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terça-feira, 19 de junho de 2012

escolhas

Ainda é cedo, amor... mal começaste a conhecer a vida...

Ana e Caio prosseguiram andando pelas estreitas ruas não-turísticas de Paris. Estar lá era melhor do que ela pensara, pois estava realmente acontecendo. A realidade é sempre melhor do que o melhor dos sonhos. Durante o passeio, passaram por muitos jardins; estar cercada por flores e não mais por cana certamente era um sentimento interessante.
Ela observava os nativos passeando pelas ruas com expressões totalmente apáticas. Triste pensar que, quando o belo é cotidiano, ele deixa de ser belo. Viver em uma cidade tão histórica, tão bonita, tão completa e ignorar esse fato por simplesmente estar em contato com ele todos os dias. Claro que, mais cedo ou mais tarde, tudo cai na rotina, tudo torna-se convencional - mas por isso devemos deixar de apreciar o que esse "tudo" tem pra oferecer, apresentar, emocionar?
Se esses parisienses fossem morar alguns dias em São Paulo, "selva de pedra" e asfalto, cinza, muito cinza e fria, certamente sentiriam falta de Paris.
Engraçado isso, de as pessoas precisarem perder para valorizar. Como se só a ausência demonstrasse que era pra haver algo ali. A permanência de algo em nossas vidas acaba virando rotina, acostumamo-nos com a rotina e passamos, egocentricamente, a acreditar que, se algo mudar, não fará diferença. Mas faz. Sempre faz.

"Olha só, um hostel"

Depois de algumas horas andando, Ana e Caio encontraram um lugar para ficar. Não era cinco estrelas, não ficava na avenida mais bonita da cidade, não era o prédio mais bonito da cidade, o caminho que levava até lá não era o mais fácil de se encontrar - e menos fácil e atrativo ainda de se seguir. Mas era o hostel que eles queriam, de que eles precisavam, e que eles podiam pagar.

Muitos fatores definem nossas escolhas. Nossos valores, nossas necessidades, nossas limitações - e o  que era mais triste: havia uma tendência atual muito crescente de se fazer escolhas baseando-se no número de empecilhos entre você e sua meta, sendo esta geralmente o sucesso (econômico, acadêmico, existencial). Esses empecilhos podem ser o tempo, a quantidade de estudo ou a quantidade de habilidade necessários para se atingir a meta. E quanto maior cada empecilho, menos esse caminho é escolhido - e mais à margem da sociedade em questão ele vai ficando. Não é à toa que pouquíssimas pessoas escolhem a docência - estudo demais, tempo demais, suor demais investido em algo que não é socialmente reconhecido como deveria ser. E também não é à toa que a procura pela participação em reality shows é tão grande: fama e dinheiro fáceis, rápidos e a qualquer custo, quem não quer?

Mas afinal o hostel, por dentro, não era ruim. Era confortável, caseiro e tinha cheiro de café. Ana e Caio logo sentiram que fizeram a escolha certa, e que era ali mesmo que deveriam ficar. Descobriram que dividiriam o quarto com outras três pessoas: um francês, de Marseille, uma iraniana, de Teerã, e um japonês, de Osaka. Nunca Ana tinha ficado em um só quarto com três culturas, ideologias e etnias diferentes. Nenhum dos três estava no quarto - compreensível, por serem quatro horas da tarde.
Caio, como de costume, levara mais livros do que roupas na mochila, e abriu um aleatório assim que terminaram de se acomodar.

Ana olhava pra Caio e se perguntava por que demorou tanto para conhecê-lo. Gostava muito de tudo o que a entrada de Caio proporcionara em sua vida - passou a se entender mais, a refletir mais, a analisar-se mais. Ele era muito parecido com ela, inclusive nos aspectos negativos. Eles aprendiam um com o outro e iam se reconstruindo em cima das bases que construíam juntos.

...já anuncias a hora de partida sem saber mesmo o rumo que irás tomar...

(continua)

terça-feira, 12 de junho de 2012

café de flores

Deixe-me ir, preciso andar; vou por aí a procurar... rir pra não chorar.


Outro aeroporto. Aquela multidão. Ficar ali, em pé, desafiando o fluxo de movimento das pessoas com o ato de simplesmente ficar parado, estático, é algo engraçado de se fazer. Ficar ali, em pé, torna totalmente compreensível e palpável a ideia de se estar sozinho mesmo quando rodeado de centenas de indivíduos.


Ana sentiu um arrepio.


Detestava aquele sentimento. Já o havia sentido muitas vezes, mais do que o suficiente pra entender que não é prudente fazer sua felicidade depender de outras pessoas.
Na verdade, estar em meio a uma multidão aflorava muitos sentimentos contrários em Ana. Ela gostava muito de andar pela rua, olhar para as outras pessoas e imaginar a história de suas vidas. Imaginar por quais problemas elas passam, o que elas estão pensando naquele momento. Essa atividade a fazia se sentir menos melancólica - Ana tinha essa tendência a aumentar muito a proporção de seus problemas, e imaginar que outras pessoas também têm tantos problemas quanto ela levava-a de volta à realidade. É como subir ao topo de uma montanha: os problemas de verdade, os realmente grandes, podem ainda ser vistos de lá de cima, e todo o resto perde importância. Sair andando pela rua, também, sempre fora uma prática muito produtiva, muito frutífera e inspiradora - algumas das filosofias mais complexas de Ana surgiram enquanto ela andava o quarteirão da Lafaiete até a Prudente de Morais, um quarteirão com nada que pudesse inspirar pensamento algum, mas as melhores ideias e contos sempre vêm em momentos de ócio e distração.
Por outro lado, Ana podia sentir-se extremamente sozinha enquanto cercada por tanta gente. Perceber que se é apenas mais um para alguns é reconfortante, mas, para Ana, é desesperador. Aquele sentimento de impotência. O nervosismo que nos toma conta, a vontade que dá de berrar "parem de andar, parem, sentem-se, respirem!", aquele caos, a turbulência... Ana tinha uma pastora extremamente bucólica dentro de si, por mais que odiasse reconhecê-lo. E, principalmente nos últimos meses, a vontade de fugir para um campo de clima temperado só vinha aumentando.


Pegaram um táxi até o centro da cidade. Como levavam pouca bagagem, decidiram andar e reconhecer se Paris era tudo aquilo de que sempre tinham ouvido falar.
"Você fez reserva em algum hotel?"
"Não. Você fez?"
"Não"
"Que faremos?"
"Andar por aí, respirar, tomar um café, e parar no primeiro hostel com que nos depararmos"
Isso podia às vezes atrapalhar, mas as espontaneidade e despreocupação de Caio vinham em bom momento naquela situação. A última coisa de que Ana precisava era de um neurótico, estressado, que não saberia lidar com a situação de simplesmente não ter uma cama garantida quando a noite caísse.


Era primavera em Paris. Alguns prefeririam passar um Outono em Nova Iorque, e lá estava Ana, na primavera em Paris.


Eles começaram a andar. Talvez fosse por pura frescurite, por puro placebo, porque cidades são cidades em qualquer lugar do mundo, e nem o trânsito nem as pessoas seriam a diferença entre Paris e São Paulo - mas Ana sentia que havia algo mais. Algo que não pode ser tocado. Talvez fosse pela arquitetura tão característica da cidade, ou pelo fato de que tantos eventos já se passaram lá historicamente, tantos grandes filósofos já se sentaram naqueles cafés, tantas ideias já circularam por aquelas ruas que, nossa. Passar pelo arco do Triunfo, pela torre Eiffel, pelo Café des Flores, quem sou eu perto dessa cidade?
Andaram. E andaram. Que é o que precisa ser feito para conhecer a cidade a fundo. Andar por ela, conhecer suas ruas tortas, seus prédios, suas galerias, seus jardins. Quem anda só de táxi ou de ônibus não conhece a essência da cidade nem de perto.
Ana, num sobressalto, parou de andar.
"O que foi, Ana?"
Ela encarou a extensão da rua à frente de si.
"Tem uma moça, andando de bicicleta, com um mochila cheia de jornais, passando por aqui", ela começou a falar, "que fica subindo e descendo as ruas que cortam a rua em que estamos"
"E qual o problema?"
"Isso está me deixando nervosa"
"Por quê?"
"Porque por mais que nós andemos, ela sempre está na nossa frente, e isso me deixa nervosa"
Caio encarou-a meio sem entender se Ana estava falando alegoricamente ou se aquele era um dos seus ataques de neurose. Ana era assim, costumava falar em metáforas e fazer analogias de seus próprios sentimentos, mas outras vezes era só um ataque de histeria.
"Mas o pior", continuou Ana, "é que eu sei que vou me sentir estranha quando nós a alcançarmos, pois agora me acostumei a sempre estar distante dela. Quando o encontro chegar, e chegará, fatidicamente, bem..."
"Então você vai encará-la, olhos nos olhos, e comprar um jornal."

(continua)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

quero nascer, quero viver

Ouvir os pássaros cantar; eu quero nascer, quero viver.

Ela levava em sua mochila algumas poucas trocas de roupa, dois livros, um caderninho e música. Além de documentos, dinheiro e toda a tralha burocrática de que se necessita quando se viaja ao exterior, é claro. Mas ela não precisa de muito mais do que isso. O mais importante levava consigo, intocável - a vontade de fugir, que faria a viagem ser muito bem aproveitada.
Entre multidões estéreis, finalmente ele apareceu.
"Demorei?"
"Demorou"
"Mas pelo menos apareci"
"Em todos os sentidos"
Trocaram sorrisos. Ana e Caio se conheciam há pouco tempo, mas - e digo isso da forma mais clichê e piegas possível - identificaram-se um no outro logo no primeiro contato. Extemporaneidade e gênio difícil eram suas principais semelhanças. Digamos que, aprendendo a lidar um com o outro, aprenderam a lidar consigo mesmos - e poucas coisas são mais eficientes para se alcançar qualquer objetivo do que aprender a lidar consigo mesmo, aceitar-se, enxergar-se, conhecer-se.
Ana levantou-se e, ao lado de Caio, foi andando até a plataforma de embarque.
"Você tem certeza, Ana?"
"Por que as pessoas ficam me perguntando se eu tenho certeza ou não? Eu sei o que eu quero, e eu quero ir embora daqui, dar um tempo de tudo, sentir-me viva de novo, e se pra isso eu preciso ir até Paris é isso que eu vou fazer"
"Tá certo, então vamos"
"E você?"
"Eu o quê?"
"Tem certeza do que está fazendo?"
"Certeza do quê?"
"De que quer ir comigo"
"De tudo o que vem acontecendo comigo, uma das minhas únicas certezas é que eu quero estar com você"
"Hum, ok, certo. Boa resposta."
Ana suspirou. Engraçado isso, gostar de alguém.
Sentir-se viva de novo. Ana tinha dito isso quase sem pensar, mas analisando bem, era realmente este o problema: há tempos ela não se sentia viva; sentia-se apenas existente. Sim, pois entre viver e existir há uma grande distância filosófica e também prática. Viver exige muito mais coragem. Viver é fazer escolhas e assumir suas consequências. Viver é sentir. Viver é escolher seu próprio rumo (claro que dentro de certas limitações; ninguém é integralmente livre). Pois se nós não escolhermos nosso próprio rumo, quem o fará? A sociedade? Nossos pais? Nossos amigos? Se havia algo que tirava Ana de órbita era a sombra do pensamento de que ela não estava no controle de sua vida. Pobre menina idealista.
Podia ser idealista ideologicamente, mas no âmbito das relações pessoais as ideias tomavam outro rumo. Sua filosofia era de não esperar nada das pessoas -  nem atitudes boas, nem ruins. Ela simplesmente não esperava ser surpreendida por ninguém. Isso era, muitas vezes, ruim, pois fazia Ana subestimar indivíduos que acabam se mostrando muito, digamos, dignos de sua afeição. Mas, por outro lado, Ana preservou-se de muitas decepções agindo assim.
Já estavam procurando seus lugares no avião. Como se praxe, Ana sentara-se junto à janela, para poder, sem perturbar mais ninguém, olhar o quanto quisesse para o mar, o céu, a escuridão.
"Olha só", disse Caio, apontando para a tela de computador no assento da frente. "Frank Sinatra"
"Tá, mas quando estivermos chegando, vou colocar Piaf"
"Exatamente o que eu ia falar"
"Ia nada"
Caio bufou, e Ana riu.

A inexplicável sensação de estar sobrevoando o mar, e nada mais importar além do próprio ato de viajar. As paisagens vistas, as emoções sentidas, as reflexões e confabulações, e, é claro, o destino.
Porque viver é isso. Não se pode chegar ao destino final sem se ter aproveitado a viagem. Qual a vantagem de viajar de janelas fechadas, não enxergando mais nada, porque nada mais importa do que o final? Da mesma forma, por que viajar só por viajar, só para curtir a paisagem, sentir o sol no rosto e aproveitar a calma de não se ter compromisso nenhum até se chegar ao destino? O ato completo de viajar engloba tudo: aproveitar a viagem, não se deixar cegar por um só objetivo, permitindo-se olhar para os outros lados e ver inclusive outros destinos que poderia ser alcançados; mas não perder de foco o objetivo final - que, depois de uma viagem bem aproveitada, será infinitamente mais valorizado.
E isso, isso era o que estava faltando; viver pelo simples ato de viver - não por trabalhar, enriquecer, ter de se sustentar economicamente, apenas por viver, aproveitar a viagem.
O engraçado é que as pessoas não sabem viver. Quando não têm compromissos, perde-se a noção de vida. Domingos são o maior exemplo disso. O fenômeno do Ócio Dominical é justamente aquele pensar "não tenho que estudar, trabalhar, fazer contas, nada - o que eu faço comigo mesmo?", e perde-se a noção do quando parar, pensar e respirar fundo é bom. Ler um livro e saboreá-lo. Ouvir uma música e internalizá-la. Sentar na grama e perceber todo o organismo que o circunda.
Por isso Ana gostava de praias. Nada melhor do que sentar na areia e passar horas ouvindo o som do mar.

"Ei, acorda, nós chegamos"

(continua)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Day 27 — The friendliest person you knew for only one day

Não sei como começar esta carta. Eu nem sei o seu nome.
Não sei o seu nome, não sei onde você nasceu, o nome dos seus pais, se você tem irmãos, se você já voltou para o Brasil, se sua vida deu certo, se você está feliz ou se você sequer lembra de mim.
Só sei que nosso encontro certamente me marcou. E olha que foi uma grande coincidência, pois eu não devia ter sentado do seu lado, mas como eu não tinha onde sentar, colocaram-me lá. E tudo bem que grande parte da viagem nós nos ignoramos, mas ao ver aquele aviãozinho se aproximando do continente na tela - e você cedendo aos meus pedidos e finalmente abrindo a janelinha - acho que uma luz de animação se acendeu tanto dentro de mim quanto dentro de você.
Lembro-me que você devia ter entre vinte e cinco e trinta anos, e que ia para Londres a trabalho e estudo, ficar seis meses. Lembro-me muito bem do brilho fugaz nos seus olhos que traduzia o medo, a excitação, a ansiedade e o terror de estar vivenciando aquilo. Você me disse que nunca tinha ido a Londres e que nunca tinha tido a oportunidade de conversar em inglês com ninguém, mas que a vida era assim, ter de encarar as experiências com os olhos e ouvidos atentos e o coração e a mente abertos.
Lembro-me de quando você abriu a janelinha e ficou olhando lá para baixo. Após alguns momentos de intensa observação, você virou e me disse "lindo, né?". E esse "lindo, né?" deve ter sido um dos únicos "lindo, né?" sinceros que eu já ouvi na minha vida, porque dava pra sentir na sua voz que você realmente estava maravilhado, deslumbrado por aquela imensidão de mar e costa, que aquilo era realmente novo e que você estava realmente aproveitando a viagem em que você ia embarcar e que nem tinha começado ainda. Pois esse "lindo, né?" não é um "lindo, né?" que se fala quando se vê um sapato bonito, ou óculos de sol bonito, ou um rapaz bonito; é um "lindo, né?" que se diz quando não se consegue achar outras palavras pra expressar o que se está sentindo então recorre-se para frases populares e encarrega-se a voz de dar todo o sentimentalismo contido naquilo. A voz, o olhar, e a respiração contida antes de dizê-lo. Devo dizer, até aquele momento eu não tinha tido um momento "lindo, né?", mas passei a tê-los frequentemente. Passei a admirar mais a beleza das coisas e a dar mais valor para o que eu tinha e tenho. Afinal, eu estava indo para a Inglaterra pela primeira vez com 15 anos, e aquele moço só conseguiu fazê-lo depois de formado e estando trabalhando.
O avião pousou. Todos começaram a se levantar para pegar suas bagagens de mão. Você me ajudou a pegar a minha (que por sinal devia estar no limite de peso) e quando fomos liberados a sair do avião, olhei para você e disse sinceramente "boa estadia, espero que tudo dê certo", e você respondeu "boa viagem, aproveite".
E a última vez que eu o vi foi andando de um lado para o outro no aeroporto olhando freneticamente para seu celular, e quando estava no avião para voltar para o Brasil me peguei pensando onde você estava naquele momento.
Querido estranho, obrigada pelas 12 horas de vôo que passamos juntos e por me fazer rever meus valores do que é lindo e do que precisa ser realmente valorizado. Acho que o mundo ficou mais bonito depois do seu comentário a respeito da costa de Portugal e do mar. Não tenho palavras para lhe agradecer suficientemente, pois se teve algo que tornou minha estadia em Swanage inesquecível foi o fato de eu ter parado para apreciar o pôr-do-sol de cada dia e o mar indo e voltando. E todo dia eu me pegava pensando "lindo, né?".
Com carinho, 
A menina que sentou ao seu lado  no vôo de ida para Londres no começo de Julho de 2010.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

sobre o céu, o vento, swanage


A primeira coisa que constatei depois de alguns poucos dias em Swanage foi que o céu era lindo.

Todos os dias havia algo a ser feito, pela escola, alguma atividade, geralmente em outra cidade. Às vezes voltávamos antes do previsto, e eu ia para um monumento, em memória dos cidadãos de Swanage que lutaram nas guerras mundiais, que ficava em frente à praia. Em volta desse monumento havia quatro bancos, e o meu preferido era o que ficava de frente para o mar.
O clima em Swanage era agradável. O calor do sol não deixava a pele ardendo, não estava frio, e não choveu nem meia dúzia de vezes. O constante vento, típico de cidades litorâneas, era muito bem-vindo, e vez ou outra as nuvens saíam do caminho e me deixavam ver o sol.
Sentava-me lá, muitas vezes sozinha. Mas era uma solidão muito por mim apreciada. Eu respirava calmamente, para deixar registrado na minha memória todos os odores que eu podia sentir. Olhava para o mar. Uma imensidão azul e verde. De lá dava pra ver a praia inteira, de ponta a ponta. Eu via o píer, perto de onde eu costumava comer crêpes de Nutella de jantar ou pizza, eu via as Old Harry's Rocks, eu via todas as lojas a que eu gostava de ir. Era o lugar perfeito.
Sem nenhuma distração, companhia ou algo a ser feito, eu não fazia muito além de olhar o céu.
E foi lá que eu tomei tanto gosto pelos fenômenos naturais diários, o pôr e o nascer do sol, o vento, a forma como a luz incidia nas nuvens. Eu me percebi cercada de tantas coisas bonitas, e me perguntei como não tinha visto aquilo antes.
O vento provocava as mais bonitas reações no ambiente. As nuvens, bem devagar, se mexiam. As ondas iam se intensificando; consequentemente, a música de fundo produzida por elas. As árvores balançavam de um lado para o outro, como se estivessem dançando, ou me convidando para dançar. Eu podia ver algumas pétalas de flores sendo levadas pelo vento, viajando pelos ares da cidade. Havia pássaros planando a alguns metros de mim. A areia saía da praia e ia fazer desenhos bonitos na rua asfaltada. A grama me dava a impressão de que queria sair debaixo dos meus pés e pairar por aí como as pétalas e os pássaros. E tudo isso em alguns instantes.
Eu gostava muito de poder ficar ali, sozinha, assistindo ao espetáculo natural que acontecia em volta de mim. E gostei muito de ter vivenciado tudo isso, pois voltei da viagem com outros olhos. Agora em vez de olhar para o carro da frente, eu olho para as nuvens; em vez de olhar para o trânsito, eu olho para os pássaros. Foi necessário que eu viajasse para outro continente para que isso pudesse acontecer.
O céu é diferente a cada dia. O céu transmite uma sensação diferente a cada dia. O pôr-do-sol mais bonito é no inverno, quando forma-se um arco-íris gigante acima do sol; o mais alegre é na primavera, quando as cores predominantes são laranja e rosa; e o inesquecível é, com certeza, o de Swanage.
Ficam aqui a minha saudade e o resultado das várias epifanias que tive ao assistir ao pôr-do-sol de lá.

sábado, 14 de agosto de 2010

Swanage...

Swanage. Dez mil habitantes, fica a 3h3omin de Londres, turística, litorânea. Cidade onde moram pessoas com mais de sessenta anos ou menos de cinco, o comércio fecha às seis e meia da tarde e a praia te dá delírios de tão linda.
Quando andamos (meu grupo e eu) pela primeira vez, por Swanage, não gostamos da cidade. Muito pequena, nada pra fazer, muito pequena, muito vento, nada pra fazer... No fim da primeira semana já tínhamos explorado a cidade inteira, já éramos conhecidos no supermercado (por comprarmos comida lá todos os dias), já sabiam o que queríamos quando íamos ao único restaurante de fast food.
Mas com o tempo, começamos a perceber o quão pacífica, bonita e virtualmente perfeita Swanage é... Não para se morar (para alguém da nossa idade deve ser realmente entediante), mas... Não sei explicar. Eu tinha uma sensação de paz e liberdade toda vez que transitava da escola pra praia e da praia para a casa em que eu dormia. Sentia-me independente de andar com meus amigos totalmente livre, entrávamos onde queríamos, pagávamos nossas contas... Fomos muitas vezes à praia só pra apreciar a paisagem, brincar de quicar pedrinhas no mar. Fui a vários pubs, ouvi muito jazz, blues, bolero, até bossa nova (acreditam?, não toca bossa nova nas rádios daqui, mas toca em pubs lá).
Era tanto vento, tanto sol, tanta subida, tanta descida. Tanta magia...
Eu me apaixonei pelo lugar. Criei um carinho imenso por lá. Eu estou tentando, mas não consigo escrever aqui o que eu sentia quando andava por lá com meus amigos. No final da segunda semana, eu já sabia todos os caminhos, nomes de ruas, nomes de lojas, já tinha apelidado funcionários dos lugares que eu mais frequentava, já tinha comprado muita coisa, já tinha rodado aquela cidade inteira - e algo ainda me chamava ao centro e à praia todos os dias no final da tarde. Aquela cidade me lembra uma vila que aparece no filme "Peixe Grande", porque à noite era iluminada com várias luzinhas coloridas...
Indo pra praia, eu sentia aquele vento frio batendo no meu rosto e eu pensava, "eu tenho dinheiro suficiente pra comer no Wimpy hoje?". Não tinha preocupações com assalto, com voltar pra casa depois de anoitecer, com ficar sozinha -tudo estava bem, perfeitamente bem.
Swanage. Dez mil habitantes. O lugar perfeito para se nascer e se descansar em paz. O lugar perfeito pra se deitar na grama e ouvir o jazz que toca no pub mais próximo. O lugar perfeito pra se passar o mês perfeito de uma viagem perfeita.
Ah, Swanage, suspiros, olhos perdidos no tempo e no espaço, reticências...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

impressões - Oxford

Oxford
Se eu disse que a arquitetura de Londres é linda, então não possuo vocabulário extenso o suficiente pra definir Oxford. De verdade. Parece um exagero, sim, mas é que... As Igrejas, as bibliotecas, os campos, as ruas, os bancos, os postes, os monumentos, as Igrejas de novo, a universidade em si. Cada pedaço mais bonito que o outro. Digamos, inicialmente, que só de visitar a cidade me deu vontade de estudar lá.
O meu grupo fez um walking tour pela cidade, vimos alguns principais pontos - Christ Church, Alice's Shop, o College, a biblioteca reservada aos alunos apenas - e depois tivemos algumas horas livre. O que eu fiz? Visitei a Christ Church.
Obviamente, a primeira coisa que se pensa ao se adentrar a Christ Church é: Harry Potter. E faz sentido, pois o local foi usado para as filmagens dos filmes. Eu tenho um lado que adora coisas mágicas, sempre fui muito fã de Harry Potter, então não posso descrever como me senti ao andar naqueles corredores, imaginando três bruxinhos andando rápido e mirabolando; não posso descrever o brilho nos meus olhos quando vi aquele pátio, fiquei com cãibra no rosto de tanto sorrir quando entrei na sala de jantar...
Andando (bem devagar, por sinal) pela universidade, eu não queria perder um detalhe. Olhava cuidadosamente para os detalhes da arquitetura no teto: as abóbadas de nervura, uma característica do estilo gótico, é muito bem trabalhada no college. Os pilares, as escadas, o corrimão, as janelas... A Igreja; o teto da Igreja é tão alto que por alguns instantes eu cheguei a entender o porquê de o homem da idade média ter sido tão religioso. Você se sente pequeno, insignificante e feio! Por mais simples que a Igreja seja por dentro; é tão grande, e tão alto, os seus pequenos passos ecoam pelo salão inteiro... Eu senti isso sem nem ter entrado na Igreja porque um casamento de um escocês (?) estava em andamento lá dentro. Mas enfim.
Deve ser fantástico estudar em Oxford. Uma universidade ótima, prédios maravilhosos, situados numa cidade tão bonita e boa quanto. Ter acesso a todas aquelas bibliotecas, imensas, cheias de livros, de histórias, de cultura... Eu tenho de voltar lá um dia. Pra estudar, quem sabe?
Finalizarei o texto com um suspiro, Ah!, Oxford, reticências...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

...impressões

Bom, pros primeiros posts, decidi fazer uma lista de sensações, percepções e impressões sobre os lugares em que estive. Tentarei ser o mais fiel possível. Começarei com Londres, depois seguirei com Oxford, e por fim Swanage.

Londres
Fui duas vezes à Londres, e nessas duas vezes senti basicamente as mesmas coisas. Londres é uma cidade incrível, uma mistura do mundo velho com o que há de mais novo e tecnológico, tomemos como exemplo o Buckingham Palace em contraste com a Prefeitura. Muitos prédios antigos, construções restauradas; a arquitetura de lá é fantástica.
Londres é uma miscigenação de vários elementos muito distintos. Dei o exemplo da arquitetura - lá contém construções tanto antigas quanto bem recentes -, mas a miscigenação não se limita a isso. Lá há muitas culturas diferentes, ouvi muitas línguas, vi muitos rostos, muitos costumes, roupas diferentes, cabelos, comportamentos... Vi muçulmanos, indianos, espanhóis, turcos, marroquinos, muitos japoneses e por aí vai. E é tudo tão misturado, tudo em (aparente) harmonia. As pessoas andam na rua tão preocupadas com seu destino que não têm tempo de olhar pro lado e reparar que tem alguém de outro país ali.
Eu poderia fazer a comparação de Londres com São Paulo para exemplificar como o centro da cidade é, mas seria muito errado... Eu posso estar falando besteira porque adorei Londres, posso estar sendo cega, mas Londres é bonita. As ruas são bonitas, os prédios, as lojas, os cartazes. O trânsito londrino, isso sim, pode ser comparado ao paulistano (para atravessar Londres, é preciso de 2h30min). É uma cidade urbana que exala cultura e história por todos os cantos; seja por seus monumentos; seja por seus museus; seja por seus palácios.
Do que eu mais gostei em Londres? Difícil escolher. Acho que, de uma forma revoltada ou não, me senti mais em casa lá do que me sinto aqui em Ribeirão. Não que Ribeirão seja ruim. Mas Londres tem um quê de modernidade, cultura, liberdade, novos horizontes que eu simplesmente não consigo encontrar aqui. Sem falar que andando a pé lá eu me senti a pessoa mais livre e poderosa do mundo. É idiotice, mas eu fiquei inspirada a ser maior. A pensar grande, a ser diferente, a não ter vergonha de mim, a não ligar pra o que os outros pensam (sejam esses outros as pessoas da minha escola, que me conhecem, ou pessoas que me veem uma vez na vida e dão aquela medida no meu visual). Afinal, o mundo é maior do que Ribeirão Preto, que tem 600mil habitantes mas tem alma e aparência de cidade de 50 mil. De novo, eu até gosto daqui, mas não vou ficar aqui minha vida inteira, não.
Voltei, criei coragem pra fazer o corte de cabelo que eu queria desde fevereiro e lancei uma piscadela de olho praqueles que olharam com desprezo.

domingo, 8 de agosto de 2010

Sobre a diferença

Bom, acabei me rendendo à minha saudade de escrever aqui...

Algumas novidades. Passei um mês na Inglaterra, fiz a viagem dos meus sonhos, dos meus quinze anos. Fiquei numa escola internacional, aprimorei meu inglês, aprendi a conviver com pessoas ainda mais diferentes, aprendi a furar fila, aprendi a apreciar a deliciosa comida brasileira, engordei, caminhei, amadureci horrores, caminhei um pouco mais, aprendi, fui rodeada de cultura por todos os lados, me encantei com Bath, tive arrepios em Oxford, tive a unique sensação de estar em casa enquanto andava pelas ruas de Londres.

E as minhas conclusões, depois de ter passado esse tempo num lugar tão diferente, que é a Inglaterra? Vou tentar ser gentil e não xingar tanto a minha cidade natal / minha escola.

Conviver com pessoas de vários países te torna uma pessoa mais madura e suscetível a mudanças, uma pessoa mais respeitosa, sem preconceitos, cabeça aberta. Acho que agora mais do que nunca eu sei quem eu sou, tenho certeza do que gosto e do que não gosto. E não só eu fiquei assim. As pessoas dos outros países assumem uma postura diferente com o passar dos dias. Cada um na sua, com o seu estilo, com a sua forma de expressão.
Isso na escola e em toda cidade britânica. Ninguém estava nem aí pra tua roupa, pro teu cabelo, pro teu tênis. Cada uma na sua, paz e amor, ou whatever! Sabe? É diferente. Não percebi aquilo que chamamos de moda. Não vi meninas usando as mesmas roupas, o mesmo cabelo e o mesmo casaco da Le Lis Blanc. Não vi.
Então, chego aqui. Primeiro dia de aula. Vou com a roupa que eu usava todos os dias. Sinto olhares e bocas se mexendo na minha direção. Tão estúpido. Ribeirão Preto pode ter 500.000 habitantes, mas tem alma de cidade pequena, ah tem.

Nos próximos dias, vou fazendo pequenos relatos sobre minhas impressões da viagem.
See ya.