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terça-feira, 31 de maio de 2011

o fenômeno de ocidentalização

(o texto a seguir eu fiz para a aula de redação da minha escola. tirei 9,5 e tive meu momento de glória, pois considero minha professora um tanto quanto exigente. aqui vai.)

Globalização, geopoliticamente falando, significa livre fluxo de informações, capitais e pessoas entre os países. Com a revolução tecnológica da internet (que agiliza o fluxo de informações), abertura de países isolados economicamente e expansão do neoliberalismo alguns Estados tornaram-se dependentes do capitalismo e dos valores agregados a ele - tanto econômica quanto culturalmente. Certos padrões ocidentais tornaram-se a representação de "poder", e o motivo por trás disso pode ser compreendido através de uma análise histórica e ideológica.

Historicamente, o ocidente, representado por europeus e norte-americanos, está ligado a explorações, conquistas, avanços tecnológicos e revoluções. A Europa simboliza o avanço social, e os EUA, o econômico. Com toda a sua história e passado tendo construído a base de seu atual sucesso (em termos), não é de se espantar que o ocidente esteja ligado à ideia de poder.

Consequentemente, se o ocidente e sua política neoliberalista são a visão de progresso, sucesso e poder; o oriente (e qualquer outra cultura que vá de encontro aos "valores" capitalistas) e sua cultura seriam a visão do atraso e do fracasso. Com o fortalecimento da globalização, que tende a unificar e igualar culturamente o mundo, o fenômeno contrário, de regionalização, enfraquece - e, com ele, os governos e culturas demasiadamente regionais. A população tende a negar sua cultura para não se sentir "atrasada".

Outras consequências da globalização e da relação dominador/dominado são a exclusão ou anulação de culturas e a padronização - da beleza, dos produtos, da língua, dos valores, das roupas -, a qual está ligada à divulgação de um modo de vida ocidental. A padronização ocorre através de internet, filmes, revistas, até livros, que divulgam valores capitalistas, levando os cidadãos a pensar que seu modo de vida não é adequado por não ser igual ao "American way of life". Assim, para superar o sentimento de exclusão e marginalidade, uma japonesa morena e conservadora assume a aparência de uma francesa consumista.

Vistos todos esses âmbitos (histórico, ideológico e psicológico), compreende-se melhor a dominação ocidental sobre outras culturas. Conclui-se que o ocidente está, por inúmeros motivos e em inúmeras áreas, ligado à ideia de "poder", e por isso os indivíduos tendem a ocidentalizar-se, por exemplo na aparência, reflexo óbvio e visível (e risível). Até que ponto essa ocidentalização continuará é difícil dizer, mas pode-se afirmar que, no futuro, o globo será composto por três hemisférios: setentrional, meridional e ocidental.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

sobre personalidades

O homem definitivamente é composto de várias facetas que coexistem - nem sempre em plena harmonia, mas coexistem, uma não anulando a outra. Definir-se como tendo uma, duas ou dez faces é limitar todo o processo eterno de formação e expansão de seus caráter, personalidade e alma. Por mais que alguns dos lados do indivíduo seja evanescente, efêmero; as características que o compõem não o são, e continuarão existindo, pertencentes a outras facetas, dissolvidas na imensidão de nosso universo particular.
Tendemos a achar que nossa personalidade é dividida em vários âmbitos, tipificados, com uma ou outra característica mais marcante, tornando assim mais fácil o processo de reconhecimento de tal faceta. Mas tal faceta não é composta por só uma característica, por só um tipo, por um só sentimento predominante. Há uma história por trás desse sentimento e dessa característica, há motivos por trás da determinação e da formação de tal face, tornando cada uma das faces uma micropersonalidade, uma ramificação da síntese personalítica - mas não menos complexa.

Sendo assim, quanto mais vivências, questionamentos, experiências, leituras, reflexões, situações, atritos, conflitos e decisões passamos ou temos de fazer, uma nova ramificação se forma, partindo da mesma raiz sólida e concreta que são nossos valores, princípios, ideais e sonhos.

Essa infinidade de lados existe por um motivo. Quanto mais rica a personalidade, quanto mais diferentes e variadas forem as formas de olhar para uma mesma questão; mais pertinente, útil e benéfica para todas as micropersonalidades a decisão final será - mas também mais difícil de ser feita e de ser aceita. Uma pessoa que não tem acesso ao conhecimento científico a respeito de tal doença aceitará a morte como sua única possibilidade e seu destino fatídico - é porque deus quis. Já quem tem acesso a todos os livros, bulas, teses e médicos possíveis fará o máximo para que haja outros caminhos, outras alternativas, uma sempre melhor que a outra.
E por mais que haja algum traço que não nos agrade em nossa personalidade - algum traço que não precisava existir e que continua lá, por algum motivo, como um vício -, ele é tão necessário para o processo de autodescobrimento quanto os traços que nos são úteis e que se sobrepõem aos outros. Justamente os de que não gostamos ou que não aceitamos em nós mesmos é que nos afastam das outras pessoas que possuem semelhantes. Quando aprendemos a lidar com o que nos incomoda - quando damos nomes aos nossos fantasmas - é que passamos a viver em harmonia com tal traço em nós presente.

Mas, no final das contas, sejam as ramificações evanescentes ou cicatrizes, o conjunto todo forma o sujeito, que dará frutos, responderá às estações e se desenvolverá de forma única e diferenciada.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

carpe diem?

Acho que o conceito de hoje sobre "aproveitar a vida" está um pouco equivocada. O uso da famosa frase "Carpe Diem" é extremamente errôneo. Focam-se no conceito "viva como se todo dia fosse seu último". Nessa frase não estão incluídos nem atos inconsequentes nem ter sua juventude transviada. Explico. Carpe Diem. Aproveite o momento. Realmente dá abertura para muitas interpretações.
Essa frase é a desculpa pseudo-filosófica de pessoas, de uma forma geral, que querem agir impulsivamente e estupidamente, e que muitas vezes não sabem da ideologia, mas se aproveitam da imagem consumista e materialista que cresceu em torno da frase. Aproveitar tudo ao máximo. Não ligar para seu futuro. Não ligar para as consequências. Não ligar para as repercussões, sejam elas uma ressaca ou uma reputação estragada. Embriagar-se e inebriar-se. Experimentar da essência de muitas pessoas diferentes. E deixar o estudo para a prova para o dia seguinte do dia seguinte. Essa é a imagem muitas vezes difundida pela mídia. Esse realmente é o significado de Carpe Diem?

"[...] sapias, vina liques et spatio brevi spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem quam minimum credula postero."
("[...]sê sábia, filtra o vinho e encurta a esperança, pois a vida é breve. Enquanto falamos, terá fugido ávido o tempo: Colhe o instante, sem confiar no amanhã.")

Colher o instante. Isso nos dá a ideia de colher frutos. O que poderiam ser esses frutos? Oportunidades, por exemplo. O trecho nos fala sobre como o tempo passa rápido e que não volta. O que eu considero que sejam essas oportunidades? Encontrar alguém, experimentar algo novo, plantar a semente de algo que no futuro poderá dar frutos muito benéficos e frutíferos. O sentido de "viva como se fosse seu último dia" que está presente nessa frase significa deixar sua vida pronta e em ordem, sem pendências, para que, quando o dia de sua partida chegar, não existam arrependimentos ou atrasos.
O único conflito que a interpretação da frase pode gerar é: e os arrependimentos? É melhor arrepender-se de não ter feito ou arrepender-se de ter feito? Na minha opinião, quando uma porta se fecha, a outra abre; acho que para todas as más decisões feitas abrirão-se portas para consertá-las; e sempre que não aproveitamos uma oportunidade nos será oferecida outra. O problema é que nem sempre temos os olhos abertos o suficiente para reconhecer o que é uma oportunidade, de fato.
E não acho que tudo isso que escrevi significa uma limitação para a vivência da juventude. Faz parte ir a festas, voltar bêbado pra casa, viajar com os amigos, experimentar coisas, mas tudo de uma forma saudável.

Típico discurso de mãe, certo? Mas todo mundo sabe que quando a mãe fala que vai dar merda, dá merda.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

vida de modelo

O desfile acabou. Após entrarmos batendo palmas, eu e minhas companheiras seguimos pelo backstage para descobrir o que faríamos a seguir. Enquanto uma mulher tirava minha roupa, a outra minha maquiagem, um cara desarrumava meu cabelo, um tentava tirar minhas botas e dois ou três fotógrafos pesquisarem ângulos bons, ouvi de longe meu agente dizendo minha programação para essa semana. Eu teria duas horas de sono, depois seguiria para 3 castings seguidos, depois vôo para Milão, depois voltamos a Paris, depois ensaio fotográfico com mais 4 marcas diferentes e vôo para New York. Tudo bem, eu pensei. A temporada do ano passado, em que eu era novidade, consegui fazer mais coisas ainda. Com ajuda da metanfetamina, claro. Muitas amigas minhas usam cocaína ou meta. Não sabiam?
Mas eu não sabia se queria fazer tudo isso. Olhei ao meu redor. Eu com meus 24 anos já era uma das veteranas dali. Moças, não, meninas de 14 anos desfilavam ao meu lado. Deve ser difícil, quero dizer, e se pedirem para ela fazer uma pose sensual, uma expressão sensual? Como ela vai fazer, se ela provavelmente nunca fez sexo? E todos os abusos que eu já sofri em ensaios fotográficos? Elas estão psicologicamente prontas para isso? Não sei.
Não sei se eu ligo. Isso me entristece. Sinto-me muito vazia, às vezes. Quero dizer, recebemos toda essa atenção, estamos tão acostumadas a mimos, a motoristas, a tendo alguém para controlar nossa vida, que me pergunto se eu saberia, se eu conseguiria viver sozinha amanhã. Já visitei todos os continentes, mas não sei pegar um ônibus. Eu não saberia administrar meu dinheiro, porque nunca precisei. Acho que nunca vivi.
Convivo com essas meninas que são consideradas maravilhosas, mas nem elas são tão bonitas como elas mesmas. Quero dizer, toda a beleza delas é uma combinação de produção com edição. E às vezes eu fico imaginando a repercussão disso tudo... pois tenho certeza de que essas meninas bobas de 13, 14 anos realmente acreditam que é saudável ter 1.75m e pesar 45kg, ou que é normal uma modelo de 17 anos não ter absolutamente nenhuma espinha. Quero dizer, em alguns castings aos quais eu vou a privada do banheiro fica entupida de vômito.
Às vezes me sinto só um corpo. É assim como sou vista. Um corpo que desfila roupas chiques, porque estas caem bem nesse. A agência, os agenciadores, meu agente, eles não ligam para meu estado, para minha saúde, eles só querem ganhar dinheiro em cima da minha imagem. É muito estressante às vezes, quero dizer, eu só paro para trabalhar quando preciso tomar soro no hospital...
Penso que às vezes seria bom se eu recebesse atenção por outro motivo que não fosse meu corpo, sabe? Quero dizer, sempre me perguntam com quem eu estou, quanto eu peso, quantos anos eu tenho, qual minha marca favorita e qual minha cor de esmalte preferida, nas entrevistas, mas nunca me perguntam o que eu gosto de ouvir, ler, assistir, fazer... Eu sou uma pessoa, sabe? Apesar de toda a materialização do meu corpo, eu ainda sou uma pessoa, eu choro, eu como, eu me arrependo, eu fico cansada, eu fico doente, eu choro mais... porque você acha que modelos usam tanto óculos escuros?
Mas apesar de tudo isso, eu nunca sei o que fazer, se eu continuo trabalhando e ganho dinheiro ou se paro e, sei lá, corro atrás de estudo... ambas opções são muito difíceis, pois, como a maioria das modelos, parei de ir à escola muito nova... além do mais, vou fazer faculdade do quê?
Bom. Acabou meu intervalo. Meu agente disse que ultimamente tenho passado um exagero de tempo no banheiro. Ele diz que mais rumores sobre uma possível anorexia ou bulimia poderiam arruinar de vez minha carreira.
Mas não é como se eu ligasse.

(baseado em um documentário que vi outro dia na GNT.)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

carta suicida

Não estava chovendo, não estava nublado, o ambiente não estava denso por causa de um clima triste. Não havia nenhuma gota de álcool em volta dele, muito menos drogas, muito menos remédios para dormir. Nada que pudesse justificar tal atitude.
Na verdade, o dia era definitivamente muito bonito, claro e ensolarado, quente, aconchegante, um perfeito fim de tarde de primavera com cheiro de baunilha. A hora do dia era aquele momento entre o crepúsculo e o fim da tarde; quando o sol está lá no horizonte e a cor do céu fica indefinida por um dégradé do azul quase preto para o verde.
Quando encontraram-no já era tarde, estava inconsciente e seus lábios estavam azuis. Uma carta foi encontrada.
A carta foi publicada num jornal nacional no dia seguinte à morte.

"A todos e qualquer um que se importe, de alguma forma, ao ponto de ler esta carta.
Eu não ligo se a minha morte entristeceu-te, alegrou-te ou enraiveceu-te. O importante é que você foi afetado. A minha vida inteira tentei afetar as pessoas, e seria uma ironia se só em morte eu conseguisse, de fato.
A questão é que senti que minha batalha foi perdida em algum momento de fraqueza... tantas pessoas me dizendo o que e como fazer chegou a me tresloucar, eu estava sendo mais afetado do que estava afetando as pessoas, entende, caro leitor?
A causa da minha morte é simples. Trancarei-me na garagem e inalarei monóxido de carbono. Entende? O monóxido aos poucos me envenenará, me tomará por completo, assim como o veneno da minha infelicidade e insatisfação. Não busquei refúgio em drogas, pois sei que o cigarro e os alucinantes seriam uma saída finita. Não busquei substituir água por álcool, pois morrer aos poucos por causa de uma cirrose não seria agradável. Escolhi uma tarde simples e perfeita, uma tarde que não me faria mudar de ideia, uma tarde que não me faria sentar numa varanda e pensar sobre como sou (fui?) miserável.
A questão, novamente, é que fiquei louco depois de começar a trabalhar no jornal. Sim, faz anos, e sim, eu dizia a todos que estava feliz, mas é óbvio, devido às circunstâncias atuais, que era uma mentira. Poder finalmente dizer minhas ideias sem me esconder foi ótimo, mas as críticas me corroíam e me faziam perder minha fé nas outras pessoas. Diziam-me para escrever sobre atualidades, ninguém quer saber sobre o fascismo, as pessoas querem saber das novelas e das celebridades... como se tudo que acontece hoje não dependesse do que aconteceu anos atrás. Novamente digo, perdi a fé nas pessoas. Estavam, aliás, são tão ocupadas em criticar, em não refletir e em vituperar tudo que não vai de acordo com seus valores superficiais que até olhavam para meus textos, mas não os liam. As pessoas são tão ocupadas em provar que elas mesmas estão certas que agem da forma errada.
Veja bem, amigo ou amiga, ignorância é uma bênção, de fato. Mas a ignorância pura, como a das crianças. A partir da adolescência não é possível encontrar indivíduos ignorantes. Todos são espertos, mas tão espertos que sabem que a alienação é o caminho mais fácil e indolor. E por eu não ter escolhido esse caminho, bem, cá estou, frio e inconsciente. Eu, finalmente, inconsciente! Ah, as ironias da vida... ou da morte.
Eu sei que você, leitor, lerá esta carta, olhará para o horizonte, balançará a cabeça e refletirá por alguns instantes. Mas depois sua vida vai voltar ao normal e seu pensamento nunca mais retornará à minha morte, pois é isso que as pessoas fazem.
Mas eu não estou escrevendo isso por você. Eu faço isso por eles, aqueles jovens que estão prestes a percorrer o mesmo caminho que eu percorri. É nesses jovens que a minha nova esperança instalou-se. E o meu conselho é: vendam-se. Vendam-se bastante. E quando estiverem totalmente comercializados, quebrem toda essa hipocrisia e mediocridade, chacoalhem a cabeça das pessoas, essas pessoas que um dia foram suas fãs. Afetem quem quer ser afetado, e acreditem, eles vão querer ser afetados por uma celebridade. Vão ao talkshow da Oprah, dêem-lhes o que eles querem, depois mostrem o quão estúpido superficial é o que eles querem. Afetem esses seres. E, por obséquio, realizem esse pequeno desejo desse cadáver putrefato: usem a minha morte para afetar as pessoas em vida.
À sociedade o que é da sociedade. Minha breve existência e último suspiro"

terça-feira, 30 de novembro de 2010

mamãe, quero uma barbie!

Good times for a change. See, the luck I've had can make a good man turn bad.
So please, please, please... let me, let me, let me, let me get what I want this time.
Haven't had a dream in a long time. See, the life I've had can make a good man bad.
So, for once in my life, let me get what I want.
Lord knows, it would be the first time.
Lord knows, it would be the first time.

Sim, por favor, me deixe conseguir o que eu quero dessa vez.

É que eu cresci com a idéia na cabeça de que eu ia morar numa casa tão grande, e todo dia ia acordar e me pentear sentada numa penteadeira linda, branca, com detalhes dourados, feito uma de princesa, sabe?, e não aconteceu bem assim. Eu queria uma pantera preta, e hoje tenho um cachorro pequeno. Eu queria um quarto grande pintado inteirinho de verde limão e prata, mas a cor das paredes é bege. Eu queria um laço vermelho pra amarrar no meu cabelo, mas só tenho uma tiara. E as bonecas, queria ter tido tantas Pollys, tantas Barbies, e eu até tinha algumas, mas eu queria sempre mais, sempre muito mais, e eu não tinha. Não tinha.

E isso é tão horrível!
Não o fato de eu não ter conseguido todas essas coisas, mas o fato de que desde pequenos somos condicionados a querer mais e mais, nunca nada é o suficiente. Se você ganha uma boneca, logo quer a roupa de festa da boneca, e a casa da boneca, e o carro da boneca e os amigos e namorados da boneca. Quando ganhamos o que queremos, ao invés de nos contentarmos, queremos mais coisas ainda. É a sociedade do descartável, da insatisfação, do instantâneo. E essa geração de crianças insatisfeitas e mimadas hoje cresceu, e é a geração dos adolescentes promíscuos e sem amor próprio.
Sim. A menina que antes queria a Barbie agora quer beijar um garoto. E ela consegue esse garoto com a facilidade com que conseguiu a Barbie. E essa garota vai descartar o menino assim como descartou a Barbie.
Não há mais a espera, a ansiedade, a alegria ao abrir os presentes de Natal e ver que aquele brinquedo que você vem pedindo há meses finalmente é seu. Não há mais a paquera, a sedução, a demora. Tudo se entrega com a mesma facilidade e praticidade com que se descarta.
Somos uma geração de consumistas, de insatisfeitos, de instantâneos; desde comida até relacionamentos. E, estendendo o assunto um pouco, até drogas. Quando questionados sobre a razão pela qual os adolescentes usam drogas, respondemos que é uma 'forma de escape'. Isso reflete 100% os ideais a que somos apresentados hoje. É uma forma de escape? Sim, enquanto dura o efeito da droga é uma forma de escape. É muito mais fácil se drogar todos os dias do que frequentar uma psicóloga e ter que encarar seus problemas, porque isso leva tempo e esforço por parte de quem tem o problema.

E quando/se eu tiver uma filha, vou pensar muito bem antes de surpreendê-la com uma Barbie.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

a volta do movimento estudantil?

Tenho lido em muitos lugares e ouvido de muitas bocas que os recentes protestos contra o ENEM são "a volta do movimento estudantil". Ouvi também falar que os protestos eram para defender nossos direitos como estudantes. E não concordo com isso.

Primeiramente, concordo 100% com o fato de que as pessoas se manifestaram, adoro a idéia e o fato de que ainda há pessoas que são engajadas e que saem para protestar quando se encontram numa situação injusta - muito melhor tomar uma atitude do que só reclamar. A idéia dos protestos é ótima. Realmente o governo precisa dar mais atenção à área da educação; se o ENEM é a primeira fase de universidades federais (por sinal, muito boas) então devia ser bem feito.

Nós, como estudantes, temos certos direitos, como acesso a escola; igualdade e liberdade de aprendizado; temos inclusive direito à garantia de padrão de qualidade e ao ensino de qualidade gratuito. Mas em que lugar na Constituição foi dito que temos direito a, por exemplo, uma anulação de uma prova mal elaborada? Ao meu ver, fazer um protesto visando a melhoria da educação em escolas públicas é mais palpável do que um contra uma prova malfeita. O protesto só foi feito porque, por ter se tornado a primeira fase de universidades federais, atingiu as classes mais altas da sociedade. (Leiam a Constituição, Capítulo terceiro, seção primeira, da Educação.)

Os "movimentos estudantis" mais famosos, no Brasil, foram a luta "O Petróleo é Nosso", os contra o ingresso do Brasil na 2ªGM, os da época da ditadura, os movimentos das Diretas-Já e os a favor do impeachment de Collor. Ou seja, todos os movimentos tinham engajamento e fundo político-econômico. Deve-se mesmo comparar movimentos a favor de eleições diretas com protestos contra uma prova de qualidade duvidosa?

Se é para protestar com base na prova do ENEM, então que protestem contra a falta de atenção do governo para as questões educacionais, e isso não envolve só a prova de primeira fase para o ingresso numa universidade federal. A questão educacional é muito maior. Os "direitos do estudante" vão além de uma prova.

Se eu acho que a série de protestos que aconteceram nas cidades brasileiras vai alterar alguma coisa? Depende. Se o futuro governo Dilma decidir ser popular, então ela deverá dar atenção a movimentos populares. E mesmo que nesse ano não tomem providência nenhuma; me dou ao luxo de acreditar que ano que vem a prova estará melhor.

A prova. Já o resto...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

livros, escapatórias

Estava lá sentada num canto, numa livraria qualquer, lendo um livro qualquer para ajudar a passar o tempo. Não estava realmente prestando atenção em qualquer coisa, pois ao mesmo tempo que seus olhos percorriam com velocidade as linhas do texto, sua visão periférica estava atenta a qualquer pessoa diferente que passasse por lá. Gostava de observar os indivíduos, suas atitudes e imaginar uma história para cada um.
Ela sentia-se extremamente bem no meio de pessoas desconhecidas, principalmente em livrarias. E enquanto estava sentada, gostava de olhar para cima, para aquelas prateleiras imensas de livros, e sentir-se pequena entre tantas palavras de tantos autores diferentes. Sempre colocava-se no lugar de Bela, quando esta entra na biblioteca de Fera e vê aquela quantidade de livros, todos esperando por um leitor.
A verdade é que, enquanto alguém não a lê, a história não existe. Ela passa a existir, cada vez mais, a cada página virada pelo leitor. Ganha vida quando esse leitor reflete sobre o que foi contado, sobre a mensagem, sobre a moral da história. Ganha mais vida quando esse alguém recomenda-a para outro alguém. Mas a partir do momento que o ciclo é quebrado, a história fica dentro do livro, adormecida, inativa, inútil.
E era por isso que, sempre que podia, ela escolhia o livro mais abandonado e o dava vida. Sentava-se, ajeitava sua mochila para que esta servisse de almofada e tentava conter os protestos do estômago, enganando a fome com um capuccino.
A história lida confundia-se com a história vivida; e ela começava a enxergar as personagens e situações acontecendo ali, bem em frente à ela. E quando o livro era fechado e ela voltava ao nosso universo, tudo parecia tão sem graça e sem sentido, as pessoas não pareciam mais tão interessantes. Não as pessoas reais, medíocres, com suas vidas reais e histórias reais. Então sua mente voltava ao ciclo de criação de vidas mais interessantes àquelas pessoas. Escrevia, lia, relia, reescrevia, até que aquelas vidas parecessem boas. Era sua forma de contribuir para um mundo melhor, pois ela sabia que existiam pessoas como ela que almejavam por uma vida menos medíocre. Quanto mais livros, mais escapatórias, mais decepção e mais desejos.
E esse ciclo continuaria sempre que houvessem livros para serem lidos e vidas para serem melhoradas.

E, podem escrever, a tendência é de a necessidade por uma escapatória desse mundo aumentar cada vez mais...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Eleições 2010

Não vou falar que não gostei do resultado das eleições. Não é preciso. Primeiro que é redundante eu dizer que não concordo com alguma coisa, e segundo que o resultado geral das eleições foi um reflexo da hipocrisia, estupidez, ignorância e negligência das pessoas que dela participaram. Mais precisamente, das 1.353.820 pessoas que votaram no Tiririca, equivalendo a (6,35%) dos votos válidos, de uma lista de 1170 candidatos a deputados federais, de um total de 21.317.327 votos. Eu acredito que quem votou nulo - 2.149.100 votos, equivalente a 8,49% - tem mais opinião e leva a política brasileira mais a sério do que quem votou no Tiririca.
(E o Acre, hein? Que vergonha. O acreano votou mais no tucano do que em sua conterrânea Marina Silva.)
Eu não tenho preconceito NENHUM contra o Tiririca. Ele quis se candidatar, ótimo pra ele, democracia é isso, governo de todos. Diferente de muitos políticos que são formados, estudados, mestrados, doutorados, o Tiririca não tem um histórico de corrupção. Passou pela lei da Ficha Limpa. Em sua campanha, ele não nos prometeu várias coisas que não vai cumprir, ao contrário; ele foi o mais honesto e brasileiro possível. "Sabe o que um deputado faz? Eu também não! Mas vota em mim que eu te conto!". Sem comentários.
Visto que essa foi a campanha do Tiririca, o que leva um cidadão a votar nele? O que o indivíduo acha que ele poderá fazer atuando como deputado federal? Ele foi eleito, logo, a ÚNICA explicação plausível é que ele é perfeito para seu cargo porque, dentre todos os candidatos, ele realmente representa perfeitamente a parcela da população - que não é pequena - que nele votou.
Mas sempre tem quem diga "votar no Tiririca é um voto de protesto". Não. Votar no Tiririca é BURRICE. É negar o seu direito de mudar o cenário político brasileiro. Votar NULO é um gesto de protesto, porque, diferente do que muitos acham, votar NULO significa que, na sua opinião, não há candidatos satisfatórios ou aptos para atuarem no cargo para o qual estão disputando. Tanto que, segundo o Código Eleitoral Brasileiro, se os votos nulos atingissem a marca de 50%, uma nova eleição deveria ser feita, e quem havia se candidatado na antiga não poderia participar da segunda.
OU SEJA, VOTAR NULO NÃO SIGNIFICA NÃO PARTICIPAR. NÃO PARTICIPAR É VOTAR BRANCO!

E, pelo menos pra mim, é ÓBVIO que votar deve ser obrigatório. É obrigação de todo e qualquer indivíduo com mais de dezoito anos ajudar a decidir quem estará no comando do país, do estado, da cidade, do bairro. Nós vivemos em sociedade, e devia ser nosso dever sempre aspirar por uma política de estado melhor e indivíduos melhores representando a população. Não é porque o nosso sistema é uma democracia que algumas coisas não devem ser obrigadas. Se não fosse proibido passar no sinal vermelho, podem apostar que muita gente não respeitaria... Se não fosse obrigatório votar, muita gente se ausentaria e taparia os olhos para a política. A obrigatoriedade do voto faz com que os cidadãos alienados prestem atenção durante alguns minutos, uma vez a cada quatro anos, e considerem o que seria bom e o que não seria bom para o país. Mas obviamente que, se todos fossem ligados em política o tempo todo, não haveria eleição coisa nenhuma porque todos votariam nulo.

Mas de uma, UMA coisa eu gostei nessa eleição, e foi justamente a quantidade de votos nulos. No estado de São Paulo, cujas opções para Senador não eram lá das melhores, votos nulos atingiram a marca de 16,25%, o que dá 8.224.020 de votos. Para deputado estadual, foram 2.152.147 votos, 8,50%. Para governador, 1.326.601 votos, 5,24%. E para presidente, 6.124.254 votos, 5,51%.

E não, não vou falar em quais candidatos eu teria votado. Mas posso afirmar que não teria votado no Tiririca.

P.S.: o que eu falo tem fundamento. Sobre a nulidade dos votos:
"Art. 224. Se a nulidade atingir a mais de metade dos votos do país nas eleições presidenciais, do Estado nas eleições federais e estaduais ou do município nas eleições municipais, julgar-se-ão prejudicadas as demais votações e o Tribunal marcará dia para nova eleição dentro do prazo de 20 (vinte) a 40 (quarenta) dias."

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

sobre uma sociedade (i)moral

Certo. Estava eu a estudar filosofia, quando me deparo com alguns conceitos um tanto interessantes.

"Sujeito moral é aquele que é consciente; dotado de vontade e autonomia; responsável e livre."
"Ter consciência moral é ter capacidade de escolher, ter autonomia, questionar valores e pensar antes de agir. Agir com integridade. Implica em entendermos nossas ações como intencionais e voluntárias; sermos responsáveis por nossas escolhas. Integridade é a coerência entre nossos valores e nosso comportamento."

Eu particularmente adorei o conceito de integridade dado no livro. Mas enfim.
Se ter consciência moral implica em questionar valores, e não aceitar sem refletir o que nos é dado, dito, e apresentado; então a mídia e a televisão seriam os maiores criadores de seres imorais do mundo. O J.N. apenas vomita as informações em nossos ouvidos, e, sem nos dar tempo para refletir (as reportagens mais importantes não têm comerciais logo depois), mudam de reportagem, para algo menos sério ou importante. Todos aceitam as verdades ditas pelo Bonner como universais. Ninguém desenvolve sua consciência moral.
Se ter consciência moral implica em entendermos nossas ações como intencionais e voluntárias; por um lado não poderíamos culpar a mídia ou o J.N. pela alienação das pessoas, pois existem meios de se conseguir algo mais próximo da verdade. Qualquer um pode assistir a mesma reportagem por vários lados diferentes, seja assistindo a outro jornal, seja lendo na internet. Se o sujeito hipoteticamente diz "eu sou alienado por culpa do J.N." (sim, hipoteticamente, pois ninguém sabe quando é alienado), ele estará sendo imoral? Eu acho que sim. Ele não é alienado por fatores externos, e sim por uma escolha dele. Hoje todos têm acesso a toda a informação do mundo. Ele escolheu assistir ao jornal e ser alienado, ele escolheu não se informar sobre o assunto. É responsabilidade dele. Ele age assim intencionalmente e voluntariamente.

Se ter consciência moral implica em agir com integridade...
Essa parte, para mim, é a mais difícil. Retomando o conceito: "Integridade é a coerência entre NOSSOS valores e NOSSO comportamento". Logo, integridade está diretamente relacionada a nossa autonomia, que Kant contrapõe à heteronomia - que é o indivíduo estar sujeito à vontade de terceiros ou de uma coletividade.
Já deu pra entender a que ponto eu quero chegar?
Resumindo todo o meu ponto de vista, digo que a nossa cidade não é autônoma. É heterônoma.
Posso contar nos dedos as pessoas que agem com autonomia, integridade, e que não se deixam levar por vontades ou imposições de terceiros (sejam eles os amigos, a mííííídia - adoro falar mal da mídia - ou quaisquer outros).
Se ser moral implica em agir com integridade que implica em ser autônomo...
A maioria das pessoas que eu conheço age com heteronomia, o contrário de autonomia; logo, essas pessoas estariam agindo imoralmente. É lógica. Aristotélica, aliás.

É... dá bastante trabalho pensar.

sábado, 14 de agosto de 2010

Swanage...

Swanage. Dez mil habitantes, fica a 3h3omin de Londres, turística, litorânea. Cidade onde moram pessoas com mais de sessenta anos ou menos de cinco, o comércio fecha às seis e meia da tarde e a praia te dá delírios de tão linda.
Quando andamos (meu grupo e eu) pela primeira vez, por Swanage, não gostamos da cidade. Muito pequena, nada pra fazer, muito pequena, muito vento, nada pra fazer... No fim da primeira semana já tínhamos explorado a cidade inteira, já éramos conhecidos no supermercado (por comprarmos comida lá todos os dias), já sabiam o que queríamos quando íamos ao único restaurante de fast food.
Mas com o tempo, começamos a perceber o quão pacífica, bonita e virtualmente perfeita Swanage é... Não para se morar (para alguém da nossa idade deve ser realmente entediante), mas... Não sei explicar. Eu tinha uma sensação de paz e liberdade toda vez que transitava da escola pra praia e da praia para a casa em que eu dormia. Sentia-me independente de andar com meus amigos totalmente livre, entrávamos onde queríamos, pagávamos nossas contas... Fomos muitas vezes à praia só pra apreciar a paisagem, brincar de quicar pedrinhas no mar. Fui a vários pubs, ouvi muito jazz, blues, bolero, até bossa nova (acreditam?, não toca bossa nova nas rádios daqui, mas toca em pubs lá).
Era tanto vento, tanto sol, tanta subida, tanta descida. Tanta magia...
Eu me apaixonei pelo lugar. Criei um carinho imenso por lá. Eu estou tentando, mas não consigo escrever aqui o que eu sentia quando andava por lá com meus amigos. No final da segunda semana, eu já sabia todos os caminhos, nomes de ruas, nomes de lojas, já tinha apelidado funcionários dos lugares que eu mais frequentava, já tinha comprado muita coisa, já tinha rodado aquela cidade inteira - e algo ainda me chamava ao centro e à praia todos os dias no final da tarde. Aquela cidade me lembra uma vila que aparece no filme "Peixe Grande", porque à noite era iluminada com várias luzinhas coloridas...
Indo pra praia, eu sentia aquele vento frio batendo no meu rosto e eu pensava, "eu tenho dinheiro suficiente pra comer no Wimpy hoje?". Não tinha preocupações com assalto, com voltar pra casa depois de anoitecer, com ficar sozinha -tudo estava bem, perfeitamente bem.
Swanage. Dez mil habitantes. O lugar perfeito para se nascer e se descansar em paz. O lugar perfeito pra se deitar na grama e ouvir o jazz que toca no pub mais próximo. O lugar perfeito pra se passar o mês perfeito de uma viagem perfeita.
Ah, Swanage, suspiros, olhos perdidos no tempo e no espaço, reticências...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

impressões - Oxford

Oxford
Se eu disse que a arquitetura de Londres é linda, então não possuo vocabulário extenso o suficiente pra definir Oxford. De verdade. Parece um exagero, sim, mas é que... As Igrejas, as bibliotecas, os campos, as ruas, os bancos, os postes, os monumentos, as Igrejas de novo, a universidade em si. Cada pedaço mais bonito que o outro. Digamos, inicialmente, que só de visitar a cidade me deu vontade de estudar lá.
O meu grupo fez um walking tour pela cidade, vimos alguns principais pontos - Christ Church, Alice's Shop, o College, a biblioteca reservada aos alunos apenas - e depois tivemos algumas horas livre. O que eu fiz? Visitei a Christ Church.
Obviamente, a primeira coisa que se pensa ao se adentrar a Christ Church é: Harry Potter. E faz sentido, pois o local foi usado para as filmagens dos filmes. Eu tenho um lado que adora coisas mágicas, sempre fui muito fã de Harry Potter, então não posso descrever como me senti ao andar naqueles corredores, imaginando três bruxinhos andando rápido e mirabolando; não posso descrever o brilho nos meus olhos quando vi aquele pátio, fiquei com cãibra no rosto de tanto sorrir quando entrei na sala de jantar...
Andando (bem devagar, por sinal) pela universidade, eu não queria perder um detalhe. Olhava cuidadosamente para os detalhes da arquitetura no teto: as abóbadas de nervura, uma característica do estilo gótico, é muito bem trabalhada no college. Os pilares, as escadas, o corrimão, as janelas... A Igreja; o teto da Igreja é tão alto que por alguns instantes eu cheguei a entender o porquê de o homem da idade média ter sido tão religioso. Você se sente pequeno, insignificante e feio! Por mais simples que a Igreja seja por dentro; é tão grande, e tão alto, os seus pequenos passos ecoam pelo salão inteiro... Eu senti isso sem nem ter entrado na Igreja porque um casamento de um escocês (?) estava em andamento lá dentro. Mas enfim.
Deve ser fantástico estudar em Oxford. Uma universidade ótima, prédios maravilhosos, situados numa cidade tão bonita e boa quanto. Ter acesso a todas aquelas bibliotecas, imensas, cheias de livros, de histórias, de cultura... Eu tenho de voltar lá um dia. Pra estudar, quem sabe?
Finalizarei o texto com um suspiro, Ah!, Oxford, reticências...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

...impressões

Bom, pros primeiros posts, decidi fazer uma lista de sensações, percepções e impressões sobre os lugares em que estive. Tentarei ser o mais fiel possível. Começarei com Londres, depois seguirei com Oxford, e por fim Swanage.

Londres
Fui duas vezes à Londres, e nessas duas vezes senti basicamente as mesmas coisas. Londres é uma cidade incrível, uma mistura do mundo velho com o que há de mais novo e tecnológico, tomemos como exemplo o Buckingham Palace em contraste com a Prefeitura. Muitos prédios antigos, construções restauradas; a arquitetura de lá é fantástica.
Londres é uma miscigenação de vários elementos muito distintos. Dei o exemplo da arquitetura - lá contém construções tanto antigas quanto bem recentes -, mas a miscigenação não se limita a isso. Lá há muitas culturas diferentes, ouvi muitas línguas, vi muitos rostos, muitos costumes, roupas diferentes, cabelos, comportamentos... Vi muçulmanos, indianos, espanhóis, turcos, marroquinos, muitos japoneses e por aí vai. E é tudo tão misturado, tudo em (aparente) harmonia. As pessoas andam na rua tão preocupadas com seu destino que não têm tempo de olhar pro lado e reparar que tem alguém de outro país ali.
Eu poderia fazer a comparação de Londres com São Paulo para exemplificar como o centro da cidade é, mas seria muito errado... Eu posso estar falando besteira porque adorei Londres, posso estar sendo cega, mas Londres é bonita. As ruas são bonitas, os prédios, as lojas, os cartazes. O trânsito londrino, isso sim, pode ser comparado ao paulistano (para atravessar Londres, é preciso de 2h30min). É uma cidade urbana que exala cultura e história por todos os cantos; seja por seus monumentos; seja por seus museus; seja por seus palácios.
Do que eu mais gostei em Londres? Difícil escolher. Acho que, de uma forma revoltada ou não, me senti mais em casa lá do que me sinto aqui em Ribeirão. Não que Ribeirão seja ruim. Mas Londres tem um quê de modernidade, cultura, liberdade, novos horizontes que eu simplesmente não consigo encontrar aqui. Sem falar que andando a pé lá eu me senti a pessoa mais livre e poderosa do mundo. É idiotice, mas eu fiquei inspirada a ser maior. A pensar grande, a ser diferente, a não ter vergonha de mim, a não ligar pra o que os outros pensam (sejam esses outros as pessoas da minha escola, que me conhecem, ou pessoas que me veem uma vez na vida e dão aquela medida no meu visual). Afinal, o mundo é maior do que Ribeirão Preto, que tem 600mil habitantes mas tem alma e aparência de cidade de 50 mil. De novo, eu até gosto daqui, mas não vou ficar aqui minha vida inteira, não.
Voltei, criei coragem pra fazer o corte de cabelo que eu queria desde fevereiro e lancei uma piscadela de olho praqueles que olharam com desprezo.

domingo, 8 de agosto de 2010

Sobre a diferença

Bom, acabei me rendendo à minha saudade de escrever aqui...

Algumas novidades. Passei um mês na Inglaterra, fiz a viagem dos meus sonhos, dos meus quinze anos. Fiquei numa escola internacional, aprimorei meu inglês, aprendi a conviver com pessoas ainda mais diferentes, aprendi a furar fila, aprendi a apreciar a deliciosa comida brasileira, engordei, caminhei, amadureci horrores, caminhei um pouco mais, aprendi, fui rodeada de cultura por todos os lados, me encantei com Bath, tive arrepios em Oxford, tive a unique sensação de estar em casa enquanto andava pelas ruas de Londres.

E as minhas conclusões, depois de ter passado esse tempo num lugar tão diferente, que é a Inglaterra? Vou tentar ser gentil e não xingar tanto a minha cidade natal / minha escola.

Conviver com pessoas de vários países te torna uma pessoa mais madura e suscetível a mudanças, uma pessoa mais respeitosa, sem preconceitos, cabeça aberta. Acho que agora mais do que nunca eu sei quem eu sou, tenho certeza do que gosto e do que não gosto. E não só eu fiquei assim. As pessoas dos outros países assumem uma postura diferente com o passar dos dias. Cada um na sua, com o seu estilo, com a sua forma de expressão.
Isso na escola e em toda cidade britânica. Ninguém estava nem aí pra tua roupa, pro teu cabelo, pro teu tênis. Cada uma na sua, paz e amor, ou whatever! Sabe? É diferente. Não percebi aquilo que chamamos de moda. Não vi meninas usando as mesmas roupas, o mesmo cabelo e o mesmo casaco da Le Lis Blanc. Não vi.
Então, chego aqui. Primeiro dia de aula. Vou com a roupa que eu usava todos os dias. Sinto olhares e bocas se mexendo na minha direção. Tão estúpido. Ribeirão Preto pode ter 500.000 habitantes, mas tem alma de cidade pequena, ah tem.

Nos próximos dias, vou fazendo pequenos relatos sobre minhas impressões da viagem.
See ya.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Folha de São Paulo

11/05/1985

Foi encontrada ontem morta em seu apartamento a dona-de-casa Valentina Pires. Ela esteve presente em várias revoltas contra a ditadura quando mais jovem, e era uma das pessoas mais procuradas pelo antigo DOPS. Valentina fez parte de um dos MNR (Movimentos Nacionalistas Revolucionários) aqui da capital de 1965 até 1971, segundo relatos de seu diário (encontrado em cima do criado-mudo em seu apartamento), organizando revoltas, capturando policiais, orientando outras pessoas sobre a ditadura e divulgando os horrores que o DOPS fazia com seus presos políticos. Era conhecida como Maria.

A causa da morte foi envenenamento (o veneno ainda não foi divulgado), e ao lado de seu corpo foi encontrado um bilhete: "Enfim, a ditadura conseguiu me envenenar por completo. Não posso viver com ela, não posso viver sem ela.". Em seu diário, ela expressava sua necessidade por uma revolução e seu gosto por passeatas e revoltas, e quando a ditadura teve seu fim convicto, em suas palavras, "Minha vida toda eu lutei contra a ditadura, o controle de idéias e a restrição de ações. Agora que a ditadura acabou, o que eu vou fazer?".

Apesar de que agora o que mais se encontra é gente morta em esquinas, apartamentos, casas e estradas, essa morte pareceu afetar profundamente os nervos de antigos militares, principalmente com a divulgação confirmada de seu diário, que, como não tem título definido pela autora, será chamado "o Diário de Maria".

Lembramos que qualquer relação com "O Diário de Anne Frank" é pura coincidência.

- FIM -

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

10/05/1985

Há tempos não escrevo aqui. A última vez que escrevi foi mês passado, abril... pois bem. Em um mês, a história mudou completamente.

Decidi fazer parte do movimento Diretas Já. Resolvi seguir o senhor Teotônio, pois suas palavras me pareciam extremamente promissoras. Sonhar com um Brasil de eleições diretas era bom. E depois de tantos anos parada, me dei ao luxo e risco de participar de mais passeatas.

Então dia 27 de novembro, aconteceu uma passeata em São Paulo, 15 mil pessoas. Se o senhor Teotônio tivesse visto, estaria orgulhoso... Esta aqui é pra você, Teotônio! Mas o infeliz morreu no dia da passeata. E que morte terrível... câncer generalizado. Eles te pegaram, Teotônio... te infectaram. Você até que resistiu bastante, mas no final, eles se juntaram, ficaram muito fortes, não dava pra combatê-los. Quem sabe um dos teus filhos, Teotônio Vilela Filho, não vira político pra honrar teu nome? Eu votarei nele, um dia.

1984 passou relativamente tranquilo. Eu ainda esperava por uma mudança no sistema, quando 1985 chegou. Chegou janeiro, fevereiro, março, em abril comecei a escrever meu diário, mas parei, quando vi rumores sobre tirarem militares do poder. Então anteontem foi aprovada no Congresso uma emenda que acabava com a ditadura. Eu não pude acreditar! E inclusive teríamos eleições diretas. Enfim, Teotônio! Tua batalha não foi em vão.

Isso significava que finalmente poderíamos ser livres. Isso significava que eu não sobrevivi à ditadura à toa... Esta era minha recompensa. Por perder minha família, por perder meu amor, por perder minha dignidade, por ter sido torturada, por ver meu país, minha CASA ruir. Mas e agora?

Minha vida toda eu lutei contra a ditadura, o controle de idéias e a restrição de ações. Agora que a ditadura acabou, o que eu vou fazer? Voltar ao meu trabalho antigo? Procurar outro amor, formar uma família e passar meus finais de semana assando bolos? Isso não tem nada a ver comigo. Então só há uma coisa a ser feita.

(continua)

domingo, 10 de janeiro de 2010

04/04/1985

Com a censura, nossas atividades e relações com a imprensa foram cortadas. Não havia mais chance de nosso grupo aumentar de qualquer jeito. Mas meu grupo se manteve forte. Hoje, desejo que tivéssemos sido fracos. Durante 1969 e 1973, vivi na pobreza. Com aquela história de "milagre econômico", alguns ficaram muito ricos, e alguns muito pobres. Infelizmente, minha opção é a segunda.

Então aconteceu. Em 1971 foi quando aconteceu. Estávamos fazendo mais uma de nossas costumeiras passeatas, quando um grupo de militares surgiu. Aparentemente estavam à espreita... como se já soubessem por onde íamos passar. Eles chegaram e começaram a tacar bombas para todos os lados. Vários de meus companheiros caíram e acabaram morrendo. Eu corria para encontrar João, mas quando o encontrei, ele disse para eu recuar. E foi só eu parar de andar, que dois policiais se tacaram em cima dele... Um segurando seus braços, e o outro batendo-o com sua arma, mesmo. Ele evitava me olhar, pois sabia que entregaria minha posição. Então eu corri.

Corri em direção ao nosso esconderijo, fazendo muitas curvas e pegando o caminho mais longo. Chegando lá, vi muitos papéis e documentos em cima da mesa. RGs, passaportes e dinheiro, inclusive. Aparentemente, meu João planejava nos pagar uma viagem fora da lei para o Reino Unido - eles viviam um período de recessão econômica mundial e competição industrial, então era uma ótima oportunidade de trabalho. Eu já me afastava da mesa quando me lembrei de olhar direito para o RG de João... e foi a primeira vez que fiquei sabendo de seu nome verdadeiro. Gustavo. E ele era exatamente como o significado de seu nome...

E durante os 3 anos seguintes, vivi uma meia realidade. O Rock estava estourando. Comecei a me drogar. Eu não queria mais saber de nada. Fui presa, torturada. Fugi nas duas vezes que me prenderam. Então me cansei. Me cansei de ficar sentindo pena de mim mesma. E em 1975, decidi começara trabalhar, para ocupar a cabeça. Eu tinha diploma em medicina, mas acho que isso não me ajudaria muito. Eu não conseguiria arrumar um emprego bom de verdade, porque eu obviamente não tinha o "atestado ideológico" fornecido pelo DOPS. Fui então trabalhar numa creche da minha vizinhança. Pagavam bem e o almoço era por conta dos donos. Eu gostei bastante do trabalho, sempre gostei muito de crianças, e, ao meu ver, era hora de eu me sentir mais... mulher, mesmo. Eu passara muitos anos lutando ao lado de homens, e no meu grupo todos éramos iguais. Mas nessa creche, eu me sentia quase uma mãe.

E eu trabalhei lá até 1983. Então um belo dia, estava eu sentada, assistindo a tv na creche, quando vejo um programa novo: Canal Livre, liderado pelo senador Teotônio. Ele dizia que devíamos lutar por eleições diretas, e que novas manifestações estavam por vir. Como resistir?

(continua)

03/04/1985

Certo. Não sei bem o que devo escrever em um diário... Mas visto que estou sozinha, não há muito a se fazer. Se eu não coloco as coisas no papel, se eu explodir não vai ser uma grande surpresa, mas enfim.

Nasci em 1940. A passagem da minha infância para a adolescência foi marcada por aquele glamour falso dos anos 50 - carros brilhantes, saias rodadas e muitos neons. Mas eu nunca gostei daquilo, não. Me lembro de que eu ia todo fim de semana ao cinema para fazer nada mais, nada menos do que entregar panfletos visando chacoalhar a cabeça das pessoas um pouco. Sabe? Acordá-las para a vida. Fazê-las saírem daqueles carros enormes, e olharem para quem está sentado na calçada.

E foi numa dessas vezes que eu vi meu marido (bom, ex-marido) pela primeira vez. Ele ia assistir a um filme qualquer, não me lembro bem. Ah, mas de uma coisa eu me lembro: dos olhos! Os olhos de quem não estava realmente naquele lugar. Os olhos de quem fantasiava e sonhava muito, mas não sonhos inúteis - sonhos de revolução. E eu estava certa, de fato.

Então em 1965 - ano seguinte do golpe militar, como todos sabem - resolvi fazer parte de algum grupo para ver se a situação mudaria no nosso país. Entrei em um dos MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário) e lá fiquei. Acho que foi a fase mais produtiva da minha vida. Organizávamos passeatas, distribuíamos panfletos, driblávamos a imprensa, atiçávamos o governo... e eles nunca nos pegavam! Nunca me senti tão viva e útil. Foi incrível.

Em 1967, então, resolvem criar pseudônimos, para preservar nossa identidade. Eu escolhi o meu - Maria. Interprete minha escolha como quiser. Bem, durante uma das reuniões, eu o vejo novamente - o moço que estava aquele dia, no cinema. Seu pseudônimo era João, ironicamente. (Na verdade, só fui saber seu nome 4 anos depois). Ele era um dos membros mais antigos do MNR. Era realmente fantástico. Muito forte e confiante. Me apaixonei, é claro.

Mas também é claro que nada desse tipo de intimidade era permitido em nosso grupo. Tive de me conter um ano. Mas em 1968, eu soube que ele também me amava. Não podia ser a hora mais errada... Com a liberação do AI-5, tínhamos de tomar muito, mas MUITO cuidado em nossas passeatas - pois quaisquer atividades ou manifestações sobre assuntos políticos eram expressamente proibidas. Também não podíamos mais votar. E nossas casas foram escolhidas, nossa liberdade vigiada... Tivemos de renunciar de nossos nomes para vivermos decentemente - ainda que clandestinamente. Um absurdo eu ter de renunciar do meu nome, que me tornava um indivíduo, brasileiro, para conseguir morar em paz no meu país... Que vergonha. Que absurdo. Não fosse a passeata dos Cem Mil, em junho, eu teria abandonado o país.

(continua)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

1955

Ele se viu rodeado de tantas luzes, carros brilhantes, neons, saias rodadas e cinturas finas que quase se esqueceu do porquê de estar ali. Procurava um pouco de diversão, e assistir a um filme no velho cinema da cidade parecia uma boa idéia. Em meio àquela multidão de pessoas, se enfiou numa das filas da bilheteria e ouviu algumas senhoras falando do passado e cantando antigas marchinhas.

"Bota o retrato do velho, bota no mesmo lugar, o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar..."

A marchinha de 1950 ainda ecoava em sua cabeça. JK agora assumia o poder, e ele sentia que as coisas começariam a melhorar dali pra frente. Ele prometia criar uma nova capital do Brasil, prometia estabilidade econômica, prometeu progressos. Isso era o que ele queria ver, um Brasil andando somente pra frente, sem militares no comando. Sim... ele nasceu e cresceu vendo Getúlio criar ministérios e mais ministérios, mas mesmo assim, acabou exilado. Mas esse tal de JK parecia ser digno de confiança.

Apesar de sua tenra idade, ele se envolvia do tanto que conseguia e podia com questões políticas e econômicas. Não que ele achasse que pudesse fazer alguma coisa - mas seu sonho era iniciar uma revolução. Seu sonho era participar de um Movimento Nacionalista Revolucionário, usar codinomes, armar golpes contra o Estado... mas ele sabia que só haveria necessidade disso caso a situação no Brasil não estivesse lá das melhores. E apesar de ser um rebelde, ele com certeza tinha fé no futuro.

Rebelde... O que estava na moda agora era ser rebelde sem causa. Era ter sua juventude transviada. Era ter sua inocência corrompida por bebida, drogas e jaquetas de couro. "Não, obrigado", ele pensava. Seus amigos revoltados com a vida resolveram mudar de visual e investir em calças jeans justas, cigarro na boca e jaqueta de couro - e as meninas subiam seus cabelos cada vez mais. De jeito nenhum que ele aderiria àquela moda - ele tinha mais o que fazer.

Suas reflexões foram interrompidas por um suave toque no ombro, que o assustou um pouco.

- Moço, é a sua vez - disse uma voz de trás dele. Ele virou para trás, para encarar o dono ou dona daquela mão tão macia, e encontrou olhos grandes e amendoados, e um cabelo liso porém nada armado, que ia até a cintura. - Desculpe se o assustei, mas é sua vez - ela repetiu.
Então ele entendeu do que ela falava - era sua vez de comprar o ingresso do filme. Mecanicamente, comprou, se afastou da fila e se sentou em uma poltrona próxima à sala do filme ao qual ele ia assistir. Observou de novo a garota dos cabelos lisos escorridos. Notou que ela não usava vestido, e sim uma calça jeans que parecia um tanto velha, e uma camisa que a dava um ar de mais velha, apesar de seu rosto declarar ao mundo sua inocência e pouca idade.

A garota não comprou ingresso nenhum - ela tirou vários panfletos de sua bolsa e colocou numa bancada ao lado da bilheteria. Depois se dirigiu à porta do cinema, e começou a entregar panfletos às pessoas que a davam atenção.
- Pratique seu direito como cidadão. Exija do presidente suas promessas - e entregou um panfleto. - Olá, moça. Pratique seu direito como cidadã. Faça com que JK cumpra o que prometeu. Boa tarde, senhor, pratique seu direito como cidadão...

E assim foi, pessoa por pessoa. Ele poderia ter ficado ali observando-a a noite inteira, mas logo chegou a hora de o filme começar. Foi até a sala do filme, e se despediu da garota com um aceno de cabeça. Recebeu em troca um sorriso cheio de dentes, e se perguntou se eles se veriam de novo. Em 1968, quem sabe.

domingo, 3 de janeiro de 2010

1968

- Você! Parada! Mãos para cima e joelhos no chão!
É simplesmente ÓBVIO que eu não obedeci ao policial. Meu grupo de revolucionários já havia lutado contra a polícia várias vezes... E essa é apenas mais uma vez... Nossas revoltas não estavam tendo muito sucesso, mas não podíamos ficar parados, sem fazer nada. Não podíamos sentar e assistir enquanto nosso país era dominado por militares e inflação. Não, isso era demais pro nosso orgulho!

Enfim, eu corria pelas ruas - as ruas que eu já conhecia muito bem, depois de tantas fugas - e procurei por algum rosto amigo que pudesse me mostrar uma saída, atalho o "passagem secreta" - que era como chamávamos esgotos e túneis subterrâneos - que me levasse ao meu exílio. Meu e dos meus companheiros. Mas não achei nada.

Virei uma esquina, segui reto, após saltar um muro ganhei uma boa distância do policial e consegui escapar. "Isso está ficando cada vez mais fácil", pensei comigo mesma, "mas devo começar a maneirar, já estou em muitos cartazes". Cheguei ao bar cujo dono era amigo meu. O bar era no térreo de um prédio cujo quarto andar era meu exílio.

- E aí Zé, muito movimento hoje? - eu pergunto ao meu amigo, o dono do bar.
- Nada! Com essa opressão toda pra esses lados, quase ninguém tem vindo aqui... Você e seu grupo um dia terão de pagar por todas as cervejas que eu não tenho vendido! - ele me respondeu. No fundo, eu sabia que ele estava brincando, e que apoiava qualquer tipo de ação/revolução tanto quanto eu. Respondi com uma piscadela, e subi as escadas até o quarto andar.

Abri a porta, e o vi. Ele era forte, íntegro, batalhava por uma mudança no sistema como nenhum de nós conseguia. Sempre sabia o que fazer, como agir, o que dizer, o que divulgar. Ele tinha tudo em suas mãos. Inclusive eu. Eu o amava. A segurança que ele transmitia, a confiança, mas principalmente os sonhos, me deixavam suspirando em meu quarto todas as noites. Mas é claro que eu não poderia dizer isso! Qualquer tipo de ligação entre os membros do MRN-03, do qual eu fazia parte, era expressamente proibido por ser perigoso para os membros.

- Maria? - ele me chamou pelo meu nome fictício ou pseudônimo.
- Diga, João. - João era, ironicamente, seu pseudônimo.

Ele se aproximou, e pude sentir seu olhar cair sobre meus ombros, que estavam machucados graças ao arame farpado pelo qual passei durante a fuga. Colocou sua mão direita em meu ombro direito. Uma mão firme, quente, segura. Me senti como se pudesse pegar sua mão e sair pra guerra, porque com ele, eu estaria segura. Uma lágrima brotou dos seus olhos, tirando-me do transe.

- Eu temo muito pela sua vida. Isso, em que estamos envolvidos, é tão perigoso... Sinto que você faria coisas grandiosas se esperasse tudo isso passar, e resolvesse trabalhar na imprensa ou num futuro governo. - Eu ouvi cada palavra. Sua voz de veludo, profunda, me deixava embriagada.
- Não se preocupe, João, eu sei me defender...
- Maria - ele me interrompeu -, se algo acontecer a você, eu nunca vou me perdoar.

Olhei pra ele com ternura e me perguntei se ele me amava como uma irmã mais nova ou como... amante.

Então eu soube.

Ele pegou minha mão, e me abraçou. E naquele momento, naquele milésimo de segundo, senti uma fagulha dentro de mim me dizendo que ele me amava. Que ele me amava com tanta ou mais intensidade do que eu. E que nós estávamos destinados a encarar juntos esse mundo, esse mundo tão frio, controlado e corrompido no qual nós vivemos... E eu também soube que a vida sempre seria uma aventura ao seu lado. E eu também soube que se eu morresse na próxima hora, dia, semana ou mês, eu morreria satisfeita de saber que eu encontrei meu amor verdadeiro antes de morrer.

Então ele me guiou até o sofá, ligou a TV, e começamos a assistir.