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quarta-feira, 18 de abril de 2012

A Náusea

Tema: Liberdade do ser e liberdade de ser: a responsabilidade de fazer escolhas


       Solidão, escolha e liberdade formam um dos tripés da existência. O homem percebe-se solitário ao dar-se conta de que deve fazer suas escolhas sozinho, justamente por ter liberdade de fazê-lo, e esse processo de percepção e de escolha gera sofrimento. A liberdade é angustiante.
     Para Sartre, o homem está condenado a ser livre - e nós o somos, forçosamente, mesmo que essa liberdade seja um tanto limitada por nosso momento histórico, por nosso meio e por nossa cultura. Isso devido ao fato de não nascermos prontos, com a essência definida (pois se isso fosse verdade, não teríamos responsabilidade por nossos atos). Ou seja, a existência precede a essência: primeiro vivemos para depois nos constituirmos como seres. Assim, nossas escolhas, e suas consequências, são nossa responsabilidade, justamente por termos tido a liberdade (novamente, mesmo que limitada) ao fazê-las - e isso proporciona a angústia, ou a náusea, como descreve em seu livro homônimo aquele existencialista.
     Se temos liberdade de escolha, deparamo-nos com a angústia de fazê-la. O processo incomoda não pela escolha em si, mas por suas consequências. Um exemplo disso é a opção pelo curso e pela faculdade: os jovens que, indecisos, escolhem suas carreiras orientados pelos testes vocacionais, podem culpar tais testes caso ocorra decepção pessoal.
     A liberdade do ser, além de levar à liberdade de escolha, também nos dá a liberdade de ser (o que quisermos). Porém, a nossa liberdade encontra uma barreira quando nos deparamos com o fato de que o outro também a possui - assim, se somos livres para, por exemplo, vestirmo-nos a nosso gosto, o outro também é livre para condenar nossas atitudes. Esse choque de ideias, intrínseco à vida em sociedade, gera angústia, porque temos a consciência de que ele é fruto da escolha que foi tomada por nós em primeiro lugar (de se ser o que se quer).
     Em suma: a liberdade do ser gera ambas, a liberdade de escolha e a liberdade de ser. As últimas são angustiantes por nos fazerem encarar as responsabilidades e as consequências de nossos atos e por nos mostrarem que somos quem comanda nossas vidas. Mas a liberdade é angustiante, principalmente, pelo fato de nos mostrar que estamos sozinhos em nossas escolhas - condenados à náusea filha da liberdade.

quinta-feira, 29 de março de 2012

meu vocabulário, meu limite

Mais uma dissertação que escrevi, desta vez para a Criar. O tema era "a leitura e a escrita engrandecem a alma".

         O poder da leitura é inquestionável: ela pode ser tanto manipuladora quanto enriquecedora; pode tanto iluminar quanto confundir. Mas, em quaisquer aspectos, a leitura e a escrita são agentes transformadores da nossa forma de pensar - e, quando usadas com o devido senso crítico, facilitam o processo de entendimento da realidade.
        O processo começa com a leitura - nela, é adquirido conhecimento de palavras que dão nome a tudo: ideias, sentimentos, estados e assim por diante. Diante desse conhecimento, o indivíduo faz paralelos com sua própria vivência, e passa a compreender melhor sua realidade, tanto psicológica quanto social e ideologicamente.
        Essa maior compreensão aumenta a variedade de recursos internos do indivíduo, ou seja, ele aprende a lidar melhor com diferentes situações simplesmente por entendê-las. Além disso, o ato de saber dar nomes a ideias e sentimentos, além de ser reconfortante, também melhora a própria capacidade de expressão do indivíduo, tanto na escrita quanto na fala. Ou seja, um vocabulário rico facilita a expressão, o que exige como seu precedente a própria reflexão. Logo, ao melhorar-se a capacidade de expressão, incentiva-se à reflexão.
         Então a linguagem é o caminho para a própria reflexão. Se não existe uma palavra para definir uma ideia, não será possível refletir sobre ela, ou seja, o vocabulário define o alcance do pensamento, como disse Wittgenstein. Muitos outros autores já trabalharam com essa ideia, como George Orwell. Em seu livro 1984, a ideia de criar uma nova língua (intitulada Novafala), com menos substantivos e sinônimos, era justamente de limitar o pensamento dos cidadãos, para que estes não refletissem sobre o sistema em que viviam - o que levaria ao questionamento e à insatisfação, algo que o Estado obviamente não queria.
        Em suma, pode-se dizer que a leitura e a escrita podem ser consideradas processos que engrandecem a alma no sentido de que aumentam nosso entendimento sobre a realidade, facilitando a compreensão de eventos cotidianos e levando-nos a refletir e questionar não só nossos atos, mas também os atos de outrém.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Solidão: perdas ou ganhos?

Este é uma dissertação que fiz na prova de redação do Einstein e é um dos textos meus de que eu mais gostei. Resolvi compartilhá-lo com vocês porque sei lá.

        Solidão é um termo complexo. Para uns, é sinônimo de infelicidade; para outros, é sinônimo de paz e liberdade - para mim, solidão é o estado indescritível de se estar solitário mas não sozinho, e de não aguentar mais ouvir os próprios pensamentos e necessitar dos pensamentos de outra pessoa. Solidão é ser, e esse estado traz inúmeras consequências para a (sobre)vivência do homem em sociedade. Solidão. Sobre o que ela fala mais alto: perdas ou ganhos?
       "O homem é um ser social". Esse aforismo contém a verdade por trás de todas as necessidades não-fisiológicas do homem. Logo, se há a necessidade de se estar em estado de socialização, a solidão é uma barreira para a felicidade. Se reclusão constante e ausência de qualquer relação afetiva - ou seja, se a misantropia fizesse o homem mais feliz, a solidão seria um ganho, e não existiriam famílias nem amizades, nem os próprios conceitos de amor e afeto, o que prova que a vivência em sociedade é inerente ao homem. A solidão, assim, seria uma perda para o homem, uma negação de sua própria natureza.
         Por outro lado, há indivíduos que encontram na solidão conforto e estabilidade - indivíduos que não se encaixam no meio ou no momento histórico em que se encontram, e que consideram a solidão como um ganho: pois é na solidão que se pode ser livre. Tomemos como exemplo Harry Heller, de Lobo da Estepe (Hermann Hesse), que constantemente encontra-se na dualidade homem x lobo - o que dificulta a convivência - e que encontra a paz (uma paz relativa) na solidão.
          Ainda falando de liberdade: "o homem está condenado a ser livre". A liberdade, então é uma libertação e ao mesmo tempo um aprisionamento, assim como a solidão. Nesse caso, a solidão seria ambos: perda e ganho - pois o homem quer ser livre, mas a sua liberdade acaba quando ele se sujeita a regras de convivência social. O que a solidão permite (a liberdade e, portanto - em termos - a felicidade) a socialização oferece (a felicidade).
       Levando em consideração os parágrafos anteriores e seus aforismos, pode-se concluir que a solidão, justamente por ser uma questão tão humana, é absolutamente antagônica, ou seja, traz tanto perdas quanto ganhos. "O homem é um ser social", "o homem está condenado a ser livre" e acrescento "é impossível ser feliz sozinho": qual das três frases fala mais alto, afinal? Nenhuma. A perda não anula o ganho e vice-versa, e o homem deve aprender a driblar essa dualidade tão intrínseca de sua própria natureza.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

loucura

- Ô Felipe...
- Que é?
- O que é ser louco?
- Que pergunta é essa, Lúcia? Louco é louco, ué. É quem não bate bem da cabeça.
- Tá, mas... o que é "não bater bem da cabeça"?
- Ah, menina, sei lá... é quando a pessoa acha que vive num mundo em que ela não vive. Ela vive uma realidade alternativa, que ela mesma montou.
- Mas então ela não sabe que ela é louca.
- É, acho que não.
- Então você pode muito bem ser louco, porque você não se considera louco.
- Ah Lucinha, não é tão simples assim...
- Como não? Se eu quiser ser Édith Piaf, eu vou colocar um vestido preto e vou ser feliz assim. E vou acreditar que sou uma cantora francesa. E você não vai acreditar nem mim, mas quem é você pra dizer que eu NÃO sou Édith Piaf?
- Mas...
- Se o cara que você diz que é louco está feliz, então por que ele é chamado de louco? Loucura não é saber que se é infeliz e continuar insistindo nisso? Não querer mudar de vida e conformar-se com a realidade em que se vive?
- Ah Lucinha, você tá pensando muito filosoficamente pro meu gosto...
- Pensa bem, Fê! Se vivemos em duas realidades diferentes, como eu posso opinar na sua? Quero dizer, é lógico que sua realidade vai parecer errada pra mim, e vice-versa, mas... entende?
- É, sabe, acho que faz sentido... são formas diferentes de se ver o mundo...
- Na minha opinião, louco é aquele que se sujeita à realidade dos outros e que não vive a realidade em que acredita viver. Entende?
- Mas então, Lucinha, como é possível viver em sintonia com qualquer pessoa?
- Enxergando e aceitando a loucura um do outro... mas principalmente, inserindo o outro na sua própria realidade...
- Certo... mas como é possível definir loucura sem se definir a razão? É possível uma pessoa ser inteiramente louca?
- Não, eu vejo a coisa de forma Machadiana... de que as pessoas têm um núcleo de loucura... alguns são maiores, outros menores. Então todos temos nossos momentos de... sanidade, por assim dizer, e é o que nos permite viver em sociedade. Expressamos nossa loucura quando fazemos o que queremos fazer.
- Lucinha...
- Que foi?
- Você tá muito louca.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

(continuação)

Vinte minutos desde o golpe.
"Ora, ora, ora, Peixoto. Desde quando você é crente de que a ética não existe?", uma voz zombadora entrou na sala saída da garganta de um homem magro de dentes amarelos. "Você me dava um soco no olho direito toda vez que eu insistia em dizer-lhe isso há trinta e cinco anos."
O diretor sentiu seu corpo inteiro enrijecer ao escutar aquela voz que mais parecia um sibilo.
"As pessoas mudam, Igor. O mundo muda junto com elas. A sociedade brasileira de trinta e cinco anos atrás não sabia o que era ética ou se ela existia porque havia sido privada dela em 1964, quando nem eu nem você tínhamos idade o suficiente para saber o que significava um golpe daqueles!", e o ponto de exclamação da frase foi demarcado por o diretor levantar-se da mesa e tentar, em vão, servir-se de café.
"Droga de café...", ele resmungou baixo, enquanto constatava que não havia mais café na garrafa térmica. Suas mãos tremiam de abstinência. "Sônia, me faz café! Cadê a Sônia? Cadê o cara da papelada???!"
"O que é isso, Peixoto? Não fique tão nervoso! Sua horda de pseudo-cultos, pseudo-jornalistas e pseudo-democratas precisa de você para guiá-la por esse túnel escuro que o Brasil acabou de se tornar..."
"Igor, só porque você se vendeu para a política e se tornou um homem sem escrúpulos e rico não significa que eu o inveje por isso.". Peixoto foi caminhando até o homem, abriu a porta e apontou para fora. "E essa é uma reunião particular. Saia."
Igor por um instante pareceu abalado pela atitude firme de Peixoto, mas apenas lançou-lhe um olhar frio e se retirou. Peixoto pensou ter ouvido algo do tipo "eu tenho amigos no governo", mas deixou essa vaga frase sublimar-se de sua mente.
Pouco depois de a porta fechar-se para Igor, ela se abriu novamente. Uma mulher entrou, com os óculos tortos no rosto e pastas na mão.
"Sônia, cadê o cara da papelada e cadê o café?!"
A mulher respirou fundo e saiu, fechando a porta novamente.
"É isso, diretor!", uma voz difundida na massa de pessoas ali começou. "Em vez de falar diretamente do regime, o que nos traria o risco da censura, poderíamos falar de portas que se abrem e portas que se fecham nesse novo sistema. Como uma lista de prós e contras mais metafórica, e em vez de colocar o texto como uma reportagem comum, colocamos no espaço de editorial. Assim, estamos, mas não estamos reportando sobre o golpe."
Mais uma vez, desencadeou-se uma onda de vozes.
"Isso é absurdamente covarde"
"É a nossa única escolha"
"Metáforas? Num país com uma porcentagem absurda de analfabetos funcionais?!"
"É muito presunçoso, além do mais, quem lê o editorial?"
"Manifestos na forma de folhetins!".
Todos se calaram.
"Sim, folhetins. O jornal será composto de todos os seus cadernos habituais, mas na segunda página colocaremos o início de nosso manifesto - que será composto de nossa opinião a respeito do golpe com realismo - e todos os dias, ou toda semana, desenvolveremos o tema na forma de um romance. Se atingir massas é uma preocupação", ela continuou, ao ver pessoas tomando fôlego para protestar, "alternaremos com relação à dificuldade do texto. Complexidade moral semana sim, semana não. O que acham?"
Peixoto tentava conter o tremor das mãos. Ele estava prestes a se manifestar quando a porta foi novamente aberta. Um homem parecendo confuso, de olhos bem azuis, segurando uma maleta semi-aberta, foi empurrado para dentro, atrás dele entrou bufando Sônia, que já não usava mais seus óculos e parecia muito nervosa.
"Aqui está o cara da papelada, Peixoto! E eu não sou garçonete para trazer-lhe café!"

sábado, 17 de setembro de 2011

o Jornal do Povo

Havia gente em demasia na sala. Cinco pessoas por metro quadrado no mínimo, considerando que uma mesa gigante ocupava praticamente um terço da sala, e que quem não tinha onde se sentar devia permanecer de pé, ou na ponta do mesmo, pois aquela era uma reunião extraordinária que mudaria o destino daquela empresa. Sim, pois o Jornal do Povo deixara de ser d'O Povo havia muito tempo - pelo menos desde que deixou de ser estatal e foi comprado por um milionário dono de alguns milhares de hectares de plantação de soja.
- Muito bem, muito bem - o homem sentado a uma das pontas da mesa começou. Fracassado em su tentativa de instaurar o silêncio, recomeçou, dessa vez mais alto e agressivamente: - Muito bem, senhoras e senhores! Creio que todos aqui saibam o motivo dessa reunião.
Ele fez uma pausa dramática e passou os olhos por cada rosto presente na sala.
"Vocês sabem que há exatos seis minutos foi declarado um golpe de Estado feito pelo senhor Presidente. Ele, há seis minutos e meio, instaurou o - em suas palavras - Socing. Agora digam-me, pelo amor que vocês têm à suas mães, que vocês sabem o que é Socing."
Uma dúzia de mãos trêmulas levantou a mão. O homem olhou para eles, incrédulo.
"Como?, vocês fizeram jornalismo, filosofia e ciências sociais e não leram sobre o Socing?"
Pausa dramática.
"Sônia, demita-os e traga o cara da papelada.", ele disse à mulher sentada à sua direita.
Com a saída dos seis, as pessoas tiveram a liberdade de inalar mais oxigênio por centímetro cúbico de ar do que antes, e suspiraram aliviadas.
"Não mais perderei tempo explicando o que é Socing, visto que ninguém mais se manifestou. Agora, a pauta da reunião é..."
"Mas, senhor", uma jovem que não devia ter mais de 1,55m e com cabelos muito pretos falou, "nós estamos no Brasil, e não na Inglaterra. O nome não deveria ser... Não sei, Brassoc, ou Socrasil, ou alguma coisa assim?".
Ele encarou-a por alguns instantes. "Exatamente, moça. Sua fala será o primeiro parágrafo, depois do lead, da manchete da capa. Tente pensar em um nome melhor que esses, mas se não conseguir, usaremos Brassoc de qualquer jeito. Mais algum comentário?".
Não, a sala respondeu com seu silêncio.
"A primeira coisa que precisamos nos decidir é: do lado de quem estamos?", e, ao ver a cara descrente de alguns recém-formados em jornalismo ali, continuou "e sejamos realistas, pois a 'ética do jornalismo' deixou de existir há muito tempo.".
"Mas, senhor", um moço que ajeitava nervosamente os óculos no rosto disse, "se nós deixamos de ser uma empresa estatal há 15 anos, não há por que defendermos o governo, e, ainda por cima de tudo, devemos aproveitar a nossa liberdade 'plena', pois se o senhor Presidente levar a termos literários, literais e fiéis o Brassoc, então começaremos a ser censurados em pouco tempo".
Um muxoxo de aprovação e concordância com o que o moço disse percorreu a sala.
"Você tem um ponto válido, filho. Você se esqueceu apenas de uma coisa: jornais já foram censurados antes, e nem por isso eles deixaram de divulgar propagandas anti-governo".
"Mas qual porcentagem da população entenderia as mensagens implícitas anti-governo contidas em nossas reportagens banais? Esse é o Jornal do Povo, senhor, e deveríamos dar ao povo o que o povo tem de saber", disse uma moça conhecida por achar que toda discussão é uma briga entre o certo e o errado, e não um conflito entre duas opiniões diferentes. Depois de seu comentário, várias outras vozes irromperam da sala, algumas falando mais alto, outras tentando se esconder atrás dessas vozes.
"Se for assim, podemos nos declarar desempregados, pois o governo acabará com a empresa assim que farejar um fagulha de insatisfação!"
"E o que o dono da nossa empresa dirá? Ele pode nos demitir se nossa postura não lhe agradar!"
"As pessoas já têm conhecimento desse golpe? Elas têm noção do que isso representa?"
"Qual! Devíamos considerar também que a maioria simplesmente não liga para o que acontece ou deixa de acontecer em Brasília!"
"Por outro lado, se nós fizéssemos propaganda positiva do governo, suas rédeas para conosco ficariam mais frouxas"
"Mas a imprensa deve denunciar a realidade, e não encobri-la!"
"Se eu me envolver nisso e isso desagradar ao governo, vou ficar com meu histórico manchado pelo resto de minha vida e nunca mais vou arranjar emprego!"
"Nós devemos expor a verdadeira realidade, mostrar ao povo o que significa Socing ou Brassoc, eles têm o direito de saber no que o país deles vai se tornar!"
"Eles tinham o direito."
"Ora, SEJAMOS REALISTAS!". O brado do diretor acalmou a sala. "Vocês estão pensando eticamente! Não existe ética. Cidadãos, há alguma ética em dar um golpe de estado ignorando o princípio da democracia e outorgando uma nova forma de controle estatal sobre as pessoas?"
É, aquilo devia ser pensado.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

discursos em javanês

- Pobre Bola-de-Neve. Pobre Goldstein. Pobre Jerônimo, pobre José, pobre Escobar. - Suspirou. - Tenho dó de vocês. Não por... vocês, mas por o que vocês representam. E vocês sempre acabam levando a pior.
Mais um suspiro.
Aquela noite especificamente estava com uma aura diferente. Podia ser efeito dos relaxantes, podia ser porque era a primeira noite de chuva em muitas semanas, podia ser porque acabara de ler livros e poemas e textos que a deixaram demasiadamente embriagada de pesar, mas aquela noite teve alguma coisa de diferente.
Tchaikovsky começou a tocar. 1812 Overture. Clássica representação de resistência. A trilha sonora perfeita, como já insinuou V, para uma revolução, mas que não necessariamente envolvesse uma explosão de um prédio público, pensou.
Começou a imaginar muitas cenas. Revoltas, cartazes, gritaria, hipertensão, tiros, tochas, tridentes, cachorros, todo tipo de armamento distribuído em muitas infantarias. Sim, seria fantástico conseguir mobilizar tamanha multidão para um propósito plausível. Todos lá, exercendo sua "liberdade de expressão", exigindo melhores condições e mudanças na atual situação, protestando contra a total pândega que o sistema se tornara, proclamando vergonha dos projetos sociais vigentes.
Obviamente; apenas algumas pessoas se encaixariam nas ações descritas no período anterior - seus líderes. A maioria estaria só repetindo axiomas, aproveitando o momento para gritar como animais no cio, gozando de um momento de liberdade e permissividade ao vandalismo - pois é tudo por um "bem maior" -, berrando a plenos pulmões frases repetitivas conjugadas no presente do indicativo e, falando a fria verdade, captando superficialmente ideias previamente mastigadas.
Seria um líder revolucionário apenas mais um político? Seria esse líder o professor de javanês de Lima Barreto? Seria esse líder apenas um político carismático com muita lábia e habilidade de nos mover com suas palavras melífluas? Seria ele apenas mais um manipulador qualquer, que pode não mentir, mas que omite os verdadeiros "porquês" e os verdadeiros "e depois"?
Suspirou. Mas essa manipulação por um discurso ideológico se faz necessária devido à grande indolência que assola a mente das pessoas quando se trata de ponderar-se a respeito de algo. Se uma mudança quer ser vista, uma atitude tem de ser tomada. Essa atitude, para ser maciça, precisa ter um estímulo. Esse estímulo vem de um discurso que foi feito para agradar e motivar as massas. E aqueles que detêm o conhecimento - agradar para motivar, agradar para ser seguido - são perigosos. O princípio de "pão e circo" é com certeza anterior ao Império Romano, ainda existe e continuará existindo na posterioridade.
No final, tudo fica nas mãos do melhor professor de javanês. E, como de costume, ao vencedor, as batatas.
AH, isso cansa! E a música chegava ao fim.
- Fazer o quê, Mikhail? Fazer o quê?
Olhou para a imagem do senhor barbudo e pomposo que brilhava na tela do seu computador.
- Por que vocês são sempre barbudos?, ela perguntou à imagem. Na ausência de resposta, desligou o monitor, fechou o livro e foi tomar um remédio para a enxaqueca que teimara o suficiente para conseguir voltar.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

cegueira

- O que é ver?
Por essa eu não esperava. Éramos amigos havia uns dois anos e foi a primeira vez que ele me perguntou isso.
- Quero dizer, como é? Dói?
- Não, não dói, Beto. Na verdade, você não sente nada.
- Como, não sente nada? Quando eu encosto em algo cortante, eu sinto dor. Quando você... vê algo ruim, você não sente dor?
Fiquei alguns segundos hesitante. Não é que ele tinha razão? Não é que ele sabia mais sobre a visão do que eu?
- Ah, Beto... sim, quando eu vejo algo triste eu fico triste, mas não é uma dor física, é uma dor, digamos, espiritual, moral, sabe? Essa dor, se ficar muito tempo dentro de você, pode virar uma dor física, mas num primeiro momento, ver não dói.
- Mas, Carol, já ouvi tanta gente dizer que preferiria ser cego do que ver todas as misérias que existem no nosso mundo. Como você explica isso?
- Existem várias formas de se ser cego. Uma das formas é a literal, literalmente não conseguir enxergar, mas outra, a mais comum, é uma epidemia crescente na nossa geração: as pessoas se recusam a enxergar a própria realidade, e simbolicamente fecham os olhos pra tudo, entende? Você tem mais visão do que metade das pessoas que eu conheço.
- Tá, mas agora eu quero saber como é, mesmo, sabe? O que são cores? O que é ser bonito?
Eu nunca me sentira tão privilegiada por enxergar antes na minha breve existência. Só de pensar em nunca ter visto um pôr-do-sol, um céu estrelado, um sorriso, uma lágrima, pássaros voando, o vento batendo nas árvores, as mudanças de expressão das pessoas...
- Você sabe muito bem o que é ser bonito, Beto.
- Mas é diferente.
- Exatamente! É diferente! E o seu conceito de beleza é muito acima do conceito de beleza das pessoas que enxergam, pois a partir do momento que se enxerga o rosto da pessoa, a roupa que ela usa, como ela anda ou as caras que faz enquanto fala, você já tem uma pré-ideia de como essa pessoa é, você a julga, entende? Quando não se enxerga, não há outra forma de conhecer a pessoa que não seja pela conversa, e por esta, sim, pode-se conhecer alguém de verdade e dizer se ela é bonita ou... feia.
Beto bufou. Ele não parecia satisfeito com minhas respostas. Acho que ele esperava coisas mais materiais e objetivas. A conversa estava sendo muito mais enriquecedora para mim do que para ele.
- Carol... eu sou bonito?
Olhei para ele. Seus olhos azuis extremamente claros encaravam o nada, o vazio, mas ele se curvava na minha direção e tinha seus joelhos apontados para mim.
- Claro que é, Beto! Você é uma das pessoas mais admiráveis que eu já conheci, sem falar...
- Não, Carol. Eu quero dizer bonito para quem enxerga.
Sim, muito bonito, inclusive. Sobrancelhas delineadas, grandes cílios, boca bem desenhada, cabelos castanhos sedosos, maxilar forte. Se ele soubesse o quão bonito é fisicamente não teria nem metade do caráter que tem. A grande tendência de hoje é de a beleza corromper imensamente as pessoas.
- Sim, Beto, mas você não devia se ligar a isso, sabe? Muitas meninas se aproximam de você só por causa da sua beleza, mas quando percebem que você é mais do que um rosto bonito e que você não liga para o quão loiras tunadas elas são, elas meio que se assustam. Sabe, Beto? Acho que a sua cegueira é um dos maiores presentes que você tem. Não só você, mas todos ao seu redor.
- Tá, Carol, mas só uma vez, só uma única vez, eu queria poder enxergar.
- Pra ver o que, Beto? Não há nada nesse mundo pra ver que você já não conheça de uma forma ou outra... claro, eu não abriria mão da minha visão, porque algumas imagens valem muito, mas não por serem imagens, mas por o que elas causam, entende? Eu acho incrível que você não precise ver o rosto de alguém pra saber como a pessoa está se sentindo, você entende?
- Mas conversa nenhuma vai me fazer ver o seu rosto.
Senti meu coração partir em dois. Quase deu pra escutar o som dos meus batimentos cardíacos acelerando. O rosto ingênuo de Beto denunciava que ele ainda não tinha captado o que eu senti ao ouvir aquela frase dele.
- Meu rosto?... por que razão você iria querer ver meu rosto, se você já viu tanto além dele?
Beto tateou pelos meus braços até colocar-se na posição certa e abraçou-me.
- Você é incrível, Carol, por que diz que sou seu único amigo?
- Ah, você não entenderia.
Enquanto me despedia dele, passei meus dedos pela profunda cicatriz que cortava meu rosto na diagonal. "Você não entenderia mesmo.".

terça-feira, 31 de maio de 2011

o fenômeno de ocidentalização

(o texto a seguir eu fiz para a aula de redação da minha escola. tirei 9,5 e tive meu momento de glória, pois considero minha professora um tanto quanto exigente. aqui vai.)

Globalização, geopoliticamente falando, significa livre fluxo de informações, capitais e pessoas entre os países. Com a revolução tecnológica da internet (que agiliza o fluxo de informações), abertura de países isolados economicamente e expansão do neoliberalismo alguns Estados tornaram-se dependentes do capitalismo e dos valores agregados a ele - tanto econômica quanto culturalmente. Certos padrões ocidentais tornaram-se a representação de "poder", e o motivo por trás disso pode ser compreendido através de uma análise histórica e ideológica.

Historicamente, o ocidente, representado por europeus e norte-americanos, está ligado a explorações, conquistas, avanços tecnológicos e revoluções. A Europa simboliza o avanço social, e os EUA, o econômico. Com toda a sua história e passado tendo construído a base de seu atual sucesso (em termos), não é de se espantar que o ocidente esteja ligado à ideia de poder.

Consequentemente, se o ocidente e sua política neoliberalista são a visão de progresso, sucesso e poder; o oriente (e qualquer outra cultura que vá de encontro aos "valores" capitalistas) e sua cultura seriam a visão do atraso e do fracasso. Com o fortalecimento da globalização, que tende a unificar e igualar culturamente o mundo, o fenômeno contrário, de regionalização, enfraquece - e, com ele, os governos e culturas demasiadamente regionais. A população tende a negar sua cultura para não se sentir "atrasada".

Outras consequências da globalização e da relação dominador/dominado são a exclusão ou anulação de culturas e a padronização - da beleza, dos produtos, da língua, dos valores, das roupas -, a qual está ligada à divulgação de um modo de vida ocidental. A padronização ocorre através de internet, filmes, revistas, até livros, que divulgam valores capitalistas, levando os cidadãos a pensar que seu modo de vida não é adequado por não ser igual ao "American way of life". Assim, para superar o sentimento de exclusão e marginalidade, uma japonesa morena e conservadora assume a aparência de uma francesa consumista.

Vistos todos esses âmbitos (histórico, ideológico e psicológico), compreende-se melhor a dominação ocidental sobre outras culturas. Conclui-se que o ocidente está, por inúmeros motivos e em inúmeras áreas, ligado à ideia de "poder", e por isso os indivíduos tendem a ocidentalizar-se, por exemplo na aparência, reflexo óbvio e visível (e risível). Até que ponto essa ocidentalização continuará é difícil dizer, mas pode-se afirmar que, no futuro, o globo será composto por três hemisférios: setentrional, meridional e ocidental.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

sobre personalidades

O homem definitivamente é composto de várias facetas que coexistem - nem sempre em plena harmonia, mas coexistem, uma não anulando a outra. Definir-se como tendo uma, duas ou dez faces é limitar todo o processo eterno de formação e expansão de seus caráter, personalidade e alma. Por mais que alguns dos lados do indivíduo seja evanescente, efêmero; as características que o compõem não o são, e continuarão existindo, pertencentes a outras facetas, dissolvidas na imensidão de nosso universo particular.
Tendemos a achar que nossa personalidade é dividida em vários âmbitos, tipificados, com uma ou outra característica mais marcante, tornando assim mais fácil o processo de reconhecimento de tal faceta. Mas tal faceta não é composta por só uma característica, por só um tipo, por um só sentimento predominante. Há uma história por trás desse sentimento e dessa característica, há motivos por trás da determinação e da formação de tal face, tornando cada uma das faces uma micropersonalidade, uma ramificação da síntese personalítica - mas não menos complexa.

Sendo assim, quanto mais vivências, questionamentos, experiências, leituras, reflexões, situações, atritos, conflitos e decisões passamos ou temos de fazer, uma nova ramificação se forma, partindo da mesma raiz sólida e concreta que são nossos valores, princípios, ideais e sonhos.

Essa infinidade de lados existe por um motivo. Quanto mais rica a personalidade, quanto mais diferentes e variadas forem as formas de olhar para uma mesma questão; mais pertinente, útil e benéfica para todas as micropersonalidades a decisão final será - mas também mais difícil de ser feita e de ser aceita. Uma pessoa que não tem acesso ao conhecimento científico a respeito de tal doença aceitará a morte como sua única possibilidade e seu destino fatídico - é porque deus quis. Já quem tem acesso a todos os livros, bulas, teses e médicos possíveis fará o máximo para que haja outros caminhos, outras alternativas, uma sempre melhor que a outra.
E por mais que haja algum traço que não nos agrade em nossa personalidade - algum traço que não precisava existir e que continua lá, por algum motivo, como um vício -, ele é tão necessário para o processo de autodescobrimento quanto os traços que nos são úteis e que se sobrepõem aos outros. Justamente os de que não gostamos ou que não aceitamos em nós mesmos é que nos afastam das outras pessoas que possuem semelhantes. Quando aprendemos a lidar com o que nos incomoda - quando damos nomes aos nossos fantasmas - é que passamos a viver em harmonia com tal traço em nós presente.

Mas, no final das contas, sejam as ramificações evanescentes ou cicatrizes, o conjunto todo forma o sujeito, que dará frutos, responderá às estações e se desenvolverá de forma única e diferenciada.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

carpe diem?

Acho que o conceito de hoje sobre "aproveitar a vida" está um pouco equivocada. O uso da famosa frase "Carpe Diem" é extremamente errôneo. Focam-se no conceito "viva como se todo dia fosse seu último". Nessa frase não estão incluídos nem atos inconsequentes nem ter sua juventude transviada. Explico. Carpe Diem. Aproveite o momento. Realmente dá abertura para muitas interpretações.
Essa frase é a desculpa pseudo-filosófica de pessoas, de uma forma geral, que querem agir impulsivamente e estupidamente, e que muitas vezes não sabem da ideologia, mas se aproveitam da imagem consumista e materialista que cresceu em torno da frase. Aproveitar tudo ao máximo. Não ligar para seu futuro. Não ligar para as consequências. Não ligar para as repercussões, sejam elas uma ressaca ou uma reputação estragada. Embriagar-se e inebriar-se. Experimentar da essência de muitas pessoas diferentes. E deixar o estudo para a prova para o dia seguinte do dia seguinte. Essa é a imagem muitas vezes difundida pela mídia. Esse realmente é o significado de Carpe Diem?

"[...] sapias, vina liques et spatio brevi spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem quam minimum credula postero."
("[...]sê sábia, filtra o vinho e encurta a esperança, pois a vida é breve. Enquanto falamos, terá fugido ávido o tempo: Colhe o instante, sem confiar no amanhã.")

Colher o instante. Isso nos dá a ideia de colher frutos. O que poderiam ser esses frutos? Oportunidades, por exemplo. O trecho nos fala sobre como o tempo passa rápido e que não volta. O que eu considero que sejam essas oportunidades? Encontrar alguém, experimentar algo novo, plantar a semente de algo que no futuro poderá dar frutos muito benéficos e frutíferos. O sentido de "viva como se fosse seu último dia" que está presente nessa frase significa deixar sua vida pronta e em ordem, sem pendências, para que, quando o dia de sua partida chegar, não existam arrependimentos ou atrasos.
O único conflito que a interpretação da frase pode gerar é: e os arrependimentos? É melhor arrepender-se de não ter feito ou arrepender-se de ter feito? Na minha opinião, quando uma porta se fecha, a outra abre; acho que para todas as más decisões feitas abrirão-se portas para consertá-las; e sempre que não aproveitamos uma oportunidade nos será oferecida outra. O problema é que nem sempre temos os olhos abertos o suficiente para reconhecer o que é uma oportunidade, de fato.
E não acho que tudo isso que escrevi significa uma limitação para a vivência da juventude. Faz parte ir a festas, voltar bêbado pra casa, viajar com os amigos, experimentar coisas, mas tudo de uma forma saudável.

Típico discurso de mãe, certo? Mas todo mundo sabe que quando a mãe fala que vai dar merda, dá merda.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

também sou suicida.

Minha vida baseia-se na minha necessidade de sentir-me útil.
E cada sofrimento, cada angústia, cada sentimento que me deixava inquieto era um impulso para uma reflexão e, por conseguinte, uma decisão ou conclusão.
Também sou suicida, e considero isso uma fraqueza. Mas sou tão suicida que sigo uma filosofia na verdade propensa à vida, sou tão paradoxal que transformo minha maior fraqueza na minha maior fonte de forças. Sei que não faz sentido, pois todo indivíduo suicida é aquele que ultrapassou todos os próprios limites e que não enxerga mais um sentido na própria vida... mas minha vida é tão insignificante (no sentido literal de "sem significado" da palavra) e minha busca tão quimérica que me pergunto quais são os meus limites. Até que ponto um homem pode aguentar? Qual nível de sofrimento é necessário para que o homem desista de sua vida? De certa forma, apesar de minha vida não ser digna de um sentido, mantenho-me vivo por um propósito. E não, viver por uma ideia não significa necessariamente que essa vida tem algum sentido.
Matar-se é relativamente fácil e caseiro; e a ideia de que essa porta de saída de emergência está constantemente aberta só me instiga a permanecer vivo, a testar-me os nervos, a provar que sou mais forte que qualquer dor já vivenciada. E, em último caso, ou não.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

is this real life?

- Eu preciso aprender a não me importar com as coisas.
- Que coisas exatamente?
- Ah, meu caro, tudo... preciso sentir que há algo mais, sabe? Que esse mundo não é tudo, que eu não tenho que me iludir com as coisas que vejo, sabe?
- O mundo não é como você o vê ou percebe. Você vê um mundo de um jeito que é limitado à capacidade do seu cérebro de interpretar o que lhe é transmitido. Suas noções de claro, escuro, quente e frio são relativas. Você está preso ao seu cérebro.
- Quer dizer que o mundo como eu vejo não é real?
- Quero dizer que o mundo como você vê é só isso: o mundo como você vê. Se você tivesse visão de calor, o mundo seria completamente diferente. Provavelmente não haveria conceitos de bonito ou feio. Seria tudo baseado na quantidade de calor emanada. A tecnologia, a moda, o aprendizado, tudo seria diferente, porque estaríamos limitados a algumas poucas cores, a algumas poucas formas.
- Ainda não entendi.
- O mundo como você vê é diferente de como um daltônico vê. A música como você ouve é diferente de como um cego ouve. Você pode ver as coisas diferentes. O seu mundo é diferente do meu. O que é significante para você é diferente do que é significante para mim. As coisas às quais você dá atenção são diferentes das minhas. Logo, a sua forma de perceber o mundo é diferente da minha. Não se prenda à forma dos outros de ver o mundo. Você deve viver e se adequar à sua forma.
- ...?
- É como se essa realidade fosse um sonho. Cada um sonha da sua forma. Cada sonho mexe com a percepção do seu sonhador de uma forma. E o que nos garante que nós não estamos sonhando, como em Matrix? As sensações que são despertadas em você deveriam fazer você se sentir único. Não deixe ninguém falar como viver sua vida. Você quer aprender a não se importar com as coisas? Não é essa a resposta. A resposta é uma reflexão acerca do que importa para você e com o que os outros querem que você se importe.

There is no spoon.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

mamãe, quero uma barbie!

Good times for a change. See, the luck I've had can make a good man turn bad.
So please, please, please... let me, let me, let me, let me get what I want this time.
Haven't had a dream in a long time. See, the life I've had can make a good man bad.
So, for once in my life, let me get what I want.
Lord knows, it would be the first time.
Lord knows, it would be the first time.

Sim, por favor, me deixe conseguir o que eu quero dessa vez.

É que eu cresci com a idéia na cabeça de que eu ia morar numa casa tão grande, e todo dia ia acordar e me pentear sentada numa penteadeira linda, branca, com detalhes dourados, feito uma de princesa, sabe?, e não aconteceu bem assim. Eu queria uma pantera preta, e hoje tenho um cachorro pequeno. Eu queria um quarto grande pintado inteirinho de verde limão e prata, mas a cor das paredes é bege. Eu queria um laço vermelho pra amarrar no meu cabelo, mas só tenho uma tiara. E as bonecas, queria ter tido tantas Pollys, tantas Barbies, e eu até tinha algumas, mas eu queria sempre mais, sempre muito mais, e eu não tinha. Não tinha.

E isso é tão horrível!
Não o fato de eu não ter conseguido todas essas coisas, mas o fato de que desde pequenos somos condicionados a querer mais e mais, nunca nada é o suficiente. Se você ganha uma boneca, logo quer a roupa de festa da boneca, e a casa da boneca, e o carro da boneca e os amigos e namorados da boneca. Quando ganhamos o que queremos, ao invés de nos contentarmos, queremos mais coisas ainda. É a sociedade do descartável, da insatisfação, do instantâneo. E essa geração de crianças insatisfeitas e mimadas hoje cresceu, e é a geração dos adolescentes promíscuos e sem amor próprio.
Sim. A menina que antes queria a Barbie agora quer beijar um garoto. E ela consegue esse garoto com a facilidade com que conseguiu a Barbie. E essa garota vai descartar o menino assim como descartou a Barbie.
Não há mais a espera, a ansiedade, a alegria ao abrir os presentes de Natal e ver que aquele brinquedo que você vem pedindo há meses finalmente é seu. Não há mais a paquera, a sedução, a demora. Tudo se entrega com a mesma facilidade e praticidade com que se descarta.
Somos uma geração de consumistas, de insatisfeitos, de instantâneos; desde comida até relacionamentos. E, estendendo o assunto um pouco, até drogas. Quando questionados sobre a razão pela qual os adolescentes usam drogas, respondemos que é uma 'forma de escape'. Isso reflete 100% os ideais a que somos apresentados hoje. É uma forma de escape? Sim, enquanto dura o efeito da droga é uma forma de escape. É muito mais fácil se drogar todos os dias do que frequentar uma psicóloga e ter que encarar seus problemas, porque isso leva tempo e esforço por parte de quem tem o problema.

E quando/se eu tiver uma filha, vou pensar muito bem antes de surpreendê-la com uma Barbie.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

a volta do movimento estudantil?

Tenho lido em muitos lugares e ouvido de muitas bocas que os recentes protestos contra o ENEM são "a volta do movimento estudantil". Ouvi também falar que os protestos eram para defender nossos direitos como estudantes. E não concordo com isso.

Primeiramente, concordo 100% com o fato de que as pessoas se manifestaram, adoro a idéia e o fato de que ainda há pessoas que são engajadas e que saem para protestar quando se encontram numa situação injusta - muito melhor tomar uma atitude do que só reclamar. A idéia dos protestos é ótima. Realmente o governo precisa dar mais atenção à área da educação; se o ENEM é a primeira fase de universidades federais (por sinal, muito boas) então devia ser bem feito.

Nós, como estudantes, temos certos direitos, como acesso a escola; igualdade e liberdade de aprendizado; temos inclusive direito à garantia de padrão de qualidade e ao ensino de qualidade gratuito. Mas em que lugar na Constituição foi dito que temos direito a, por exemplo, uma anulação de uma prova mal elaborada? Ao meu ver, fazer um protesto visando a melhoria da educação em escolas públicas é mais palpável do que um contra uma prova malfeita. O protesto só foi feito porque, por ter se tornado a primeira fase de universidades federais, atingiu as classes mais altas da sociedade. (Leiam a Constituição, Capítulo terceiro, seção primeira, da Educação.)

Os "movimentos estudantis" mais famosos, no Brasil, foram a luta "O Petróleo é Nosso", os contra o ingresso do Brasil na 2ªGM, os da época da ditadura, os movimentos das Diretas-Já e os a favor do impeachment de Collor. Ou seja, todos os movimentos tinham engajamento e fundo político-econômico. Deve-se mesmo comparar movimentos a favor de eleições diretas com protestos contra uma prova de qualidade duvidosa?

Se é para protestar com base na prova do ENEM, então que protestem contra a falta de atenção do governo para as questões educacionais, e isso não envolve só a prova de primeira fase para o ingresso numa universidade federal. A questão educacional é muito maior. Os "direitos do estudante" vão além de uma prova.

Se eu acho que a série de protestos que aconteceram nas cidades brasileiras vai alterar alguma coisa? Depende. Se o futuro governo Dilma decidir ser popular, então ela deverá dar atenção a movimentos populares. E mesmo que nesse ano não tomem providência nenhuma; me dou ao luxo de acreditar que ano que vem a prova estará melhor.

A prova. Já o resto...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

a busca pela felicidade

A busca do homem pela excelência é refletida em suas ações, pensamentos e escolhas. Minha teoria é de que as pessoas, no geral, buscam melhorar sua personalidade, aprimorar suas habilidades, expandir seu conhecimento; na área considerada mais importante ou interessante; e acham que, com isso, terão alcançado, enfim, a felicidade. O que move a existência do ser humano é um sentido pra vida. Até aí tudo bem. A questão é: quando isso deixa de ser saudável? Quando a busca pela felicidade e excelência passa a tornar o homem infeliz? Ou, quando essa busca é, de fato, inexistente?
Na minha cabeça, essa busca é feita de três formas, nessa ordem: primeiro ocorre o ato de definir o que seria a felicidade, o que nos torna feliz; depois viria o ato de descobrir ou procurar os meios de se alcançar essa felicidade; e, por fim, viria a busca em si, o ato de buscar, a ação de tentar melhorar o próprio caráter. Ênfase nessa última palavra. Caráter. Logo, eu acho que toda essa busca deve ser por algo existencial, ideológico; e não por coisas materiais. Na minha opinião, o homem deve tentar sempre ser o melhor que tem capacidade de ser, mas agindo com autonomia, e não com heteronomia. Explicando.
Essa busca pode e torna o homem infeliz quando é feita por aparências ou vontades de terceiros. Então, nesse caso, a busca, em si, não existe - o homem está apenas se condenando a um destino insatisfatório, longe de seu ideal de felicidade, satisfazendo apenas os valores de um terceiro. E isso é surpreendentemente comum. Ao chegarem ao terceiro colegial, indivíduos escolhem fazer medicina por pressão dos pais. Fazem medicina. Passam anos trabalhando naquilo, se tornam os melhores, e, de repente, têm um surto de frustração e largam tudo pra ir atrás de algo mais. E isso é triste, porque todos os anos investidos em manter outras pessoas felizes não tiveram significado nenhum para o indivíduo. Foram anos desperdiçados.
O homem busca pela sua função no mundo. E quando essa função não é bem sucedida ou simplesmente encontrada, ele se sente vazio e inútil. Acho que esse é o pior sentimento que existe. Sentir-se inútil torna a vida sem sentido, sem objetivo, e se você não tem um objetivo, pra que viver? Quando você vive pelos outros, e não por você, o quão infernal deve ser acordar todos os dias sabendo que você vive uma vida que não tem significado?
A busca por felicidade por meios materiais também não tem sentido. Depois de comprar o televisor mais moderno do mercado, dois meses depois esse produto será desvalorizado. O indivíduo estaria constantemente infeliz e insatisfeito, mas pelos motivos errados. Ele não estaria preocupado com o seu interior, o seu caráter, e sim pela sua imagem. A procura por uma felicidade que é baseada em uma melhoria na própria imagem é incoerente. É procurar algo que não pode ser encontrado. A felicidade não pode ser palpada, como bens materiais. A felicidade é mutável e imprevisível.
É curioso, essa necessidade do ser humano de sempre precisar ter um objetivo; eu queria ser capaz de me acomodar. Mas acho que é a vontade de algo mais que move revoluções, inovações e descobertas. Se todos estacionássemos no momento de vida em que estamos, seria uma sociedade sem movimentação - como em Admirável Mundo Novo, em que as pessoas não têm aspirações.
Então, para finalizar, eu digo: eu, Bruna, estou em constante busca pela minha felicidade, e o meu conceito é completamente mutável, pois varia de acordo com a fase pela qual estou passando. Sou feliz, mas não sou acomodada; quero ser tudo que posso; quero mudar o mundo; quero ser filósofa; quero fazer as pessoas acordarem pra vida; e meu objetivo de vida está demarcado numa área que é o misto de tudo isso. Já parou pra pensar qual o seu ideal de uma vida feliz?

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

sobre uma sociedade (i)moral

Certo. Estava eu a estudar filosofia, quando me deparo com alguns conceitos um tanto interessantes.

"Sujeito moral é aquele que é consciente; dotado de vontade e autonomia; responsável e livre."
"Ter consciência moral é ter capacidade de escolher, ter autonomia, questionar valores e pensar antes de agir. Agir com integridade. Implica em entendermos nossas ações como intencionais e voluntárias; sermos responsáveis por nossas escolhas. Integridade é a coerência entre nossos valores e nosso comportamento."

Eu particularmente adorei o conceito de integridade dado no livro. Mas enfim.
Se ter consciência moral implica em questionar valores, e não aceitar sem refletir o que nos é dado, dito, e apresentado; então a mídia e a televisão seriam os maiores criadores de seres imorais do mundo. O J.N. apenas vomita as informações em nossos ouvidos, e, sem nos dar tempo para refletir (as reportagens mais importantes não têm comerciais logo depois), mudam de reportagem, para algo menos sério ou importante. Todos aceitam as verdades ditas pelo Bonner como universais. Ninguém desenvolve sua consciência moral.
Se ter consciência moral implica em entendermos nossas ações como intencionais e voluntárias; por um lado não poderíamos culpar a mídia ou o J.N. pela alienação das pessoas, pois existem meios de se conseguir algo mais próximo da verdade. Qualquer um pode assistir a mesma reportagem por vários lados diferentes, seja assistindo a outro jornal, seja lendo na internet. Se o sujeito hipoteticamente diz "eu sou alienado por culpa do J.N." (sim, hipoteticamente, pois ninguém sabe quando é alienado), ele estará sendo imoral? Eu acho que sim. Ele não é alienado por fatores externos, e sim por uma escolha dele. Hoje todos têm acesso a toda a informação do mundo. Ele escolheu assistir ao jornal e ser alienado, ele escolheu não se informar sobre o assunto. É responsabilidade dele. Ele age assim intencionalmente e voluntariamente.

Se ter consciência moral implica em agir com integridade...
Essa parte, para mim, é a mais difícil. Retomando o conceito: "Integridade é a coerência entre NOSSOS valores e NOSSO comportamento". Logo, integridade está diretamente relacionada a nossa autonomia, que Kant contrapõe à heteronomia - que é o indivíduo estar sujeito à vontade de terceiros ou de uma coletividade.
Já deu pra entender a que ponto eu quero chegar?
Resumindo todo o meu ponto de vista, digo que a nossa cidade não é autônoma. É heterônoma.
Posso contar nos dedos as pessoas que agem com autonomia, integridade, e que não se deixam levar por vontades ou imposições de terceiros (sejam eles os amigos, a mííííídia - adoro falar mal da mídia - ou quaisquer outros).
Se ser moral implica em agir com integridade que implica em ser autônomo...
A maioria das pessoas que eu conheço age com heteronomia, o contrário de autonomia; logo, essas pessoas estariam agindo imoralmente. É lógica. Aristotélica, aliás.

É... dá bastante trabalho pensar.

quarta-feira, 31 de março de 2010

carta aos robôs

Eu realmente te adoro. Adoro sua futilidade, adoro sua incapacidade de percepção do mundo de hoje, adoro a sua capacidade obtusa pra reconhecer a sua insignificância, adoro as coisas aculturadas que você lê, adoro os lugares com cheiro de vômito a que você vai, adoro as pessoas acéfalas com quem você fica, adoro as músicas mastigadas que você ouve, adoro sua falta de objetivos e desejos, adoro sua falta de admiração por sucesso profissional, adoro seu desprezo por notas altas, adoro seu desejo de ser como todos os outros, adoro seu conformismo, adoro o modo como você me olha como se eu fosse de outra galáxia, adoro sua roupa uniformizada, adoro a forma como você segue a moda, adoro como você aceita tudo o que te é dito e que te soa agradável como verdade absoluta.

É em pessoas como você, caro ser praticamente abiótico, que eu encontro forças pra nadar contra a corrente, pra me superar, estudar, não ter medo de ser eu mesma, pesquisar, me informar, desenvolver habilidades extra-curriculares, preocupar-me com meu futuro, não preocupar-me com o que os outros pensam. Afinal, por que razão eu deveria me preocupar com robôs uniformizados e sistematicamente programados pra repelir conteúdos diferentes? Seria um ato de extremo rebaixamento eu me sistemalizar, burguesalizar, modernizar, chame como quiser.

Dessistemalize-se.

sexta-feira, 5 de março de 2010

adolescentes.

Fiquei muito tempo escrevendo só contos aqui. Agora um texto de opinião de verdade.
(texto extremamente crítico. Se você ouve powerpop ou lê crepúsculo, nem leia)

Quando eu era menor, mais ou menos uma década atrás, eu via os adolescentes (jovens de 15 ou 16 anos) e sentia medo deles. As roupas, a música, os tênis, o jeito de falar, a rebeldia. Uma década atrás, adolescentes ainda tinham fama de revoltados, teimosos e cabeça-dura. No filme "A Pequena Sereia", o siri Sebastião, em certo momento, fala: "Adolescentes. Pensam que sabem de tudo". Não estou mentindo.

E o estilo, as músicas? Atualmente, os adolescentes usam roupas coloridas. Calças coloridas, BEM coloridas. Até as músicas são coloridas! Esse negócio que surgiu agora, "powerpop", que raios de música é isso? Aliás, é música? Música pra mim é aquilo que vem de um instrumento. Acho que agora computadores estão substituindo por completo os instrumentos. Trinta anos atrás, os adolescentes criavam o punk, o screamo. Criavam o grunge. Os mesmos adolescentes que berravam junto com Serj Tankian ou repetiam cada palavra do Zack de la Rocha hoje, no máximo, acompanham os 'tututu' das músicas que escutam.

E a preguiça de pensar? E a despreocupação com o futuro? Antigamente, quem era inteligente ou demonstrava ter um pouco a mais de cultura era invejado. Hoje é xingado. Alguém pode me explicar isso? Desde quando inteligência virou uma coisa ruim? Certo filósofo uma vez disse "Existe apenas um bem, o conhecimento, e um mal, a ignorância". Aparentemente hoje a frase se inverteu. Qualquer verdade é aceita. Qualquer fato visto em novela ou filme é automaticamente interpretado como ponto pacífico, e não existe dentro dos adolescentes hoje a vontade de pesquisar, de saber mais, de contestar, seja por curiosidade, seja por teimosia.

E os filmes? Nada além de romances água-com-açúcar (ou sangue, no caso de crepúsculo). Nada existencial. Nada realmente adolescente. Adolescência é uma fase de transição, de medos, de inseguranças, de formação da sua personalidade, da sua integridade e valores. Da sua formação como indivíduo. Seguindo esse raciocínio, os personagens de filmes como High School Musical e Twilight são crianças. Tudo bem que hoje não se fabricam filmes sérios voltados para adolescentes - a maioria é voltada para o público adulto. Mas isso não impede os adolescentes de procurarem por filmes mais interessantes, certo? Porém, creio que se alguém falar que viu um filme chamado "A Insustentável Leveza do Ser" ele nunca mais fará amigos.

Tendo isso como base, digo meu apelo: que volte a rebeldia adolescente. Sinto falta de outros rebeldes. Anarquistas. Teimosos e donos da verdade!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

aos 30

Eu estava passeando com meu marido e com minha filha de 5 anos quando passam por mim figuras dignas de atenção: um jovem casal de namorados. Minha filha parecia olhar curiosamente para o casal, que, por sua vez, parecia não notar o mundo ao seu redor.

Eu me lembro de quando tinha meus 15 anos, meu primeiro namorado. Primeiro e único, estou com ele até hoje. Quando eu tinha 15 e ele 16 anos éramos tão cheios de vida, felizes, despreocupados. Eu o amava tanto. Eu entendo esse casal de namorados andar como se não notasse nada nem ninguém, eu era igualzinha. É tão bom ser jovem. É tão bom ter vitalidade e bochechas rosadas 24 horas por dia.

- Mamãe, porque aqueles dois estão de mãos dadas? - minha filha perguntou.
- Porque eles são namorados, filha. Eles se amam e resolveram ficar juntos por causa disso - respondi assim. Nós duas e meu marido nos sentamos numa cafeteria próxima, e eu pedi um café com chantilly - minha filha adora chantilly.

É engraçado pensar naquilo... "Eu o amava muito". Eu ainda o amo, mas com certeza alguma coisa mudou... Nós crescemos, e acho que esquecemos como é amar incondicionalmente e inconsequentemente, de certa forma. Conforme crescemos a vida vai ficando mais difícil e severa, e nós somos forçados a pensar em outras coisas além do amor.

Por isso é tão bom ter 16 anos. Vendo aquele jovem casal, acho que me lembrei de como eu era aos meus 16. Peguei um pouco de chantilly com meus dedos e passei no nariz de meu marido. Ele olhou pra mim, riu, e vi em seus olhos a expressão de que tanto gostava quando éramos jovens. Como nós dois mudamos... Acho que assim é melhor. Precisamos crescer e amadurecer, acordar para a vida. Mas eu desejo tudo de bom para aquele jovem casal. Eles nunca vão se sentir assim de novo.

- Estou me sentindo velha - eu disse para meu marido.
- Você sempre vai ser aquela boba de 15 anos para mim. - Ele disse, com um sorriso. - Agora você tem mais celulite, só isso, mas eu ainda te amo.

Eu lhe dei um tapa mais não pude resistir ao sentir a risada vindo de dentro de mim.

Como na natureza nada se perde; tudo se transforma; o amor também não é perdido ou esquecido. Por ser algo natural de nós, humanos, o amor se transforma de acordo com nossa vida e nossas necessidades (e com as pessoas, também). Por isso existem diferentes formas de amor, mas não deixam de ser amor.

Meu marido pediu a conta, e fomos embora de lá.