha mente) e procuro motivos para justificar por que sou melhor que essas pessoas. Todas. Ridicularizo-as, transformo-as em personagens dentro de minha cabeça, personagens abióticos, estúpidos; uma segunda versão de sua verdadeira existência - ou a minha sincera opinião sobre sua personalidade.

Eu PRECISO me sentir maior e melhor. Eu PRECISO de alguma coisa que me diferencie dessas pessoas. EU NÃO AGUENTO a idéia de ser comparada com pessoas das quais eu não gosto. EU NÃO SUPORTO o fato de que somos da mesma espécie; então invento motivos para dividir as pessoas em castas, um nível mais especializado do que espécie, sub-espécie ou raça.

Em parte, essa necessidade, sadismo, estranheza, metidez... tudo mascara uma mistura de insegurança com uma ânsia por auto-afirmação que são muito características minhas. Minha necessidade de me expor aqui também expressa a vontade por mostrar ao mundo como penso, como sou diferente, como, apesar de tudo, preciso que me compreendam, que compreendam como eu sou, e que me deixem em paz.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

seis horas da manhã de segunda-feira

"Uau!" era a única coisa que podia ser dita naquele momento - e somente os mais corajosos o diziam, ou os mais lunáticos ou intelectuais que já sabiam que um dia aquilo iria acontecer.
Todos olhavam para frente assustados, impressionados, chocados, atônitos, confusos, incrédulos. Todos pararam suas respectivas atividades. Quem estava ouvindo música tirou os fones. Quem tomava café esqueceu que segurava a xícara. Quem estava apressado perdeu o rumo. Todos parados para contemplar o que acontecia na frente de suas cabeças.
Passou-se um minuto, dois, três. Alguns esfregaram os olhos, outros se beliscaram, outros começaram a duvidar da própria sanidade. O certo é que cada um, vagarosa e pessoalmente tentava assimilar o que estava acontecendo. Todos mentalmente fazendo paralelos com filmes ou livros e, ainda assim, nenhuma explicação satisfatória foi encontrada.
Uma imensa placa de metal agora tomava a frente do corpo das pessoas. Apenas isso - uma imensa placa de metal pairando ali. De repente, quadrado por quadrado, luzes foram se acendendo na placa - e uma máscara de teatro, sorrindo, apareceu ali, numa transmissão de TV. Ela começou:
"Bom dia, cidadãos!". Silêncio coletivo. Alguém tossiu. "Certo, eu esperava uma recepção mais calorosa, mas não importa. Todos prontos para trabalhar e fazer nosso país andar somente pra frente?". Silêncio coletivo de novo. Todos hipnotizados pela voz profunda e cativante da máscara, que tinha olhos, nariz e bocas negras. "Todos prontos para gerar mais e mais lucros, subir na vida e ganhar dinheiro? Prontos para serem consumidores ativos e socialmente relevantes? Prontos para serem aceitos e queridos por todos? Prontos para viverem de acordo com as minhas regras, todos os dias?". As pessoas acenaram positivamente com a cabeça, mecanicamente.
"Eu sou o seu Senhor.". As feições da máscara repentinamente se modificaram pra uma expressão mais severa. "Vocês devem me obedecer sob qualquer circunstância. Não importa se vocês não concordam, se vocês não gostam ou se vocês não têm como me obedecer. Terão de achar uma forma de se enquadrar nos meus padrões.". Todos apenas escutando.
Algumas pessoas desligaram seus televisores, outras ainda assistiam ao discurso alienante do Capitalismo. Acabaram seus cafés-da-manhã e foram apressados ao trabalho. Sabiam que o dia seria longo. Nada melhor do que umas boas palavras incentivantes logo após acordar.

domingo, 8 de agosto de 2010

Sobre a diferença

Bom, acabei me rendendo à minha saudade de escrever aqui...

Algumas novidades. Passei um mês na Inglaterra, fiz a viagem dos meus sonhos, dos meus quinze anos. Fiquei numa escola internacional, aprimorei meu inglês, aprendi a conviver com pessoas ainda mais diferentes, aprendi a furar fila, aprendi a apreciar a deliciosa comida brasileira, engordei, caminhei, amadureci horrores, caminhei um pouco mais, aprendi, fui rodeada de cultura por todos os lados, me encantei com Bath, tive arrepios em Oxford, tive a unique sensação de estar em casa enquanto andava pelas ruas de Londres.

E as minhas conclusões, depois de ter passado esse tempo num lugar tão diferente, que é a Inglaterra? Vou tentar ser gentil e não xingar tanto a minha cidade natal / minha escola.

Conviver com pessoas de vários países te torna uma pessoa mais madura e suscetível a mudanças, uma pessoa mais respeitosa, sem preconceitos, cabeça aberta. Acho que agora mais do que nunca eu sei quem eu sou, tenho certeza do que gosto e do que não gosto. E não só eu fiquei assim. As pessoas dos outros países assumem uma postura diferente com o passar dos dias. Cada um na sua, com o seu estilo, com a sua forma de expressão.
Isso na escola e em toda cidade britânica. Ninguém estava nem aí pra tua roupa, pro teu cabelo, pro teu tênis. Cada uma na sua, paz e amor, ou whatever! Sabe? É diferente. Não percebi aquilo que chamamos de moda. Não vi meninas usando as mesmas roupas, o mesmo cabelo e o mesmo casaco da Le Lis Blanc. Não vi.
Então, chego aqui. Primeiro dia de aula. Vou com a roupa que eu usava todos os dias. Sinto olhares e bocas se mexendo na minha direção. Tão estúpido. Ribeirão Preto pode ter 500.000 habitantes, mas tem alma de cidade pequena, ah tem.

Nos próximos dias, vou fazendo pequenos relatos sobre minhas impressões da viagem.
See ya.

quarta-feira, 31 de março de 2010

carta aos robôs

Eu realmente te adoro. Adoro sua futilidade, adoro sua incapacidade de percepção do mundo de hoje, adoro a sua capacidade obtusa pra reconhecer a sua insignificância, adoro as coisas aculturadas que você lê, adoro os lugares com cheiro de vômito a que você vai, adoro as pessoas acéfalas com quem você fica, adoro as músicas mastigadas que você ouve, adoro sua falta de objetivos e desejos, adoro sua falta de admiração por sucesso profissional, adoro seu desprezo por notas altas, adoro seu desejo de ser como todos os outros, adoro seu conformismo, adoro o modo como você me olha como se eu fosse de outra galáxia, adoro sua roupa uniformizada, adoro a forma como você segue a moda, adoro como você aceita tudo o que te é dito e que te soa agradável como verdade absoluta.

É em pessoas como você, caro ser praticamente abiótico, que eu encontro forças pra nadar contra a corrente, pra me superar, estudar, não ter medo de ser eu mesma, pesquisar, me informar, desenvolver habilidades extra-curriculares, preocupar-me com meu futuro, não preocupar-me com o que os outros pensam. Afinal, por que razão eu deveria me preocupar com robôs uniformizados e sistematicamente programados pra repelir conteúdos diferentes? Seria um ato de extremo rebaixamento eu me sistemalizar, burguesalizar, modernizar, chame como quiser.

Dessistemalize-se.

terça-feira, 23 de março de 2010

o mundo embaçado

Um belo dia ele acordou e levou um susto. O mundo estava embaçado. Ele mal conseguia enxergar - distinguia algumas poucas formas, e ainda sim, com dificuldade, e ainda assim, com muita ajuda da luz. Sentou-se na cama, olhou ao redor - como se o borrão que ele estava vendo fosse apenas daquela parte do quarto - e percebeu que todo o mundo ao seu redor decidiu ficar indistinguível. Gritou pela sua mulher. A mulher veio correndo, e ele quase foi às lágrimas ao perceber que não conseguia ver os traços do tão bonito rosto de sua mulher. Já não bastasse o mundo estar embaçado, suas lágrimas o pioravam. Enxugou os olhos. A mulher perguntou se ele estava se sentindo bem, se algo tinha acontecido. Ele olhou para a mulher como se ela fosse louca. "Como assim, o que aconteceu? Você não vê? O mundo está embaçado!". Ela somente respondeu, "Você não acha que precisa de óculos, apenas?". "Meu mundo é o que os meus olhos vêem. Eu não preciso de óculos nenhum, eles não melhorariam a mancha cinza que o meu mundo está". A mulher apenas consentiu. "O que eu tinha programado para hoje, mulher?". "Você ficou de ir ao banco, pagar as contas, buscar nossa filha na escola, me levar ao aeroporto, pagar a fiança do teu filho que foi preso ontem por causa de uma briga de bar. Também ficou de entregar os relatórios do trabalho, demitir cinco ou seis funcionários, e comparecer à reunião às quatorze horas. Precisa também ir ao supermercado, ir à farmácia e comprar os remédios do seu coração, visitar a sua mãe que está de repouso no hospital e sua irmã que foi internada ontem.", a mulher respondeu. O homem ficou indignado com o número de obrigações que ele tinha para realizar em apenas um dia. "E você acha que eu vou dar conta de fazer tudo isso com o mundo embaçado? Aliás, mesmo o mundo estando normal, quando foi a última vez que eu dei conta de fazer tanta coisa assim num dia só?" ele gesticulava e cuspia enquanto falava. A mulher apenas suspirou.

"Ontem."

terça-feira, 16 de março de 2010

apaga a luz!

- Mamãe, quero assistir o filme que eu peguei na locadora. - Luana, 6 anos, disse para sua mãe.
- Claro filhinha! - a mãe responde. - Roberto, traga o filme, e venha assistir.
- Tô indo, Marta, tô indo - o pai vem bufando e pisando forte. - Você sabe que eu não gosto daquela locadora, os filmes muitas vezes vêm trocados.
- Ah, não reclama.
- Mamãe, vamos assistir logo! O filme é de princesas, eu amo princesas, e quero ver o filme!
- Roberto, tá difícil aí?
- Vou colocar, Marta, vou colocar!
- Precisamos de um vídeo-cassete novo, não é, Roberto? O nosso tá tão caidinho, velho...
Roberto colocou a fita no vídeo-cassete. Luana pulava de alegria, batia palmas. A tela fica preta.
- Roberto, pega um refrigerante pra mim lá na geladeira, vai.
- Eu não, pega você, Marta. Tá folgada, hein?!
- Eu trabalho nessa casa o dia inteiro, faço sua comida e arrumo sua cama, e eu é que sou folgada? E pára de gemer!
- Além de folgada é louca? Eu não tô gemendo não, mulher.
Os dois se encaram um tempo. Os gemidos aumentam.
- Mamãe... - Luana cutuca a mãe, falando lentamente. A mãe olha para ela, depois olha pra televisão.
- ROOOOOBEEEEERTO, TÁ LOUCO DE ALUGAR UM FILME DESSES E COLOCAR PRA MENINA VER?
- NÃO OLHA PRA MIM ASSIM NÃO MARTA!
- mamãe... que nojento esse filme mamãe, eu quero ver as princesas... essa moça com correntes no corpo é a princesa?
- QUE ABSURDO ROBERTO! CADÊ O CONTROLE? DESLIGA A TELEVISÃO! APAGA A LUZ! TAPA OS OLHOS DA CRIANÇA!
- POR QUE SÓ EU TENHO QUE FAZER AS COISAS? O CONTROLE ESTAVA COM VOCÊ MARTA, DESLIGUE VOCÊ A TELEVISÃO!
- QUEM VOCÊ ACHA QUE É PRA GRITAR COMIGO? EU É QUE GRITO AQUI!
- mamãe, eu não tô gostando do filme. Eu não gostei das amigas da princesa.
- A CRIANÇA TÁ DO SEU LADO E VOCÊ AINDA NÃO TAPOU OS OLHOS DELA POR QUE, HEIN, MARTA?
- VOCÊ É QUE ALUGOU O FILME, VOCÊ SE ENCARREGUE DE DESFAZER A BAGUNÇA!
- esse é o príncipe? Já existia chantilly na época das princesas?
- TIRA DA TOMADA, VOCÊ, SEU INÚTIL! E EU É QUE NÃO VOU EXPLICAR PRA GAROTA O QUE É QUE ELA ESTÁ VENDO!
- E EU É QUE VOU EXPLICAR? TÁ LOUCA?
- mamãe... não quero mais chantilly no meu sorvete.
- E POR QUE É QUE... - Marta pára de gritar e olha para a televisão. Seus olhos saltam as órbitas ao ver a cena, e seu coração pára ao pensar que sua filha estava presenciando tudo aquilo. Num pé só, se esticou, desligou a televisão, ejetou a fita cassete do vídeo e bateu-a na cabeça de Roberto.
- Você é um inútil, Roberto.
- E você é louca!
- mamãe, o papai é um príncipe que nem no filme? Por isso tem uma lata de spray de chantilly na gaveta do criado-mudo dele?

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sexta-feira, 5 de março de 2010

adolescentes.

Fiquei muito tempo escrevendo só contos aqui. Agora um texto de opinião de verdade.
(texto extremamente crítico. Se você ouve powerpop ou lê crepúsculo, nem leia)

Quando eu era menor, mais ou menos uma década atrás, eu via os adolescentes (jovens de 15 ou 16 anos) e sentia medo deles. As roupas, a música, os tênis, o jeito de falar, a rebeldia. Uma década atrás, adolescentes ainda tinham fama de revoltados, teimosos e cabeça-dura. No filme "A Pequena Sereia", o siri Sebastião, em certo momento, fala: "Adolescentes. Pensam que sabem de tudo". Não estou mentindo.

E o estilo, as músicas? Atualmente, os adolescentes usam roupas coloridas. Calças coloridas, BEM coloridas. Até as músicas são coloridas! Esse negócio que surgiu agora, "powerpop", que raios de música é isso? Aliás, é música? Música pra mim é aquilo que vem de um instrumento. Acho que agora computadores estão substituindo por completo os instrumentos. Trinta anos atrás, os adolescentes criavam o punk, o screamo. Criavam o grunge. Os mesmos adolescentes que berravam junto com Serj Tankian ou repetiam cada palavra do Zack de la Rocha hoje, no máximo, acompanham os 'tututu' das músicas que escutam.

E a preguiça de pensar? E a despreocupação com o futuro? Antigamente, quem era inteligente ou demonstrava ter um pouco a mais de cultura era invejado. Hoje é xingado. Alguém pode me explicar isso? Desde quando inteligência virou uma coisa ruim? Certo filósofo uma vez disse "Existe apenas um bem, o conhecimento, e um mal, a ignorância". Aparentemente hoje a frase se inverteu. Qualquer verdade é aceita. Qualquer fato visto em novela ou filme é automaticamente interpretado como ponto pacífico, e não existe dentro dos adolescentes hoje a vontade de pesquisar, de saber mais, de contestar, seja por curiosidade, seja por teimosia.

E os filmes? Nada além de romances água-com-açúcar (ou sangue, no caso de crepúsculo). Nada existencial. Nada realmente adolescente. Adolescência é uma fase de transição, de medos, de inseguranças, de formação da sua personalidade, da sua integridade e valores. Da sua formação como indivíduo. Seguindo esse raciocínio, os personagens de filmes como High School Musical e Twilight são crianças. Tudo bem que hoje não se fabricam filmes sérios voltados para adolescentes - a maioria é voltada para o público adulto. Mas isso não impede os adolescentes de procurarem por filmes mais interessantes, certo? Porém, creio que se alguém falar que viu um filme chamado "A Insustentável Leveza do Ser" ele nunca mais fará amigos.

Tendo isso como base, digo meu apelo: que volte a rebeldia adolescente. Sinto falta de outros rebeldes. Anarquistas. Teimosos e donos da verdade!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

coragem

Ouvimos tanto falar disso. Do conceito. De "ser corajoso". Mas, afinal, existe um conceito só de coragem?

Eu acho que não. Ao meu ver, ser corajoso é prosseguir com algo até o fim. É encarar seus medos. Todos. Inclusive o medo de não conseguir continuar. Coragem é não ter medo de se machucar, de se decepcionar, e se entregar de cabeça, de corpo, de alma. Coragem é mudar o visual sem medo de críticas. Coragem é aguentar de cabeça erguida toda a negatividade, toda a intriga da oposição, tudo o que vem contra você.

Veja bem, coragem é diferente de falta de juízo. Você não tem juízo a partir do ponto que sabe das consequências, consequências ruins e que te prejudicariam, e segue em frente. Ser corajoso é ser também racional. É não agir impulsivamente e irresponsavelmente. Aquele que não tem juízo age de acordo com seus impulsos e vontades do momento. Isso não é coragem. É estupidez.

Eu me pergunto até que ponto eu sou estúpida ou corajosa. Porque sei bem que me jogo de cabeça em praticamente todos os aspectos da minha vida, mas acho que meu sensor que indica "coragem" ou "estupidez" está (ou é) meio desregulado. Lanço aqui uma reflexão: quando é que NÓS sabemos o que PARA NÓS é estupidez ou coragem?