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segunda-feira, 4 de junho de 2012

quero nascer, quero viver

Ouvir os pássaros cantar; eu quero nascer, quero viver.

Ela levava em sua mochila algumas poucas trocas de roupa, dois livros, um caderninho e música. Além de documentos, dinheiro e toda a tralha burocrática de que se necessita quando se viaja ao exterior, é claro. Mas ela não precisa de muito mais do que isso. O mais importante levava consigo, intocável - a vontade de fugir, que faria a viagem ser muito bem aproveitada.
Entre multidões estéreis, finalmente ele apareceu.
"Demorei?"
"Demorou"
"Mas pelo menos apareci"
"Em todos os sentidos"
Trocaram sorrisos. Ana e Caio se conheciam há pouco tempo, mas - e digo isso da forma mais clichê e piegas possível - identificaram-se um no outro logo no primeiro contato. Extemporaneidade e gênio difícil eram suas principais semelhanças. Digamos que, aprendendo a lidar um com o outro, aprenderam a lidar consigo mesmos - e poucas coisas são mais eficientes para se alcançar qualquer objetivo do que aprender a lidar consigo mesmo, aceitar-se, enxergar-se, conhecer-se.
Ana levantou-se e, ao lado de Caio, foi andando até a plataforma de embarque.
"Você tem certeza, Ana?"
"Por que as pessoas ficam me perguntando se eu tenho certeza ou não? Eu sei o que eu quero, e eu quero ir embora daqui, dar um tempo de tudo, sentir-me viva de novo, e se pra isso eu preciso ir até Paris é isso que eu vou fazer"
"Tá certo, então vamos"
"E você?"
"Eu o quê?"
"Tem certeza do que está fazendo?"
"Certeza do quê?"
"De que quer ir comigo"
"De tudo o que vem acontecendo comigo, uma das minhas únicas certezas é que eu quero estar com você"
"Hum, ok, certo. Boa resposta."
Ana suspirou. Engraçado isso, gostar de alguém.
Sentir-se viva de novo. Ana tinha dito isso quase sem pensar, mas analisando bem, era realmente este o problema: há tempos ela não se sentia viva; sentia-se apenas existente. Sim, pois entre viver e existir há uma grande distância filosófica e também prática. Viver exige muito mais coragem. Viver é fazer escolhas e assumir suas consequências. Viver é sentir. Viver é escolher seu próprio rumo (claro que dentro de certas limitações; ninguém é integralmente livre). Pois se nós não escolhermos nosso próprio rumo, quem o fará? A sociedade? Nossos pais? Nossos amigos? Se havia algo que tirava Ana de órbita era a sombra do pensamento de que ela não estava no controle de sua vida. Pobre menina idealista.
Podia ser idealista ideologicamente, mas no âmbito das relações pessoais as ideias tomavam outro rumo. Sua filosofia era de não esperar nada das pessoas -  nem atitudes boas, nem ruins. Ela simplesmente não esperava ser surpreendida por ninguém. Isso era, muitas vezes, ruim, pois fazia Ana subestimar indivíduos que acabam se mostrando muito, digamos, dignos de sua afeição. Mas, por outro lado, Ana preservou-se de muitas decepções agindo assim.
Já estavam procurando seus lugares no avião. Como se praxe, Ana sentara-se junto à janela, para poder, sem perturbar mais ninguém, olhar o quanto quisesse para o mar, o céu, a escuridão.
"Olha só", disse Caio, apontando para a tela de computador no assento da frente. "Frank Sinatra"
"Tá, mas quando estivermos chegando, vou colocar Piaf"
"Exatamente o que eu ia falar"
"Ia nada"
Caio bufou, e Ana riu.

A inexplicável sensação de estar sobrevoando o mar, e nada mais importar além do próprio ato de viajar. As paisagens vistas, as emoções sentidas, as reflexões e confabulações, e, é claro, o destino.
Porque viver é isso. Não se pode chegar ao destino final sem se ter aproveitado a viagem. Qual a vantagem de viajar de janelas fechadas, não enxergando mais nada, porque nada mais importa do que o final? Da mesma forma, por que viajar só por viajar, só para curtir a paisagem, sentir o sol no rosto e aproveitar a calma de não se ter compromisso nenhum até se chegar ao destino? O ato completo de viajar engloba tudo: aproveitar a viagem, não se deixar cegar por um só objetivo, permitindo-se olhar para os outros lados e ver inclusive outros destinos que poderia ser alcançados; mas não perder de foco o objetivo final - que, depois de uma viagem bem aproveitada, será infinitamente mais valorizado.
E isso, isso era o que estava faltando; viver pelo simples ato de viver - não por trabalhar, enriquecer, ter de se sustentar economicamente, apenas por viver, aproveitar a viagem.
O engraçado é que as pessoas não sabem viver. Quando não têm compromissos, perde-se a noção de vida. Domingos são o maior exemplo disso. O fenômeno do Ócio Dominical é justamente aquele pensar "não tenho que estudar, trabalhar, fazer contas, nada - o que eu faço comigo mesmo?", e perde-se a noção do quando parar, pensar e respirar fundo é bom. Ler um livro e saboreá-lo. Ouvir uma música e internalizá-la. Sentar na grama e perceber todo o organismo que o circunda.
Por isso Ana gostava de praias. Nada melhor do que sentar na areia e passar horas ouvindo o som do mar.

"Ei, acorda, nós chegamos"

(continua)

domingo, 3 de junho de 2012

anacronismo ambulante

Deixe-me ir, preciso andar; vou por aí a procurar... rir pra não chorar.

Ana estava sentada no chão, ao lado de uma mochila e uma bolsa pequenas, do aeroporto de Congonhas. Ela encarava as passagens recém-compradas e absurdamente caras para Paris. Ela não pensara racionalmente sobre o assunto; sabia que, se o fizesse, ela mudaria de ideia e voltaria para sua vida - e isso estava fora de questão.
Quem a visse de fora prontamente a consideraria uma menina mimada, insatisfeita com a própria insatisfação e inventando mágoa porque a própria vida nunca proporcionou-lhe nenhuma. Mas a verdade é que Ana era um anacronismo ambulante e tinha consciência de sua condição desde, bem, sempre. É ruim sentir-se extemporâneo, principalmente quando o próprio motivo de Ana sentir-se extemporânea é extemporâneo. Entende? Ana adorava pensar, e pensar nos torna tristes, e ninguém gosta de gente triste. Mas o pensar era tão intrínseco, tão inerente a ela; não tinha como combater as náuseas que constantemente a assolavam.
As pessoas passavam e a encaravam. Ela virava os olhos; já se acostumara a olhares curiosos de pessoas pequenas.
Paris. Por que Paris? Fora uma decisão quase subconsciente. Paris é história e filosofia em seu estado mais puro, é beleza, é lirismo, é tudo de que Ana precisava. Precisava dar um rumo para sua própria história, um sentido para seu próprio viver. Ah, sim. Isso também causaria estranhamento. "Por que isso, Ana?", as pessoas diriam. "Você já tem um apartamento, um estágio bem remunerado e um carro, de que mais precisa?". De muita coisa. Do essencial.
Cadê o Caio?
Seu celular não parava de vibrar. "Marina ligando". Recusar chamada. Hoje era a festa de aniversário surpresa de uma colega sua, e Ana tinha confirmado presença. Marina, a organizadora, provavelmente estava ligando para dar uma bronca em Ana, chamá-la de egoísta e mandá-la ir para a festa naquele instante. Não pelo fato de que Ana era querida, mas porque festas só têm graça se há vários convidados.
Colegas.
Ana tivera muitos colegas em sua vida. No colegial, na faculdade, no estágio e agora no curso preparatório. 22 anos, três escolas depois, quatro ambientes de socialização frequentados atualmente e nada mais do que dois amigos. Deprimente, certo? Sim. Insuportável? Não. Situação difícil de se encarar? Talvez. Mas Ana, depois de um tempo, e por mais melancólico que isso soe, aprendeu a ser um pouco mais autossuficiente, mesmo isso não preenchendo a exiguidade de não realmente ter alguns semelhantes com quem repartir suas misérias, abstrações e até júbilos, eventualmente.
O aeroporto estava impressionantemente movimentado para uma quarta-feira no meio de março, pensando bem. Passou um homem com a expressão tão triste que Ana teve vontade de abraçá-lo. Passou uma mãe de mãos dadas com o filho, já adulto, que tinha a expressão mista de felicidade, tristeza e antecipada saudade mais bonita do mundo. Passou um casal que com certeza estava saindo em lua-de-mel, julgando pelas suas expressões de que mais nada existia além deles e de suas passagens.
O celular vibrava de novo. Dessa vez era a mãe de Ana.
"Ana, você tem certeza?", a mãe repetia. "É claro que eu te dou apoio, só preciso de que você me dê certeza de que sabe o que está fazendo". Não, Ana não tinha certeza.

Quero assistir ao sol nascer, ver as águas dos rios correr...


(continua)

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A Náusea

Tema: Liberdade do ser e liberdade de ser: a responsabilidade de fazer escolhas


       Solidão, escolha e liberdade formam um dos tripés da existência. O homem percebe-se solitário ao dar-se conta de que deve fazer suas escolhas sozinho, justamente por ter liberdade de fazê-lo, e esse processo de percepção e de escolha gera sofrimento. A liberdade é angustiante.
     Para Sartre, o homem está condenado a ser livre - e nós o somos, forçosamente, mesmo que essa liberdade seja um tanto limitada por nosso momento histórico, por nosso meio e por nossa cultura. Isso devido ao fato de não nascermos prontos, com a essência definida (pois se isso fosse verdade, não teríamos responsabilidade por nossos atos). Ou seja, a existência precede a essência: primeiro vivemos para depois nos constituirmos como seres. Assim, nossas escolhas, e suas consequências, são nossa responsabilidade, justamente por termos tido a liberdade (novamente, mesmo que limitada) ao fazê-las - e isso proporciona a angústia, ou a náusea, como descreve em seu livro homônimo aquele existencialista.
     Se temos liberdade de escolha, deparamo-nos com a angústia de fazê-la. O processo incomoda não pela escolha em si, mas por suas consequências. Um exemplo disso é a opção pelo curso e pela faculdade: os jovens que, indecisos, escolhem suas carreiras orientados pelos testes vocacionais, podem culpar tais testes caso ocorra decepção pessoal.
     A liberdade do ser, além de levar à liberdade de escolha, também nos dá a liberdade de ser (o que quisermos). Porém, a nossa liberdade encontra uma barreira quando nos deparamos com o fato de que o outro também a possui - assim, se somos livres para, por exemplo, vestirmo-nos a nosso gosto, o outro também é livre para condenar nossas atitudes. Esse choque de ideias, intrínseco à vida em sociedade, gera angústia, porque temos a consciência de que ele é fruto da escolha que foi tomada por nós em primeiro lugar (de se ser o que se quer).
     Em suma: a liberdade do ser gera ambas, a liberdade de escolha e a liberdade de ser. As últimas são angustiantes por nos fazerem encarar as responsabilidades e as consequências de nossos atos e por nos mostrarem que somos quem comanda nossas vidas. Mas a liberdade é angustiante, principalmente, pelo fato de nos mostrar que estamos sozinhos em nossas escolhas - condenados à náusea filha da liberdade.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Solidão: perdas ou ganhos?

Este é uma dissertação que fiz na prova de redação do Einstein e é um dos textos meus de que eu mais gostei. Resolvi compartilhá-lo com vocês porque sei lá.

        Solidão é um termo complexo. Para uns, é sinônimo de infelicidade; para outros, é sinônimo de paz e liberdade - para mim, solidão é o estado indescritível de se estar solitário mas não sozinho, e de não aguentar mais ouvir os próprios pensamentos e necessitar dos pensamentos de outra pessoa. Solidão é ser, e esse estado traz inúmeras consequências para a (sobre)vivência do homem em sociedade. Solidão. Sobre o que ela fala mais alto: perdas ou ganhos?
       "O homem é um ser social". Esse aforismo contém a verdade por trás de todas as necessidades não-fisiológicas do homem. Logo, se há a necessidade de se estar em estado de socialização, a solidão é uma barreira para a felicidade. Se reclusão constante e ausência de qualquer relação afetiva - ou seja, se a misantropia fizesse o homem mais feliz, a solidão seria um ganho, e não existiriam famílias nem amizades, nem os próprios conceitos de amor e afeto, o que prova que a vivência em sociedade é inerente ao homem. A solidão, assim, seria uma perda para o homem, uma negação de sua própria natureza.
         Por outro lado, há indivíduos que encontram na solidão conforto e estabilidade - indivíduos que não se encaixam no meio ou no momento histórico em que se encontram, e que consideram a solidão como um ganho: pois é na solidão que se pode ser livre. Tomemos como exemplo Harry Heller, de Lobo da Estepe (Hermann Hesse), que constantemente encontra-se na dualidade homem x lobo - o que dificulta a convivência - e que encontra a paz (uma paz relativa) na solidão.
          Ainda falando de liberdade: "o homem está condenado a ser livre". A liberdade, então é uma libertação e ao mesmo tempo um aprisionamento, assim como a solidão. Nesse caso, a solidão seria ambos: perda e ganho - pois o homem quer ser livre, mas a sua liberdade acaba quando ele se sujeita a regras de convivência social. O que a solidão permite (a liberdade e, portanto - em termos - a felicidade) a socialização oferece (a felicidade).
       Levando em consideração os parágrafos anteriores e seus aforismos, pode-se concluir que a solidão, justamente por ser uma questão tão humana, é absolutamente antagônica, ou seja, traz tanto perdas quanto ganhos. "O homem é um ser social", "o homem está condenado a ser livre" e acrescento "é impossível ser feliz sozinho": qual das três frases fala mais alto, afinal? Nenhuma. A perda não anula o ganho e vice-versa, e o homem deve aprender a driblar essa dualidade tão intrínseca de sua própria natureza.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

loucura

- Ô Felipe...
- Que é?
- O que é ser louco?
- Que pergunta é essa, Lúcia? Louco é louco, ué. É quem não bate bem da cabeça.
- Tá, mas... o que é "não bater bem da cabeça"?
- Ah, menina, sei lá... é quando a pessoa acha que vive num mundo em que ela não vive. Ela vive uma realidade alternativa, que ela mesma montou.
- Mas então ela não sabe que ela é louca.
- É, acho que não.
- Então você pode muito bem ser louco, porque você não se considera louco.
- Ah Lucinha, não é tão simples assim...
- Como não? Se eu quiser ser Édith Piaf, eu vou colocar um vestido preto e vou ser feliz assim. E vou acreditar que sou uma cantora francesa. E você não vai acreditar nem mim, mas quem é você pra dizer que eu NÃO sou Édith Piaf?
- Mas...
- Se o cara que você diz que é louco está feliz, então por que ele é chamado de louco? Loucura não é saber que se é infeliz e continuar insistindo nisso? Não querer mudar de vida e conformar-se com a realidade em que se vive?
- Ah Lucinha, você tá pensando muito filosoficamente pro meu gosto...
- Pensa bem, Fê! Se vivemos em duas realidades diferentes, como eu posso opinar na sua? Quero dizer, é lógico que sua realidade vai parecer errada pra mim, e vice-versa, mas... entende?
- É, sabe, acho que faz sentido... são formas diferentes de se ver o mundo...
- Na minha opinião, louco é aquele que se sujeita à realidade dos outros e que não vive a realidade em que acredita viver. Entende?
- Mas então, Lucinha, como é possível viver em sintonia com qualquer pessoa?
- Enxergando e aceitando a loucura um do outro... mas principalmente, inserindo o outro na sua própria realidade...
- Certo... mas como é possível definir loucura sem se definir a razão? É possível uma pessoa ser inteiramente louca?
- Não, eu vejo a coisa de forma Machadiana... de que as pessoas têm um núcleo de loucura... alguns são maiores, outros menores. Então todos temos nossos momentos de... sanidade, por assim dizer, e é o que nos permite viver em sociedade. Expressamos nossa loucura quando fazemos o que queremos fazer.
- Lucinha...
- Que foi?
- Você tá muito louca.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Day 5 — Your dreams

Oi, sonhos.
Vocês me dão muito trabalho, sabe... vocês vão longe, longe demais, tão longe a ponto de eu perdê-los de vista e desistir pra sempre de reencontrá-los... eu só queria que vocês se definissem, que ficassem aqui perto de mim e perto do chão, e que parassem de mudar tanto de tonalidade e intensidade. É difícil escolher o que eu quero pra mim, pra minha vida e pra minha carreira se vocês não se definem também, entendem.
É claro que o que eu mais queria era poder seguir todos, mas alguns de vocês estão tão altos que minhas tentativas de segui-los acabaria na cena ridícula de uma menina sonsa pulando em vão pra tentar alcançar algo que só se distancia dela. Miserável. Então, olhem, eu fico realmente triste e ter de lhes dizer isso, mas eu só posso ficar com um por vez; o resto de vocês deverá ficar numa prateleira, quietos, até que eu tenha capacidade e força suficientes para realizá-los. Eu sei, isso é triste, e eu, de todas as pessoas no mundo, sou a que mais quer realizar todos de uma vez, conseguir tudo de uma vez, com certo prazo, aliás. Mas era preciso - é preciso - tomar uma boa dose de Realidade de vez em quando (não sempre, não todos os dias, pois corre-se o risco de a vida se tornar chata, monótona e insuportável).
Alguns de vocês foram abandonados há tempos, alguns são novos, alguns nasceram num dia e morreram no dia seguinte, e são poucos que sobreviveram/resistiram a todos os tipos de provações e decepções que eu já vivi. Alguns de vocês são extremamente realistas, alguns são vergonhosamente materialistas, alguns são ridiculamente adolescentes e alguns são tão corajosos e ambiciosos que fazem-me refletir de onde eles saíram. Alguns de vocês são expectativas e planos que moldam uma futura Bruna, um futuro marido, uma futura família, uma futura casa, um futuro emprego... e alguns de vocês vão mais longe e querem que eu entre para a história, de alguma forma (boa)...
Mas o que eu realmente quero dizer é: obrigada por existirem. Obrigada por darem sentido à minha existência; sem vocês eu provavelmente estaria num poço de descrença e melancolia. Por mais que alguns de vocês me façam perceber o quão insignificante eu sou na esfera macro - mundial -, outros me mostram que a esfera micro também merece atenção, e que toda contribuição para a melhoria dessa esfera é válida. Muitos de vocês me fizeram questionar acerca dos meus valores e da minha  moral; e alguns dos meus momentos de maior amadurecimento são quando eu tenho de repensar meus sonhos e metas.
Novamente, obrigada. De verdade. E por favor, não me abandonem nunca, pois vocês fazem grande parte de quem eu sou.
Bruna.

domingo, 1 de janeiro de 2012

day 30: your reflection in the mirror

Como posso começar?

Cara Bruna,

  Eu tenho muitas coisas para falar-lhe. Não sei por qual começar. Primeiramente, da última vez que a vi você parecia tão abatida, tão desesperançosa, que com muito esforço contive meu ímpeto de abraçá-la. Eu perguntaria o que aconteceu, mas sei que você simplesmente responderia "a vida; a vida é que aconteceu".
  Sei que temos muitos assuntos mal-resolvidos, grande parte de nossos problemas caíram em oblívio, o que permaneceu foi aquele sorriso forçado e a frase dita em um semi-sussurro "está tudo bem". Sei bem que você - assim como eu - é uma criatura absurdamente obstinada, soberba, mas isso tem limite. Veja, todos temos problemas e é perfeitamente aceitável - e saudável - assumi-los e tomar uma atitude para resolvê-los.       Sim, eu sei que seria infinitamente mais fácil esconder-se por trás de uma máscara sociofóbica e antissocial, mas no fundo você é uma alma em agonia desmanchando-se no frio suplicando para que alguém a cubra com seu cobertor de afeto e atenção. Também sei que é mais fácil colocar a culpa na sociedade, nos valores sujos e corrompidos, no vazio niilista e por vezes dadaísta presente nas pessoas, no sistema massacrante capitalista, na mídia e no Jornal Nacional que desinforma... mas este é o comportamento padrão do ser humano: não admitir seus erros e colocar a culpa em outro alguém. Você acha que age muito diferentemente? Pois não age. Em vez de encarar a dor da difícil tentativa (pois ela pode levar a uma mais dolorosa ainda rejeição), você se esconde na conveniente indiferença. O quão patético é isso, Bruna?!
  Olha, perdão. Eu sei que não sou a pessoa mais amável do mundo, também tenho minhas preguiças sociais, também tenho alergia a futilidade e a ignorância, mas pra isso existe homeopatia. A homeopatia da internet, da psicoterapia, dos professores. Algumas horas com um desses pode servir de tratamento por até uma semana, acredite. E quanto ao borbulhar de ideias acontecendo na sua cabecinha e que você insiste em condensar e negar... deixe-o evaporar. Deixe-o borbulhar, esparramar-se no chão. É uma ótima prevenção contra o inevitável enlouquecimento. Eu tenho dó de você, mas não um dó ruim e sarcástico - um dó sincero, daqueles que fazem todo o ar sair dos seus pulmões só de você pensar no sofrimento da pessoa. E eu realmente quero que você melhore, que você mude, que você consiga tornar esse 2012 pelo menos um pouco melhor do que os dois anos que passaram, porque olha... dentre todas as pessoas que eu conheço, você é uma das poucas que merece, que realmente merece pelo menos um vislumbre do que significa ser feliz. E não digo isso porque, bem, você é meu reflexo, mas porque eu sei de tudo por que você passou, o quanto você é forte, e, bem, isso fez-me gostar bastante de você. Ao mesmo tempo que a acho incrivelmente estúpida, miserável e infeliz por você ser uma peça de quebra-cabeça que não sei encaixa em lugar nenhum, admiro-a justamente por isso.
  Então, enfim...
  Por favor. Mais surrealismo e menos barroco na sua vida.
Com todo o respeito,
Bruna S.F.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

sobre meu doppelgänger

Sabe aquela premissa de que se todos são especiais, ninguém o é?
Eu parti da premissa de que se há várias possibilidades de sentido para a minha vida e eu não consigo escolher é porque minha vida não tem sentido. Entendem? Eu enxergo tantas possibilidades, tantos futuros, tanto crescimento (tanto intelectual quanto humano) que me sinto intimidada por todas essas possíveis Brunas, muito melhores do que a Bruna atual, indecisa e irracionalmente infeliz.
Essa imagem de uma Bruna mais evoluída, mais sábia, mais culta, mais humana, mais tudo; essa imagem me assombra, como se fosse um doppelgänger que constantemente me segue e está comigo toda vez que devo fazer uma decisão. É como se eu me olhasse no espelho me visse em duas: o que eu sou, e essa imagem eu tendo a deturpar ao máximo possível, e esse doppelgänger, essa assombração (porque é isso que essa imagem faz: me assombra! em vez de me animar, me põe pra baixo; em vez de eu ficar feliz com todas as minhas possibilidades, eu me deixo deprimir por ter medo de fazer a decisão não errada, mas a menos certa).
E, tendo em vista a minha nova filosofia prática de tentar incorporar a essência do espírito de Poliana, tentei olhar as coisas de um outro ângulo. Eu posso não ter decidido o que eu quero fazer ou qual das inúmeras possibilidades eu vou seguir, mas isso não esvazia minha vida de sentido - na verdade, o meu objetivo de vida é justamente escolher qual sentido minha vida terá. Pois eu não acredito que a vida tenha apenas um sentido, eu acho que esse sentido muda de acordo com seu momento e suas vontades, por isso, a minha maior aspiração agora é descobrir o que eu posso fazer de melhor e como eu posso me tornar útil para alguém ou para o mundo.

[Um sentido para a vida não precisa ser algo grande, algo macro. Não é porque a pessoa não é aspirante a revolucionária que ela é corroída pelo vazio de sentido. A incredulidade no próprio sentido também não tira o sentido das coisas: o niilista pode achar que suas ações são desprovidas de um sentido, mas as pessoas ao seu redor podem discordar. O logos se encontra também em ações pequenas, como em fazer o bem ao próximo, pois quando você o faz, se sente bem com você e sente que fez sua parte. O sentido pode se encontrar em dedicar-se a uma causa, ou mesmo dedicar-se a alguém - à pessoa amada, à família, ou a você mesmo.]

Toda essa epifania teve muitos agravantes e catalizadores, e após uma pseudo-reclusão (sim, pseudo, pois a minha ideia de reclusão é ficar dias sem falar com ninguém para garantir que sua linha de raciocínio não será interrompida, mas como isso não é possível no momento, tentei fazer o máximo possível), decidi olhar as coisas do alto da montanha e apagar a infelicidade e miserabilidade que estava contida dentro de problemas muito pequenos e insignificantes comparados com os problemas que existem no mundo - um mundo muito mais real do que o meu, uma burguesinha de classe média alta metida a besta.

Meu objetivo agora é tentar ser a melhor versão possível do que eu sou; aprimorar meu ser; lapidar meu ente; aprender a fazer boas decisões e não me deixar derrubar por questões demasiadamente racionais pois, cá entre nós, o ser humano não é tão racional quanto julga ser.
E em vez de me deixar deprimir pela constante imagem da doppelgänger que me invade, vou emoldurá-la e pendurá-la na minha parede de possibilidades.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

miserabilidade

Não sou egoísta, não acho que sou deus, não sou prepotente nem me acho onipotente, mas às vezes você chega a um ponto que se pergunta o que você está fazendo aqui, agora.
É, não é? Sabe, você venceu a corrida, passou na frente de outros bilhões de metades de pessoas. Entende isso? Se outro espermatozoide tivesse passando na sua frente, ele poderia estar aqui sendo mais útil do que você. Ele poderia estar vivendo menos miseravelmente. Ele poderia ser o cara que viria a descobrir a cura do câncer, quem sabe? Todos nós deveríamos estar honrando a memória de todos esses projetos de pessoas dos quais tiramos a chance de existir.
E ainda assim, você vive a sua vida miserável, dia após dia, refeição após refeição. Você não tenta ser o melhor que pode, não tenta aprimorar suas habilidades e seu intelecto, não lapida o seu ente, você simplesmente ignora a possibilidade de que outra pessoa, no seu lugar, poderia estar fazendo coisas maiores, fantásticas! Mas ah! isso não te impede de apenas ser. Claro, não é? às vezes a bebedeira nos afeta, já dizia Drummond que essa lua, esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo, e vez ou outra temos aquela crise, aquele momento de consciência, aquela epifania momentânea e evanescente: sou eu quem estou aqui. Será que estou aproveitando ao máximo?
Mas enquanto alguns realmente pensam a respeito de dar algum valor, algum sentido à sua vida, alguns, como eu, sua miserável narradora, decidem que não há valor nem sentido em suas vidas. Alguns, como eu, chegam forçosamente à terrível conclusão de que qualquer um estaria fazendo melhor proveito do que se tem, em quaisquer condições, com quaisquer obstáculos. Triste, não? Desanimador. Claro que não pra mim, eu me conformei com essa ideia há tempos, e isso sim é o triste. Eu não deveria ter me conformado! Eu deveria ter tentado transformar essa realidade! Mas depois de travar tantas batalhas, contra mim e contra o mundo, depois de tantos ferimentos de guerra, você meio que desiste por exaustão, sabe? Depois de você tentar provar (ou iludir a?) você mesmo que sua vida tem sim um objetivo ou um sentido, vem o mundo e desprova, ou te dá motivos pra desistir, ou te faz sentir a pessoa mais fraca do mundo.
E nossa! acho que existem poucos sentimentos piores do que o vazio de sentido. Pois o vazio de sentido engloba muitos dos piores sentimentos, como o tédio, e, especialmente, o tédio dominical. Pois, sabe, a maioria dos problemas você consegue resolver com muita introspecção e batalha, porque muitos são essencialmente internos, mas o vazio existencial vem também de fora, vem do sentimento de inutilidade que é inexoravelmente produto da sua situação com sua reação a tal, e olha, é um negócio complicado de se resolver. Dá-me preguiça, muita preguiça. Dá-me medo de, no final das contas, não encontrar nada, e simplesmente descobrir (ou redescobrir, ou reafirmar) que, realmente, olha, esse negócio de uma vida com um sentido não é pra ti, não, amiga.
E olhar ao redor não podia ser mais doloroso, ver que todos têm suas ambições, ver seus personagens favoritos sucedendo no que queriam, ver quem não tinha mérito conseguir conquistar seus objetivos e você ali, observando as ondas irem e voltarem, numa estaticidade que enlouqueceria até os mais sedentários, mas que é tudo que você pode fazer!
Você não é especial. Você não é especial, você não é especial. Por mais que o capitalismo queira enfiar essas abobrinhas na sua cabeça, não se esqueça: você - não é - especial.
Doloroso, não? Essa é a fonte da minha miserabilidade. Mas fazer o quê?

domingo, 24 de julho de 2011

solidão

Vejo-os passando. Ouço-os conversando. Não os julgo, apenas escuto. Não opino. Entendo-os perfeitamente, mas não espero ser compreendida. Faço um comentário ou outro, irônico, e provoco risadas. Tento introduzir-me um pouco mais à conversa, mas parece que fui além do que estava sendo discutido. Recebo uma resposta cortante e me recluso novamente. Quando tempo é necessário observar até se aprender?
Eu não era nova ali, já tinha passado por isso inúmeras vezes, mas devo admitir que nunca vou aprender a me comportar dentro dos padrões e das necessidades desse grupo. Sim, é verdade que estou nesse trabalho há alguns poucos anos - quatro, para ser mais exata -, já participei de muitos ciclos e até meus empregadores já aceitaram que eu não me encaixarei perfeitamente em nenhum, mas eu continuo tentando, por ser masoquista, por ser idiota.
Eu cheguei a tentar pedir demissão, ou para ser transferida para outra área, mas meus empregadores sempre dizem que eu posso, que eu não devo negar minha habilidade para trabalhar naquela área, então os próprios me recusaram a mudança. E eu não pude fazer nada além de concordar e sair de cabeça baixa.
Mas eu não sei se sou útil. Provavelmente não. Provavelmente só estou ali para fazer volume. É fato que em trabalhos e projetos individuais eu sempre consigo impressionar meus chefes com minhas ideias, mas quando se trata de fazer uma reunião e chegar à unanimidade, minhas atitudes parecem ser todas falhas. Olham para mim como se eu fosse louca, como se eu enxergasse coisas que não existem. Pobres coitados. Eu realmente não enxergo o óbvio, porque sempre enxergo além dele! E eu me pergunto até quando, até quando essas almas se restringirão ao óbvio, ao palpável, ao fácil, ao conveniente e ao confortável? Toda grande mudança traz grandes benefícios morais, mas é tão difícil de ser fazer, precisa-se sair da zona de conforto. Sou louca por sair da zona de conforto? Sou anormal. Eu sei que sou anormal, pois o conceito de "normal" é dado pela maioria, e eu não estou nessa maioria. Mas terei de trabalhar o resto da minha vida com essa maioria, e depois de um tempo fica cansativo ser a anormal tantas vezes.
Uma vez sentei com meus empregadores e falei com eles sinceramente. De ser humano para ser humano. Perguntei a eles o porquê de toda essa tortura. Informei-os do meu vazio existencial, da minha solidão, do meu baixo moral, do meu cansaço e de uma possível desistência do melhoramento de minhas habilidades, sempre possível naquela empresa. Meus empregadores encararam-me com um misto de preocupação e compreensão.
"Sabemos por que razão você está triste", eles me disseram. "Você sente que não tem companhia". Lancei-lhes um olhar irônico. "Pelos motivos errados. Você tem de parar de exigir das pessoas o que elas não podem dar. Pare de ficar esperando, assim, sempre será surpresa. Nós sabemos que sua solidão não é física. Mas de qualquer forma, nós vamos mostrar-lhe a companhia perfeita para quando sentir-se sozinha".

E um espelho foi colocado na minha frente. "A melhor cura para a sua solidão de ideias é a introspecção".

segunda-feira, 18 de julho de 2011

trânsito

"E agora, notícias do trânsito comigo, Tatiana! Hoje os marronzinhos estão concentrados no fim da Presidente Vargas, em frente ao Ribeirão Shopping, na Independência, próximo à FAAP e na Francisco Junqueira, próximo ao Epicurista. O trânsito encontra-se pesado na rotatória da Fiusa com a Independência, e, como sempre, procure evitar a Nove de Julho na hora do rush, entre seis e sete horas da noite. A avenida Caramuru está com alguns trechos interditados com a operação Tapa-Buraco, antes tarde do que nunca, e um acidente aconteceu na Garibaldi com a Campos Salles, deixando o trânsito muito lento num raio de três quarteirões. Esses foram os avisos do trânsito, comigo, Tatiana."

E o rádio continuava tocando, sem que Amanda desse muita atenção. Aquele calor saariano, a umidade relativa do ar alcançando índices desérticos e a previsão do tempo com suas notícias, com o perdão do pleonasmo, previsíveis. Nada de chuva até que a tal massa Polar chegasse ao sudeste brasileiro. Pois é. Mais um dia torturante na cidade de Ribeirão Preto.
Porque o aviso chegou tarde demais, Amanda encontrou-se parada a um quarteirão do acidente, no qual uma motocicleta (obviamente), um pedestre e um carro (que ultrapassara o sinal vermelho) casualmente encontraram-se. Enquanto bombeiros tentavam tirar o pedestre e o motorista das ferrugens do (que tinha sobrado do) carro, um policial tentava assumir o papel do sinaleiro. Sem muito sucesso, pois era uma hora da tarde e os motoristas só pensavam no prato de almoço que já deveriam estar comendo.
Ah, desligou o condicionador de ar, abriu os vidros e desligou o motor do carro. Quanta agradabilidade! Um indivíduo beócio na caminhonete ao lado do veículo de Amanda estava com os vidros abertos escutando um pagode de quinta no volume máximo (porque além de ficar surdo, queria ensurdecer os outros também). Duas mulheres brigavam estridentemente no carro atrás, e um homem no veículo à sua diagonal parecia estar exausto com a situação toda.
E isso era só mais um dia. A situação estava apenas um pouco mais caótica do que já costumava ser. A diferença para o trânsito do dia-a-dia eram os corpos queimados no asfalto, a ambulância impedindo a passagem dos pedestres (que, sem ter para onde ir, costuravam por entre os carros) e algumas buzinas a mais. Nada de muito extraordinário.
Nada de muito extraordinário? Três pessoas correndo sério risco de vida, e não era nada de extraordinário? Bom, Amanda foi condicionada a ter essa reação - na verdade, a ter essa falta de reação - em situações assim. Todos os dias somos bombardeados com notícias regurgitadas de acidentes e catástrofes e não cai a ficha de que pessoas é que morreram. Vidas foram tiradas. Mas nos foi imposto de que são só números. Alguns números a mais. Alguns corpos a mais no solo putrefato do cemitério, alguns números a menos nas estatísticas da população mundial - que logo são substituídos pelos crescentes índices de natalidade de países miseráveis.
Triste isso, não? Essa desumanização das pessoas. E isso acontece todos os dias, sem que a maioria de nós perceba. Desumanização, despersonalização, desvalorização - quase um esvaziamento da essência humana, sim?, pois é algo muito humano a necessidade de se encontrar e de formar sua personalidade. A desvalorização de vidas é uma negação do próprio instinto animal de sentir compaixão por seus próximos e semelhantes. Brutalidade! Crueldade!
Mas puta que te pariu, pagodeiro! Faça um favor ao mundo e feche os vidros!
Algum sinal de movimento? Acho que não. Amanda olha pelo retrovisor. A fila de carros estendia-se por 5 quarteirões. Por que razão o policial não desiste de ser sinaleiro e vai dar sinal cinco quarteirões para trás, indicando para as pessoas pegarem outro caminho? Santa incompetência brasileira. Santa incompetência civil!
Impressão ou o carro da frente se moveu? Sim! Amanda liga o carro e aproveita a oportunidade para sair daquele inferno, inferno de reflexões, de remorso, de pesar em que ela tinha estacionado ao dar-se conta da situação em que se encontrava. Deu a partida e acelerou para fora de lá.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Tenho muito medo de ser bem-resolvida com minhas questões e dores.
Tenho muito medo de, uma vez resolvida, perder toda a minha inspiração pra escrever, perder meus objetos de estudo e reflexão, e me tornar só mais um ser despreocupado e estupidamente feliz andando por aí.
Não que eu tenha medo de ser feliz. O objetivo, o sentido da minha vida é a busca pela felicidade, não em um sentido hedonista, mas no sentido de fazer algo que me preencha. E acredito que só é possível descobrir aquilo de que você gosta quando se tem bem definido tudo de que você não gosta. Só se pode saber o que quer quando se sabe o que não quer. Mas eu tenho medo de definir tudo, definir exatamente o que eu quero e o que eu não quero, porque e aí?, o que eu faço depois? Enquanto estou cercada pela indefinição, ainda tenho muitos leques de possibilidades, muitas alternativas, muitas reflexões para fazer, tenho muito o que discutir e argumentar. Mas a graça da dialética é a troca de ideias e informações, e ter uma opinião já formada e bem resolvida acerca de tudo torna o ato sem graça para os dois lados.
Outro dia assisti a um episódio de House em que justamente essa questão é trabalhada. House tem medo de fazer terapia, de resolver seus problemas e de se livrar da dor na perna porque acha que, feito isso, ele perderia seu diferencial como médico. Eu também sinto que, sem minhas dores, eu poderia perder minha habilidade de reflexão. Eu fiquei com a impressão, depois de começar a fazer terapia, que eu não tinha mais sobre o que escrever. Visto que a escrita é um dos meus únicos talentos que eu mesma reconheço e que até aprecio, deparei-me com uma problemática.
O sofrimento nos faz, nos obriga a crescer. Quando não há mais sofrimento, como se cresce? Não que eu acredite que é possível viver sem sofrimento - não é, mas quando muda-se as formas de lidar com tal, os resultados também mudam.

Inutilidade é o pior sentimento do mundo.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

união

Silêncio. Não do tipo constrangedor, nem do tipo questionador, nem do tipo ensurdecedor. Só o puro silêncio, sem nenhuma interpretação, podendo ser analisado como uma pausa entre notas.
- Você não vai me perguntar mais nada?
- Não. Não preciso saber mais nada pra concluir que você é absurdamente perturbada. Aliás, eu comecei a suspeitar disso quando vi você entrando. Apesar do seu olhar penetrante e da sua pose ferina, algumas coisas te denunciam, como suas unhas por fazer, seus sapatos gastos e seu cabelo por pintar. Se você vivesse inteiramente por essa vida, sua apresentação estaria impecável.
Luana surpreendeu-se mais uma vez. Torceu a barra do seu robe com as mãos e mordeu a língua.
- Você tem alguma ideia acerca do motivo de isso acontecer com você? Quero dizer, essa quebra dentro de você...
- O que é você? Um psicanalista? Eu não sei e não quero saber.
Victor olhou para baixo, compreensivamente. Aquele ataque fora só uma forma de defesa.
- Sabe, minha mulher diz que eu sou um babuíno que não consegue controlar seus impulsos sexuais. Não sei por que ela começou a falar isso, nunca dei motivos para tal, mas uma mulher infeliz consegue achar impurezas em qualquer lugar, e de certa forma...
Victor ia falando, mas Luana sentia como se tivesse sido sugada para outra dimensão. Uma dor de cabeça insuportável e um bombardeio de memórias haviam tomado conta de sua mente. Ela queria gritar, queria correr, jogar-se de cima do prédio, bater sua cabeça contra a parede para fazer tudo aquilo parar, mas seu corpo só respondeu àquilo com um súbito desmaio.
Uma criança sorrindo, de rosto conhecido - um dos alunos de Luana. Um homem chegando - Victor. Os dois aproximando-se. Eram filho e pai. A criança corre, parecia não querer ficar na presença do pai, ela quer ser livre, fazer o que quiser. O pai coloca as mãos no rosto, visivelmente transtornado pelas atitudes do filho, refletindo se não é melhor deixá-lo fugir, vira as costas e começa a ir embora. Mas algo os impede. A criança tropeça e cai, o pai, instintivamente ao ouvir o barulho da queda, vira o rosto e o vê, sangrando, chorando, e corre em sua ajuda.
Quando estavam na iminência de darem-se as mãos, a cena muda.
A sala onde Luana dava aula. Em vez das crianças, lá estavam babuínos, e a professora usava vermelho e um decote que mostrava mais do que deveria. Ela dava aula. Um dos babuínos começa a comportar-se mal.
Quando Luana ia reprimi-lo, a cena muda.
A sala vermelha. Luana de branco, óculos e cabelos presos num rabo-de-cavalo, sentada numa poltrona, rodeada por prostitutas, ensinando-as história. Uma das moças levanta a mão para fazer uma pergunta.
Quando Luana ia atendê-la, ela acorda.

No hospital.

O barulho esperançoso do monitor que mostrava sua frequência cardíaca foi ficando cada vez mais alto, sons de pessoas andando e conversando ao longe foram ficando mais distintos, pouco a pouco ela começou a ouvir os barulhos da cidade até que, por fim, abriu os olhos.
Viu uma enfermeira se aproximando.
- Ah, você acordou! Antes do previsto, que bom! Achávamos que você só ia acordar daqui uns três ou quatro meses.
- O quê? Faz quanto tempo que eu estou aqui?
- Dois meses. Pelo que sei, você sofreu grande estresse e seu cérebro meio que entrou em curto-circuito. Você se desligou, garota, entrou em coma. Que bom que foi socorrida a tempo, o seu marido estava super preocupado...
- Quem?
- Seu marido, Victor. Foi ele quem te trouxe aqui, lembra?
- Meu... marido?
Victor entra na sala, com uma expressão ansiosa e cabelos amassados de quem tinha acabado de acordar.
- Fui bipado, me disseram que estavam monitorando a atividade cerebral e que ela estava se normalizando e...
Os olhos de Victor encontraram os de Luana. Ele prendeu sua respiração um instante.
- Minha garota, você acordou!, ele saiu tropeçando e caiu aos pés da maca de Luana, segurando sua mão. Você se lembra do que aconteceu?
Luana acenou negativamente com a cabeça.
- Não tem importância, olha, olha quem veio aqui te visitar... Olha, Tiago, a mamãe acordou!
Um menino de aproximadamente 6 anos foi entrando timidamente no quarto. Cabelos louros, olhos cor-de-mel, suas mãozinhas torcendo a barra da camiseta.
- Mamãe, você dormiu tanto tempo...

Ao ver esse rosto, ao ver o rosto de Tiago e olhar para os olhos cor-de-mel de Victor, tudo atingiu Luana de novo. Ela lembrou-se de conhecer Victor na faculdade e casar-se com ele alguns anos depois, de começar sua carreira de professora, de ter um filho, de começar a ter lapsos momentâneos e perda de memória recente, de ir a um psiquiatra que diagnosticou-a com um certo transtorno de personalidade, lembrou-se de começar a surtar com sua vida perfeita com Victor, de dar aulas para seu próprio filho, de começar a irritar-se com nada, de começar a sair a noite, de arrumar um escape para toda sua bilateralidade, de Victor apoiá-la e encontrar-se com essa outra personalidade e ajudá-la a se recuperar... Tudo isso atingiu-a em alguns milésimos de segundo, mas, dessa vez, não causou um desmaio.

- Você está bem, meu amor?, a voz de Victor a trouxe de volta.
- Estou, sim... acho que agora estou bem.

Tiago sorriu e sentou-se no pé da maca de Luana.
- Senti sua falta, mamãe.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Victor

- Victor?, Luana perguntou, avançando a passos largos e lentos na direção do homem.
- Isso não importa, sim?, foi-lhe a resposta.
- Meu querido; ia dizendo com um sorriso malicioso; eu preciso saber que nome gritar.
O homem parecia não estar ouvindo, ocupava-se em examinar o corpo de Luana enquanto afrouxava a gravata e abria os botões da manga da camisa.
Aquele quarto. Era bem aconchegante e arrumado quando considerada sua função. Uma cama grande e com roupas de cama muito bonitas, cortinas luxuosas, uma grande janela com uma vista muito bonita apesar de ser só do primeiro andar e um espelho grande e bonito.
Sim, um espelho. E esse especialmente não era no teto - era um espelho pequeno, daqueles que só refletem seu busto, e ficava ao lado da janela. Qual o propósito daquilo?
Quartos como esses não deviam ter espelhos. As moças que por ali passam têm sentimentos confusos e deturpações de mais em sua personalidades para conseguirem aproveitar do prazer de olhar-se no espelho e sorrir ao ver sua própria imagem. Os homens que por ali passavam também abaixavam o olhar ao observarem a expressão fria e vazia do reflexo encarando-os. Resumindo, um lugar como aquele exigia uma venda para os olhos, não um objeto que induz a reflexões acerca de sua existência.
Luana sentou-se na cama e indicou com os olhos para o homem segui-la.
- Não, eu não quero sexo, disse Victor. Só quero fumar e olhar livremente para uma mulher. Sabe, não posso fumar dentro de casa e minha esposa me sufoca com tanta insegurança.
Afrouxou novamente a gravata. Acendeu um cigarro, aproximou-se dela e soltou a fumaça em seu rosto. Uma expressão sarcástica e um tanto surpresa espalhou-se pelos olhos de Victor.
- Você parece decepcionada.
- Você parece louco. Ainda vai me pagar, certo?
- Sim, madame. Como quiseres.
Apesar de ter pronunciado as palavras "louco" e "pagar" com sua característica firmeza, Luana não parecia convicta de como deveria se comportar naquela situação. Mais fácil lidar com homens neandertais e sedentos por sexo do que um que, de tão perdido, precisou procurar uma prostituta para sentir-se mais... ele mesmo. O que aquilo queria dizer? Ele não precisou ceder a seus "instintos" para livrar-se da abstinência e da claustrofobia causada pela esposa. Isso mexeu com nossa protagonista.
- Você está casado há quanto tempo?
- Dez anos. Sempre fui feliz e fiel. Acho que por isso ela começou a me sufocar de insegurança. Mulheres não gostam quando tudo está perfeito, sim? Elas têm de arrumar algum problema para a situação parecer mais real, como se desgraça fosse um sintoma da realidade. Victor riu e apagou o cigarro no dorso da mão. Luana cobriu-se com seu robe de seda cor-de-vinho pois sentiu vergonha de sua natureza ao encarar Victor. Ele parecia tão triste, e conformado, e adestrado, e ainda assim, encontrava formas razoavelmente saudáveis para liberar suas angústias.
- Então, isso é o que você faz da vida?
-... desculpe-me?
- Isso mesmo. Você é só prostituta ou isso é um tipo de segunda vida?
- Não é uma segunda vida, porque uma segunda vida significa que há uma outra vida, vivida pela mesma pessoa, e o que acontece comigo não é isso.
Victor parecia intrigado.
- O que é, então?
- Eu vivo uma vida só, e a outra parte de mim vive outra. Não tenho lembranças racionais nem sensitivas, só sei que, em certo momento, o meu eu de agora se desliga.
- E você sempre foi assim?
- Eu não lembro.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

impulsos

Um feixe de luz entrando através da cortina de camurça e vermelho-sangue e pousando numa pele macia e rosada. Um ambiente fétido, repugnante, medíocre, em oposição a delicadas mãos. Um homem indo embora deixando dinheiro dentro dos sapatos da moça, em oposição à ternura e inocência com que ela se encontrava encolhida em posição fetal na cama. Essa era Luana.
Franziu as sobrancelhas ao perceber que já era dia. Levantou-se preguiçosa e relutantemente, em movimentos lentos e calmos, até que - oito e meia? - já? - vestiu-se - penteou-se - onde está o dinheiro? - ele deve ter pago a diária - saiu e deixou aquele lugar para trás.
Sim, finalmente, chegou a sua casa. Foi direto para o chuveiro, limpou-se de toda a sujeira da noite passada - limpou-se a consciência - limpou-se das memórias, dos sentimentos, da selvageria, do caráter animal e impulsivo - limpou-se da mágoa e do remorso de ser tão paradoxal, primitiva e sem auto-controle - pois era um novo dia e sempre há muito trabalho para ser feito na escola em que trabalhava.
Um tipo diferente de escola, em que as crianças de 4 a 8 anos têm aulas juntas, fora as de matemática e ciências. Esse compartilhamento de experiências e aprendizado era muito rico, e Luana adorava seu trabalho. Às vezes iniciava reflexões e guiava as crianças por uma linha de pensamento, outras vezes dava aula de música, e de tempos em tempos reunia-se com as outras três ou quatro professoras para discutirem o processo, os métodos e os progressos feitos.

O tema das aulas ao decorrer da semana seria sobre controle de seus instintos e noção de público e privado.

É sempre muito difícil explicar para crianças o porquê de certas convenções e coerções. A criança, tendo uma personalidade e um quê primitivo dentro de si, não entende facilmente por que razão certas coisas são públicas e outras são privadas, ou ainda por que deve-se controlar certos impulsos e instintos.

- O que diferencia nós, pessoas, seres humanos, dos macacos e outros animais, além de nossa aparência?, Luana perguntou.
- Macacos têm uma família só muito grande!
- É, os animais estão sempre em bandos, muito grandes.
- Eles não vivem em casas que nem a gente.
- Eles não sabem ler nem escrever. Nem desenhar!
- Então nós, de certa forma, somos mais evoluídos que os macacos, certo?, Luana perguntou. E o que mais? Onde os macacos fazem o número 1 e o número 2?
- Em qualquer lugar!
- E onde eles têm filhos? Um macaco casa-se com uma macaca para sempre e eles têm apenas alguns filhos, ou não?
- Eu outro dia vi na televisão que não existe isso de casar entre os macacos. Um macaco pode ficar com várias macacas ao mesmo tempo.
- Isso tudo, crianças, nos diferencia dos animais. Nós temos controle de nossos impulsos e instintos. Nós sabemos que não podemos simplesmente abaixar as calças e fazer o número 2 na rua, certo? Sabemos que existem certas regras e que devemos respeitar essas regras de convivência. Cada vez mais, quanto mais envelhecemos, nos damos conta de que nós somos donos de nossas vontades e impulsos, e que não devemos nos deixar dominar por eles. Vocês estão acompanhando?
- Um dia ouvi minha mãe dizer pra uma amiga dela que meu pai não sabia controlar seus impulsos sexuais e que por isso eles estavam se separando, porque ele precisava ficar com outras mulheres, que nem o macaco precisa ficar com outras macacas. E ele é velho, professora.
Luana procurou não voltar suas atenções para tal comentário. Desconversou e logo o sinal bateu. As crianças foram todas embora, mas Luana ficou ali, sentada na sala, observando o círculo no chão em que as crianças sentavam na hora das reflexões. Ela lembrava-se claramente da noite passada. Lembrava-se nítida e racionalmente de tudo o que fizera, mas algo a impedia de digerir tudo aquilo, de processar, de sentir novamente o que era estar naquele lugar. Um bloqueio, uma trava de emoções ligava-se toda vez que Luana saía à noite, de forma que a Luana da noite era diferente não comunicava-se com a de dia. Uma forma de defesa, talvez?, pois sem os dois lados da história não era possível refletir-se a respeito, então ambas Luanas seguiriam com sua forma de vida sem culpa ou consciência de suas falhas de caráter.

(continua)

segunda-feira, 30 de maio de 2011

a ponte e fim

Eduardo pôs as mãos na cabeça. Precisou respirar fundo algumas vezes, sentia-se um pouco tonto. Um pouco depois, foi despertado pelos passos do garçom, aproximando-se de sua mesa.
- Qual a forma de pagamento, senhor?
- Vamos dividir. À vista.
O garçom pareceu confuso. Seus olhos subitamente adquiriram uma expressão oblíqua, depois de riso, e ele perguntou:
- Seu acompanhante retirou-se e já volta, ou...?
- Não, meu jovem, vou dividir a conta com... - e ao fazer o movimento com a mão indicando os bancos vazios ao seu redor, se deu conta de que estava sozinho. Piscou os olhos lentamente e procurou indícios da presença de Dibs, Fitz, Hermann ou da moça. Quando não foram encontrados, Eduardo sinalizou para o garçom trazer a conta e ponto final.
Pagou a conta e saiu do bar, perturbado. Havia dormido? Bebido demais? Estava sonhando? A última coisa de que se lembrava nitidamente antes de chegar ao bar era de entrar em uma igreja. Será que havia caído no sono dentro da igreja mesmo?
Eduardo andava enquanto pensava tudo isso, e quando o turbilhão de dúvidas em sua mente cessou, começou a prestar atenção no caminho. Parecia que não saía do lugar. Parecia que estava andando pela ponte sobre o lado prateado há vários minutos - a ponte não era tão grande assim. E ainda encontrava-se no meio do caminho! Curioso! Eduardo começou a correr, mas quanto mais ele corria, mais a outra margem afastava-se, mas ao olhar para trás, não tinha saído do lugar. Sentou-se devido à exaustão.
Foi então que reparou nas roupas que estava usando. Os sapatos de Dibs, o terno de Hermann e os cabelos e gravata de Fitz. Fora suas mãos, que eram iguais às da Dama.
Algo fez Eduardo levantar o olhar e virar-se para o início da ponte. Lá estava Dibs. Ele parecia não notar a existência de Eduardo. Estava lá, com seu olhar romântico, perdido, indeciso entre apreciar o caminho pelo que veio ou a ponte a que estava se dirigindo. Mesmo assim, parecia estar na iminência de fazer uma decisão, o que exalava força e autoconfiança de seu indeciso sorriso.
Então notou alguém de pé ao seu lado. Era Fitz. Não olhava para nenhum dos lados da ponte, não olhava para o tão bonito lago, não olhava para a lua - olhava para os próprios pés, para as próprias mãos. Parecia tão triste e tão decepcionado. Olhou para o fim do caminho, olhou para o começo, e em sua expressão ficou muito claro que queria estar em qualquer dos dois lugares, menos no que estava - no meio do caminho. Não exalava a autoconfiança de Dibs, na verdade, apesar de tentar disfarçar, parecia estar muito indeciso e infeliz. Eduardo sentiu pena de Fitz.
E então viu Hermann, no final da ponte. Mãos nos bolsos, olhava de cima pra baixo para a ponte, parecia sentir-se superior por ter conseguido chegar ao outro lado inteiro. Mas lançava olhares tristes para o lago, para a lua, para as pedras de que era composta a ponte, como se estivesse arrependido de não ter notado esses detalhes enquanto estivera atravessando-a. Focou-se em atravessar a ponte dignamente e de cabeça erguida que perdeu o lado humano e curioso de aproveitar o caminho. Parecia tão triste quanto Fitz, mas sua postura orgulhosa disfarçava-o bem.
Eduardo não queria chegar ao outro lado da ponte decepcionado, também não queria ficar ali no meio indeciso ou arrependido sobre o que fez ou deixou de fazer. Olhou para Dibs, que parecia tão natural, tão pronto para a vida, e percebeu que não devia tê-lo deixado para trás. Fitz parece ter deixado seu Dibs interior para trás, e as consequências disso são visíveis, risíveis. Ainda havia tempo, havia metade da ponte para ser percorrida, muitas luas e muitas marés passariam e Eduardo poderia voltar a aproveitar dignamente sua passagem. E então, num piscar de olhos, todos os três homens desapareceram, e ele percebeu a aproximação em passos lentos e suaves da Dama, carregando um lampião, que iluminava a ponte inteira. Ela estava sempre por perto, guiando seus pensamentos, guiando-o pela travessia da ponte. Embora não tivesse se feito muito presente no início da travessia, agora lá estava ela.
- Decidiste? A ponte ficou mais clara agora?
Eduardo fez que sim com a cabeça.

No instante seguinte, encontrou-se na poltrona vermelho-sangue, numa sala muito bem iluminada por uma luminária grande que agora estava no centro da sala.

FIM \o/

terça-feira, 24 de maio de 2011

a paz

- Antes de eu encerrar esse encontro - Dama começou - queria perguntar-lhes: como alcançar a paz?
- A paz de espírito? - Eduardo perguntou. - É um conceito bem... complicado. Não ouso dizer que seja inalcançável, mas até hoje temo que eu não tenha encontrado um método que me guie à paz de espírito...
- Depende do seu conceito de paz de espírito. - Hermann começou. - Acredito que nossa vida seja um círculo vicioso: temos um objetivo, batalhamos, alcançamos, nos entediamos e logo encontramos um outro objetivo, e por mais nobre, mais complexo que seja tal objetivo, a tendência é de nos frustrarmos quando alcançamos tal, pois sempre parece que o esforço foi maior que a recompensa. Superestimamos a recompensa, quando o contrário é que devia ser feito, mas, enfim. Acredito que a paz de espírito, olhando desse ponto de vista, seja alcançada quando conseguimos aproveitar mais a viagem do que o destino, o esforço do que a recompensa, o processo do que o grand finale.
- Acredito que a paz de espírito está no coração dos ignorantes. - Fitz disse, pausadamente. - Para aqueles que não saem da "cotidianice", que olham para seus problemas por um prisma egoísta e totalmente não-relativista. Não ter o peso do intelecto e de séculos de reflexões sobre seus ombros é, sem dúvida, a maior paz de espírito que existe.
- Algumas religiões e filosofias orientais acreditam que você pode se libertar de todas as angústias e problemas desapegando-se de tudo o que é material - Dibs disse - e isso inclui não só bens e objetos, mas também envolve que você não se relacione com ninguém, seja esse relacionamento familiar, amoroso ou amigável. O ato de desprender-se, de certa forma, de toda a sua vida implicaria uma paz de espírito constante por não haver com o que se preocupar. Tudo é passageiro.
- Não gosto dessa ideia. Se eu me desprendesse de toda a minha vida, eu me desprenderia também de mim e de minha identidade, minha história. Eu realmente teria paz de espírito, porque não teria de refletir nem de me preocupar com nada, já que tudo é passageiro! - Apontou Eduardo. - Eu, quando jovem, gostava de pensar que eu alcançaria a paz o dia em que estivesse fazendo algo bom para mim e útil para o fator externo, seja esse fator a sociedade ou minha família. Esse equilíbrio, assim como Hermann disse, tendo a acreditar que só pode ser acessível quando começamos a pensar o valor das coisas por que passamos na nossa vida. Isso está incluso no gigante pacote definido por "aproveitar a viagem". Acho que essa determinação do que é válido e do que não é só pode ser feita se olharmos para nossa vida de fora, de cima, como se estivéssemos no topo de uma montanha: o que é pequeno some, apenas grandes formações continuam visíveis, e são essas grandes formações que merecem nossa atenção.
- Mas para alcançar-se essa forma de visão, tão cósmica, primeiro precisa-se reconhecer que, apesar de tudo por que passamos ter certa influência, mesmo que minúscula, na nossa identidade, deve-se aprender a valorizar acontecimentos ou reflexões realmente importantes: formadores de caráter, questionadores de nossa ética... e isso exige um certo desprendimento, sim, da predominância das emoções, as quais geralmente influenciam no nosso juízo de valores do que é realmente importante e o que pode ser considerado fútil - Fitz disse. - Tal atitude só pode ser esperada dos mais ricos intelectualmente. Não sei vocês, mas eu vivo em constante angústia e, apesar de eu também não gostar de utopias, como Dibs, tendo a pender para o lado cético da questão, o lado que grita "estás louco?!, paz de espírito é para parvos, sem grandes questionamentos ou grandes angústias!".
- Vocês acham que tudo na vida é muito fácil. - Dibs disse, de forma disparata. - Tudo é ou inalcançável ou só digno de idiotas. Não é você mesmo que estava falando sobre aproveitar a viagem, Hermann? E não é essa a beleza? Acompanhar a sua evolução como ser humano, (racional, social e de alma muito rica), enquanto busca a paz de espírito, a solução dos problemas e uma forma mais saudável de encarar a vida? Não é isso o que torna a vida cheia de significado e aprendizado? Você acha, Fitz, que a vida de um parvo, em seu final, terá muito significado? Não que eu esteja desvalorizando vidas, cada um a aproveita da forma que bem quiser, só que um ser que se questionou e refletiu durante toda sua existência tornará sua vida muito mais significativa do que alguém que só cumpriu sua função biológica de existência. - Dibs então parou para tomar fôlego. - E não me venham com a ladainha de "mas o destino inexorável de todos é a morte". Isso só deveria fazer com que aproveitássemos mais, tendo a consciência de que, provavelmente, essa será nossa primeira e última chance.
Dibs revelava-se e os outros três homens encolhiam-se em suas roupas, envergonhados por terem deixado morrer dentro de si o Dibs que ali um dia esteve.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

sobre personalidades

O homem definitivamente é composto de várias facetas que coexistem - nem sempre em plena harmonia, mas coexistem, uma não anulando a outra. Definir-se como tendo uma, duas ou dez faces é limitar todo o processo eterno de formação e expansão de seus caráter, personalidade e alma. Por mais que alguns dos lados do indivíduo seja evanescente, efêmero; as características que o compõem não o são, e continuarão existindo, pertencentes a outras facetas, dissolvidas na imensidão de nosso universo particular.
Tendemos a achar que nossa personalidade é dividida em vários âmbitos, tipificados, com uma ou outra característica mais marcante, tornando assim mais fácil o processo de reconhecimento de tal faceta. Mas tal faceta não é composta por só uma característica, por só um tipo, por um só sentimento predominante. Há uma história por trás desse sentimento e dessa característica, há motivos por trás da determinação e da formação de tal face, tornando cada uma das faces uma micropersonalidade, uma ramificação da síntese personalítica - mas não menos complexa.

Sendo assim, quanto mais vivências, questionamentos, experiências, leituras, reflexões, situações, atritos, conflitos e decisões passamos ou temos de fazer, uma nova ramificação se forma, partindo da mesma raiz sólida e concreta que são nossos valores, princípios, ideais e sonhos.

Essa infinidade de lados existe por um motivo. Quanto mais rica a personalidade, quanto mais diferentes e variadas forem as formas de olhar para uma mesma questão; mais pertinente, útil e benéfica para todas as micropersonalidades a decisão final será - mas também mais difícil de ser feita e de ser aceita. Uma pessoa que não tem acesso ao conhecimento científico a respeito de tal doença aceitará a morte como sua única possibilidade e seu destino fatídico - é porque deus quis. Já quem tem acesso a todos os livros, bulas, teses e médicos possíveis fará o máximo para que haja outros caminhos, outras alternativas, uma sempre melhor que a outra.
E por mais que haja algum traço que não nos agrade em nossa personalidade - algum traço que não precisava existir e que continua lá, por algum motivo, como um vício -, ele é tão necessário para o processo de autodescobrimento quanto os traços que nos são úteis e que se sobrepõem aos outros. Justamente os de que não gostamos ou que não aceitamos em nós mesmos é que nos afastam das outras pessoas que possuem semelhantes. Quando aprendemos a lidar com o que nos incomoda - quando damos nomes aos nossos fantasmas - é que passamos a viver em harmonia com tal traço em nós presente.

Mas, no final das contas, sejam as ramificações evanescentes ou cicatrizes, o conjunto todo forma o sujeito, que dará frutos, responderá às estações e se desenvolverá de forma única e diferenciada.

terça-feira, 10 de maio de 2011

dibs pronuncia-se

- Sabem o que eu acho? - começou Dibs. - Acho que os tolos aqui são vocês. Vocês é que são o hedonistas e escravos do capitalismo, os manipulados, os infelizes, os insatisfeitos e os ingênuos! Vocês - até você, Hermann - é que se deixam cegar pela ganância, prepotência, ignorância e pseudo-busca por um sentido da vida. Não os culpo! Acho que o tempo tornou-os duros e de certa forma cegos ao que realmente importa. Mas é muita agnosia da parte de vocês acharem, que por serem mais velhos e estudados do que eu, que sabem mais sobre a vida ou que têm o futuro mais apropriadamente traçado. Filósofos, pensadores, psicólogos e sociólogos de muitas gerações já afirmaram que devíamos ver o mundo com o olhar das crianças, não no sentido de um olhar sem malícia, mas de um olhar de quem aproveita o que está vivendo, de quem tem sonhos no coração e procura concretizá-los da forma melhor e mutuamente benéfica possível... quando crianças é que aprendemos a amar, sentir, sonhar e planejar corretamente... esses valores todos vão se dissolvendo dentro de nós com a idade e o falso conceito de maturidade... Portando, do meu ponto de vista, ingênuos são vocês, que se acham bons o suficiente para viverem sozinhos!
Não é preciso dizer, caro leitor, que a atmosfera ficou cheia de tensão e indignação. Hermann sentia-se envergonhado por ter recebido uma lição de moral de tão jovem criatura, Fitz sentia-se indignado e já calculava respostas para cada sentença dita por Dibs, e Eduardo estava realmente refletindo sobre o que Dibs dissera. Mas, de forma geral, o que cada um se perguntava era: e se Dibs estiver realmente certo? E se aqueles valores mencionados por ele tornassem a vida realmente mais proveitosa e menos difícil?
Eduardo começava a sentir vontade de bater sua cabeça contra a parede. Trinta e tantos anos, vinte e tantos investidos em agradar a terceiros. Os últimos dez anos de sua vida empregara apenas em reverter suas habilidades em algo que poderia ser útil apenas aos outros e que não lhe dava nenhum prazer. Alguém que passa tanto tempo assim ou é realmente ignóbil e não dá valor à própria vida ou é alguém que aterroriza-se só com a ideia de fazer algo por si próprio, de seguir os próprios sonhos independentemente de sua utilidade ao capitalismo atual, se arcar com as consequências das próprias escolhas.
Hermann tentava calcular onde é que tinha errado. Tudo aquilo parecia tão óbvio, mas Hermann acostumou-se a olhar através do óbvio, então muitas vezes não capta as coisas mais simples. Tanta complicação, tantas desculpas, tantos motivos para não aproveitar a vida; que Hermann esqueceu-se do valor-mor, instintivo, primitivo e poético em todos os sentidos: simplesmente aproveitá-la, pois não teria outra. Tornar-se escravo das próprias ideologias, epifanias, medos, hipóteses e obrigações para com a tal sociedade também é uma forma de anular-se. Prender-se à tarefa sem aproveitá-la é tão herege quanto não fazê-la.
Fitz não queria aceitar que sim, talvez Dibs esteja certo, talvez afastar as pessoas não seja a atitude mais certa a se tomar. Julgar o caráter das pessoas baseado em seu nível intelectual é tão errado. Prova disso era ele mesmo - extremamente dotado intelectualmente, mas não serviria como referência de cidadão moral. Tampouco seria um amigo de verdade. Tendo sua existência marcada por solidão e muitas contradições dentro de si, Fitz concluiu que sim, há um método alternativo, a felicidade é possível, arrogância não é sinônimo de superioridade.
Dibs era, sem dúvida, o jovem que um dia os outros três foram, mas abandonaram por conveniência ou falta de utilidade, e aquela conversa resgatara valores há muito esquecidos...

quinta-feira, 28 de abril de 2011

o sentido da vida

- Utopias me deixam extremamente frustrado. - Eduardo continuou. - Se eu detesto o sentimento de não ter conseguido cumprir uma meta, me sinto ainda pior quando percebo que tal meta é inalcançável.
- Quando sua meta passa a ser algo inalcançável, alguma coisa está errada. - Fitz comentou. - Quero dizer, quem em sã consciência passa a desejar algo que não pode nunca ser atingido? É masoquismo!
- Acho que uma pessoa já muito realizada tende a, cada vez mais, sonhar mais alto, consequentemente exigindo mais de si e empenhando-se mais na conquista de seu objetivo... - Dibs disse.
- Não. Acho que desejar algo inalcançável não significa que a pessoa seja realizada, significa falta de humildade e sentimento de onipotência. Em outras palavras, estupidez. - Fitz disse.
- Se todos pensássemos assim - Hermann começou - ninguém não buscaria nem encontraria um sentido para a própria vida, visto que a busca pelo mesmo geralmente leva bastante tempo e muitas vezes parece inatingível.
- Mas encontrar um sentido para a própria vida é algo muito mais profundo e complexo do que simplesmente considerar-se admirável o suficiente para atingir todo e qualquer objetivo almejado - disse Fitz. - O indivíduo pode muito bem ter um objetivo moral para cumprir durante sua vida sem começar a achar que é capaz de cumprir com todos as suas metas.
- Mas então - disse Hermann, e começou a desenvolver a frase vagarosamente:- o que torna uma busca por um sentido na vida diferente de uma outra meta qualquer?
Os outros três puseram-se a pensar. Dibs resolveu pronunciar-se.
- A busca por um sentido deve basear-se nas suas aptidões, gostos... Deve ser uma união do útil com o agradável, ao mesmo tempo pensando de que forma se estará contribuindo ao mundo ao seu redor. Seja esse mundo composto por 6 ou 6 bilhões de pessoas, tudo o que você faz é de certa forma importante para pelo menos uma pessoa... independentemente da área de sua atuação, deve-se sempre segurar sua lâmpada, seja pra iluminar uma pequena área ou um ambiente inteiro...
- Então, basicamente, devemos todos empregar nossas habilidades e o que gostamos de fazer para o bem? Para a melhoria do mundo? - Fitz soava incrédulo. - Isso é tão romântico.
- Perdão pelo clichê, mas se todos fossem como Dibs, senhor Fitzwillian, o mundo de fato seria melhor. - disse Hermann.
- Olha, meu caro, minha melhor habilidade é a manipulação, e o que eu mais gosto de fazer é fazer o que eu quero. Como isso pode ser revertido para o bem?
- Você é um pobre coitado que precisa de muita ajuda para livrar-se desse seu lado que foi esculpido por conveniências, negócios e seu pai. Fitzwillian, você sabe bem que manipulação não é seu maior dom, e que se você investisse um mínimo de tempo em um processo de autodescoberta você seria um homem completamente diferente. - Hermann disse, deixando Fitz a olhar pela janela, vermelho. - E você, Eduardo? Já descobriu um sentido para sua vida?
Os olhos se voltaram para Eduardo. Hermann olhava-o curiosamente.
- Na verdade, não. Passei tanto tempo sendo o que o mundo queria que eu fosse que me perdi no meio do caminho.
- Você não tem uma esposa e filhos?
- Sim... posso dizer que depois de um tempo pude sentir que começou a florescer alguns traços de amor dentro de mim, por ela. Casamo-nos por conveniência social. Ela é tão perdida quanto eu, mas mostra-se, dentro de casa, uma mulher decente e ótima mãe... E meu filho, meu filho provavelmente é o único motivo pelo qual eu continuo seguindo com minha vida de fachada.
- Você não acha que isso é um ótimo sentido para sua vida? - Dibs perguntou. - Viver para fazer alguém feliz, viver sendo feliz porque o outro está feliz. Mesmo que sua busca seja eterna e que você nunca se conheça por completo, sua vida não vai ter sido um completo desperdício, pois você terá compartilhado-a com sua esposa e filho. Uma vida com amor nunca é vazia, pois o amor é o sentimento mais nobre e satisfatório que existe.
- Dibs, você é um eterno romântico, ingênuo, tolo. - Disse Fitz. Ele olhava pela janela novamente, mas não conseguiu disfarçar que as palavras do mesmo haviam atingido-o - ele, cuja vida esteve repleta de tudo, menos de amor.