Mostrando postagens com marcador ser. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ser. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de janeiro de 2012

day 30: your reflection in the mirror

Como posso começar?

Cara Bruna,

  Eu tenho muitas coisas para falar-lhe. Não sei por qual começar. Primeiramente, da última vez que a vi você parecia tão abatida, tão desesperançosa, que com muito esforço contive meu ímpeto de abraçá-la. Eu perguntaria o que aconteceu, mas sei que você simplesmente responderia "a vida; a vida é que aconteceu".
  Sei que temos muitos assuntos mal-resolvidos, grande parte de nossos problemas caíram em oblívio, o que permaneceu foi aquele sorriso forçado e a frase dita em um semi-sussurro "está tudo bem". Sei bem que você - assim como eu - é uma criatura absurdamente obstinada, soberba, mas isso tem limite. Veja, todos temos problemas e é perfeitamente aceitável - e saudável - assumi-los e tomar uma atitude para resolvê-los.       Sim, eu sei que seria infinitamente mais fácil esconder-se por trás de uma máscara sociofóbica e antissocial, mas no fundo você é uma alma em agonia desmanchando-se no frio suplicando para que alguém a cubra com seu cobertor de afeto e atenção. Também sei que é mais fácil colocar a culpa na sociedade, nos valores sujos e corrompidos, no vazio niilista e por vezes dadaísta presente nas pessoas, no sistema massacrante capitalista, na mídia e no Jornal Nacional que desinforma... mas este é o comportamento padrão do ser humano: não admitir seus erros e colocar a culpa em outro alguém. Você acha que age muito diferentemente? Pois não age. Em vez de encarar a dor da difícil tentativa (pois ela pode levar a uma mais dolorosa ainda rejeição), você se esconde na conveniente indiferença. O quão patético é isso, Bruna?!
  Olha, perdão. Eu sei que não sou a pessoa mais amável do mundo, também tenho minhas preguiças sociais, também tenho alergia a futilidade e a ignorância, mas pra isso existe homeopatia. A homeopatia da internet, da psicoterapia, dos professores. Algumas horas com um desses pode servir de tratamento por até uma semana, acredite. E quanto ao borbulhar de ideias acontecendo na sua cabecinha e que você insiste em condensar e negar... deixe-o evaporar. Deixe-o borbulhar, esparramar-se no chão. É uma ótima prevenção contra o inevitável enlouquecimento. Eu tenho dó de você, mas não um dó ruim e sarcástico - um dó sincero, daqueles que fazem todo o ar sair dos seus pulmões só de você pensar no sofrimento da pessoa. E eu realmente quero que você melhore, que você mude, que você consiga tornar esse 2012 pelo menos um pouco melhor do que os dois anos que passaram, porque olha... dentre todas as pessoas que eu conheço, você é uma das poucas que merece, que realmente merece pelo menos um vislumbre do que significa ser feliz. E não digo isso porque, bem, você é meu reflexo, mas porque eu sei de tudo por que você passou, o quanto você é forte, e, bem, isso fez-me gostar bastante de você. Ao mesmo tempo que a acho incrivelmente estúpida, miserável e infeliz por você ser uma peça de quebra-cabeça que não sei encaixa em lugar nenhum, admiro-a justamente por isso.
  Então, enfim...
  Por favor. Mais surrealismo e menos barroco na sua vida.
Com todo o respeito,
Bruna S.F.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

miserabilidade

Não sou egoísta, não acho que sou deus, não sou prepotente nem me acho onipotente, mas às vezes você chega a um ponto que se pergunta o que você está fazendo aqui, agora.
É, não é? Sabe, você venceu a corrida, passou na frente de outros bilhões de metades de pessoas. Entende isso? Se outro espermatozoide tivesse passando na sua frente, ele poderia estar aqui sendo mais útil do que você. Ele poderia estar vivendo menos miseravelmente. Ele poderia ser o cara que viria a descobrir a cura do câncer, quem sabe? Todos nós deveríamos estar honrando a memória de todos esses projetos de pessoas dos quais tiramos a chance de existir.
E ainda assim, você vive a sua vida miserável, dia após dia, refeição após refeição. Você não tenta ser o melhor que pode, não tenta aprimorar suas habilidades e seu intelecto, não lapida o seu ente, você simplesmente ignora a possibilidade de que outra pessoa, no seu lugar, poderia estar fazendo coisas maiores, fantásticas! Mas ah! isso não te impede de apenas ser. Claro, não é? às vezes a bebedeira nos afeta, já dizia Drummond que essa lua, esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo, e vez ou outra temos aquela crise, aquele momento de consciência, aquela epifania momentânea e evanescente: sou eu quem estou aqui. Será que estou aproveitando ao máximo?
Mas enquanto alguns realmente pensam a respeito de dar algum valor, algum sentido à sua vida, alguns, como eu, sua miserável narradora, decidem que não há valor nem sentido em suas vidas. Alguns, como eu, chegam forçosamente à terrível conclusão de que qualquer um estaria fazendo melhor proveito do que se tem, em quaisquer condições, com quaisquer obstáculos. Triste, não? Desanimador. Claro que não pra mim, eu me conformei com essa ideia há tempos, e isso sim é o triste. Eu não deveria ter me conformado! Eu deveria ter tentado transformar essa realidade! Mas depois de travar tantas batalhas, contra mim e contra o mundo, depois de tantos ferimentos de guerra, você meio que desiste por exaustão, sabe? Depois de você tentar provar (ou iludir a?) você mesmo que sua vida tem sim um objetivo ou um sentido, vem o mundo e desprova, ou te dá motivos pra desistir, ou te faz sentir a pessoa mais fraca do mundo.
E nossa! acho que existem poucos sentimentos piores do que o vazio de sentido. Pois o vazio de sentido engloba muitos dos piores sentimentos, como o tédio, e, especialmente, o tédio dominical. Pois, sabe, a maioria dos problemas você consegue resolver com muita introspecção e batalha, porque muitos são essencialmente internos, mas o vazio existencial vem também de fora, vem do sentimento de inutilidade que é inexoravelmente produto da sua situação com sua reação a tal, e olha, é um negócio complicado de se resolver. Dá-me preguiça, muita preguiça. Dá-me medo de, no final das contas, não encontrar nada, e simplesmente descobrir (ou redescobrir, ou reafirmar) que, realmente, olha, esse negócio de uma vida com um sentido não é pra ti, não, amiga.
E olhar ao redor não podia ser mais doloroso, ver que todos têm suas ambições, ver seus personagens favoritos sucedendo no que queriam, ver quem não tinha mérito conseguir conquistar seus objetivos e você ali, observando as ondas irem e voltarem, numa estaticidade que enlouqueceria até os mais sedentários, mas que é tudo que você pode fazer!
Você não é especial. Você não é especial, você não é especial. Por mais que o capitalismo queira enfiar essas abobrinhas na sua cabeça, não se esqueça: você - não é - especial.
Doloroso, não? Essa é a fonte da minha miserabilidade. Mas fazer o quê?

segunda-feira, 4 de julho de 2011

união

Silêncio. Não do tipo constrangedor, nem do tipo questionador, nem do tipo ensurdecedor. Só o puro silêncio, sem nenhuma interpretação, podendo ser analisado como uma pausa entre notas.
- Você não vai me perguntar mais nada?
- Não. Não preciso saber mais nada pra concluir que você é absurdamente perturbada. Aliás, eu comecei a suspeitar disso quando vi você entrando. Apesar do seu olhar penetrante e da sua pose ferina, algumas coisas te denunciam, como suas unhas por fazer, seus sapatos gastos e seu cabelo por pintar. Se você vivesse inteiramente por essa vida, sua apresentação estaria impecável.
Luana surpreendeu-se mais uma vez. Torceu a barra do seu robe com as mãos e mordeu a língua.
- Você tem alguma ideia acerca do motivo de isso acontecer com você? Quero dizer, essa quebra dentro de você...
- O que é você? Um psicanalista? Eu não sei e não quero saber.
Victor olhou para baixo, compreensivamente. Aquele ataque fora só uma forma de defesa.
- Sabe, minha mulher diz que eu sou um babuíno que não consegue controlar seus impulsos sexuais. Não sei por que ela começou a falar isso, nunca dei motivos para tal, mas uma mulher infeliz consegue achar impurezas em qualquer lugar, e de certa forma...
Victor ia falando, mas Luana sentia como se tivesse sido sugada para outra dimensão. Uma dor de cabeça insuportável e um bombardeio de memórias haviam tomado conta de sua mente. Ela queria gritar, queria correr, jogar-se de cima do prédio, bater sua cabeça contra a parede para fazer tudo aquilo parar, mas seu corpo só respondeu àquilo com um súbito desmaio.
Uma criança sorrindo, de rosto conhecido - um dos alunos de Luana. Um homem chegando - Victor. Os dois aproximando-se. Eram filho e pai. A criança corre, parecia não querer ficar na presença do pai, ela quer ser livre, fazer o que quiser. O pai coloca as mãos no rosto, visivelmente transtornado pelas atitudes do filho, refletindo se não é melhor deixá-lo fugir, vira as costas e começa a ir embora. Mas algo os impede. A criança tropeça e cai, o pai, instintivamente ao ouvir o barulho da queda, vira o rosto e o vê, sangrando, chorando, e corre em sua ajuda.
Quando estavam na iminência de darem-se as mãos, a cena muda.
A sala onde Luana dava aula. Em vez das crianças, lá estavam babuínos, e a professora usava vermelho e um decote que mostrava mais do que deveria. Ela dava aula. Um dos babuínos começa a comportar-se mal.
Quando Luana ia reprimi-lo, a cena muda.
A sala vermelha. Luana de branco, óculos e cabelos presos num rabo-de-cavalo, sentada numa poltrona, rodeada por prostitutas, ensinando-as história. Uma das moças levanta a mão para fazer uma pergunta.
Quando Luana ia atendê-la, ela acorda.

No hospital.

O barulho esperançoso do monitor que mostrava sua frequência cardíaca foi ficando cada vez mais alto, sons de pessoas andando e conversando ao longe foram ficando mais distintos, pouco a pouco ela começou a ouvir os barulhos da cidade até que, por fim, abriu os olhos.
Viu uma enfermeira se aproximando.
- Ah, você acordou! Antes do previsto, que bom! Achávamos que você só ia acordar daqui uns três ou quatro meses.
- O quê? Faz quanto tempo que eu estou aqui?
- Dois meses. Pelo que sei, você sofreu grande estresse e seu cérebro meio que entrou em curto-circuito. Você se desligou, garota, entrou em coma. Que bom que foi socorrida a tempo, o seu marido estava super preocupado...
- Quem?
- Seu marido, Victor. Foi ele quem te trouxe aqui, lembra?
- Meu... marido?
Victor entra na sala, com uma expressão ansiosa e cabelos amassados de quem tinha acabado de acordar.
- Fui bipado, me disseram que estavam monitorando a atividade cerebral e que ela estava se normalizando e...
Os olhos de Victor encontraram os de Luana. Ele prendeu sua respiração um instante.
- Minha garota, você acordou!, ele saiu tropeçando e caiu aos pés da maca de Luana, segurando sua mão. Você se lembra do que aconteceu?
Luana acenou negativamente com a cabeça.
- Não tem importância, olha, olha quem veio aqui te visitar... Olha, Tiago, a mamãe acordou!
Um menino de aproximadamente 6 anos foi entrando timidamente no quarto. Cabelos louros, olhos cor-de-mel, suas mãozinhas torcendo a barra da camiseta.
- Mamãe, você dormiu tanto tempo...

Ao ver esse rosto, ao ver o rosto de Tiago e olhar para os olhos cor-de-mel de Victor, tudo atingiu Luana de novo. Ela lembrou-se de conhecer Victor na faculdade e casar-se com ele alguns anos depois, de começar sua carreira de professora, de ter um filho, de começar a ter lapsos momentâneos e perda de memória recente, de ir a um psiquiatra que diagnosticou-a com um certo transtorno de personalidade, lembrou-se de começar a surtar com sua vida perfeita com Victor, de dar aulas para seu próprio filho, de começar a irritar-se com nada, de começar a sair a noite, de arrumar um escape para toda sua bilateralidade, de Victor apoiá-la e encontrar-se com essa outra personalidade e ajudá-la a se recuperar... Tudo isso atingiu-a em alguns milésimos de segundo, mas, dessa vez, não causou um desmaio.

- Você está bem, meu amor?, a voz de Victor a trouxe de volta.
- Estou, sim... acho que agora estou bem.

Tiago sorriu e sentou-se no pé da maca de Luana.
- Senti sua falta, mamãe.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Victor

- Victor?, Luana perguntou, avançando a passos largos e lentos na direção do homem.
- Isso não importa, sim?, foi-lhe a resposta.
- Meu querido; ia dizendo com um sorriso malicioso; eu preciso saber que nome gritar.
O homem parecia não estar ouvindo, ocupava-se em examinar o corpo de Luana enquanto afrouxava a gravata e abria os botões da manga da camisa.
Aquele quarto. Era bem aconchegante e arrumado quando considerada sua função. Uma cama grande e com roupas de cama muito bonitas, cortinas luxuosas, uma grande janela com uma vista muito bonita apesar de ser só do primeiro andar e um espelho grande e bonito.
Sim, um espelho. E esse especialmente não era no teto - era um espelho pequeno, daqueles que só refletem seu busto, e ficava ao lado da janela. Qual o propósito daquilo?
Quartos como esses não deviam ter espelhos. As moças que por ali passam têm sentimentos confusos e deturpações de mais em sua personalidades para conseguirem aproveitar do prazer de olhar-se no espelho e sorrir ao ver sua própria imagem. Os homens que por ali passavam também abaixavam o olhar ao observarem a expressão fria e vazia do reflexo encarando-os. Resumindo, um lugar como aquele exigia uma venda para os olhos, não um objeto que induz a reflexões acerca de sua existência.
Luana sentou-se na cama e indicou com os olhos para o homem segui-la.
- Não, eu não quero sexo, disse Victor. Só quero fumar e olhar livremente para uma mulher. Sabe, não posso fumar dentro de casa e minha esposa me sufoca com tanta insegurança.
Afrouxou novamente a gravata. Acendeu um cigarro, aproximou-se dela e soltou a fumaça em seu rosto. Uma expressão sarcástica e um tanto surpresa espalhou-se pelos olhos de Victor.
- Você parece decepcionada.
- Você parece louco. Ainda vai me pagar, certo?
- Sim, madame. Como quiseres.
Apesar de ter pronunciado as palavras "louco" e "pagar" com sua característica firmeza, Luana não parecia convicta de como deveria se comportar naquela situação. Mais fácil lidar com homens neandertais e sedentos por sexo do que um que, de tão perdido, precisou procurar uma prostituta para sentir-se mais... ele mesmo. O que aquilo queria dizer? Ele não precisou ceder a seus "instintos" para livrar-se da abstinência e da claustrofobia causada pela esposa. Isso mexeu com nossa protagonista.
- Você está casado há quanto tempo?
- Dez anos. Sempre fui feliz e fiel. Acho que por isso ela começou a me sufocar de insegurança. Mulheres não gostam quando tudo está perfeito, sim? Elas têm de arrumar algum problema para a situação parecer mais real, como se desgraça fosse um sintoma da realidade. Victor riu e apagou o cigarro no dorso da mão. Luana cobriu-se com seu robe de seda cor-de-vinho pois sentiu vergonha de sua natureza ao encarar Victor. Ele parecia tão triste, e conformado, e adestrado, e ainda assim, encontrava formas razoavelmente saudáveis para liberar suas angústias.
- Então, isso é o que você faz da vida?
-... desculpe-me?
- Isso mesmo. Você é só prostituta ou isso é um tipo de segunda vida?
- Não é uma segunda vida, porque uma segunda vida significa que há uma outra vida, vivida pela mesma pessoa, e o que acontece comigo não é isso.
Victor parecia intrigado.
- O que é, então?
- Eu vivo uma vida só, e a outra parte de mim vive outra. Não tenho lembranças racionais nem sensitivas, só sei que, em certo momento, o meu eu de agora se desliga.
- E você sempre foi assim?
- Eu não lembro.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

a ponte e fim

Eduardo pôs as mãos na cabeça. Precisou respirar fundo algumas vezes, sentia-se um pouco tonto. Um pouco depois, foi despertado pelos passos do garçom, aproximando-se de sua mesa.
- Qual a forma de pagamento, senhor?
- Vamos dividir. À vista.
O garçom pareceu confuso. Seus olhos subitamente adquiriram uma expressão oblíqua, depois de riso, e ele perguntou:
- Seu acompanhante retirou-se e já volta, ou...?
- Não, meu jovem, vou dividir a conta com... - e ao fazer o movimento com a mão indicando os bancos vazios ao seu redor, se deu conta de que estava sozinho. Piscou os olhos lentamente e procurou indícios da presença de Dibs, Fitz, Hermann ou da moça. Quando não foram encontrados, Eduardo sinalizou para o garçom trazer a conta e ponto final.
Pagou a conta e saiu do bar, perturbado. Havia dormido? Bebido demais? Estava sonhando? A última coisa de que se lembrava nitidamente antes de chegar ao bar era de entrar em uma igreja. Será que havia caído no sono dentro da igreja mesmo?
Eduardo andava enquanto pensava tudo isso, e quando o turbilhão de dúvidas em sua mente cessou, começou a prestar atenção no caminho. Parecia que não saía do lugar. Parecia que estava andando pela ponte sobre o lado prateado há vários minutos - a ponte não era tão grande assim. E ainda encontrava-se no meio do caminho! Curioso! Eduardo começou a correr, mas quanto mais ele corria, mais a outra margem afastava-se, mas ao olhar para trás, não tinha saído do lugar. Sentou-se devido à exaustão.
Foi então que reparou nas roupas que estava usando. Os sapatos de Dibs, o terno de Hermann e os cabelos e gravata de Fitz. Fora suas mãos, que eram iguais às da Dama.
Algo fez Eduardo levantar o olhar e virar-se para o início da ponte. Lá estava Dibs. Ele parecia não notar a existência de Eduardo. Estava lá, com seu olhar romântico, perdido, indeciso entre apreciar o caminho pelo que veio ou a ponte a que estava se dirigindo. Mesmo assim, parecia estar na iminência de fazer uma decisão, o que exalava força e autoconfiança de seu indeciso sorriso.
Então notou alguém de pé ao seu lado. Era Fitz. Não olhava para nenhum dos lados da ponte, não olhava para o tão bonito lago, não olhava para a lua - olhava para os próprios pés, para as próprias mãos. Parecia tão triste e tão decepcionado. Olhou para o fim do caminho, olhou para o começo, e em sua expressão ficou muito claro que queria estar em qualquer dos dois lugares, menos no que estava - no meio do caminho. Não exalava a autoconfiança de Dibs, na verdade, apesar de tentar disfarçar, parecia estar muito indeciso e infeliz. Eduardo sentiu pena de Fitz.
E então viu Hermann, no final da ponte. Mãos nos bolsos, olhava de cima pra baixo para a ponte, parecia sentir-se superior por ter conseguido chegar ao outro lado inteiro. Mas lançava olhares tristes para o lago, para a lua, para as pedras de que era composta a ponte, como se estivesse arrependido de não ter notado esses detalhes enquanto estivera atravessando-a. Focou-se em atravessar a ponte dignamente e de cabeça erguida que perdeu o lado humano e curioso de aproveitar o caminho. Parecia tão triste quanto Fitz, mas sua postura orgulhosa disfarçava-o bem.
Eduardo não queria chegar ao outro lado da ponte decepcionado, também não queria ficar ali no meio indeciso ou arrependido sobre o que fez ou deixou de fazer. Olhou para Dibs, que parecia tão natural, tão pronto para a vida, e percebeu que não devia tê-lo deixado para trás. Fitz parece ter deixado seu Dibs interior para trás, e as consequências disso são visíveis, risíveis. Ainda havia tempo, havia metade da ponte para ser percorrida, muitas luas e muitas marés passariam e Eduardo poderia voltar a aproveitar dignamente sua passagem. E então, num piscar de olhos, todos os três homens desapareceram, e ele percebeu a aproximação em passos lentos e suaves da Dama, carregando um lampião, que iluminava a ponte inteira. Ela estava sempre por perto, guiando seus pensamentos, guiando-o pela travessia da ponte. Embora não tivesse se feito muito presente no início da travessia, agora lá estava ela.
- Decidiste? A ponte ficou mais clara agora?
Eduardo fez que sim com a cabeça.

No instante seguinte, encontrou-se na poltrona vermelho-sangue, numa sala muito bem iluminada por uma luminária grande que agora estava no centro da sala.

FIM \o/

terça-feira, 24 de maio de 2011

a paz

- Antes de eu encerrar esse encontro - Dama começou - queria perguntar-lhes: como alcançar a paz?
- A paz de espírito? - Eduardo perguntou. - É um conceito bem... complicado. Não ouso dizer que seja inalcançável, mas até hoje temo que eu não tenha encontrado um método que me guie à paz de espírito...
- Depende do seu conceito de paz de espírito. - Hermann começou. - Acredito que nossa vida seja um círculo vicioso: temos um objetivo, batalhamos, alcançamos, nos entediamos e logo encontramos um outro objetivo, e por mais nobre, mais complexo que seja tal objetivo, a tendência é de nos frustrarmos quando alcançamos tal, pois sempre parece que o esforço foi maior que a recompensa. Superestimamos a recompensa, quando o contrário é que devia ser feito, mas, enfim. Acredito que a paz de espírito, olhando desse ponto de vista, seja alcançada quando conseguimos aproveitar mais a viagem do que o destino, o esforço do que a recompensa, o processo do que o grand finale.
- Acredito que a paz de espírito está no coração dos ignorantes. - Fitz disse, pausadamente. - Para aqueles que não saem da "cotidianice", que olham para seus problemas por um prisma egoísta e totalmente não-relativista. Não ter o peso do intelecto e de séculos de reflexões sobre seus ombros é, sem dúvida, a maior paz de espírito que existe.
- Algumas religiões e filosofias orientais acreditam que você pode se libertar de todas as angústias e problemas desapegando-se de tudo o que é material - Dibs disse - e isso inclui não só bens e objetos, mas também envolve que você não se relacione com ninguém, seja esse relacionamento familiar, amoroso ou amigável. O ato de desprender-se, de certa forma, de toda a sua vida implicaria uma paz de espírito constante por não haver com o que se preocupar. Tudo é passageiro.
- Não gosto dessa ideia. Se eu me desprendesse de toda a minha vida, eu me desprenderia também de mim e de minha identidade, minha história. Eu realmente teria paz de espírito, porque não teria de refletir nem de me preocupar com nada, já que tudo é passageiro! - Apontou Eduardo. - Eu, quando jovem, gostava de pensar que eu alcançaria a paz o dia em que estivesse fazendo algo bom para mim e útil para o fator externo, seja esse fator a sociedade ou minha família. Esse equilíbrio, assim como Hermann disse, tendo a acreditar que só pode ser acessível quando começamos a pensar o valor das coisas por que passamos na nossa vida. Isso está incluso no gigante pacote definido por "aproveitar a viagem". Acho que essa determinação do que é válido e do que não é só pode ser feita se olharmos para nossa vida de fora, de cima, como se estivéssemos no topo de uma montanha: o que é pequeno some, apenas grandes formações continuam visíveis, e são essas grandes formações que merecem nossa atenção.
- Mas para alcançar-se essa forma de visão, tão cósmica, primeiro precisa-se reconhecer que, apesar de tudo por que passamos ter certa influência, mesmo que minúscula, na nossa identidade, deve-se aprender a valorizar acontecimentos ou reflexões realmente importantes: formadores de caráter, questionadores de nossa ética... e isso exige um certo desprendimento, sim, da predominância das emoções, as quais geralmente influenciam no nosso juízo de valores do que é realmente importante e o que pode ser considerado fútil - Fitz disse. - Tal atitude só pode ser esperada dos mais ricos intelectualmente. Não sei vocês, mas eu vivo em constante angústia e, apesar de eu também não gostar de utopias, como Dibs, tendo a pender para o lado cético da questão, o lado que grita "estás louco?!, paz de espírito é para parvos, sem grandes questionamentos ou grandes angústias!".
- Vocês acham que tudo na vida é muito fácil. - Dibs disse, de forma disparata. - Tudo é ou inalcançável ou só digno de idiotas. Não é você mesmo que estava falando sobre aproveitar a viagem, Hermann? E não é essa a beleza? Acompanhar a sua evolução como ser humano, (racional, social e de alma muito rica), enquanto busca a paz de espírito, a solução dos problemas e uma forma mais saudável de encarar a vida? Não é isso o que torna a vida cheia de significado e aprendizado? Você acha, Fitz, que a vida de um parvo, em seu final, terá muito significado? Não que eu esteja desvalorizando vidas, cada um a aproveita da forma que bem quiser, só que um ser que se questionou e refletiu durante toda sua existência tornará sua vida muito mais significativa do que alguém que só cumpriu sua função biológica de existência. - Dibs então parou para tomar fôlego. - E não me venham com a ladainha de "mas o destino inexorável de todos é a morte". Isso só deveria fazer com que aproveitássemos mais, tendo a consciência de que, provavelmente, essa será nossa primeira e última chance.
Dibs revelava-se e os outros três homens encolhiam-se em suas roupas, envergonhados por terem deixado morrer dentro de si o Dibs que ali um dia esteve.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

sobre personalidades

O homem definitivamente é composto de várias facetas que coexistem - nem sempre em plena harmonia, mas coexistem, uma não anulando a outra. Definir-se como tendo uma, duas ou dez faces é limitar todo o processo eterno de formação e expansão de seus caráter, personalidade e alma. Por mais que alguns dos lados do indivíduo seja evanescente, efêmero; as características que o compõem não o são, e continuarão existindo, pertencentes a outras facetas, dissolvidas na imensidão de nosso universo particular.
Tendemos a achar que nossa personalidade é dividida em vários âmbitos, tipificados, com uma ou outra característica mais marcante, tornando assim mais fácil o processo de reconhecimento de tal faceta. Mas tal faceta não é composta por só uma característica, por só um tipo, por um só sentimento predominante. Há uma história por trás desse sentimento e dessa característica, há motivos por trás da determinação e da formação de tal face, tornando cada uma das faces uma micropersonalidade, uma ramificação da síntese personalítica - mas não menos complexa.

Sendo assim, quanto mais vivências, questionamentos, experiências, leituras, reflexões, situações, atritos, conflitos e decisões passamos ou temos de fazer, uma nova ramificação se forma, partindo da mesma raiz sólida e concreta que são nossos valores, princípios, ideais e sonhos.

Essa infinidade de lados existe por um motivo. Quanto mais rica a personalidade, quanto mais diferentes e variadas forem as formas de olhar para uma mesma questão; mais pertinente, útil e benéfica para todas as micropersonalidades a decisão final será - mas também mais difícil de ser feita e de ser aceita. Uma pessoa que não tem acesso ao conhecimento científico a respeito de tal doença aceitará a morte como sua única possibilidade e seu destino fatídico - é porque deus quis. Já quem tem acesso a todos os livros, bulas, teses e médicos possíveis fará o máximo para que haja outros caminhos, outras alternativas, uma sempre melhor que a outra.
E por mais que haja algum traço que não nos agrade em nossa personalidade - algum traço que não precisava existir e que continua lá, por algum motivo, como um vício -, ele é tão necessário para o processo de autodescobrimento quanto os traços que nos são úteis e que se sobrepõem aos outros. Justamente os de que não gostamos ou que não aceitamos em nós mesmos é que nos afastam das outras pessoas que possuem semelhantes. Quando aprendemos a lidar com o que nos incomoda - quando damos nomes aos nossos fantasmas - é que passamos a viver em harmonia com tal traço em nós presente.

Mas, no final das contas, sejam as ramificações evanescentes ou cicatrizes, o conjunto todo forma o sujeito, que dará frutos, responderá às estações e se desenvolverá de forma única e diferenciada.

terça-feira, 10 de maio de 2011

dibs pronuncia-se

- Sabem o que eu acho? - começou Dibs. - Acho que os tolos aqui são vocês. Vocês é que são o hedonistas e escravos do capitalismo, os manipulados, os infelizes, os insatisfeitos e os ingênuos! Vocês - até você, Hermann - é que se deixam cegar pela ganância, prepotência, ignorância e pseudo-busca por um sentido da vida. Não os culpo! Acho que o tempo tornou-os duros e de certa forma cegos ao que realmente importa. Mas é muita agnosia da parte de vocês acharem, que por serem mais velhos e estudados do que eu, que sabem mais sobre a vida ou que têm o futuro mais apropriadamente traçado. Filósofos, pensadores, psicólogos e sociólogos de muitas gerações já afirmaram que devíamos ver o mundo com o olhar das crianças, não no sentido de um olhar sem malícia, mas de um olhar de quem aproveita o que está vivendo, de quem tem sonhos no coração e procura concretizá-los da forma melhor e mutuamente benéfica possível... quando crianças é que aprendemos a amar, sentir, sonhar e planejar corretamente... esses valores todos vão se dissolvendo dentro de nós com a idade e o falso conceito de maturidade... Portando, do meu ponto de vista, ingênuos são vocês, que se acham bons o suficiente para viverem sozinhos!
Não é preciso dizer, caro leitor, que a atmosfera ficou cheia de tensão e indignação. Hermann sentia-se envergonhado por ter recebido uma lição de moral de tão jovem criatura, Fitz sentia-se indignado e já calculava respostas para cada sentença dita por Dibs, e Eduardo estava realmente refletindo sobre o que Dibs dissera. Mas, de forma geral, o que cada um se perguntava era: e se Dibs estiver realmente certo? E se aqueles valores mencionados por ele tornassem a vida realmente mais proveitosa e menos difícil?
Eduardo começava a sentir vontade de bater sua cabeça contra a parede. Trinta e tantos anos, vinte e tantos investidos em agradar a terceiros. Os últimos dez anos de sua vida empregara apenas em reverter suas habilidades em algo que poderia ser útil apenas aos outros e que não lhe dava nenhum prazer. Alguém que passa tanto tempo assim ou é realmente ignóbil e não dá valor à própria vida ou é alguém que aterroriza-se só com a ideia de fazer algo por si próprio, de seguir os próprios sonhos independentemente de sua utilidade ao capitalismo atual, se arcar com as consequências das próprias escolhas.
Hermann tentava calcular onde é que tinha errado. Tudo aquilo parecia tão óbvio, mas Hermann acostumou-se a olhar através do óbvio, então muitas vezes não capta as coisas mais simples. Tanta complicação, tantas desculpas, tantos motivos para não aproveitar a vida; que Hermann esqueceu-se do valor-mor, instintivo, primitivo e poético em todos os sentidos: simplesmente aproveitá-la, pois não teria outra. Tornar-se escravo das próprias ideologias, epifanias, medos, hipóteses e obrigações para com a tal sociedade também é uma forma de anular-se. Prender-se à tarefa sem aproveitá-la é tão herege quanto não fazê-la.
Fitz não queria aceitar que sim, talvez Dibs esteja certo, talvez afastar as pessoas não seja a atitude mais certa a se tomar. Julgar o caráter das pessoas baseado em seu nível intelectual é tão errado. Prova disso era ele mesmo - extremamente dotado intelectualmente, mas não serviria como referência de cidadão moral. Tampouco seria um amigo de verdade. Tendo sua existência marcada por solidão e muitas contradições dentro de si, Fitz concluiu que sim, há um método alternativo, a felicidade é possível, arrogância não é sinônimo de superioridade.
Dibs era, sem dúvida, o jovem que um dia os outros três foram, mas abandonaram por conveniência ou falta de utilidade, e aquela conversa resgatara valores há muito esquecidos...

quinta-feira, 28 de abril de 2011

o sentido da vida

- Utopias me deixam extremamente frustrado. - Eduardo continuou. - Se eu detesto o sentimento de não ter conseguido cumprir uma meta, me sinto ainda pior quando percebo que tal meta é inalcançável.
- Quando sua meta passa a ser algo inalcançável, alguma coisa está errada. - Fitz comentou. - Quero dizer, quem em sã consciência passa a desejar algo que não pode nunca ser atingido? É masoquismo!
- Acho que uma pessoa já muito realizada tende a, cada vez mais, sonhar mais alto, consequentemente exigindo mais de si e empenhando-se mais na conquista de seu objetivo... - Dibs disse.
- Não. Acho que desejar algo inalcançável não significa que a pessoa seja realizada, significa falta de humildade e sentimento de onipotência. Em outras palavras, estupidez. - Fitz disse.
- Se todos pensássemos assim - Hermann começou - ninguém não buscaria nem encontraria um sentido para a própria vida, visto que a busca pelo mesmo geralmente leva bastante tempo e muitas vezes parece inatingível.
- Mas encontrar um sentido para a própria vida é algo muito mais profundo e complexo do que simplesmente considerar-se admirável o suficiente para atingir todo e qualquer objetivo almejado - disse Fitz. - O indivíduo pode muito bem ter um objetivo moral para cumprir durante sua vida sem começar a achar que é capaz de cumprir com todos as suas metas.
- Mas então - disse Hermann, e começou a desenvolver a frase vagarosamente:- o que torna uma busca por um sentido na vida diferente de uma outra meta qualquer?
Os outros três puseram-se a pensar. Dibs resolveu pronunciar-se.
- A busca por um sentido deve basear-se nas suas aptidões, gostos... Deve ser uma união do útil com o agradável, ao mesmo tempo pensando de que forma se estará contribuindo ao mundo ao seu redor. Seja esse mundo composto por 6 ou 6 bilhões de pessoas, tudo o que você faz é de certa forma importante para pelo menos uma pessoa... independentemente da área de sua atuação, deve-se sempre segurar sua lâmpada, seja pra iluminar uma pequena área ou um ambiente inteiro...
- Então, basicamente, devemos todos empregar nossas habilidades e o que gostamos de fazer para o bem? Para a melhoria do mundo? - Fitz soava incrédulo. - Isso é tão romântico.
- Perdão pelo clichê, mas se todos fossem como Dibs, senhor Fitzwillian, o mundo de fato seria melhor. - disse Hermann.
- Olha, meu caro, minha melhor habilidade é a manipulação, e o que eu mais gosto de fazer é fazer o que eu quero. Como isso pode ser revertido para o bem?
- Você é um pobre coitado que precisa de muita ajuda para livrar-se desse seu lado que foi esculpido por conveniências, negócios e seu pai. Fitzwillian, você sabe bem que manipulação não é seu maior dom, e que se você investisse um mínimo de tempo em um processo de autodescoberta você seria um homem completamente diferente. - Hermann disse, deixando Fitz a olhar pela janela, vermelho. - E você, Eduardo? Já descobriu um sentido para sua vida?
Os olhos se voltaram para Eduardo. Hermann olhava-o curiosamente.
- Na verdade, não. Passei tanto tempo sendo o que o mundo queria que eu fosse que me perdi no meio do caminho.
- Você não tem uma esposa e filhos?
- Sim... posso dizer que depois de um tempo pude sentir que começou a florescer alguns traços de amor dentro de mim, por ela. Casamo-nos por conveniência social. Ela é tão perdida quanto eu, mas mostra-se, dentro de casa, uma mulher decente e ótima mãe... E meu filho, meu filho provavelmente é o único motivo pelo qual eu continuo seguindo com minha vida de fachada.
- Você não acha que isso é um ótimo sentido para sua vida? - Dibs perguntou. - Viver para fazer alguém feliz, viver sendo feliz porque o outro está feliz. Mesmo que sua busca seja eterna e que você nunca se conheça por completo, sua vida não vai ter sido um completo desperdício, pois você terá compartilhado-a com sua esposa e filho. Uma vida com amor nunca é vazia, pois o amor é o sentimento mais nobre e satisfatório que existe.
- Dibs, você é um eterno romântico, ingênuo, tolo. - Disse Fitz. Ele olhava pela janela novamente, mas não conseguiu disfarçar que as palavras do mesmo haviam atingido-o - ele, cuja vida esteve repleta de tudo, menos de amor.

sábado, 16 de abril de 2011

liberdade

- Ao menos eu sou livre, Fitzwillian.
Essa foi a resposta dada por Hermann, uns tensos segundos depois das explosão e confissão de Fitz.
Dibs tinha suas orelhas vermelhas e as mãos juntas em seu colo.
Eduardo encarava Fitz e Hermann como se estivesse acabado de assistir um diálogo entre ele e ele mesmo.
A Dama observava toda a composição da cena com um êxtase profundo.
- Que diabos, Hermann! - Fitz agora encarava-o como se fosse louco. - Eu sou livre, legalmente livre e responsável por mim mesmo e por qualquer outro alguém desde que completei vinte e um anos de miserabilidade!
- O que quer dizer com isso? - Eduardo interveio. - Você supõe que algum de nós não seja livre?
- Eu sou livre porque sou escravo das minhas virtudes e dons. Vocês são escravos do que a nossa sociedade, hedonista e que padroniza, impõe que sejam. Vocês são escravos do trabalho e do dinheiro, são escravos da falsa ideologia (que atua como uma pseudo-crença a ser seguida) que lhes é imposta todos os dias por todos os meios de comunicação, são escravos de seus impulsos e desejos carnais e materiais, são escravos de uma falsa necessidade de atualização. São pobres seres racionais que são enganados a todo instante. Mas vocês todos, todos, são ignorantes a ponto de não saber que, se vocês são escravos de si mesmos (de um eu idealizado e requerido pela sociedade), são também os donos de si mesmos, possuidores da única chave para sua própria libertação. Libertação essa que exigiria muita reflexão e desprendimentos, mas que traria uma recompensa para toda a vida.
Ficaram todos, exceto Fitz, encarando os próprios sapatos, como crianças que acabaram de levar uma bronca moral da mãe. Dibs mostrava-se incrivelmente maravilhado de ter acabado de escutar toda aquela profecia ditada por Hermann. Não conseguia esconder a admiração e, ao mesmo tempo, a pena que sentia pelo homem.
- Se você é escravo de suas virtudes, Hermann, você também pode estar sendo ludibriado pelo que acha ser um bom motivo para continuar vivo. Se você acha que ser escravo de sua inegável habilidade para refletir criticamente acerca das coisas, escrever sobre o comportamento humano, cercar-se de cultura e embriagar-se de poesia modernista são virtudes, provavelmente o pensa porque são atitudes não tão comuns em nossa sociedade. Logo, você continua sendo escravo da mesma - no caso, é escravo do que não é requisitado ou apreciado. - Fitz concluiu, finalizando sua fala num tom estranhamente reflexivo e não tão sarcástico.
- Hermann, também há a possibilidade de você cegar-se tanto acerca de suas virtudes que se esqueça de trabalhar seus defeitos. - Dibs disse. - Ou você acha que é completamente normal e são estar total e completamente alternativo à sociedade? O homem é um ser social, vive em sociedade e de uma forma ou de outra deve fazer parte dela, e você precisa parar de acreditar que assistir à programação que passa em seu televisor ou comer fast food de final de semana acabaria por corromper seu rico caráter.
Ficaram quietos, refletindo. Era muito conteúdo em um demasiadamente curto espaço de tempo.
- Mas então - Eduardo quebrou o silêncio - o que é ser livre?
- Acredito que seja não prender-se a nada. Não prender-se a valores como se fossem a única verdade do mundo. - Fitz disse. - Acho que um homem realmente livre é aquele que consegue enxergar e refletir acerca de ideologias e opiniões diferentes, e, por fim, montar, como num mosaico, sua própria tese acerca da vida.
- Mas como? Como uma pessoa pode montar seu caráter e ter uma posição definida, se ela não se prende a ideia nenhuma? Uma pessoa assim seria indecisa pelo resto da sua vida! Estaria destinada a ficar em cima do muro em todas as decisões que envolvam uma moral, por toda a sua vida! - Hermann disse. - Ser livre é ser indefinido?
- Não, Hermann. É totalmente possível que se tenha um ponto de vista mesmo não se prendendo a uma só teoria. E esse é o real valor da liberdade que Fitz está tentando nos mostrar. A liberdade é um valor acima de todos, e só é possível alcançá-la quando nos libertamos dos nossos preconceitos e passamos a olhar tudo por cima, conseguindo compreender tudo à nossa volta, porque temos nosso olhar livre o suficiente para analisar uma situação sem nos prendermos à uma ideia totalmente contra ou totalmente a favor a ela. O indivíduo livre não é aquele indeciso, pelo contrário, é aquele que reflete e pensa e define muito mais do que qualquer um, pois tem sua mente aberta a tudo. - Foi a vez de Eduardo manifestar-se. - Utópico. Não acredito que alguém consiga atingir esse estado. Talvez Buda, Gandhi, Maomé ou Jesus Cristo, mas não nós.
- Não gosto de utopias. - Dibs pontuou.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

felicidade

A atmosfera ia ficando cada vez mais carregada de faíscas e tensão entre Eduardo e Hermann. Comentários cínicos e indiretas ficando cada vez mais frequentes. Dibs olhava-os de forma confusa, Fitz tinha seus pés apoiados na mesa e consumia seu segundo charuto. Dama passava os dedos ao redor da sua taça meio cheia (ou meio vazia, dependendo da corrente filosófica do leitor). Tomou fôlego, hesitou, mas levantou a voz.
- Eu queria propor-lhes uma troca de ideias...
- Deus me livre!, para citar Mário Quintana, mademoiselle. Prefiro abster-me da discussão. - Suponho que o leitor já saiba de quem foram essas palavras.
Fitz soltou a fumaça pela boca com um estalo.
- Qual seria o tema?
- Felicidade.
- E se eu não souber o que me faz feliz? - Dibs pronunciou-se.
- Acho que é mais provável que nenhum de nós saiba o que é a felicidade porque a possibilidade de alguém aqui ter sido feliz alguma vez é mínima - Eduardo disse, num tom baixo, calmo, controlado e até vago.
- Não é possível ser feliz -, máxima lançada por Fitz.
Dama encarou-o.
- E por que não?
- Pois a felicidade é algo a que sempre almejamos e sempre almejaremos, e quando superamos um obstáculo para alcançá-la surge sempre outro e outro, por mais que esses obstáculos sejam colocados por nós mesmos. O homem não quer e não merece ser feliz.
- Essa quantidade de obstáculos surge quando não se sabe o que quer - Eduardo disse, encarando Fitz e surpreendendo-se com a similaridade entre os dois. - quando se tem um objetivo em mente, não surgem novos obstáculos, esses só vão ficando cada vez mais complexos, exigindo cada vez mais de nós, e é esse desgaste que nos impede de alcançar o êxtase.
- Eu não sei vocês, mas - Dibs disse, timidamente - eu sou feliz quando estou amando alguém e consequentemente amando-me. Eu... acho que vocês só afastam a felicidade quando pensam muito sobre ela...
Fitz e Eduardo calaram-se. O garoto tinha uma opinião. O garoto tinha uma opinião a respeito de um assunto complexo e labiríntico como felicidade, e expressou-se de forma clara e modesta. Fitz mostrou-se balançado, Eduardo tinha uma expressão nostálgica em seu rosto. Via seu eu adolescente em Dibs.
- A felicidade - Hermann começou a falar, devagar, como se estivesse escolhendo as palavras certas - está na busca pelo que achamos que ela é. A felicidade está no processo, em tudo que conquistamos achando que só no final seremos felizes. Se a busca terminasse, qual seria o motivo para continuarmos vivos? A incessante busca por algo mais nos motiva e deve sempre nos motivar, o problema é que muitos se perdem no caminho e acabam não apreciando a verdadeira beleza da vida, que é o viver, e não o terminar...
No rosto misterioso de expressão quimérica esboçou-se um sorriso. Dama parecia satisfeita.
- Eu não... me considero feliz. Não faço o que eu quero, nunca fiz o que eu queria, e a única certeza que eu tenho é de que eu não gosto de como minha vida está - Eduardo disse.
- Isso é um começo, oras... ao menos você sabe do que você não gosta. - Dibs disse, encarando os próprios sapatos.
- Se o verdadeiro proveito encontra-se na busca pela tal felicidade, então por que eu não sou feliz, Hermann? - Fitz perguntou.
- Talvez você esteja procurando no lugar errado. - Hermann respondeu com um sorriso terapêutico. - Se começasse a viver sua vida por você e não pelos outros talvez você aproveitasse o que eu chamo de processo de descoberta.
- Isso não está certo. Eu tenho meu objetivo em mente. Eu sei o que eu quero. E eu sempre consigo o que eu quero. Na verdade, eu já conquistei meu último objetivo - Fitz disse. - Não é como se eu ligasse também.
- Objetivos superficiais e fáceis. Pela forma como você diz, você deve morrer de medo de desejar algo mais difícil e frustrar-se se não o alcançasse. Fitz, é normal e bom falhar às vezes. Torna-nos humanos.
- Você é um hippie doido! Quer o quê? Que eu me desprenda da sociedade vá viver no campo lendo poesia do século quatorze? Que eu passe a admirar cada segundo do meu dia entediante e sem novidades? Que eu chegue atrasado ao trabalho e quando meu pai pedir uma explicação, eu diga que estava apreciando o milagre da vida ao ver um pássaro sair de um ovo? - Fitz ficou vermelho e fumava cada vez mais compulsivamente. - Poupe-me, Hermann! Eu não quero acabar como você.

domingo, 3 de abril de 2011

sobre Hermann

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!

E não há verso que poderia expressar melhor a ideologia de Hermann para com o restante do mundo. Hoje Hermann era um senhor de meia idade com uma carreira acadêmica brilhante e alguns prêmios de excelência dados pelas mais ilustres organizações de sua área. Fã de aforismos e de conclusões objetivas e claras, apesar de não ser nem de longe tão pragmático quanto Fitzwillian. Porém, note que o processo, a evolução do pensamento, as conexões e assimilações eram incrivelmente demoradas e eram a parte mais apreciada por Hermann.
Tinha um espírito investigativo, característica sua desde adolescente. Passou inclusive por várias fases e várias ideologias. Após uma breve fase niilista, Hermann percebeu que vida nenhuma pode ser desprovida de sentido, então empenhou-se para que a sua própria tivesse algum. Ele questionava e instigava não para chegar ao nada absoluto e à destruição completa da moral, mas porque queria entender tudo, seu funcionamento - queria aperfeiçoar as artes, a ética, a moral, a filosofia, a psicologia, a ciência. As pessoas. Queria aperfeiçoar as pobres pessoas de espírito fraco.
Muito idealista. Extremamente idealista. Se sua atividade não levasse ao bem e apenas o bem, não poderia praticá-la. Se não fosse totalmente ético, o rumo de sua vida a partir dali tornaria-se uma espiral cujo final era a inevitável corrupção de espírito. Riam-se os colegas de Hermann, admiravam-no e sentiam pena seus professores.
A busca por um sentido na vida tornava-se cada vez mais desgastante e complexa conforme vai se envelhecendo. O que de certa forma não faz tanto sentido para as mentes das pessoas comuns, porque o raciocínio lógico e socialmente aceito é que quanto mais se estuda e trabalha, mais específica sua atuação no mundo vai ficando e, consequentemente, mais específica e definida sua visão e planos para o futuro. Mas Hermann, que surpresa, era diferente. Quanto mais ele estudava, mas sentia que havia déficit de investimentos sociais em várias áreas da sociedade, mais sentia que precisava estar em todos os lugares a todos os instantes, e menos sabia onde em que exatamente queria fazer sua contribuição. Pode-se dizer que este é um dos motivos de Hermann ter seguido carreira acadêmica - lendo, pesquisando, pensando e escrevendo - e nunca realmente lançou-se no mercado por vontade e gosto próprio (pois trabalhara com o pai, rico).
E com a crescente complexidade de sua busca, a frustração com relação às pessoas também ia aumentando. Pensar que ninguém tinha os mesmos questionamentos e objetivos que ele era muito desencorajador. Sua área de interesse era realmente extensa - sua paixão era por Humanas. Escreveu artigos sobre filosofia, psicologia, ética, moral, história, sociologia, antropologia, história da arte - especializou-se em filosofia porque achava que isso o ajudaria a decidir que rumo, que corrente tomar.
O desespero. Hermann vinha lidando com o desespero. Tentava reprimir, lutava contra, estrangulava a vontade mais pura que havia dentro de seu ser - desistir de tudo porque não restava mais esperança, não se podia acreditar no potencial das pessoas porque elas não tinham um potencial. Esse desespero que originava crises de angústia, de existência - sentia-se incontrolavelmente tentado a voltar à sua filosofia Niilista. Seria tão mais fácil.
A idade chegando, Hermann foi tornando-se uma caricatura de si mesmo, porque não fazia muito além do que sempre fez (ler, pesquisar, pensar e escrever). Esse tipo de quase excelência moral e intelectual não costuma ser um atrativo ao orgulho de pessoas medíocres, então foi se tornando recluso e alternativo à sociedade. Não era e nunca foi sociofóbico e misantropo, mas uma parte do seu ser relutava e ganhava toda vez que sentia necessidade de assistir a um filme ou tomar um café forte.

O tempo passa, as perguntas mudam junto com os interesses, as visões de mundo, a maturidade e a alma, mas algo que Hermann se perguntava desde tenra idade até aquele momento era: Por quê? Por que as coisas são assim? Não há bagagem sociológica que explique o mundo em que vivemos e sua total inversão de valores com a passagem das décadas, e Hermann não estava nem perto de se conformar com a resposta "porque sim".

segunda-feira, 28 de março de 2011

sobre o tal Fitz

Fitzwillian. Elegante, de postura sóbria, olhos zombadores, parecia atrair toda a atenção da sala para si só respirando. Exalava arrogância por todos os poros de sua pálida pele. Usava roupas visivelmente caras e portava-se como um cavalheiro, educado e respeitoso com suas palavras.
Era rico. Estupidamente rico. Era herdeiro de uma quantia que poderia garantir uma vida muito confortável para a sua e para as próximas três gerações. Teve a melhor educação disponível desde o berçário, e acostumou-se a receber nada menos que tudo em suas mãos - sempre. Desde bens materiais até respeito e admiração, mesmo que fingidos.
Mas diferentemente do resto de sua família, elitistas ignorantes, Fitz tinha mais complexidade em sua existência. As raízes dessa complexidade não são totalmente certas - parte atribui-se ao fato de ter tido professores muito bons, parte porque era extremamente inteligente, parte porque era uma criança muito sozinha e passou a dedicar-se à leitura de livros densos e de assuntos frutíferos -, mas sabe-se que Fitz desenvolveu uma personalidade multifacetada e, em muitas situações, paradoxal. Por vir de uma família muito rica, tinha algumas obrigações e algumas expectativas a cumprir - muitas delas demasiadamente superficiais para sua essência rica. Tornou-se inseguro diante do choque entre habilidades e expectativas, característica sua que foi e é muito bem disfarçada atrás de seu sorriso de superioridade.
Fitz já se machucou e machucou os outros incontáveis vezes por ter de manter uma imagem tão rígida e imutável; quantos romances e amizades ele perdeu por não se deixar relacionar com pessoas de nível inferior... Parte dele dizia que as relações humanas são baseadas em questões que vão além de nível intelectual - mas a outra parte dizia que para a relação ir adiante a pessoa tem de ter a mesma quantidade de inteligência do que ele mesmo (como se inteligência fosse mensurável), porque desta forma a pessoa em questão sempre teria uma contribuição para fazer à cultura de Fitz. Sua parte humana dizia que uma relação baseia-se em confiança, respeito, admiração e empatia mútuos, além de semelhanças morais; mas a parte lógica e irredutível insistia no fato de que um indivíduo só é respeitável se for intelectualmente páreo.
Essas questões internas nunca foram completamente resolvidas; Fitz não buscou ajuda e nenhuma ajuda foi lhe oferecida; então conforme foi crescendo e amadurecendo, esses pontos e paradoxos foram acumulando-se dentro de si, não desenvolvidos e não trabalhados. Esse defeito, esse rombo moral na personalidade de Fitz é conhecidos por poucos, pois nunca ninguém conseguiu adentrar ou compreender o labirinto que é seu espírito.
Foi trabalhar com administração para dar continuidade à empresa do pai, assim como seu pai o fez, assim como seu avô o fez, e assim como seus filhos e filhos dos seus filhos o farão. Tendo compreensão dessa área desde muito tenra idade, Fitz assumiu com muita tranquilidade o cargo de dono da tal. Aprendeu a ser eloquente, carismático e hipócrita para conseguir o que queria - parte dele gostou de aprender a lidar e manipular as pessoas, mas a outra parte detestou o fato de ter de baixar a guarda, de ter de mudar do semblante ranzinza e superior para o afável e confiante, pois ele detestava ser quem ele não era. Paradoxos, paradoxos.
Trinta anos e nenhum herdeiro, nenhuma mulher, nenhuma amante. Fitz já se apaixonara anos atrás - mas a visão de um casamento com uma mulher sem ambições o fez sufocar esse amor correspondido e bonito. Detestava-se por isso. Adorava-se por ter visão de futuro.
Muitas barreiras foram transpostas durante toda a sua vida; Fitz aprendera a deixar algumas complexidades de sua alma para trás - detestava-se por ser tão superficial às vezes, adorava-se por conseguir ser tão pragmático. Sim, pragmatismo é algo muito valorizado por sua família.
Fitz. Complexo, paradoxal, pragmático e inseguro.

quinta-feira, 24 de março de 2011

sobre o tal Dibs

Dibs era o mais jovem dos indivíduos ali presentes. Tinha entre seus vinte e vinte e cinco anos. Não sabia muito sobre a vida, não sabia quem era, não sabia se era alguma coisa, ele era não sabe quem.
Vivendo entre linhas de liras e prosas, filosóficas ou suicidas, existenciais ou supérfluas, Dibs aproveitava seu tempo. Não sabia se era muito inteligente - nunca tivera nenhum grande estímulo e realmente acreditava que não tinha habilidades muito foras do comum. Talvez seus verdadeiros talentos tivessem sido sufocados com a incerteza da capacidade. Dibs não sabia exatamente como conviver com isso.
Apesar de ter alma de poeta e sonhos ingênuos, quando questionado sobre seus sentimentos, Dibs escondia-se atrás de ideologias tiradas de algum livro ou de algum comentário sarcástico que o colocasse na (ilusão de) posição de controle da situação novamente. Não sabia exatamente como lidar com isso.
Sentia que tinha opiniões e que podia desenvolvê-las, mas - os outros pareciam estar sempre com tão mais razão que Dibs não desperdiçava seus neurônios numa discussão ou debate.
Em sua alma lírica a ideologia que dominava era a do amor. Tinha uma sensibilidade quase feminina nesse aspecto. Sonhava em compor uma família, em viver entre atos de aprendizado, amadurecimento e carinho. Casar-se com a mulher amada. Ter filhos cujas bochechas rosadas alegra-lo-iam a cada instante do dia.
Por ser de espírito tão leve e simples, tendia a não destacar-se numa multidão - não que ele tentasse, de qualquer forma. Dibs geralmente era o garoto sentado na ponta da mesa, a olhar pelas janelas, a observar as nuvens e a tamborilar os dedos na lateral do copo. Quando seu discurso era requisitado, sorria de uma forma doce e assim satisfazia quem tivesse perguntado.
Dibs sentia-se tão diferente de Eduardo. Aliás, sentia-se quase intimidado só de estar na presença de um homem que, segundo suas fontes, era tão respeitável. Lembrava-se de ter visto Eduardo em tal revista algumas vezes. E Hermann então? Hermann poderia dar inimagináveis aulas sobre tudo o que é possível dentro de filosofia, psicologia, política, economia, história... Vez ou outra, Hermann lançava a Dibs um olhar quase paterno. E Fitz. Fitz era Fitz, oras! Bonito, rico, galã. Dibs não sabia a qual personalidade aspirar mais.
Dibs, com suas personalidade, alma e ideias ainda em formação. Dibs, com uma renda média, uma aparência média e uma vida social média. Dibs achava-se medíocre, queria ser mais, mas tinha medo de perder-se dentro desse "mais".

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

carpe diem?

Acho que o conceito de hoje sobre "aproveitar a vida" está um pouco equivocada. O uso da famosa frase "Carpe Diem" é extremamente errôneo. Focam-se no conceito "viva como se todo dia fosse seu último". Nessa frase não estão incluídos nem atos inconsequentes nem ter sua juventude transviada. Explico. Carpe Diem. Aproveite o momento. Realmente dá abertura para muitas interpretações.
Essa frase é a desculpa pseudo-filosófica de pessoas, de uma forma geral, que querem agir impulsivamente e estupidamente, e que muitas vezes não sabem da ideologia, mas se aproveitam da imagem consumista e materialista que cresceu em torno da frase. Aproveitar tudo ao máximo. Não ligar para seu futuro. Não ligar para as consequências. Não ligar para as repercussões, sejam elas uma ressaca ou uma reputação estragada. Embriagar-se e inebriar-se. Experimentar da essência de muitas pessoas diferentes. E deixar o estudo para a prova para o dia seguinte do dia seguinte. Essa é a imagem muitas vezes difundida pela mídia. Esse realmente é o significado de Carpe Diem?

"[...] sapias, vina liques et spatio brevi spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem quam minimum credula postero."
("[...]sê sábia, filtra o vinho e encurta a esperança, pois a vida é breve. Enquanto falamos, terá fugido ávido o tempo: Colhe o instante, sem confiar no amanhã.")

Colher o instante. Isso nos dá a ideia de colher frutos. O que poderiam ser esses frutos? Oportunidades, por exemplo. O trecho nos fala sobre como o tempo passa rápido e que não volta. O que eu considero que sejam essas oportunidades? Encontrar alguém, experimentar algo novo, plantar a semente de algo que no futuro poderá dar frutos muito benéficos e frutíferos. O sentido de "viva como se fosse seu último dia" que está presente nessa frase significa deixar sua vida pronta e em ordem, sem pendências, para que, quando o dia de sua partida chegar, não existam arrependimentos ou atrasos.
O único conflito que a interpretação da frase pode gerar é: e os arrependimentos? É melhor arrepender-se de não ter feito ou arrepender-se de ter feito? Na minha opinião, quando uma porta se fecha, a outra abre; acho que para todas as más decisões feitas abrirão-se portas para consertá-las; e sempre que não aproveitamos uma oportunidade nos será oferecida outra. O problema é que nem sempre temos os olhos abertos o suficiente para reconhecer o que é uma oportunidade, de fato.
E não acho que tudo isso que escrevi significa uma limitação para a vivência da juventude. Faz parte ir a festas, voltar bêbado pra casa, viajar com os amigos, experimentar coisas, mas tudo de uma forma saudável.

Típico discurso de mãe, certo? Mas todo mundo sabe que quando a mãe fala que vai dar merda, dá merda.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

também sou suicida.

Minha vida baseia-se na minha necessidade de sentir-me útil.
E cada sofrimento, cada angústia, cada sentimento que me deixava inquieto era um impulso para uma reflexão e, por conseguinte, uma decisão ou conclusão.
Também sou suicida, e considero isso uma fraqueza. Mas sou tão suicida que sigo uma filosofia na verdade propensa à vida, sou tão paradoxal que transformo minha maior fraqueza na minha maior fonte de forças. Sei que não faz sentido, pois todo indivíduo suicida é aquele que ultrapassou todos os próprios limites e que não enxerga mais um sentido na própria vida... mas minha vida é tão insignificante (no sentido literal de "sem significado" da palavra) e minha busca tão quimérica que me pergunto quais são os meus limites. Até que ponto um homem pode aguentar? Qual nível de sofrimento é necessário para que o homem desista de sua vida? De certa forma, apesar de minha vida não ser digna de um sentido, mantenho-me vivo por um propósito. E não, viver por uma ideia não significa necessariamente que essa vida tem algum sentido.
Matar-se é relativamente fácil e caseiro; e a ideia de que essa porta de saída de emergência está constantemente aberta só me instiga a permanecer vivo, a testar-me os nervos, a provar que sou mais forte que qualquer dor já vivenciada. E, em último caso, ou não.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

a essência

Todos os livros, toda a poesia lida de 400 anos atrás, toda a música apreciada de um artista de rua, toda construção admirada, todo céu contemplado, toda organização valorizada; tudo isso; tudo isso foi feito com a finalidade de dar algum sentido a essa minha efêmera e sofrida existência.
Os dias toleráveis, medíocres e medianamente agradáveis só faziam adormecer a minha essência. Minha ideologia: antes tão séssil, então extremamente estéril. A necessidade de colocar a cabeça para funcionar, de refletir, de ler os clássicos, de duvidar de alguma teoria, de sentir-me vivo e plenamente útil só faz com que eu me repugne ainda mais nos dias burguesmente comuns!
Odeio-me, odeio-me por não ser capaz de viver um dia de paz, de descanso e de inutilidade.
Os homens não se atrevem a nadar enquanto não o sabem. Eu, eu já estou prestes a me afogar num mar de teorias e revoluções esquerdistas! Prestes a me afogar numa maré de mediocridade, de choques culturais, de discordância e de assim-chamadas músicas modernas!
Mas ah!, a vida burguesa! Como é desvalorizada! Toda a rotina, a calmaria, o planejamento e a ignorância. Quisera eu não ter nascido com este ímpeto, com esta inanição de justificativas e explicações.
Ignorância. A ignorância tão melíflua.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Toska

Eu estava lá, sentada ao teu lado. Observando tua respiração, admirando teus cabelos, respeitando-te pela vontade de viver. Em cada suspiro teu eu via a dificuldade e a dor, e ao mesmo tempo, a imensa resistência em continuar respirando. Tu querias continuar viva. E eu não entendia isso. Hoje já há formas indolores de se morrer, como se a alma simplesmente saísse do corpo alguns instantes depois do fechar dos olhos. Como se a pessoa simplesmente fosse posta para dormir.
Minha intenção era acompanhar-te nos teus últimos momentos, mas depois cheguei à conclusão de que teria sido melhor se eu tivesse ficado em casa, se minhas últimas lembranças fossem do teu rosto sadio, rosa e com uma expressão alegre, inocente, infantil. Ver-te pálida era muito difícil. Teus olhos sempre foram tão vivos e transmitiam perfeitamente o que passava-se-te na alma. Agora parecia que, aos poucos, tua essência dissipava-se-te pelos poros.
"Vai ser melhor para você quando eu sucumbir," tu me disse. "Você e seus eufemismos", respondi. "Você e sua dificuldade de confrontar a realidade", foi-te a resposta.
Eu apertei tua mão e teimei em segurar as lágrimas que insistiam em rolar-me pelo rosto. Eu tinha de permanecer forte, pelo menos na tua frente. Se eu mostrasse qualquer sinal de fraqueza, tu ficarias ainda mais relutante e insegura de partir. Mas nós duas sabíamos que tu e tua doença eram as mais fortes daquela sala.
Eu estava ali desde a semana anterior, não podia sair do teu lado. Depois de dois ou três dias, comecei a aceitar a ideia de que a tua hora havia chegado, começava a me preparar psicologicamente para o acontecimento, tentei fazer as pazes com a morte, pensei que aquilo poderia me ajudar a amadurecer. Mas tu, foi contigo que eu amadureci mais, tu sempre esteve lá por mim. Compreendes?
Então aconteceu. Tu me disseras que ia dormir pois o cansaço tomara conta de ti, e alguns instantes depois, ouvi aquele temido zumbido constante vindo do monitor. Teu peito não mais subia e descia. Tua mão não segurava mais a minha. Acho que a palavra que mais define o que eu senti no momento é toska. Senti como se alguém tivesse, impiedosamente, arrancado-me metade da alma e jogado ao relento, como se só por prazer, como se só para assistir ao meu espetáculo de agonia. Eu realmente me enganei quanto às pazes que supostamente fiz com a Morte.
Foi difícil ver aquele pedaço de mim morrer. Ver os médicos cobrindo aquele meu corpo e dizendo a hora da morte foi realmente assustador, mas necessário. Eu precisava deixar aquela parte minha... ir.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

carta suicida

Não estava chovendo, não estava nublado, o ambiente não estava denso por causa de um clima triste. Não havia nenhuma gota de álcool em volta dele, muito menos drogas, muito menos remédios para dormir. Nada que pudesse justificar tal atitude.
Na verdade, o dia era definitivamente muito bonito, claro e ensolarado, quente, aconchegante, um perfeito fim de tarde de primavera com cheiro de baunilha. A hora do dia era aquele momento entre o crepúsculo e o fim da tarde; quando o sol está lá no horizonte e a cor do céu fica indefinida por um dégradé do azul quase preto para o verde.
Quando encontraram-no já era tarde, estava inconsciente e seus lábios estavam azuis. Uma carta foi encontrada.
A carta foi publicada num jornal nacional no dia seguinte à morte.

"A todos e qualquer um que se importe, de alguma forma, ao ponto de ler esta carta.
Eu não ligo se a minha morte entristeceu-te, alegrou-te ou enraiveceu-te. O importante é que você foi afetado. A minha vida inteira tentei afetar as pessoas, e seria uma ironia se só em morte eu conseguisse, de fato.
A questão é que senti que minha batalha foi perdida em algum momento de fraqueza... tantas pessoas me dizendo o que e como fazer chegou a me tresloucar, eu estava sendo mais afetado do que estava afetando as pessoas, entende, caro leitor?
A causa da minha morte é simples. Trancarei-me na garagem e inalarei monóxido de carbono. Entende? O monóxido aos poucos me envenenará, me tomará por completo, assim como o veneno da minha infelicidade e insatisfação. Não busquei refúgio em drogas, pois sei que o cigarro e os alucinantes seriam uma saída finita. Não busquei substituir água por álcool, pois morrer aos poucos por causa de uma cirrose não seria agradável. Escolhi uma tarde simples e perfeita, uma tarde que não me faria mudar de ideia, uma tarde que não me faria sentar numa varanda e pensar sobre como sou (fui?) miserável.
A questão, novamente, é que fiquei louco depois de começar a trabalhar no jornal. Sim, faz anos, e sim, eu dizia a todos que estava feliz, mas é óbvio, devido às circunstâncias atuais, que era uma mentira. Poder finalmente dizer minhas ideias sem me esconder foi ótimo, mas as críticas me corroíam e me faziam perder minha fé nas outras pessoas. Diziam-me para escrever sobre atualidades, ninguém quer saber sobre o fascismo, as pessoas querem saber das novelas e das celebridades... como se tudo que acontece hoje não dependesse do que aconteceu anos atrás. Novamente digo, perdi a fé nas pessoas. Estavam, aliás, são tão ocupadas em criticar, em não refletir e em vituperar tudo que não vai de acordo com seus valores superficiais que até olhavam para meus textos, mas não os liam. As pessoas são tão ocupadas em provar que elas mesmas estão certas que agem da forma errada.
Veja bem, amigo ou amiga, ignorância é uma bênção, de fato. Mas a ignorância pura, como a das crianças. A partir da adolescência não é possível encontrar indivíduos ignorantes. Todos são espertos, mas tão espertos que sabem que a alienação é o caminho mais fácil e indolor. E por eu não ter escolhido esse caminho, bem, cá estou, frio e inconsciente. Eu, finalmente, inconsciente! Ah, as ironias da vida... ou da morte.
Eu sei que você, leitor, lerá esta carta, olhará para o horizonte, balançará a cabeça e refletirá por alguns instantes. Mas depois sua vida vai voltar ao normal e seu pensamento nunca mais retornará à minha morte, pois é isso que as pessoas fazem.
Mas eu não estou escrevendo isso por você. Eu faço isso por eles, aqueles jovens que estão prestes a percorrer o mesmo caminho que eu percorri. É nesses jovens que a minha nova esperança instalou-se. E o meu conselho é: vendam-se. Vendam-se bastante. E quando estiverem totalmente comercializados, quebrem toda essa hipocrisia e mediocridade, chacoalhem a cabeça das pessoas, essas pessoas que um dia foram suas fãs. Afetem quem quer ser afetado, e acreditem, eles vão querer ser afetados por uma celebridade. Vão ao talkshow da Oprah, dêem-lhes o que eles querem, depois mostrem o quão estúpido superficial é o que eles querem. Afetem esses seres. E, por obséquio, realizem esse pequeno desejo desse cadáver putrefato: usem a minha morte para afetar as pessoas em vida.
À sociedade o que é da sociedade. Minha breve existência e último suspiro"

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

perdas

Nesse ano foi tudo muito drástico e intenso. Do nada começo a ter duas provas por semana, começo a ter que realmente estudar, a ter mols de quilos de matéria por dia... a quantidade de coisas que eu aprendi esse ano é absurda, tudo é absurdo, o ano passou tão rápido, eu tenho mais um ano e meio pra decidir o que eu vou ser da minha vida, me explica, como lidar?

Mas o problema não é isso.

Depois do segundo ou terceiro mês, você se adapta à rotina de ter que estudar um pouco mais, duas provas toda semana, mols de quilos de matéria por dia e assim por diante. O triste, triste de verdade, é ver pessoas de quem você gostava, quem você apreciava, mudar para algo totalmente nada a ver. É triste se distanciar de gente com quem você conviveu a vida inteira. É triste saber que enquanto algumas pessoas mudam para melhor e amadurecem, algumas decidem que não querem isso. É pesado estar numa escola em que seus antigos amigos estudam e você olhar para eles e dizer, "eu não tenho mais nada a ver com isso". As pessoas mudam tanto.
Me lembro que nessa mesma época ano passado eu estaria escrevendo sobre como tenho uma segunda família, sobre como nós nunca nos separaríamos, sobre como nossa amizade é pra sempre. E lembrar disso é tão frustrante, e eu me sinto tão impotente!
Era tudo tão fácil... tínhamos uma cumplicidade, só de olhar nos olhos de alguns dos meus antigos amigos nós já começávamos a rir, e hoje somos como estranhos... eu acho que tenho essa tendência de afastar pessoas, acho que tenho essa tendência a mudar rápido de mais e não dar tempo para os outros me acompanharem.
Sempre ouvi falar que sou muito séria, muito mãe, muito preocupada e coisas assim, mas o que eu posso fazer? Eu sou assim, nem sempre fui assim, mas acho que quando se faz 15 anos é hora de olhar para o futuro de daqui 3 anos, e não para a festa do próximo fim de semana, certo?
Mas, de qualquer forma, nesse aspecto eu sou triste, sou inconsolável, eu queria que tudo tivesse ficado do jeito que era. Eu mudei, mas várias pessoas também mudaram do avesso, fizeram outros amigos que não têm nada em comum comigo, e eu?, que sou uma pessoa muito bem aceita e que se encaixa em qualquer grupo social, fiquei aí, perdida. Tentei explicar esse fenômeno de ruptura de relacionamentos de muitas formas. Eu comecei a namorar, amadureci muito em pouco tempo, e da mesma forma que eu mudei, as pessoas mudam, da sua forma, também... Se eu sei bem quem eu sou e não gosto de ficar indo na onda de grupos específicos, também há gente que não é tão certo assim de sua personalidade e não vê problemas em mudar de estilo, comportamento ou atitudes. E não digo isso de forma pejorativa, pois somos adolescentes, a nossa maior crise existencial é com relação à nossa personalidade. (Bom, pelo menos, os 1O% da população adolescente que reflete um pouco mais a respeito de si próprio passa por essa crise em algum momento)

Bom, o que eu quero dizer, no final das contas, é que eu sinto falta de tudo. De ter uma turma grande, de ser cúmplice de alguém, sinto falta de sair com vocês. :/

(Acrescentando, sou eternamente grata por ter conhecido pessoas tão legais também, esse ano... acho que eu teria ficado deprimida sem vocês <3)