Mostrando postagens com marcador suspense. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador suspense. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

told me love was too plebeian


(continuação)

Remember, I remember all that you said: told me love was too plebeian, told me you were through with me

"Eu vou fazer isso, sabe. Ninguém pode me impedir. Nem você."
"Vá em frente, então."
"Eu falo sério."
"Eu não ligo."
"Bom, eu não esperava que você ligasse. Eu não esperava reação nenhuma de você... porque eu também não ligo - não ligo pra você, Vitória. Nunca liguei. Estive com você por distração. Quero dizer, você realmente acha que eu alguma vez a amei? Por favor, Vitória, um homem como eu amar um projeto de mulher feito você? Amor... amor é pra pessoas carentes, inseguras, que necessitam o tempo todo de aprovação. Eu não preciso disso. Nunca precisei."
"Que bom, cara. Que bom. Assim, vou me sentir menos culpada de ter deixado você se matar na minha frente."
Ele piscou duas vezes. Talvez ele não tivesse considerado a possibilidade de que ela realmente não se importava mais com ele. Seu braço direito, antes esticado para a frente, mostrando frascos na mão - num deles lia-se cicuta -, caiu ao lado do corpo. Cerrou o punho esquerdo. Fechou a boca, antes aberta de espanto.
"Então é isso, Vitória?" - e seu olhar ganhou repetina ternura. Agora que não estava mais embriagada de paixão, compreensão e até certa pena, ela podia ver o quanto ele podia ser manipulador, cruel, mesquinho. Como podia fingir tão bem aquelas emoções? Como conseguia transfigurar seu rosto do nojo, da ojeriza, para a ternura, a doçura?


and now you say you love me. well, just to prove you do, come on and cry me a river, cry me a river... I cried a river over you

"Vitória, olha pra mim. Vitória, você não me ama mesmo?"
"Não. Você me dá nojo. Me dá pena. Quero distância."
"Mas você já me amou"
"Talvez"
"Talvez?", ele agia como se tivesse levado um tapa no rosto. "Talvez? Você não me amou naquele dia em que eu te trouxe aquelas margaridas? Nem no dia em que te fiz uma surpresa no hospital e fomos viajar? Nem no dia em que mandei entregar aqui no seu apartamento aquela cesta de café da manhã? Nem mesmo, Vitória, naquele dia de chuva em que fomos ao parque e eu te empurrei no balanço?"
Mas que ótimo ator. Ela não podia negar que quase, quase se deixou balançar por aquelas palavras. Mas respirou fundo e tentou se lembrar de quem ele realmente era.
"Sabe, você devia ter tentado carreira artística."
O semblante dele se desfez. Voltou aquela expressão transtornada.
"Então está certo. Não sei por que perdi meu tempo vindo aqui."
"Também não sei. Estou ocupada. Você conhece a saída, certo?", e virou de costas. Enquanto andava da sala de televisão até seu quarto, ouviu um baque surdo e inferiu que ele virara o frasco de cicuta. Sentou-se na cama, lixou as unhas. E foi até a varanda. Jogou o maço de cigarros varanda abaixo, e lá ficou, por tempo indeterminado, que pode ter sido um minuto ou uma hora, ela não saberia dizer.

Quanto barulho. Agora não eram mais só as buzinas; parecia haver um grupo andando de forma muito pesada no corredor de seu andar. Passos ritmados. Seria a polícia?
Batidas na porta. "Vitória Fragoso, abra a porta. É a polícia.". Ela andou tranquilamente até a porta, passando cuidadosamente por cima do corpo estendido no chão, e a abriu. "Posso ajudar, policiais?"
"Uma vizinha ligou, disse ter ouvido discussões e ameaça de suicídio. Viemos verificar a veracidade da den..." e então o olhar do policial recaiu sobre a figura no chão, rodeada de vômito e frascos.
"Ele se suicidou, senhor. Não pude fazer nada. Pode verificar - não há digitais minhas no frasco"
"Mesmo assim, pedimos que venha conosco. Vamos pegar suas digitais, amostras das substâncias... conhece seu direito de ficar calada, tudo o que disser pode e será usado contra você."
"Mas sou inocente até que se prove o contrário"
"Sim"
"Muito bem, então. Prenda-me.". Apresentou os pulsos. O policial, confuso com sua calma, algemou-a.
"Ramos, chame a perícia. Fique aqui. Vou levá-la à delegacia, lá vamos ver o que podemos fazer". Vitória olhou o corpo pela última vez. Quem iria ao funeral? Não tinha família. Amigos? Dificilmente. Ele morreria sozinho. Por mais sádico que isso parecesse, Vitória contentou-se com esse pensamento enquanto era empurrada para dentro da viatura.

(continua)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

cry me a river

(pra ser lido ao som desta música)

Now you say you're lonely; you cry the whole night through

Vitória olhava para aquele corpo inerte do outro lado do cômodo. Não sentia remorso, muito menos culpa. Sentia pena. Pena dele, do que ele tinha se tornado, e pena dela, e do que ela tinha permitido que fizessem com ela. Bufou. Abriu a porta de correr que dava para a varanda; o quarto começava a ficar sufocante. Pegou o maço de cigarros e o celular e foi se sentar na varanda. Colocou uma seleção de jazz para tocar e, contrariando as expectativas do leitor, atirou o maço pela tela de proteção da varanda. Observou enquanto ele caía por 15 andares. Ela já não mais precisaria dele - não havia mais ansiedade para ser tratada com vícios.

Well, you can cry me a river, cry me a river... I cried a river over you

Curioso. Poucos  minutos antes, ele chorava e repetia as mesmas palavras que disse quando se conheceram.
"Eu vou fazer isso, sabe. Ninguém pode me impedir. Nem você."
Na situação do primeiro encontro, Vitória trabalhava como paramédica e impedira que ele cometesse suicídio, por overdose de antidepressivos, após um surto psicótico. Ou seja, tendo como base a forma como se conheceram, era de se esperar que Vitória tivesse entendido que o indivíduo era absolutamente instável e maníaco, mas não, leitor. Ele apareceu no hospital em que ela trabalhava, duas semanas depois, com flores em uma mão e um documento atestando sua plena capacidade mental em outra. Agradeceu à moça que salvou sua vida por tê-lo feito e a convidou para jantar. Certo, ela disse, que vamos comer? Qualquer coisa de sua preferência que não leve antidepressivos na receita, ele respondeu, e assim começou a (in?)felizmente curta história conturbada que acabou com um corpo inerte num apartamento de cobertura do Rio de Janeiro.
De mentalmente capaz ele não tinha nem nunca teve nada. Sempre surtando, sempre em crise, sempre recusando ajuda, sempre jogando a responsabilidade pelas lágrimas de Vitória sobre sua condição "complicada". E ela tentava entender, tentava acreditar. Ela era formada em medicina e lembrava-se de ter visitado alguns hospitais psiquiátricos, sabia como era triste a situação de pacientes "complicados". Por isso tentava ser complacente. Por isso derramou rios de lágrimas por ele.

Now you say you're sorry for bein' so untrue... well, you can cry me a river, cry me a river... I cried a river over you

Entre vícios e traições, mentiras e desculpas, rosas e chocolates, a relação dos dois se desenvolvia. Nos primeiros meses, ela foi compreensiva. Depois ficou apreensiva. Ele começou a ficar violento. Vitória temia que, se ela pusesse um fim à relação deles, ele iria atrás dela atrás de explicações e voltaria pra casa com um mandado de prisão por homicídio. Depois tornou-se apática. Tinha seus próprios problemas no trabalho e no mestrado e cansou-se de ser a babá de alguém. E foi então que ele, de violento, regrediu; começou a ficar dependente demais. Vivia doente, para que ela dele cuidasse - Vitória não sabe dizer quando a linha entre fingimento e sintomas reais, causados por ele mesmo, foi cruzada. No fundo, ela não se importava. Talvez esse fosse o jeito doido dele de pedir desculpas pelo comportamento antigo, talvez fosse sua forma de mostrar que queria atenção. Tudo de forma bem doentia. Mas nunca verbalizou um sentimento sequer. Na verdade, a primeira e penúltima vez que Vitória o viu chorar foi quando ele estava prestes a se matar.
E a última foi quando ele de fato o fez.
Céus, qual era o motivo de tantas buzinas às três horas da manhã?!

You drove me (nearly drove me) out of my head, while you never shed a tear

(continua)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

seus olhos

Um homem pálido, com várias tonalidades de olheiras, cabelos ainda úmidos, ombros tensos e os braços inertes sobre a mesa. Seu olhar vazio encarava a xícara de café a sua frente.
- Então? Você vai falar como fez, ou nós vamos ter de adivinhar e te dar uma pena muito maior do que você legalmente merece?, disse um homem de altura média, um pouco acima do peso, com o rosto muito vermelho e com uma veia no pescoço saltada, denunciando seu nervosismo.
A sala era pequena e claustrofóbica. Acho que isso pode explicar por que razões tantos segredos eram ditos ali: as paredes fazem uma pressão tão grande que você não aguenta e entrega o jogo.
- Sete tiros. Três na cabeça, três no peito, um no ventre. Três facadas. Duas no peito e uma no pulso direito. E ainda assim, nenhum sinal de estupro, diga-me, como você fez isso?
- Isso... o quê?
- Estuprá-la e não deixar rastros! Você tem pinto pequeno ou o que, cidadão?
- Eu... eu não a estuprei.
O delegado encarou-o com impaciência e frustração. Que velhaco! Que canalha! Estava ali, sentado, encarando sua xícara de café, sem nenhum sinal de remorso ou agitação!
- Então diga-me, colega. Por que tantos tiros e facadas?
- Ela... ela não sofreu. Eu a esfaqueei depois de tê-la posto para dormir.
O delegado fitou-o, incrédulo.
- Posto pra dormir?, e ele bateu com todas as suas forças na mesa. A sala inteira vibrou. Posto pra dormir?! A vítima era uma moça decente, nunca havia feito mal para ninguém, ela, entre muitos, merecia viver e continuar com seu bom trabalho! Você tira a chance da sociedade de aprender com uma pessoa admirável, e você a pôs pra dormir? Você tira uma noiva e uma mãe, e você a pôs para dormir?! Você a assassinou, brutalmente, e a estuprou! Você é um assassino, problemático, psicótico, mais por ter matado justo essa pessoa do que por ter de fato matado alguém!
O homem fechou os punhos com muita força. Fechou os olhos. Levantou a cabeça com calma e olhou fundo nos olhos do delegado, que estremeceu. Mesmo num olhar tão frio conseguia-se captar um relance de infantilidade e insegurança.
- Eu não a maculei. Eu... eu não faria isso com ela.
O delegado virou-se para a parede que continha um grande espelho e jogou os braços para cima, num sinal de rendição. Ouviu-se um barulho e ele saiu pela porta. O homem continuava com os punhos cerrados, completamente quieto. O delegado encontrou-se com os outros policiais, observando o homem através do espelho.
- Ele não vai falar mais nada, Roberto, o delegado disse, limpando a testa com um lenço.
- Eu já esperava isso. Roberto tinha sua testa franzida e segurava o queixo com a mão esquerda. Foi um crime passional, Carlos, assassinos desse tipo geralmente são ou já foram obcecados por suas vítimas; são completamente psicóticos, isso quando já não foram oficialmente diagnosticados com algum distúrbio...
Uma moça conservava-se quieta, no fundo da sala. Tirava, colocava e retirava a tampa de sua caneta. Tinha seus cabelos muito pretos presos em um rabo-de-cavalo baixo e visivelmente feito com pressa.
- Sabem; ela começou; eu dei uma olhada nas fotos da cena do crime e nos relatos de conhecidos desse homem e da vítima... E isso não me parece um crime passional qualquer. Quero dizer, parece que aconteceu todo um ritual. Vocês não percebem que os tiros e facadas foram em lugares previamente escolhidos e que provavelmente têm um significado? Por que outro motivo ele daria três tiros na cabeça, três no peito e apenas um no ventre? Pensem. Ela pode ter feito alguma escolha racional e emocional que o desagradou. Ou ela seguiu um caminho diferente do dele. E a facada no pulso direito, a vítima estava noiva, e o anel de noivado usa-se...
-... na mão direita; Roberto completou.
- Eu realmente acredito que ele não a estuprou, a obsessão dele por ela era provavelmente algo mais espiritual, mais platônico, algo até maternal, talvez? Pelo que eu li, ela era pediatra, e ele era seu faxineiro havia mais de cinco anos. O que a secretária disse foi que ele demitiu-se depois de encontrar a vítima tendo relações com o noivo no banheiro do consultório.
- E a vítima tinha quantos anos mesmo?
- Vinte e sete. Se formos pelo raciocínio de que o assassino projetou na vítima uma imagem de mãe, ele provavelmente decepcionou-se depois de vê-la com o noivo, pois isso sujaria a imagem que ele havia feito dela.
Ela parou de falar e observou as feições de Roberto e de Carlos. Ambos pareciam extremamente absortos em seus pensamentos. Ela mentalmente sorriu satisfeita por ter conseguido impressioná-los.
- Pode ser, Fernanda. Pode ser. Mas nós não podemos ficar só no "pode ser", temos de extrair a verdade do homem.
- Posso falar com ele? Sim?
Ela saiu da sala, entrou naquela claustrofóbica e sentou-se na frente de homem.
- Que coisa horrível pra se fazer, certo?
Ele encarou-a. Aquele quê de infantilidade estava ali de novo.
- Quero dizer, fazer aquelas coisas com o noivo no banheiro do consultório? Isso não é coisa que uma mãe devia fazer. E se as crianças vissem? Na verdade, ela não devia fazer aquele tipo de coisa de jeito nenhum. É repugnante.
- Ela me tratava muito bem, sabe. Elogiava o meu trabalho e sorria para mim.
Ele parou e fungou.
- Mas aí eu a vi fazendo... aquilo, sabe?! E aí pensei que se ela faz aquilo com o noivo, deve fazer com qualquer um. Eu vi que ela passou as mãos no cabelo do marido da mesma forma como ela passava as mãos nos cabelos das crianças, seus pacientes. E aí eu pensei que ela fosse que nem a minha mãe.
Fernanda olhava-o impressionada. Ela estava ouvindo muito mais do que esperava.
- E aí eu fiz o que eu tinha que fazer, né... quero dizer, ela mereceu, ela me decepcionou.
- E por que você não a estuprou?
- Porque quando é com uma mãe não é estupro, é amor. E não se mata alguém com amor.
- Sua mãe... sua mãe foi quem te disse isso?
- É, sim... Ela me amava muito.
Fernanda olhou para o espelho. Viu sua própria expressão; uma mistura de pena com repugnância. Saiu da sala claustrofóbica e voltou para aquela com os policiais.
Roberto estava com a mão esquerda no vidro e a mão direita no quadril, analisando o homem; Carlos limpava o suor da testa com o lenço.
- Não vai conseguir se livrar da cadeia, mas a pena provavelmente poderá ser reduzida se a defesa alegar insanidade mental, o que é claro que há nesse caso.
- Vamos encaminhá-lo para uma avaliação psicológica... e procurem registros que envolvam o nome da mãe dele... vamos ver se essa história é verdadeira.
Fernanda não estava realmente escutando, ainda encarava o homem. Tão perturbado, tão complexo! A escolha dos lugares para os tiros e facadas, se foi inconsciente, revela toda a sensibilidade daquele indivíduo. E se foi consciente, quão brilhante!
Balançou a cabeça, como se quisesse afastar aqueles pensamentos. O homem é um assassino. É perturbado, sim, mas é um assassino. Pode não merecer, mas precisa de ajuda, sim. A relação de Fernanda com assassinos passionais era bem instável.
Na semana seguinte, Fernanda ficou sabendo que dois dias antes do julgamento com o júri o homem se suicidou, intoxicado de monóxido de carbono. Foi encontrado deitado na posição fetal. Seus últimos registros em seu diário diziam que ele precisava ir dormir.

sábado, 19 de março de 2011

três homens - 2

Então a cena era a seguinte: uma taverna escura. Atrás do balcão, um garçom enxugando um copo. Numa mesa ao lado de uma janela, uma dama - cujas feições não podiam ser vistas - sentada ao lado de três cavalheiros, de um lado da mesa, e do outro encontrava-se sentado um jovem adulto, que encarava-os com interesse. Este último chamava-se Eduardo, e nada sabia dos outros três homens sentados a sua frente.
Após algum tempo dedicado ao silêncio e à reflexão, o senhor melancólico pronunciou-se.
- Mil perdões, minha dama, mas receio que minha presença aqui seja inútil, no melhor sentido da palavra. Creio que não há nada que eu possa adicionar à alma deste jovem rapaz. Ele parece-me decidido a não ouvir uma só palavra do que for dito aqui.
- Com licença, senhor, mas de onde veio tal afirmação? Eu nem sequer dirigi-te a palavra - Eduardo retrucou.
- Pela sua postura, meu jovem, é óbvio que você está convencido de que o modo como está vivendo é o melhor. Você está sentado de braços cruzados lançando-nos um olhar de frio e intensos desprezo, subestimação e desesperança. Acredito que tenha mudado de vida um tempo atrás e decidiu não voltar ao que foi outrora, estou certo? Bem, não é uma conversa com três homens desconhecidos que mudará suas atitudes. Epifanias morais não são tão recorrentes assim.
- Hermann, sê cauteloso com tuas palavras. Eduardo precisa de ti mais do que qualquer um neste instante. - a Dama interviu.
- Rapaz - o forte pronunciou-se - com licença, prazer. Meu nome é Fitzwillian, mas chamam-me Fitz. Tenho apenas uma pergunta: o que é que está fazendo aqui quando uma vida perfeita e almejada por todos encontra-se em sua casa?
- Minha Dama, acho que eu sou o que menos importa daqui, por que fui chamado? - o pequeno burguês perguntou.
Com um gesto, a Dama calou os três.
- Eduardo, estes são Hermann, Fitz e Dibs. Chamei-os porque cada um tem algo de essencial para dizer-te.
- Dama, como um velho frustrado como eu pode ajudar um jovem bem sucedido e realizado profissionalmente como este? Ele está por acaso procurando uma possível absolvição através da busca por excelência moral e intelectual? Não? Nesse caso, não há auxílio que eu possa oferecer. Retiro-me.
- Com licença, senhor Hermann, posso informar-me do motivo pelo qual o senhor está julgando-me a todo instante? Está aqui há pouco mais de um quarto de hora e acha que já me analisou completamente. Um cavalheiro digno e experiente como o senhor devia constituir suas opiniões de tópicos que vão além do preconceito. - Eduardo levantou-se e impediu que Hermann saísse.
- Oh, entendo. Vista essa reação, passo a acreditar que o senhor é um sujeito moral dos mais altos índole e caráter, que possui mente aberta e prontifica-se a uma mudança radical em seu estilo de vida caso haja interferência neste?
- Hermann, sossegue, não está vendo que o rapaz não está interessado em seus conflitos e críticas existencialistas? - Fitz intrometeu-se. A postura deste era realmente curiosa. Enquanto surgiam faíscas entre Hermann e Eduardo, ele apenas fumava seu charuto com os pés apoiados em cima da mesa. E Dibs apenas observava-os. Quando Hermann pronunciava-se, Dibs dava a impressão de querer levantar-se para concordar e defendê-lo, mas continha-se, e quando Eduardo fala, agia da mesma forma. Era um pobre homem perdido em delírios intelectuais e morais, reprimido pela própria consciência.
Já a Dama, a Dama assistia a tudo com certo prazer. Não falava, mas com certeza exercia uma grande força sobre os quatro ali presentes.

quarta-feira, 9 de março de 2011

três homens

Balançou a cabeça como se quisesse afastar aqueles pensamentos e voltar à sua realidade.
- O fato é que eu fui extremamente anti-ético e compartilhei a vida desse meu paciente deprimido com uma certa moça. Uma moça que não tinha como ser mais fútil. Na verdade, eu a considerava tão miserável que nem me lembro o que levou-a a procurar-me. Eu contei a ela sobre todas as preocupações, desilusões e inquietações do meu paciente, e ela convenceu-me de que ele era louco, de que ele estava cego; e vendeu-me o ideal de ser exatamente o oposto disso. Comecei a me tornar mais pragmático, fui perdendo meu lado idealista, parei de perder meu tempo com planos de uma revolução. Sei que ela foi muito conveniente.
- Ela apenas confirmou a ideia que estava se desenvolvendo dentro de ti. Não culpes tu essa moça totalmente por algo que só pôde tomar uma forma consistente depois que tu mesmo começaste a refletir a respeito.
Eduardo encarou-a. Tentou se lembrar do rosto da antiga paciente dissimulada. Havia algo de muito familiar entre a paciente e a moça.
Ele abriu a boca pra murmurar alguma coisa, algum protesto, mas foi interrompido pelo baque surdo da porta da taverna batendo na parede. Três homens entraram e juntaram-se a Eduardo e à moça. Ela parecia à vontade e familiarizada com aqueles homens. Um era alto, magro, até meio cadavérico - sua expressão era melancólica, tinha cabelos ainda muito negros e usava óculos de aro redondo. Estava vestindo terno e gravata, um traje excessivamente formal para a ocasião. O outro era forte, bonito, em seu olhar havia traços de desprezo e em seu sorriso havia linhas de superioridade. Por fim, o terceiro parecia incrivelmente comum, não tinha nenhuma linha de expressão muito marcante em seu rosto e usava roupas comuns de um burguês comum.
O terceiro homem foi o primeiro a se pronunciar.
- Chamou-nos, dama?
- Certamente, senhor. Eu preciso de ajuda com esse promissor rapaz.
Eduardo olhou diretamente para os olhos do terceiro homem e, novamente, sentiu que o conhecia ou reconhecia. Mas nada era certo - estava ébrio e ultrapassando a tênue divisão entre a realidade e a fantasia.

domingo, 6 de março de 2011

embriaguez de memórias

A moça encarou-o como se estivesse se divertindo com aquelas respostas. Ela tinha um ar de superioridade tal, que, quando sorria, fazia Eduardo sentir um impulso elétrico subindo-lhe pela espinha e forçando-o a gritar de desespero, de agonia, de desesperança. Como era inusitado sentir-se inferior. Era uma sensação tão agridoce.
- Conta-me como era tua vida antes.
- Antes do quê?
- Antes de vender-se ao mundo das vendas e manipulação.
- Eu era psicólogo. Hoje tenho ojeriza a pessoas. Minha vida baseava-se em tentar convencê-las de que não estavam levando a vida de uma forma saudável, de que elas poderiam ser felizes, de que - com um pouco de esforço - suas vidas poderiam mudar drasticamente... Mas depois de anos trabalhando com isso fica claro que ninguém quer realmente mudar. Há uma insistência em dar continuidade a suas vidas miseráveis, medíocres, medianas, fúteis - e eu tinha a sensação de que naquele consultório o mentecapto era eu mesmo! As pessoas chegavam e tentavam-me com a inebriante essência da ignorância, da apatia, do conformismo, tentavam vender-me um projeto de vida ideal, sem preocupações, sem grandes questionamentos...
- Mas não foi isso que te fez mudar.
- Não. Foi um paciente em particular. Tinha por volta de uns cinquenta anos. Chegou a meu consultório dizendo estar louco - dizendo estar louco de tanto não entender o mundo a sua volta. Tinha tendências suicidas, mas era presunçoso demais para acabar com a própria vida. Era incrivelmente deprimido. Tudo era motivo para uma reflexão pessimista ou uma análise destrutiva da sociedade. Tinha um histórico muito interessante - pois, diferente de muitos dos meus pacientes, não tivera uma família ou infância desregulada. Decidi estudá-lo a fundo, e descobri que tratava-se de um caso raro de excesso de consciência. Eu tentei ajudá-lo, tentei levá-lo a descobrir algo em sua vida pelo qual valesse a pena lutar, mas tudo que o fazia feliz e útil também o levava à bebida, às drogas, pois ele não se sentia capaz e forte o suficiente pra conseguir lidar com tudo aquilo.
- E o que te assustou foi o fato de que tu estavas destinado a acabar assim também.
Durante alguns curtos instantes, Eduardo teve a sensação de que já vira aquele rosto e já ouvira aquela voz antes. Sentia como se a moça fosse um amigo de infância que agora havia voltado para mostrá-lo um caminho para a absolvição. Ou era alguma ilusão causada pela sua mente, embriagada de memórias da sua antiga vida, do seu antigo eu. Difícil distinguir.

terça-feira, 1 de março de 2011

a primeira conversa

Achou um tanto estranho aquela quantidade de imposições numa só frase. Claro que não estava acostumado a receber ordens de ninguém - era sempre ele mesmo quem ditava as regras. Talvez por esse motivo mostrou-se tão obediente e ávido por sentir-se subordinado a alguém.
De qualquer forma, levantou-se e foi atrás da mulher. Sua próxima lembrança começa em uma taverna estranhamente vazia. Lá, encontravam-se apenas ele e sua mentora. Ainda não podia ver-lhe as faces, mas tornou a ver seus braços, muito brancos, de pele aveludada. Estavam sentados um de fronte ao outro, e a moça segurava o queixo com as mãos, com os cotovelos apoiados na mesa. Chegava a aparecer que estava admirando-o.
- Do que precisas?, ela finalmente perguntou, após alguns instantes apenas observando-o.
- Como assim, do que eu preciso? Não preciso de nada, já tenho tudo.
- Se hesitas e perguntas é porque não sabes. Responde. Do que precisas?
- Não preciso de nada.
- E por que razão? Não desejas nada?
- Claro que desejo. Desejo sentir algo além de tédio.
- O que comprova minha teoria. Achaste-me pois não aguentavas mais tua rotina.
- Eu te achei fazendo algo que faço todos os dias. Andando na rua à noite, vagando e bebendo.
- E é isto que torna nosso encontro tão interessante.
Eduardo encarou-a. Tinha uma expressão digna de uma esfinge. Parecia que estava desafiando-o a cada palavra. Desafio aceito.
- Quão egoísta és tu?
- Egoísta a ponto de achar que nada pode me salvar além de mim mesmo, e minhas tentativas de absolvição foram totalmente falhas.
- Realmente achas que isto significa ser egoísta?
- Certamente. Alguns buscam a redenção no amor; alguns na religião; outros na realização de sonhos; mas eu, eu transpus todos esses limites.
- Pelo que conheço de ti, sei que nem sempre foste assim. Consegues lembrar-se de como eras antes da vida boêmia?
- Eu era infeliz.
- E o que és agora?
- Apático.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

a moça

Quanto mais ele chegava perto, mais audíveis os sussurros da pessoa ficavam. Eduardo ajoelhou-se ao lado da figura e esperou por uma reação.
Nada.
Mas antes de ele abrir a boca para falar algo, a figura pronunciou-se.
- Não é obvio que eu estou rezando? - e da figura encapuzada saiu uma feminina voz, muito doce, mas com alguns indícios de melancolia. Disse isso sem virar o rosto, sem sair de sua posição oratória.
- Por que está rezando?
- Não por que, mas por quem. - a voz saiu quase que como um sussurro. - Estou rezando por você.
Eduardo assustou-se. Como, por mim?, ele pensou, se eu nunca a vi na vida?
- Estou pedindo que Deus lhe perdoe. - a moça disse. Eduardo não entendeu. Não era religioso, não acreditava em nada além dele mesmo.
- Não preciso que ninguém interceda por mim, moça.
- Certo. - Ela se levantou e, sem que Eduardo pudesse ver seu rosto, virou-se e saiu andando. A única coisa que podia se dizer acerca de sua aparência física era a respeito de sua altura, pois ela usava uma capa de lã muito grossa que se estendia até o chão. Incomum. Não é de se admirar que esse repentino acontecimento tenha despertado tanta curiosidade em Eduardo. Há muito tempo ele esperava por alguma coisa que tirasse sua vida do total e completo tédio. Então seguiu a moça.
A única parte de seu corpo que Eduardo pôde ver até então foi seu braço direito - quando a moça estendeu-o para abrir a porta da igreja, Eduardo notou que ela possuía uma cicatriz em forma de cruz no antebraço. Olhou para o seu próprio. Ele tinha uma cicatriz idêntica. Isso sempre esteve aqui?, ele pensou.
Os momentos seguintes ficaram memorizados de forma muito confusa na mente de Eduardo; uma série de acontecimentos não passam de borrões; até que ele se encontrou deitado num banco na entrada de uma taverna. E, surpreendentemente - ou não -, encontrava-se ao seu lado a tal moça da cicatriz de cruz. Desta vez, metade de seu rosto estava visível. Não era magro, era de um formato deveras masculino, a boca estava machucada e ela tinha um hálito de absinto.
- Você me encontrou porque sua vida estava um tédio, ou estou enganada? - Eduardo consentiu. Estava ainda um pouco tonto. - Serei a tua fonte de absolvição. Deverá escutar-me e responder sinceramente às minhas perguntas. Agora recomponha-se, que nosso lugar não é aqui.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

a igreja

Começa o filme. Imagens de um rapaz de trinta e poucos anos, com maxilar bem quadrado e cabelos castanhos perfeitamente repartidos ao meio.
Eduardo era o tipíco amante do sucesso. Boa-pinta, charmoso, sedutor, carismático, tinha uma lábia que vou te contar. Exatamente por isso era sempre o funcionário do mês na empresa em que trabalhava. Emprego irritante aquele. Eduardo era encarregado de convencer as pessoas a comprarem todos aqueles aparelhos inúteis e multifuncionais - às vezes só pelo telefone. E era o mais bem sucedido vendedor dos últimos vinte e cinco anos, segundo aquela revista de circulação federal.
Era o cara que pede licença mas não pede desculpa se pisar no seu pé. Que não mente, mas omite muita coisa. Que te faz um favor se você já tiver feito-lhe muitos. Que consegue driblar até o jornalista mais crítico e competente de sua área. Quase um Collor. Realmente adorável. Tipinho imprestável e muito conhecido, mas que sempre cai nas graças do povo, certo?
Ele também era relativamente jovem, quando considerando seu tremendo sucesso profissional. Estava noivo de uma apresentadora de um talk-show, típica loura de olhos azuis e corpo lipoesculturado, e já tinham um filho de 4 anos - muito inteligente, muito bonito, menino prodígio da música e do desenho! Que vida perfeita.
Pausa.

Eduardo estava sentado na poltrona vermelho-sangue de sua sala. A única fonte de luz era uma luminária muito fraca, no canto da sala. O ambiente era gélido, mas ele estava completamente confortável, com uma taça de vinho na mão. Deu um último gole e descansou a taça sobre a mesa de centro. Recostou-se na poltrona e cruzou as pernas, enquanto tamborilava seus dedos nos braços dessa. Suspirou.
Levantou-se. Ia dar uma volta. Saiu de seu apartamento - no vigésimo sétimo andar do prédio localizado na área mais rica da cidade. Já estava bem escuro, aparentava ser mais de meia-noite, mas Eduardo não tinha assim tanta certeza. Saiu em busca de prazer, diversão, entretenimento.
Andando na rua vazia, pouco iluminada e de atmosfera úmida, ele finalmente sentiu-se à vontade. Afrouxou a gravata e deu um gole na garrafa de vinho tinto que trouxera consigo. Foi andando com passos largos e lentos até deter-se avistando uma igreja gótica. Mal iluminada, muito alta, vitrais que, à noite, davam a impressão de ter ilustrações do inferno. Eduardo sorriu.
Resolveu entrar na igreja. Não fez o costumeiro sinal-da-cruz ao entrar, não tinha religião nenhuma, ele era seu próprio deus. Foi andando tranquila e distraidamente por lá, mas parou ao ver uma imagem de capuz ajoelhada ao altar. Foi a seu encontro.

(continua)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Inception

Today I'm talking about the movie "Inception", by the director Christopher Nolan, with Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt and Ellen Page.
DiCaprio represents a lonely man that knows a way to get into someone's mind. While the person is asleep, he connects himself and the person to a special machine, and as soon as he falls asleep, the gets to dream with the person - he goes inside the other person's dream. That is his job. He uses his knowledge to discover things (e.g. passwords) about the person whose dream he invaded. Generally he does that because someone paid him to.
In a certain moment of the movie, DiCaprio is asked not to discover something about the person - but to make them think something, to make an inception. He says it's a tough job, but it can be done. Later we get to know why he is so secure about that.
The interesting things about the movie, in my opinion: how they plan to do the inception and what the dreams mean (because everything that happens in the dream has a reason and reflects what the dreamer thinks of that, of feels about that; even the people in the dream are projections of the person's subconscious).
DiCaprio formed his own team to do the inception, and they trained a lot before entering someone's mind. The team concluded that, to make and inception; they had to be very subtile, and they had to do things in a way to make the person think it was their idea (the inception's intention). So, they had to know a lot about the person's life, mind and personal opinions; their family; their job; so that the idea would seem more realistic.
While planning about the inception, Ellen Page gets really close to DiCaprio because she gets into his dreams and discovers many things about his past (e.g. how he lost his wife). She discovers that being in a dream with DiCaprio is very dangerous because a projection he does of his wife - the wife always tries to ruin everything they plan, and she knows how to do that because she's a DiCaprio's projection, therefore, they share the same knowledge about everything. The reason that makes her try to ruin everything is explained during the movie.
The movie is really dense and creative; and you have to pay attention all the time 'cause everything that appears in the movie has its importance. It's sort of confunsing because in the end of the movie they are in a dream that is inside a dream that is inside a dream that is inside a dream of a person who is travelling on a plane; and sometimes the three dreams are shown one after another; it's difficult to follow the rythm of the movie.
But, in spite of all that complication, it's a great movie, it makes you want to keep watching (even though it's a long movie - 2h30min) and the end makes people hold their breath.

domingo, 25 de abril de 2010

(continuação do encontro)

Tina bufou, mas riu. Luna sempre tivera essa mania de ligar coisas sem ligação. Luna fingiu não ligar e continuou.
- É, é sério. De repente eu ouvi barulhos vindo do túnel por onde eu entrei, e vi um grupo de umas 7 pessoas entrando, homens e mulheres, com roupas pretas e máscaras que pareciam ser de carnaval, eram todas coloridas com muitos detalhes em prata. Por isso não consegui reconhecer ninguém. Eu não consegui me mexer, fiquei parada, atônita. Quando me viram lá, pararam de andar, então um homem com a máscara mais imponente gritou "Peguem-na!", e eu poderia jurar que era a voz do diretor da minha escola!
Tina piscou os olhos duas vezes, bem devagar, enquanto tomava seu chocolate quente, que já esfriara.
- Eu saí correndo, obviamente, quando vi três brutamontes com máscaras que lembravam gárgulas correndo pra cima de mim. Eu contornei a mesa e entrei pelo outro túnel. Comecei a subir uma escada, e vi uma luz no fim, dava pra biblioteca. Os três pararam de me perseguir mas eu continuei correndo, e ao chegar no último degrau, eu dei um passo em falso e quebrei a perna. Teria sido o maior mico, eu saindo de um túnel embaixo da biblioteca, mas coincidentemente não tinha ninguém na sala. E também...
Luna se interrompeu. Tina ia perguntar por que, mas Luna tampou sua boca. Ela apontou com a cabeça para a mesa ao lado da delas, e apenas com os lábios falou para Tina escutar, e que aquela era a voz do cara com a máscara imponente. Era realmente o diretor da escola, e ele estava com mais dois homens.
Eles falavam delas.

tina e luna se encontram

O trem de Tina chegou à estação. Ela estava bem cansada depois de horas de viagem. Um avião, um táxi e um trem para chegar até Luna, que a esperava na entrada da estação. As duas se olharam. Tina fitou a perna quebrada de Luna e apertou os olhos, numa expressão mista de desconfiança e preocupação. As duas não se viam havia seis meses, e antes de Tina se mudar para outro continente, eram melhores amigas. O clima era estranho.
- Então, quando você pretende me contar o que aconteceu pra você quebrar a perna, Luna? - Tina por fim falou.
- Vamos a um lugar mais privado, Tina - Luna respondeu.
As duas foram até um café ali perto mesmo. Era uma segunda-feira de tarde. Estava frio e ventando de uma intensidade desagradável, logo, havia poucas pessoas transitando pelas ruas. Andaram silenciosamente, cada uma concentrada em controlar a batida dos dentes e a falta de calor de suas mãos. Chegaram ao café.
Um ambiente quente, sombrio porém convidativo as recebeu. Luna escolheu uma mesa no canto, afastada das outras, para terem mais privacidade. Cheiro de bolinhos, café e chá faziam o lugar cheirar a casa de avó.
- Tina, eu entrei nas passagens secretas da biblioteca - Luna disse, depois de pedirem um chocolate quente cada uma.
- E o que tem lá de ligação com a Sangue e Tinta? - Tina respondeu, depois de bebericar seu chocolate quente e constatar que faltava açúcar. - Ou Tinta e Sangue, que seja.
- Bom, é como uma sede, ou clube. Não sei. Todas as passagens secretas têm túneis ligando umas às outras, isso não consta no mapa, mas eu descobri. Cada sala tem dois túneis. Elas são pequenas com sofás vermelhos e pretos, estantes de livros aparentemente proibidos na biblioteca e quadros, muitos quadros do que eu presumi serem membros honorários da Sociedade. Vi um quadro da Maria Cristina.
- E o que tem nos livros? Você os folheou?
- Claro que não, Tina! - Luna olhou para Tina como se ela fosse louca. - Faltavam várias salas ainda pra eu visitar. Enfim. Eu cheguei a uma sala que não estava no mapa, que fica bem embaixo do salão principal da biblioteca. Tipo, EXATAMENTE embaixo. Tem até o formato do piso do salão principal. Enfim, de novo. Acho que deve ser a sede da Sangue e Tinta daqui, porque tinha vários sofás e poltronas, muito mais livros e uma mesa enorme, com muitos assentos, com muitos papéis em cima. Os papéis eram planos, leis, projetos de leis, combinados, acordos, mas no geral planos da Sangue e Tinta. E foi aí que eu quebrei a perna.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Tina

Isso é um telegrama. Devo escrever pouco. Na próxima carta virá uma descrição da Sociedade. Fui me infiltrar nas passagens da biblioteca. Fui surpreendida. Quebrei a perna. Venha logo. Estou assustada. Conhecemos mais membros do que sabemos. Preciso de ajuda. Não descobri muitas coisas além de planos políticos. Não posso escrever mais.
XXX
Luna

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Sangue e Tinta, Luna!

Esse é o nome da sociedade da qual querem que a gente participe. Que nome, hã? Não é muito convidativo. Tenho minhas incertezas com relação a essa coisa toda.
Mas, sobre a carta. Olha só. Eu fui dar uma vasculhada no livro da minha família (um livro em que estão escritos todos os nomes das pessoas da minha família, numa gigantesca árvore genealógica) e eu achei uma Maria Cristina. Ela era irmã da minha bisavó. Aqui diz que ela morreu jovem, não foi especificado de quê, com vinte e poucos anos de idade, e sabe, algo me diz que isso é mentira. Descobri mais uma coisa. Somos da mesma família. Temos um parentesco bem distante, mas ele existe. A Maria Cristina era prima de segundo grau da Luna. Engraçado, certo? Somos parentes.
E tem mais. Esse livro está na casa que era da minha bisavó Amanda (irmã da Maria Cristina). Minha bisavó está meio afetada pela idade já, mas outro dia, quando perguntei a ela sobre a Maria Cristina, ela só se levantou da cadeira de balanço dela, andou até o quarto, abriu a primeira gaveta do seu criado mudo e me entregou um diário.
O diário da Maria Cristina.
Tem tudo lá. Desde o dia em que ela entrou na sociedade. Ela relata que coisas bem estranhas aconteciam com ela no começo, assim como com a gente. Mas não gostei do que li. Ela diz que todos levam tudo bem a sério, e que seu maior medo era de ficar assim também. (Pela carta que ela mandou para Luna, podemos supor, né, que...)
E o mapa que você encontrou? Você ainda não me falou quais são essas salas secretas, se já as explorou, ou alguma coisa do tipo.
E eu vou te fazer uma visita daqui duas semanas. Já está programado.
Se cuida, Luna.
Tome cuidado. Esse povo é sério.
Live long and prosper.
Tina

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Tina. Pasme.

Aqui, a carta. Eu não modifiquei nada. O Roberto "traduziu" a carta que você achou pra mim, aqui é a letra dele mesmo. Eu fiquei muito assustada quando li. Isso deve responder algumas das suas perguntas. Os nomes são bem estranhos. Devem ser pseudônimos. Ah, Roberto disse que descobriu, usando o mapa que eu achei, como transformar os pseudônimos em nomes reais, ele disse que há uma regra. Não entendi nada do que ele fez, mas, pasme!, "Aluneta" fica "Luna" e "Etinália" fica Tina. Ou seja, nossos antecessores se chamavam respectivamente Luna e Cristina. Minha bisavó se chama Luna. Será que é ela?
Enfim. Eis aqui a carta.
Até mais,
Luna

Cara Aluneta,
Acho que os maçons não gostaram do que você fez. Parabéns, agora você vai desencadear uma briga entre sociedades que viveram 200 anos em paz. Parabéns! E tudo isso por qual motivo? "Ah, Etinália, eu acho que seria divertido criar umas mentiras sobre eles, quem sabe assim os policiais não saem do nosso pé". Pra quê você foi falar que foram os maçons que saíram distribuindo todos aqueles cartazes anárquicos pela cidade? Não faz nem sentido. São todos burgueses. Você nos ferrou. Mal entramos na sociedade já seremos expulsas, Aluneta. Uma linhagem de três gerações de nossa família na sociedade será quebrada por sua culpa.
Desde o começo você estava tão empolgada, não é? Com essa história de sermos ativistas e coisa e tal. Você deve estar se achando "a" intelectual. Metida. Muito metida. Só porque decifrou os criptogramas que nos levaram à sede acha que é a maioral. Acorda, Aluneta.
Você só está na Tinta e Sangue agora pela diversão de fazer protestos às escuras com um moço de cabelos e cabeça rebelde ao seu lado, certo? Eu estou pela política, Aluneta, nós podemos mudar no mínimo nossa cidade, podemos acabar com a hegemonia maçônica por aqui. Eles são muito influentes por aqui. Há maçons no governo. Todos tiranos, burgueses. Precisamos fazer alguma coisa.
Pense bem no que você vai deixar para seus netos.
Com carinho, Etinália.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Como assim, Luna?

Como assim, perseguidos políticos rebeldes intelectuais? Eu conheço a minha árvore genealógica inteira e detalhadamente, e não lembro de ler sobre nenhum perseguido político. Deixa quieto.
Querem que a gente faça parte de uma sociedade... certo. O símbolo que estava na carta em que eu achei devia ser da sociedade, certo? Descobriu o significado das letras S e T no símbolo? A sociedade então é para intelectuais. Consideram a gente intelectuais por quê? Ou existe algum tipo de treinamento? Pode me mandar uma tradução da carta e do seu mapa? Tantas perguntas.
Eu dei uma pesquisada aqui... E descobri uma coisa absurda. Minha cidade não tem nenhuma ligação (documentada) com a sua. Ou seja, acho que esse negócio de sociedade secreta é pra valer. Luna, eu não sei o que achar dessa história toda. Quero dizer, eu me mudei há dois anos. E tudo isso começa a acontecer agora. Por que não aconteceu antes? Será que a idade é importante nessa tal sociedade? E o que nós temos de especial (além de descendentes) que nos torna aptas a entrar nessa sociedade? Tantas perguntas.
Não sei se isso é importante, mas outro dia eu fui à biblioteca e reparei que em cima da porta, do lado de fora, há a inscrição "com tinta se arma, com tinta se desarma" e por dentro está escrito "com sangue se dá, do sangue se tira". Acho que dá pra relacionar com toda a esquisitice que está acontecendo. Certo?
Quero logo uma cópia da carta e do mapa.
Faça pesquisas por mim, por favor.
Ah, com toda essa história, estou pensando em voltar.
Por uns dias.
Live long and prosper.
Tina

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Querida Luna,

Desculpe por não ter escrito. Eu não tenho tido muito tempo. As coisas por aqui também estão bem estranhas, pra falar a verdade. Quando li sua carta, fiquei muito assustada. Sabe, eu tenho trabalhado voluntariamente no asilo daqui. Outro dia, um senhor que eu nunca tinha visto estava andando quando deixou cair uma carta. Eu a peguei com a intenção de devolvê-la, mas vi o nome da nossa cidade e da biblioteca municipal no verso e algo me disse que eu deveria ficar com essa carta. Não sei o que está acontecendo, Luna, acho que tem alguém brincando conosco...
...Mas como a pessoa estaria brincando com nós duas ao mesmo tempo? Quero dizer, moramos em continentes diferentes agora. Vou fazer algumas pesquisas e ver o que nossas cidades têm em comum. Eu também me pergunto por que nunca fizeram nada disso com nós duas juntas.
Mas voltando. Abri a carta, e eu não entendi nada do que estava escrito. Presumo que sejam os mesmos criptogramas do seu mapa. Então estou mandando-a também, peça pro Roberto traduzi-la pra gente.
Mas Luna, faz uma coisa. Eu sei que na biblioteca tem uma sessão de livros de códigos e enigmas (já passei muito tempo lá com o Roberto, ele lendo e eu organizando, você sabe), você podia pesquisar sobre esse código das cartas especificamente... Veja de que época é, por quem era usado, ligue os pontos com a nossa cidade, com a biblioteca, com o que quer que seja, e me fale. Isso é realmente muito estranho. Eu vou tentar fazer a mesma coisa aqui.
Última coisa. Você conhece algo cujo símbolo é um S e um T entrelaçados por uma rosa, uma caneta dessas de tinta e um punhal?
Eu respondi o mais rápido que pude.
Então não me faça esperar muito.
É sério.
Felicitações,
Tina

domingo, 11 de abril de 2010

Querida Tina,

Por que você resolveu sumir? Sinto sua falta. Tenho tanto pra contar... Coisas bem estranhas têm acontecido comigo ultimamente, sabe? Desde que você mudou, parece que o mundo está conspirando. Apenas conspirando, ainda não sei se a meu favor ou contra. Parece que todos os meus passos foram anteriormente calculados por alguém. É meio estranho, uma sensação meio Matrix. Você vai me entender.
Mas enfim. Deixe-me te contar. Outro dia eu estava lá na nossa escola, no mesmo banco em que nós costumávamos sentar, ao redor daquela árvore grande, quando notei algo estranho no interior oco do tronco. Tão clichê isso, certo? Quero dizer, se estivesse lá há muito tempo, nós duas teríamos visto. Mas não. Aquilo simplesmente APARECEU lá depois de você se mudar.
E, você sabe, sou muito curiosa. Obviamente eu coloquei a mão lá dentro e peguei a coisa. Era uma carta com um mapa desenhado da biblioteca municipal. Era antigo, datado de 1938. A carta era toda escrita em criptogramas, não consegui decifrar, você sabe que sou péssima em códigos e enigmas. Mas eu a passei pro Roberto decifrar, lembra dele? É, ele gosta de desafios...
Eu fui até a biblioteca. Passeei por lá e entrei na sala de leitura. Você já tinha reparado num quadro que é na verdade a planta da biblioteca? Pois é. NEM EU! Tirei o meu mapa do bolso e comparei com a planta do quadro, e adivinha, tinha coisas a mais no meu mapa.
Como se fossem passagens secretas.
E enquanto eu andava na biblioteca, parecia que todos os funcionários me olhavam, mediam, espionavam, encaravam. Por toda estante de livros pela qual eu passava eu achava que um livro ia cair e que eu ia entrar em uma sala secreta.
Fui correndo pra casa analisar direito o mapa. As salas eram nomeadas com a linguagem enigmática do resto da carta, então o dei para Roberto também. Ele disse que me devolve depois de amanhã. Tina, o que você acha disso? Você é que sempre gostou de aventuras. Por que isso está acontecendo só comigo?

Espero sua resposta logo.
Com carinho,
Luna

terça-feira, 30 de março de 2010

dor de cabeça

Já cansada de todo aquele desassossego, foi até o quarto com passos lentos, contendo a ansiedade e a dor de cabeça. Ela estava ofegante, a respiração era difícil ali perto. Respirou fundo e abriu a porta lentamente. Como ela detestava aquele quarto. As cores, o cheiro, o ambiente. Cheirava a insatisfação, era insuportável. Antes de pronunciar algumas palavras malcriadas, lembrou-se de que não podia abrir a boca, senão o desassossego só aumentaria, e ela não queria isso. Precisava manter-se calada. No final das contas, foi naquele quarto que ela aprendeu a ficar calada, embora irredutível. Deu um passo. Adentrou o quarto. Ela conhecia bem aquele quarto - passara muito tempo lá, cumprindo suas obrigações. Parou e refletiu um instante se ela precisaria de algo além das suas mãos para livrar-se do estresse, e concluiu que algumas substâncias seriam perfeitamente úteis. Mas tudo estava bem ali, a alguns metros dela. Continuou andando. Segundo o relógio, foi tudo absolutamente rápido - como se um botão de 'desligar' tivesse sido apertado no estresse dela. Com suas mãos e algumas substâncias, ela se livrou das suas dores de cabeça, de suas preocupações...

Tomou uma neosaldina e saiu do quarto de sua mãe, antes que ela, uma velha rabugenta como ela só, acordasse e a mandasse calar a boca.