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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

now you say you're sorry

O delegado abriu a porta da sala de interrogatório. Vitória podia ver seu vulto, com os ombros pesados e os punhos cerrados.

"Eu tinha de ver com meus próprios olhos. O que você está fazendo aqui, Vitória? Como foi deixar isso acontecer?"
"O quê, Paulo? Ele quis se matar. A vida é dele, quem sou eu pra impedir?"
"Você é uma médica, isso que você é! Agora vai ter de enfrentar uma acusação de homicídio doloso, porque você foi negligente!"
"Se eu não fosse médica, eu estaria passando por isso?"
"Provavelmente não"
"Por que não? Qualquer um sabe que cicuta é veneno, e que veneno mata."
"Mas você é médica e podia - aliás, devia ter prestado socorro."
"Prestar socorro? Ele não pediu socorro!"
"Vítimas de acidentes também não pedem socorro"
"Vítimas de acidente não são suicidas, mentalmente instáveis, totalmente doentes!"
"Olha, Vitória, a questão é que é seu dever prestar ajuda a quem visivelmente se encontra na iminência da morte."
"Eu acho que é meu dever ajudar a quem pediu ajuda, ou a quem está à beira da morte por culpa de outra pessoa que não elas mesmas. Não é meu dever impedir um suicida de realizar seu desejo."
"Se ele era totalmente doente, então ele não estava em pleno juízo para tomar decisões, logo, não era responsável pelas consequências de seus atos. Sendo a consequência, bem, a morte, e a responsabilidade não é dele, então de quem é?
"Não sei, de deus?, por tê-lo colocado justo no meu caminho?"
"Sua, Vitória. Sua. Muito sua, porque você sabia de ambas a condição psicológica do homem e suas intenções quando ele foi à sua casa. Então eu  não diria que você foi apenas negligente... você foi egoísta. Desumana."

Vitória poderia ter saído da cadeira num pulo e parado no pescoço do delegado perante aquela afirmação, mas decidiu manter-se calma, no aparente controle da situação. Afinal, não se combate ignorância com ignorância.

"Não, Paulo. O que aconteceu foi que eu fiz um favor a mim, a ele, à humanidade. Ele estava ficando mais louco do que já era e estava me deixando louca também. E se o suicídio foi calculado ou foi puro impulso não faz diferença - ele não precisava da ajuda da minha especialidade médica, mas sim de um psiquiatra. Não havia nada que eu pudesse fazer. Se eu o tivesse impedido de tomar cicuta, ele provavelmente teria tomado alguma atitude agressiva para comigo, começaria um solilóquio interminável, eu o expulsaria da minha casa, ele ficaria atordoado com minha atitude e acabaria sendo atropelado saindo do meu prédio."
"Vitória, nada disso importa. Não existe 'se' em um julgamento. Não existe 'se' quando se trata de morte. O fato é que um homem se matou na sua frente, no seu apartamento, no apartamento de uma médica, e sua falta de interferência equivale ao consentimento e, portanto, à negligência."
"Se eu tivesse interferido e o impedido de se matar, eu estaria cerceando sua liberdade."
"O quê?"
"Sim. Pois o corpo era dele e eu não tinha o direito de dizer o que ele deveria ou não deveria fazer."
"Mas ele era doente mental, Vitória! O corpo não era mais dele, por assim dizer!"
"Então era de quem? Quem deveria tomar as decisões por ele, se ele mesmo não podia fazê-lo?!"
"Eu não sei, Vitória. Eu não sei. E não é minha obrigação saber. Eu só sei, e você também deveria aceitar esse fato, que você não agiu de acordo com seus deveres, e, portanto, vai ser julgada por isso."
"E eu vou refutar isso até o fim, porque ainda acho que a vida é dele e ele faz o que quiser com ela."
"Você está comprando briga"
"Pago à vista"

Paulo, o delegado, saiu da sala batendo a porta atrás de si. Vitória, sabendo que estava sendo observada através daquele espelho, tentava, com todas as fibras de seu ser, conter o impulso de gritar frustração perante aquilo tudo. Ela queria gritar que o canalha merecia morrer, que tudo seria melhor agora sem ele, que agora ela poderia viver de verdade, sem um encosto, sem um fardo, sem um medo constante; mas conteve-se. Respirou fundo, porque era a única coisa que ela podia fazer. Respirar.
Por fim, levantou-se, bateu com a ponta dos dedos duas vezes no espelho, "tenho direito a voltar pra casa enquanto espero, bem, por tudo?"
A porta foi aberta, "tem sim, pode vir comigo".

Entrou na viatura da polícia e foi conduzida até seu apartamento. Não havia mais viatura nenhuma lá, eles provavelmente já tinham levado o corpo embora. Seis horas da manhã, o sol estava nascendo - isso deveria significar alguma coisa? Não, Vitória estava cansada de tentar achar significado pra tudo. Melhor tentar dormir, hoje era dia de plantão.

...cry me a river, cry me a river, I cried a river over you

- FIM -

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

seus olhos

Um homem pálido, com várias tonalidades de olheiras, cabelos ainda úmidos, ombros tensos e os braços inertes sobre a mesa. Seu olhar vazio encarava a xícara de café a sua frente.
- Então? Você vai falar como fez, ou nós vamos ter de adivinhar e te dar uma pena muito maior do que você legalmente merece?, disse um homem de altura média, um pouco acima do peso, com o rosto muito vermelho e com uma veia no pescoço saltada, denunciando seu nervosismo.
A sala era pequena e claustrofóbica. Acho que isso pode explicar por que razões tantos segredos eram ditos ali: as paredes fazem uma pressão tão grande que você não aguenta e entrega o jogo.
- Sete tiros. Três na cabeça, três no peito, um no ventre. Três facadas. Duas no peito e uma no pulso direito. E ainda assim, nenhum sinal de estupro, diga-me, como você fez isso?
- Isso... o quê?
- Estuprá-la e não deixar rastros! Você tem pinto pequeno ou o que, cidadão?
- Eu... eu não a estuprei.
O delegado encarou-o com impaciência e frustração. Que velhaco! Que canalha! Estava ali, sentado, encarando sua xícara de café, sem nenhum sinal de remorso ou agitação!
- Então diga-me, colega. Por que tantos tiros e facadas?
- Ela... ela não sofreu. Eu a esfaqueei depois de tê-la posto para dormir.
O delegado fitou-o, incrédulo.
- Posto pra dormir?, e ele bateu com todas as suas forças na mesa. A sala inteira vibrou. Posto pra dormir?! A vítima era uma moça decente, nunca havia feito mal para ninguém, ela, entre muitos, merecia viver e continuar com seu bom trabalho! Você tira a chance da sociedade de aprender com uma pessoa admirável, e você a pôs pra dormir? Você tira uma noiva e uma mãe, e você a pôs para dormir?! Você a assassinou, brutalmente, e a estuprou! Você é um assassino, problemático, psicótico, mais por ter matado justo essa pessoa do que por ter de fato matado alguém!
O homem fechou os punhos com muita força. Fechou os olhos. Levantou a cabeça com calma e olhou fundo nos olhos do delegado, que estremeceu. Mesmo num olhar tão frio conseguia-se captar um relance de infantilidade e insegurança.
- Eu não a maculei. Eu... eu não faria isso com ela.
O delegado virou-se para a parede que continha um grande espelho e jogou os braços para cima, num sinal de rendição. Ouviu-se um barulho e ele saiu pela porta. O homem continuava com os punhos cerrados, completamente quieto. O delegado encontrou-se com os outros policiais, observando o homem através do espelho.
- Ele não vai falar mais nada, Roberto, o delegado disse, limpando a testa com um lenço.
- Eu já esperava isso. Roberto tinha sua testa franzida e segurava o queixo com a mão esquerda. Foi um crime passional, Carlos, assassinos desse tipo geralmente são ou já foram obcecados por suas vítimas; são completamente psicóticos, isso quando já não foram oficialmente diagnosticados com algum distúrbio...
Uma moça conservava-se quieta, no fundo da sala. Tirava, colocava e retirava a tampa de sua caneta. Tinha seus cabelos muito pretos presos em um rabo-de-cavalo baixo e visivelmente feito com pressa.
- Sabem; ela começou; eu dei uma olhada nas fotos da cena do crime e nos relatos de conhecidos desse homem e da vítima... E isso não me parece um crime passional qualquer. Quero dizer, parece que aconteceu todo um ritual. Vocês não percebem que os tiros e facadas foram em lugares previamente escolhidos e que provavelmente têm um significado? Por que outro motivo ele daria três tiros na cabeça, três no peito e apenas um no ventre? Pensem. Ela pode ter feito alguma escolha racional e emocional que o desagradou. Ou ela seguiu um caminho diferente do dele. E a facada no pulso direito, a vítima estava noiva, e o anel de noivado usa-se...
-... na mão direita; Roberto completou.
- Eu realmente acredito que ele não a estuprou, a obsessão dele por ela era provavelmente algo mais espiritual, mais platônico, algo até maternal, talvez? Pelo que eu li, ela era pediatra, e ele era seu faxineiro havia mais de cinco anos. O que a secretária disse foi que ele demitiu-se depois de encontrar a vítima tendo relações com o noivo no banheiro do consultório.
- E a vítima tinha quantos anos mesmo?
- Vinte e sete. Se formos pelo raciocínio de que o assassino projetou na vítima uma imagem de mãe, ele provavelmente decepcionou-se depois de vê-la com o noivo, pois isso sujaria a imagem que ele havia feito dela.
Ela parou de falar e observou as feições de Roberto e de Carlos. Ambos pareciam extremamente absortos em seus pensamentos. Ela mentalmente sorriu satisfeita por ter conseguido impressioná-los.
- Pode ser, Fernanda. Pode ser. Mas nós não podemos ficar só no "pode ser", temos de extrair a verdade do homem.
- Posso falar com ele? Sim?
Ela saiu da sala, entrou naquela claustrofóbica e sentou-se na frente de homem.
- Que coisa horrível pra se fazer, certo?
Ele encarou-a. Aquele quê de infantilidade estava ali de novo.
- Quero dizer, fazer aquelas coisas com o noivo no banheiro do consultório? Isso não é coisa que uma mãe devia fazer. E se as crianças vissem? Na verdade, ela não devia fazer aquele tipo de coisa de jeito nenhum. É repugnante.
- Ela me tratava muito bem, sabe. Elogiava o meu trabalho e sorria para mim.
Ele parou e fungou.
- Mas aí eu a vi fazendo... aquilo, sabe?! E aí pensei que se ela faz aquilo com o noivo, deve fazer com qualquer um. Eu vi que ela passou as mãos no cabelo do marido da mesma forma como ela passava as mãos nos cabelos das crianças, seus pacientes. E aí eu pensei que ela fosse que nem a minha mãe.
Fernanda olhava-o impressionada. Ela estava ouvindo muito mais do que esperava.
- E aí eu fiz o que eu tinha que fazer, né... quero dizer, ela mereceu, ela me decepcionou.
- E por que você não a estuprou?
- Porque quando é com uma mãe não é estupro, é amor. E não se mata alguém com amor.
- Sua mãe... sua mãe foi quem te disse isso?
- É, sim... Ela me amava muito.
Fernanda olhou para o espelho. Viu sua própria expressão; uma mistura de pena com repugnância. Saiu da sala claustrofóbica e voltou para aquela com os policiais.
Roberto estava com a mão esquerda no vidro e a mão direita no quadril, analisando o homem; Carlos limpava o suor da testa com o lenço.
- Não vai conseguir se livrar da cadeia, mas a pena provavelmente poderá ser reduzida se a defesa alegar insanidade mental, o que é claro que há nesse caso.
- Vamos encaminhá-lo para uma avaliação psicológica... e procurem registros que envolvam o nome da mãe dele... vamos ver se essa história é verdadeira.
Fernanda não estava realmente escutando, ainda encarava o homem. Tão perturbado, tão complexo! A escolha dos lugares para os tiros e facadas, se foi inconsciente, revela toda a sensibilidade daquele indivíduo. E se foi consciente, quão brilhante!
Balançou a cabeça, como se quisesse afastar aqueles pensamentos. O homem é um assassino. É perturbado, sim, mas é um assassino. Pode não merecer, mas precisa de ajuda, sim. A relação de Fernanda com assassinos passionais era bem instável.
Na semana seguinte, Fernanda ficou sabendo que dois dias antes do julgamento com o júri o homem se suicidou, intoxicado de monóxido de carbono. Foi encontrado deitado na posição fetal. Seus últimos registros em seu diário diziam que ele precisava ir dormir.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

carpe diem?

Acho que o conceito de hoje sobre "aproveitar a vida" está um pouco equivocada. O uso da famosa frase "Carpe Diem" é extremamente errôneo. Focam-se no conceito "viva como se todo dia fosse seu último". Nessa frase não estão incluídos nem atos inconsequentes nem ter sua juventude transviada. Explico. Carpe Diem. Aproveite o momento. Realmente dá abertura para muitas interpretações.
Essa frase é a desculpa pseudo-filosófica de pessoas, de uma forma geral, que querem agir impulsivamente e estupidamente, e que muitas vezes não sabem da ideologia, mas se aproveitam da imagem consumista e materialista que cresceu em torno da frase. Aproveitar tudo ao máximo. Não ligar para seu futuro. Não ligar para as consequências. Não ligar para as repercussões, sejam elas uma ressaca ou uma reputação estragada. Embriagar-se e inebriar-se. Experimentar da essência de muitas pessoas diferentes. E deixar o estudo para a prova para o dia seguinte do dia seguinte. Essa é a imagem muitas vezes difundida pela mídia. Esse realmente é o significado de Carpe Diem?

"[...] sapias, vina liques et spatio brevi spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem quam minimum credula postero."
("[...]sê sábia, filtra o vinho e encurta a esperança, pois a vida é breve. Enquanto falamos, terá fugido ávido o tempo: Colhe o instante, sem confiar no amanhã.")

Colher o instante. Isso nos dá a ideia de colher frutos. O que poderiam ser esses frutos? Oportunidades, por exemplo. O trecho nos fala sobre como o tempo passa rápido e que não volta. O que eu considero que sejam essas oportunidades? Encontrar alguém, experimentar algo novo, plantar a semente de algo que no futuro poderá dar frutos muito benéficos e frutíferos. O sentido de "viva como se fosse seu último dia" que está presente nessa frase significa deixar sua vida pronta e em ordem, sem pendências, para que, quando o dia de sua partida chegar, não existam arrependimentos ou atrasos.
O único conflito que a interpretação da frase pode gerar é: e os arrependimentos? É melhor arrepender-se de não ter feito ou arrepender-se de ter feito? Na minha opinião, quando uma porta se fecha, a outra abre; acho que para todas as más decisões feitas abrirão-se portas para consertá-las; e sempre que não aproveitamos uma oportunidade nos será oferecida outra. O problema é que nem sempre temos os olhos abertos o suficiente para reconhecer o que é uma oportunidade, de fato.
E não acho que tudo isso que escrevi significa uma limitação para a vivência da juventude. Faz parte ir a festas, voltar bêbado pra casa, viajar com os amigos, experimentar coisas, mas tudo de uma forma saudável.

Típico discurso de mãe, certo? Mas todo mundo sabe que quando a mãe fala que vai dar merda, dá merda.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

carta suicida

Não estava chovendo, não estava nublado, o ambiente não estava denso por causa de um clima triste. Não havia nenhuma gota de álcool em volta dele, muito menos drogas, muito menos remédios para dormir. Nada que pudesse justificar tal atitude.
Na verdade, o dia era definitivamente muito bonito, claro e ensolarado, quente, aconchegante, um perfeito fim de tarde de primavera com cheiro de baunilha. A hora do dia era aquele momento entre o crepúsculo e o fim da tarde; quando o sol está lá no horizonte e a cor do céu fica indefinida por um dégradé do azul quase preto para o verde.
Quando encontraram-no já era tarde, estava inconsciente e seus lábios estavam azuis. Uma carta foi encontrada.
A carta foi publicada num jornal nacional no dia seguinte à morte.

"A todos e qualquer um que se importe, de alguma forma, ao ponto de ler esta carta.
Eu não ligo se a minha morte entristeceu-te, alegrou-te ou enraiveceu-te. O importante é que você foi afetado. A minha vida inteira tentei afetar as pessoas, e seria uma ironia se só em morte eu conseguisse, de fato.
A questão é que senti que minha batalha foi perdida em algum momento de fraqueza... tantas pessoas me dizendo o que e como fazer chegou a me tresloucar, eu estava sendo mais afetado do que estava afetando as pessoas, entende, caro leitor?
A causa da minha morte é simples. Trancarei-me na garagem e inalarei monóxido de carbono. Entende? O monóxido aos poucos me envenenará, me tomará por completo, assim como o veneno da minha infelicidade e insatisfação. Não busquei refúgio em drogas, pois sei que o cigarro e os alucinantes seriam uma saída finita. Não busquei substituir água por álcool, pois morrer aos poucos por causa de uma cirrose não seria agradável. Escolhi uma tarde simples e perfeita, uma tarde que não me faria mudar de ideia, uma tarde que não me faria sentar numa varanda e pensar sobre como sou (fui?) miserável.
A questão, novamente, é que fiquei louco depois de começar a trabalhar no jornal. Sim, faz anos, e sim, eu dizia a todos que estava feliz, mas é óbvio, devido às circunstâncias atuais, que era uma mentira. Poder finalmente dizer minhas ideias sem me esconder foi ótimo, mas as críticas me corroíam e me faziam perder minha fé nas outras pessoas. Diziam-me para escrever sobre atualidades, ninguém quer saber sobre o fascismo, as pessoas querem saber das novelas e das celebridades... como se tudo que acontece hoje não dependesse do que aconteceu anos atrás. Novamente digo, perdi a fé nas pessoas. Estavam, aliás, são tão ocupadas em criticar, em não refletir e em vituperar tudo que não vai de acordo com seus valores superficiais que até olhavam para meus textos, mas não os liam. As pessoas são tão ocupadas em provar que elas mesmas estão certas que agem da forma errada.
Veja bem, amigo ou amiga, ignorância é uma bênção, de fato. Mas a ignorância pura, como a das crianças. A partir da adolescência não é possível encontrar indivíduos ignorantes. Todos são espertos, mas tão espertos que sabem que a alienação é o caminho mais fácil e indolor. E por eu não ter escolhido esse caminho, bem, cá estou, frio e inconsciente. Eu, finalmente, inconsciente! Ah, as ironias da vida... ou da morte.
Eu sei que você, leitor, lerá esta carta, olhará para o horizonte, balançará a cabeça e refletirá por alguns instantes. Mas depois sua vida vai voltar ao normal e seu pensamento nunca mais retornará à minha morte, pois é isso que as pessoas fazem.
Mas eu não estou escrevendo isso por você. Eu faço isso por eles, aqueles jovens que estão prestes a percorrer o mesmo caminho que eu percorri. É nesses jovens que a minha nova esperança instalou-se. E o meu conselho é: vendam-se. Vendam-se bastante. E quando estiverem totalmente comercializados, quebrem toda essa hipocrisia e mediocridade, chacoalhem a cabeça das pessoas, essas pessoas que um dia foram suas fãs. Afetem quem quer ser afetado, e acreditem, eles vão querer ser afetados por uma celebridade. Vão ao talkshow da Oprah, dêem-lhes o que eles querem, depois mostrem o quão estúpido superficial é o que eles querem. Afetem esses seres. E, por obséquio, realizem esse pequeno desejo desse cadáver putrefato: usem a minha morte para afetar as pessoas em vida.
À sociedade o que é da sociedade. Minha breve existência e último suspiro"

domingo, 5 de dezembro de 2010

sobre minha raiva

É muito comum eu me deparar (vendo no orkut, por exemplo) com situações que não têm relação direta comigo mas que mesmo assim me irritam. As atitudes das pessoas me irritam.
E como hoje parei para pensar sobre isso, descobri que o que me irrita nessas situações é a ignorância das pessoas. Os indivíduos fazem coisas que eu considero ingenuidade e, em certos casos, ignorância. Muitas vezes penso isso porque vejo-os passando por algo que eu mesma já passei e gostaria de ter feito diferente. Muitas vezes eu me espelho nessas pessoas, e enxergo o quão estúpida eu mesma já fui, apesar de, na época, eu saber que eu estava me iludindo acerca de alguma coisa, de algum jeito.
Encolerizam-me as ilusões. Ilusões de que há um método alternativo para conseguir o que queremos, ilusões de que de fato conseguiremos o que almejamos... ano passado eu havia prometido a mim mesma que, este ano, eu começaria a acompanhar o jornal todos os dias, leria todos os livros difíceis, veria todos os filmes "cults" mas adivinhem só. E isso é um alerta para todos os individuozinhos entrando no colegial ano que vem: NÃO É ASSIM TÃO FÁCIL MANTER-SE CULTO E POLITICAMENTE ATIVO QUANDO SE ENTRA NO COLEGIAL. É extremamente fácil ler muitos livros até a oitava série. Agora experimente, em pleno setembro, tendo duas provas, 26 aulas e um mol de quilos de matéria por semana, pegar o Crítica da Razão Prática para ler, tendo que conciliar as horas de leitura com as (muitas) horas de estudo, as horas de amigos, as horas de computador, as horas de lazer, as horas de jornal e as horas de sono e necessidades básicas.
Abespinham-me as falhas. Falhas no plano. Era pra ser de um jeito e aconteceu de outro. Mas além das falhas, a minha impotência para com essas situações falhas. Não pude fazer nada para que acontecesse de outra forma. Eu adoraria chacoalhar algumas cabeças agora e falar "isso não vai dar certo, não bote fé", e eu adoraria que alguém tivesse feito isso comigo antes de me eu me decepcionar.
E depois de escrever tudo isso, descobri que tudo o que realmente me assoma são as minhas frustrações. Tenho raiva das coisas porque sou frustrada, porque comigo não aconteceu diferente.

E acho que meu blog é o melhor psicólogo que existe, obrigada.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

livros, escapatórias

Estava lá sentada num canto, numa livraria qualquer, lendo um livro qualquer para ajudar a passar o tempo. Não estava realmente prestando atenção em qualquer coisa, pois ao mesmo tempo que seus olhos percorriam com velocidade as linhas do texto, sua visão periférica estava atenta a qualquer pessoa diferente que passasse por lá. Gostava de observar os indivíduos, suas atitudes e imaginar uma história para cada um.
Ela sentia-se extremamente bem no meio de pessoas desconhecidas, principalmente em livrarias. E enquanto estava sentada, gostava de olhar para cima, para aquelas prateleiras imensas de livros, e sentir-se pequena entre tantas palavras de tantos autores diferentes. Sempre colocava-se no lugar de Bela, quando esta entra na biblioteca de Fera e vê aquela quantidade de livros, todos esperando por um leitor.
A verdade é que, enquanto alguém não a lê, a história não existe. Ela passa a existir, cada vez mais, a cada página virada pelo leitor. Ganha vida quando esse leitor reflete sobre o que foi contado, sobre a mensagem, sobre a moral da história. Ganha mais vida quando esse alguém recomenda-a para outro alguém. Mas a partir do momento que o ciclo é quebrado, a história fica dentro do livro, adormecida, inativa, inútil.
E era por isso que, sempre que podia, ela escolhia o livro mais abandonado e o dava vida. Sentava-se, ajeitava sua mochila para que esta servisse de almofada e tentava conter os protestos do estômago, enganando a fome com um capuccino.
A história lida confundia-se com a história vivida; e ela começava a enxergar as personagens e situações acontecendo ali, bem em frente à ela. E quando o livro era fechado e ela voltava ao nosso universo, tudo parecia tão sem graça e sem sentido, as pessoas não pareciam mais tão interessantes. Não as pessoas reais, medíocres, com suas vidas reais e histórias reais. Então sua mente voltava ao ciclo de criação de vidas mais interessantes àquelas pessoas. Escrevia, lia, relia, reescrevia, até que aquelas vidas parecessem boas. Era sua forma de contribuir para um mundo melhor, pois ela sabia que existiam pessoas como ela que almejavam por uma vida menos medíocre. Quanto mais livros, mais escapatórias, mais decepção e mais desejos.
E esse ciclo continuaria sempre que houvessem livros para serem lidos e vidas para serem melhoradas.

E, podem escrever, a tendência é de a necessidade por uma escapatória desse mundo aumentar cada vez mais...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

a busca pela felicidade

A busca do homem pela excelência é refletida em suas ações, pensamentos e escolhas. Minha teoria é de que as pessoas, no geral, buscam melhorar sua personalidade, aprimorar suas habilidades, expandir seu conhecimento; na área considerada mais importante ou interessante; e acham que, com isso, terão alcançado, enfim, a felicidade. O que move a existência do ser humano é um sentido pra vida. Até aí tudo bem. A questão é: quando isso deixa de ser saudável? Quando a busca pela felicidade e excelência passa a tornar o homem infeliz? Ou, quando essa busca é, de fato, inexistente?
Na minha cabeça, essa busca é feita de três formas, nessa ordem: primeiro ocorre o ato de definir o que seria a felicidade, o que nos torna feliz; depois viria o ato de descobrir ou procurar os meios de se alcançar essa felicidade; e, por fim, viria a busca em si, o ato de buscar, a ação de tentar melhorar o próprio caráter. Ênfase nessa última palavra. Caráter. Logo, eu acho que toda essa busca deve ser por algo existencial, ideológico; e não por coisas materiais. Na minha opinião, o homem deve tentar sempre ser o melhor que tem capacidade de ser, mas agindo com autonomia, e não com heteronomia. Explicando.
Essa busca pode e torna o homem infeliz quando é feita por aparências ou vontades de terceiros. Então, nesse caso, a busca, em si, não existe - o homem está apenas se condenando a um destino insatisfatório, longe de seu ideal de felicidade, satisfazendo apenas os valores de um terceiro. E isso é surpreendentemente comum. Ao chegarem ao terceiro colegial, indivíduos escolhem fazer medicina por pressão dos pais. Fazem medicina. Passam anos trabalhando naquilo, se tornam os melhores, e, de repente, têm um surto de frustração e largam tudo pra ir atrás de algo mais. E isso é triste, porque todos os anos investidos em manter outras pessoas felizes não tiveram significado nenhum para o indivíduo. Foram anos desperdiçados.
O homem busca pela sua função no mundo. E quando essa função não é bem sucedida ou simplesmente encontrada, ele se sente vazio e inútil. Acho que esse é o pior sentimento que existe. Sentir-se inútil torna a vida sem sentido, sem objetivo, e se você não tem um objetivo, pra que viver? Quando você vive pelos outros, e não por você, o quão infernal deve ser acordar todos os dias sabendo que você vive uma vida que não tem significado?
A busca por felicidade por meios materiais também não tem sentido. Depois de comprar o televisor mais moderno do mercado, dois meses depois esse produto será desvalorizado. O indivíduo estaria constantemente infeliz e insatisfeito, mas pelos motivos errados. Ele não estaria preocupado com o seu interior, o seu caráter, e sim pela sua imagem. A procura por uma felicidade que é baseada em uma melhoria na própria imagem é incoerente. É procurar algo que não pode ser encontrado. A felicidade não pode ser palpada, como bens materiais. A felicidade é mutável e imprevisível.
É curioso, essa necessidade do ser humano de sempre precisar ter um objetivo; eu queria ser capaz de me acomodar. Mas acho que é a vontade de algo mais que move revoluções, inovações e descobertas. Se todos estacionássemos no momento de vida em que estamos, seria uma sociedade sem movimentação - como em Admirável Mundo Novo, em que as pessoas não têm aspirações.
Então, para finalizar, eu digo: eu, Bruna, estou em constante busca pela minha felicidade, e o meu conceito é completamente mutável, pois varia de acordo com a fase pela qual estou passando. Sou feliz, mas não sou acomodada; quero ser tudo que posso; quero mudar o mundo; quero ser filósofa; quero fazer as pessoas acordarem pra vida; e meu objetivo de vida está demarcado numa área que é o misto de tudo isso. Já parou pra pensar qual o seu ideal de uma vida feliz?

terça-feira, 30 de março de 2010

dor de cabeça

Já cansada de todo aquele desassossego, foi até o quarto com passos lentos, contendo a ansiedade e a dor de cabeça. Ela estava ofegante, a respiração era difícil ali perto. Respirou fundo e abriu a porta lentamente. Como ela detestava aquele quarto. As cores, o cheiro, o ambiente. Cheirava a insatisfação, era insuportável. Antes de pronunciar algumas palavras malcriadas, lembrou-se de que não podia abrir a boca, senão o desassossego só aumentaria, e ela não queria isso. Precisava manter-se calada. No final das contas, foi naquele quarto que ela aprendeu a ficar calada, embora irredutível. Deu um passo. Adentrou o quarto. Ela conhecia bem aquele quarto - passara muito tempo lá, cumprindo suas obrigações. Parou e refletiu um instante se ela precisaria de algo além das suas mãos para livrar-se do estresse, e concluiu que algumas substâncias seriam perfeitamente úteis. Mas tudo estava bem ali, a alguns metros dela. Continuou andando. Segundo o relógio, foi tudo absolutamente rápido - como se um botão de 'desligar' tivesse sido apertado no estresse dela. Com suas mãos e algumas substâncias, ela se livrou das suas dores de cabeça, de suas preocupações...

Tomou uma neosaldina e saiu do quarto de sua mãe, antes que ela, uma velha rabugenta como ela só, acordasse e a mandasse calar a boca.

terça-feira, 23 de março de 2010

o mundo embaçado

Um belo dia ele acordou e levou um susto. O mundo estava embaçado. Ele mal conseguia enxergar - distinguia algumas poucas formas, e ainda sim, com dificuldade, e ainda assim, com muita ajuda da luz. Sentou-se na cama, olhou ao redor - como se o borrão que ele estava vendo fosse apenas daquela parte do quarto - e percebeu que todo o mundo ao seu redor decidiu ficar indistinguível. Gritou pela sua mulher. A mulher veio correndo, e ele quase foi às lágrimas ao perceber que não conseguia ver os traços do tão bonito rosto de sua mulher. Já não bastasse o mundo estar embaçado, suas lágrimas o pioravam. Enxugou os olhos. A mulher perguntou se ele estava se sentindo bem, se algo tinha acontecido. Ele olhou para a mulher como se ela fosse louca. "Como assim, o que aconteceu? Você não vê? O mundo está embaçado!". Ela somente respondeu, "Você não acha que precisa de óculos, apenas?". "Meu mundo é o que os meus olhos vêem. Eu não preciso de óculos nenhum, eles não melhorariam a mancha cinza que o meu mundo está". A mulher apenas consentiu. "O que eu tinha programado para hoje, mulher?". "Você ficou de ir ao banco, pagar as contas, buscar nossa filha na escola, me levar ao aeroporto, pagar a fiança do teu filho que foi preso ontem por causa de uma briga de bar. Também ficou de entregar os relatórios do trabalho, demitir cinco ou seis funcionários, e comparecer à reunião às quatorze horas. Precisa também ir ao supermercado, ir à farmácia e comprar os remédios do seu coração, visitar a sua mãe que está de repouso no hospital e sua irmã que foi internada ontem.", a mulher respondeu. O homem ficou indignado com o número de obrigações que ele tinha para realizar em apenas um dia. "E você acha que eu vou dar conta de fazer tudo isso com o mundo embaçado? Aliás, mesmo o mundo estando normal, quando foi a última vez que eu dei conta de fazer tanta coisa assim num dia só?" ele gesticulava e cuspia enquanto falava. A mulher apenas suspirou.

"Ontem."

domingo, 7 de março de 2010

crônica em um terraço

- Não. Eu não vou mudar de idéia - o homem dizia ao telefone -, eu já estou subindo as escadas que dão pro terraço e vou me tacar de lá de cima. Estou abrindo a porta, e... - assim que ele abriu a porta, se deparou com um outro homem. - Solange, vou desligar.
Ele desligou o celular e olhou com surpresa para o outro homem.
- Ora, bom... olá - o outro homem disse, um pouco surpreso.
- Boa noite - o primeiro disse. Os dois ficaram um instante quietos, sem saber realmente o que falar.
- Então... noite bonita, não é?
- Sim, sim, maravilhosa. Ouvi falar que hoje é a noite mais limpa dos últimos 25 anos.
- Pois é...
Mais um instante de silêncio. A trilha sonora era de sirenes e buzinas.
- Meu nome é André - o primeiro homem disse.
- Ah, claro! O meu é Lucas.
- Lucas, certo...
- É.
- Assistiu ao jogo hoje à tarde?
- Opa! Jogaço, hein? Esse tipo de jogo é que me dá orgulho de ser santista!
- Já é, irmão, sou santista também.
- Robinho deu um show.
- Ô se deu.
Mais um instante de silêncio.
- Então - Lucas disse - O que te trouxe aqui? Domingo é dia de família.
- Tenho família não. Minha namorada me deixou e meus irmãos estão no exterior.
- Ah, que barra.
- Pois é. Mas e você?
- Fui demitido, meu carro foi guinchado e tive minha casa assaltada. Tudo hoje.
- Pô, cara, meus pêsames...
- É, eu amava meu carro.
- Quando eu tinha dezoito anos ganhei um Impala 67. Aquele carro era o meu xodó. Na segunda semana minha com ele, bebi demais, bati o carro e dei PT... nunca mais fui o mesmo.
- Impala 67? Clássico! Mas eu bati um C4. Juntei dinheiro durante dois anos pra comprar um carro decente, e no quinto mês de uso, o tiram de mim! Puta mundo injusto.
- Ô se é. Mês passado eu quis pintar meu carro de cor diferente. Gastei uma grana, e minha ex disse que com aquele dinheiro dava pra comprar uma aliança. Eu disse que a pintura vinha primeiro. É muito absurdo isso?
- Claro que não! Aposto que se você tivesse comprado a aliança, ela teria falado que não se casaria com um homem que tem um carro tão feio e mal pintado.
- Exatamente!
Ambos olharam lá para baixo, onde no momento acontecia um incêndio e os bombeiros tentavam controlar tudo aquilo.
- Você veio aqui pelo mesmo motivo que eu? - André perguntou.
- Eu queria me matar.
- É...
Eles olharam pro incêndio. Pessoas queimadas saíam do prédio toda hora.
- Essa água toda dos bombeiros me lembra que eu nem bebi hoje - Lucas disse.
- Quer tomar uma cerveja?
- Bora.

sexta-feira, 5 de março de 2010

adolescentes.

Fiquei muito tempo escrevendo só contos aqui. Agora um texto de opinião de verdade.
(texto extremamente crítico. Se você ouve powerpop ou lê crepúsculo, nem leia)

Quando eu era menor, mais ou menos uma década atrás, eu via os adolescentes (jovens de 15 ou 16 anos) e sentia medo deles. As roupas, a música, os tênis, o jeito de falar, a rebeldia. Uma década atrás, adolescentes ainda tinham fama de revoltados, teimosos e cabeça-dura. No filme "A Pequena Sereia", o siri Sebastião, em certo momento, fala: "Adolescentes. Pensam que sabem de tudo". Não estou mentindo.

E o estilo, as músicas? Atualmente, os adolescentes usam roupas coloridas. Calças coloridas, BEM coloridas. Até as músicas são coloridas! Esse negócio que surgiu agora, "powerpop", que raios de música é isso? Aliás, é música? Música pra mim é aquilo que vem de um instrumento. Acho que agora computadores estão substituindo por completo os instrumentos. Trinta anos atrás, os adolescentes criavam o punk, o screamo. Criavam o grunge. Os mesmos adolescentes que berravam junto com Serj Tankian ou repetiam cada palavra do Zack de la Rocha hoje, no máximo, acompanham os 'tututu' das músicas que escutam.

E a preguiça de pensar? E a despreocupação com o futuro? Antigamente, quem era inteligente ou demonstrava ter um pouco a mais de cultura era invejado. Hoje é xingado. Alguém pode me explicar isso? Desde quando inteligência virou uma coisa ruim? Certo filósofo uma vez disse "Existe apenas um bem, o conhecimento, e um mal, a ignorância". Aparentemente hoje a frase se inverteu. Qualquer verdade é aceita. Qualquer fato visto em novela ou filme é automaticamente interpretado como ponto pacífico, e não existe dentro dos adolescentes hoje a vontade de pesquisar, de saber mais, de contestar, seja por curiosidade, seja por teimosia.

E os filmes? Nada além de romances água-com-açúcar (ou sangue, no caso de crepúsculo). Nada existencial. Nada realmente adolescente. Adolescência é uma fase de transição, de medos, de inseguranças, de formação da sua personalidade, da sua integridade e valores. Da sua formação como indivíduo. Seguindo esse raciocínio, os personagens de filmes como High School Musical e Twilight são crianças. Tudo bem que hoje não se fabricam filmes sérios voltados para adolescentes - a maioria é voltada para o público adulto. Mas isso não impede os adolescentes de procurarem por filmes mais interessantes, certo? Porém, creio que se alguém falar que viu um filme chamado "A Insustentável Leveza do Ser" ele nunca mais fará amigos.

Tendo isso como base, digo meu apelo: que volte a rebeldia adolescente. Sinto falta de outros rebeldes. Anarquistas. Teimosos e donos da verdade!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

crônica - final

APESAR de ter decidido ir à psicóloga, acabei não realizando meus planos. Minha mente tem estado muito conturbada. Eu precisava esvaziá-la de alguma forma. Então comecei a escrever um tipo de um diário. Nele eu escrevia devaneios, reflexões, idéias, dúvidas e crises. Foi realmente bem útil pra tentar colocar minha cabeça no lugar, mas acho que já era tarde demais pra isso.

Comecei a me dar conta de que eu estava ouvindo vozes demais. Vozes na minha cabeça, diferentes pontos de vista. Vozes que se pareciam com os repórteres da televisão, que me jogavam informações, números de mortes, acontecimentos, tragédias, estatísticas. Vozes que me diziam o que pensar. E aqueles repórteres, os malditos repórteres! Estavam comigo em todo lugar! Comecei a me dar conta de que eu estava enlouquecendo.

Comecei a me dar conta de que eu estava ficando paranóico. Cada tilintar de pratos ou garfos era motivo pra me estressar, cada voz que não fosse a dos repórteres me dava dor de cabeça, cada novo problema que não fossem os noticiados na televisão me deixavam doente. Passei a não dar conta dos meus problemas pessoais. Passei a escutar mais aquelas vozes do que a minha própria consciência.

Então decidi fazer alguma coisa a respeito. Resolvi me desintoxicar da sociedade. Pois toda essa confusão, as vozes, as tão mencionadas vozes!, os problemas... tudo estava me consumindo, me desvirtuando, me corrompendo. Me enlouquecendo. Fiquei irracional. A sociedade me irracionalizou. Isso é um verbo? Deveria ser. Irracionalmente, me desfiz de toda essa irracionalidade...

Interprete como quiser.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

10/05/1985

Há tempos não escrevo aqui. A última vez que escrevi foi mês passado, abril... pois bem. Em um mês, a história mudou completamente.

Decidi fazer parte do movimento Diretas Já. Resolvi seguir o senhor Teotônio, pois suas palavras me pareciam extremamente promissoras. Sonhar com um Brasil de eleições diretas era bom. E depois de tantos anos parada, me dei ao luxo e risco de participar de mais passeatas.

Então dia 27 de novembro, aconteceu uma passeata em São Paulo, 15 mil pessoas. Se o senhor Teotônio tivesse visto, estaria orgulhoso... Esta aqui é pra você, Teotônio! Mas o infeliz morreu no dia da passeata. E que morte terrível... câncer generalizado. Eles te pegaram, Teotônio... te infectaram. Você até que resistiu bastante, mas no final, eles se juntaram, ficaram muito fortes, não dava pra combatê-los. Quem sabe um dos teus filhos, Teotônio Vilela Filho, não vira político pra honrar teu nome? Eu votarei nele, um dia.

1984 passou relativamente tranquilo. Eu ainda esperava por uma mudança no sistema, quando 1985 chegou. Chegou janeiro, fevereiro, março, em abril comecei a escrever meu diário, mas parei, quando vi rumores sobre tirarem militares do poder. Então anteontem foi aprovada no Congresso uma emenda que acabava com a ditadura. Eu não pude acreditar! E inclusive teríamos eleições diretas. Enfim, Teotônio! Tua batalha não foi em vão.

Isso significava que finalmente poderíamos ser livres. Isso significava que eu não sobrevivi à ditadura à toa... Esta era minha recompensa. Por perder minha família, por perder meu amor, por perder minha dignidade, por ter sido torturada, por ver meu país, minha CASA ruir. Mas e agora?

Minha vida toda eu lutei contra a ditadura, o controle de idéias e a restrição de ações. Agora que a ditadura acabou, o que eu vou fazer? Voltar ao meu trabalho antigo? Procurar outro amor, formar uma família e passar meus finais de semana assando bolos? Isso não tem nada a ver comigo. Então só há uma coisa a ser feita.

(continua)

domingo, 10 de janeiro de 2010

03/04/1985

Certo. Não sei bem o que devo escrever em um diário... Mas visto que estou sozinha, não há muito a se fazer. Se eu não coloco as coisas no papel, se eu explodir não vai ser uma grande surpresa, mas enfim.

Nasci em 1940. A passagem da minha infância para a adolescência foi marcada por aquele glamour falso dos anos 50 - carros brilhantes, saias rodadas e muitos neons. Mas eu nunca gostei daquilo, não. Me lembro de que eu ia todo fim de semana ao cinema para fazer nada mais, nada menos do que entregar panfletos visando chacoalhar a cabeça das pessoas um pouco. Sabe? Acordá-las para a vida. Fazê-las saírem daqueles carros enormes, e olharem para quem está sentado na calçada.

E foi numa dessas vezes que eu vi meu marido (bom, ex-marido) pela primeira vez. Ele ia assistir a um filme qualquer, não me lembro bem. Ah, mas de uma coisa eu me lembro: dos olhos! Os olhos de quem não estava realmente naquele lugar. Os olhos de quem fantasiava e sonhava muito, mas não sonhos inúteis - sonhos de revolução. E eu estava certa, de fato.

Então em 1965 - ano seguinte do golpe militar, como todos sabem - resolvi fazer parte de algum grupo para ver se a situação mudaria no nosso país. Entrei em um dos MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário) e lá fiquei. Acho que foi a fase mais produtiva da minha vida. Organizávamos passeatas, distribuíamos panfletos, driblávamos a imprensa, atiçávamos o governo... e eles nunca nos pegavam! Nunca me senti tão viva e útil. Foi incrível.

Em 1967, então, resolvem criar pseudônimos, para preservar nossa identidade. Eu escolhi o meu - Maria. Interprete minha escolha como quiser. Bem, durante uma das reuniões, eu o vejo novamente - o moço que estava aquele dia, no cinema. Seu pseudônimo era João, ironicamente. (Na verdade, só fui saber seu nome 4 anos depois). Ele era um dos membros mais antigos do MNR. Era realmente fantástico. Muito forte e confiante. Me apaixonei, é claro.

Mas também é claro que nada desse tipo de intimidade era permitido em nosso grupo. Tive de me conter um ano. Mas em 1968, eu soube que ele também me amava. Não podia ser a hora mais errada... Com a liberação do AI-5, tínhamos de tomar muito, mas MUITO cuidado em nossas passeatas - pois quaisquer atividades ou manifestações sobre assuntos políticos eram expressamente proibidas. Também não podíamos mais votar. E nossas casas foram escolhidas, nossa liberdade vigiada... Tivemos de renunciar de nossos nomes para vivermos decentemente - ainda que clandestinamente. Um absurdo eu ter de renunciar do meu nome, que me tornava um indivíduo, brasileiro, para conseguir morar em paz no meu país... Que vergonha. Que absurdo. Não fosse a passeata dos Cem Mil, em junho, eu teria abandonado o país.

(continua)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

1955

Ele se viu rodeado de tantas luzes, carros brilhantes, neons, saias rodadas e cinturas finas que quase se esqueceu do porquê de estar ali. Procurava um pouco de diversão, e assistir a um filme no velho cinema da cidade parecia uma boa idéia. Em meio àquela multidão de pessoas, se enfiou numa das filas da bilheteria e ouviu algumas senhoras falando do passado e cantando antigas marchinhas.

"Bota o retrato do velho, bota no mesmo lugar, o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar..."

A marchinha de 1950 ainda ecoava em sua cabeça. JK agora assumia o poder, e ele sentia que as coisas começariam a melhorar dali pra frente. Ele prometia criar uma nova capital do Brasil, prometia estabilidade econômica, prometeu progressos. Isso era o que ele queria ver, um Brasil andando somente pra frente, sem militares no comando. Sim... ele nasceu e cresceu vendo Getúlio criar ministérios e mais ministérios, mas mesmo assim, acabou exilado. Mas esse tal de JK parecia ser digno de confiança.

Apesar de sua tenra idade, ele se envolvia do tanto que conseguia e podia com questões políticas e econômicas. Não que ele achasse que pudesse fazer alguma coisa - mas seu sonho era iniciar uma revolução. Seu sonho era participar de um Movimento Nacionalista Revolucionário, usar codinomes, armar golpes contra o Estado... mas ele sabia que só haveria necessidade disso caso a situação no Brasil não estivesse lá das melhores. E apesar de ser um rebelde, ele com certeza tinha fé no futuro.

Rebelde... O que estava na moda agora era ser rebelde sem causa. Era ter sua juventude transviada. Era ter sua inocência corrompida por bebida, drogas e jaquetas de couro. "Não, obrigado", ele pensava. Seus amigos revoltados com a vida resolveram mudar de visual e investir em calças jeans justas, cigarro na boca e jaqueta de couro - e as meninas subiam seus cabelos cada vez mais. De jeito nenhum que ele aderiria àquela moda - ele tinha mais o que fazer.

Suas reflexões foram interrompidas por um suave toque no ombro, que o assustou um pouco.

- Moço, é a sua vez - disse uma voz de trás dele. Ele virou para trás, para encarar o dono ou dona daquela mão tão macia, e encontrou olhos grandes e amendoados, e um cabelo liso porém nada armado, que ia até a cintura. - Desculpe se o assustei, mas é sua vez - ela repetiu.
Então ele entendeu do que ela falava - era sua vez de comprar o ingresso do filme. Mecanicamente, comprou, se afastou da fila e se sentou em uma poltrona próxima à sala do filme ao qual ele ia assistir. Observou de novo a garota dos cabelos lisos escorridos. Notou que ela não usava vestido, e sim uma calça jeans que parecia um tanto velha, e uma camisa que a dava um ar de mais velha, apesar de seu rosto declarar ao mundo sua inocência e pouca idade.

A garota não comprou ingresso nenhum - ela tirou vários panfletos de sua bolsa e colocou numa bancada ao lado da bilheteria. Depois se dirigiu à porta do cinema, e começou a entregar panfletos às pessoas que a davam atenção.
- Pratique seu direito como cidadão. Exija do presidente suas promessas - e entregou um panfleto. - Olá, moça. Pratique seu direito como cidadã. Faça com que JK cumpra o que prometeu. Boa tarde, senhor, pratique seu direito como cidadão...

E assim foi, pessoa por pessoa. Ele poderia ter ficado ali observando-a a noite inteira, mas logo chegou a hora de o filme começar. Foi até a sala do filme, e se despediu da garota com um aceno de cabeça. Recebeu em troca um sorriso cheio de dentes, e se perguntou se eles se veriam de novo. Em 1968, quem sabe.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

coragem

Ouvimos tanto falar disso. Do conceito. De "ser corajoso". Mas, afinal, existe um conceito só de coragem?

Eu acho que não. Ao meu ver, ser corajoso é prosseguir com algo até o fim. É encarar seus medos. Todos. Inclusive o medo de não conseguir continuar. Coragem é não ter medo de se machucar, de se decepcionar, e se entregar de cabeça, de corpo, de alma. Coragem é mudar o visual sem medo de críticas. Coragem é aguentar de cabeça erguida toda a negatividade, toda a intriga da oposição, tudo o que vem contra você.

Veja bem, coragem é diferente de falta de juízo. Você não tem juízo a partir do ponto que sabe das consequências, consequências ruins e que te prejudicariam, e segue em frente. Ser corajoso é ser também racional. É não agir impulsivamente e irresponsavelmente. Aquele que não tem juízo age de acordo com seus impulsos e vontades do momento. Isso não é coragem. É estupidez.

Eu me pergunto até que ponto eu sou estúpida ou corajosa. Porque sei bem que me jogo de cabeça em praticamente todos os aspectos da minha vida, mas acho que meu sensor que indica "coragem" ou "estupidez" está (ou é) meio desregulado. Lanço aqui uma reflexão: quando é que NÓS sabemos o que PARA NÓS é estupidez ou coragem?