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sexta-feira, 12 de abril de 2013

lasanha e vinho

- Carlos.
- Fala.
- O que eu tô fazendo?
- Não sei, mas eu tô é tentando dormir.

- Carlos.
- Que foi.
- Você tá dormindo?
- Tô, não tá vendo?
- Não tá não.
- Tô sim.

- Carlos, o que eu tô fazendo?
- De novo isso? Não sei, criatura. Me impedindo de dormir?
- Não, Carlos. O que eu tô fazendo da minha vida?
- Como assim, da sua vida, Clarice? Que papinho, hein.
- Ai, não sei. É que essa noite eu tô com isso, sabe.
- Com isso o quê, mulher.
- Nossa, quanta indisposição...
- São duas horas, Clarice. E eu acordo às sete.

- ô Carlos...
- Tá bom, anda, fala.
- Bom, começou quando eu cheguei em casa e esquentei a lasanha pra gente.
- Hã.
- Aí eu tirei a lasanha do micro-ondas, coloquei em cima da mesa...
- ...eu abri o vinho...
- Sim, você abriu o vinho... liguei a televisão, tava passando o jornal...
- ...ah sim, o jornal...
- E nós comemos, assistimos, conversei com a Paulinha pelo telefone, tomei banho e vim deitar.
- E onde é que tá o drama, Clarice?
- Como, onde? Isso tudo é um drama! Quero dizer, olha só a que se resume nossa noite: a vinho, lasanha e televisão.
- Qual é o problema?! Depois de trabalhar o dia inteiro, você queria fazer o quê?
- Ai, não sei, Carlos. É que acho minha vida meio vazia, só isso.
- Você tá pensando nisso desde a hora que se deitou?
- Sim. É que essa lasanha, esse vinho...
- Qual o problema da lasanha e do vinho? Por que você encanou com eles? Lembrando que quem comprou a lasanha foi você.
- Problema nenhum, Carlos, você não tá entendendo. Mas é que a lasanha...
- Coitada da lasanha, Clarice. Ela só queria te alimentar. Só isso. Você que tá complicando.
- ...a lasanha, sabe, você só coloca no micro-ondas e ela tá pronta. Suculenta. Não tão boa como algo que demora a ser preparado, caseiro, em que você empenha seu tempo e amor... mas ela também é boa. E eu me acostumei com isso.
- Com a lasanha?
- Com a ideia de coisas prontas, Carlos! Com a ideia de não empenhar meu tempo em nada.
- E a lasanha te levou a pensar isso?
- Não, tem o vinho, também...
- O que tem o vinho? É do Porto, seu preferido... enjoativamente doce...
- Pois é, Carlos... pois é. Você toma um gole aqui, outro ali, quando te convém, desse doce fantástico... mas tudo o que resta, no final, é uma garrafa vazia.
- E gastrite.
- E gastrite. Então, me diz, é essa a vida que você quer viver? Uma vida de lasanhas e vinhos?
- No sentido figurado ou no sentido literal?
- Claro que no sentido figurado, né, Carlos! Não tô pedindo pra você renunciar ao seu gosto por lasanha.
- Aquela lasanha que você comprou tava fantástica. Também não quero renunciar ao meu gosto por vinho.
- E por vinho. Eu também adoro.
- Clarice, você não é um jantar composto por uma garrafa de vinho e uma lasanha.
- Não sou?
- Não é. Você não se esvazia quando as pessoas se levantam da mesa e lavam seus pratos.
- Ai, essa foi a coisa mais linda que você me disse nessa semana.
- Sou um poeta.
- É nada.
- Claro que sou! Olha meu nome.
- Nesse caso, meu nome também me qualifica.
- Que crise, hein, dona.
- É que essa lasanha, esse vinho, botam a gente comovido como o diabo.
- Essa frase é minha.
- É nada. Boa noite.
- Boa noite.

terça-feira, 2 de abril de 2013

i'm a fool to want you

Hermínia chegou à faculdade no horário de sempre. Estacionou seu carro popular prata, acenou para um ou dois colegas e se pôs em direção ao prédio onde estudava. Como um cérebro de qualquer estudante, o dela já estava sobrecarregado de lembretes, conceitos, tarefas e datas. Tudo isso antes das oito.
Deixando-se guiar pelo piloto automático - que determinou que suas pernas a levariam até a biblioteca -, ela mal percebia as pessoas que passavam ao seu lado (também era função do piloto automático dar um aceno de cabeça para os amigos que cruzavam seu caminho). Entre armários e estantes e catracas e livros, Hermínia foi se sentar no seu já marcado território da biblioteca para estudar.
Mal ela tinha aberto o primeiro livro, ele apareceu diante dela.
Ele apareceu e aquela música da Billie Holiday começou a tocar na cabeça dela.
I'm a fool to want you, to want a love that can't be true.
Ela sorriu. Ele parecia sorrir de volta. Sempre tão arisco, tão fugidio, como água entre os dedos. Sempre tão perto, mas simultaneamente tão distante. Muito cruel, ele. Às vezes se mostrava muito próximo, tão possível, tão familiar; e outras vezes se comportava como um estranho. Ela não entendia. Era uma relação muito complicada. Mas, por algum motivo, ela não conseguia se desvencilhar daquilo tudo; por alguma razão, isso só o tornava mais atraente, interessante, complexo...

Não que fosse fácil sentir-se constantemente incapaz de conquistá-lo. Ela via a relação dele com as outras pessoas - parecia tão fácil e saudável! Frequentemente parecia que as outras faziam muito menos esforço do que ela para conseguirem certa proximidade com ele. Por que ela não conseguia? O que estava fazendo de errado? Sua abordagem estava falha? Será que ela precisava de ajuda?

* * *

Ele estava em sua vida havia um tempo. Alguns anos, na verdade. Aliás, pra falar a verdade verdadeira, ele sempre esteve em sua vida, mas somente de alguns anos pra cá é que essa relação tomou forma (mesmo que uma forma confusa, indefinida; mas forma). E nunca ele pareceu tão inalcançável quanto agora.
Talvez porque ela o tenha conhecido melhor, compreendido o que era necessário para alcançá-lo em sua integridade - e uma parte sua insistia em negar a tão clara e notória possibilidade de que ele talvez nunca pudesse ser totalmente conquistado. Muito cheio de detalhes e manhas, ele. Sempre que ela achava que estava chegando perto, ele colocava outra barreira, outro empecilho, outra questão. E ela tinha de se afastar.

* * *

Time and time again I said I'd leave you; time and time again I went away; but then would come the time when I would need you, and once again these words I had to say: take me back, I love you. I need you.
Saindo da biblioteca, Hermínia decidiu parar na cafeteria para se dar ao luxo de tomar um capuccino (bastava de chá-de-café). Mas mesmo lá, fora de seu habitat (que, naturalmente, era a biblioteca ou a sala de aula), ele a perseguia. Talvez só para ter o prazer de jogar em sua cara que ela nunca o teria. Talvez só para marcar presença em seu pensamento. O fato é que ele nunca a abandonava, de uma forma ou de outra. "Será que algum dia ele vai me deixar em paz?", ela pensava. "Será que eu sempre vou precisar tanto assim dele?"... mas ela sabia a resposta. Sim, ela sempre precisaria dele, porque ela escolheu precisar. O caminho que ela decidiu traçar está intrinsecamente ligado a ele. E sempre vai estar. Porque ela precisa dele, e, de certa forma, ele também precisa dela, pois, sem admiradores, ele seria um completo vazio.

"Ele."

"Esse amante tão insensato, que me tira do sério, que me tira noites de sono, que me deixa cada vez mais apaixonada por ele, que me deixa cada vez mais frustrada por não tê-lo só pra mim, por ter de dividi-lo, por exigir de mim constante mudança e aprimoramento..."

Ele. O conhecimento.

terça-feira, 26 de março de 2013

obstáculos e pontes


Interessante é o fato de que ao mesmo tempo que a linguagem pode ser esclarecedora (como quando você descobre uma palavra que sintetiza um sentimento inteiro que você não conseguia explicar; "nossa!, é isso mesmo!") ela pode ser tão absurdamente limitante (porque esse mesmo sentimento pode ter várias facetas e explicações, mas assim que você o define, ele fica preso aos ditames e à semântica da palavra em questão). Pode-se, nesse contexto de abrangência e imprecisão, inserir as palavras polissêmicas, que simultaneamente abrangem muitos sentidos (expressam muitas ideias) e exatamente por isso amarram todos esses sentidos a uma coisa só. Estranho isso, não?, o fato de algo versátil ser aprisionador. A palavra angústia, na minha opinião, exemplifica muito bem isso. Existem muitas "classes" de angústia, assim como muitas causas, mas a palavra é tão vaga que tudo passa a ser "angústia" e, por se definir como tal, o sentimento em si torna-se vago, impreciso.
E se tem uma coisa que eu odeio é imprecisão e indefinição.
Então surge a pergunta que vem me martelando desde que li 1984 simultaneamente a Wittgenstein ("Os limites de minha linguagem significam os limites de meu mundo"): é possível verbalizar o pensamento? Todo e qualquer pensamento?

A primeira resposta que me veio à cabeça foi "sim, pois a linguagem é criação da racionalidade, logo do pensamento, logo, deve nela haver um correspondente a tudo que é fruto do pensamento".
Mas nosso próprio pensamento, raciocínio é estruturado por palavras. Então, no caso, seria impossível pensar algo que não é (ou não foi ainda) exprimido pela linguagem. Seria o pensamento realmente limitado por palavras, por serem concretas, definidas, como uma fõrma de bolo?
Ao mesmo tempo, o pensamento é ilimitado. É totalmente possível se pensar em fenômenos que vão além do que se vive no aqui, no agora, no espaço. Na verdade, questionar-se sobre fenômenos de quaisquer natureza é o que nos caracteriza, não? Isso inclui morte, sentimentos, princípios - tudo o que não é concreto e que não precisa ser necessariamente vivenciado para que seja alcançado pelo pensamento criativo, indagativo e imaginativo do ser humano. Quero dizer, é claro que não se precisa vivenciar a morte para se pensar sobre ela, certo?

Mas isso não realmente importa, pra mim. Se a linguagem exprime ou não o que eu quero dizer não faz tanta diferença. Faz diferença na medida em que isso afeta as relações intersubjetivas. E elas são imensamente afetadas. A linguagem, ao mesmo tempo que ponte, é um grande muro que separa o meu mundo do mundo do outro. Ou mesmo uma miragem, uma simples ilusão, ao passo que pode parecer haver uma comunhão de significado, mas, devido ao caráter polissêmico das palavras (ou ao fato de que a carga semântica de cada palavra, porque é fruto das experiências de cada pessoa com a própria palavra e seu uso, varia de pessoa para pessoa), eu transmito a, a pessoa ouve b e o que eu realmente queria dizer é c. Então o que garante que somos compreendidos? Partindo disso, o que garante a legitimidade das relações, de quaisquer tipos?

Não sei. Se questionarmos demais, cairemos num vazio de sentido absoluto.

O que importa é que, mesmo com todas as barreiras, é de nossa natureza tentar ultrapassá-las e construir pontes entre nossos mundos individuais. O que importa é que, com algum esforço, é possível olhar para o outro e dizer "eu entendo o que você quer dizer" - mesmo que não entenda; o que vale é a intenção.
(Pra não estragar o tom do texto, não vou entrar no fato de que o ser humano pode ser muito beócio também quando quer, ao se empenhar em não entender o outro, seu ponto de vista, sua história, seus motivos. O que é, de fato, muito mais frequente do que a tentativa de compreensão, mas eu tenho tentado ver as coisas não de um ponto de vista diferente, mas com ênfase diferente.
Porque não dá pra olhar pro lado luminoso da coisa se você não virar a cabeça, certo?)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

liberdade, liberdade

Às vezes eu reflito sobre quais de minhas ações são realizadas em plena liberdade.

Antes de mais nada, já mudei minha noção de liberdade milhares de vezes. A primeira ideia que tive era que liberdade é quando você tem a possibilidade de fazer escolhas - mas é fácil pensar em situações nas quais você tem escolhas, mas não tem plena liberdade. Por exemplo, quando você vai a uma sorveteria e só encontra dois sabores de sorvete. Você escolhe entre os dois, mas, como só há dois sabores, você não foi totalmente livre em sua escolha - sua escolha foi ditada pela contingência, por uma coisa pré-estabelecida; sua ação não foi totalmente autônoma. Logo, nunca uma escolha entre várias opções é totalmente livre.
Alguém poderia dizer que é melhor ter opção do que não ter - e que, mesmo a escolha sendo restrita, ainda assim se tem a liberdade de fazê-la. Sim, pior ainda seria se fôssemos escravos da contingência - e muitos o são. Acredito que os indivíduos que constituem as classes mais baixas da sociedade, assim como grupos estigmatizados (negros, homossexuais, e, infelizmente, mulheres), muito dificilmente agirão de forma autônoma. Quaisquer de suas ações serão feitas baseadas em escolher o que se pode escolher, e não necessariamente o que se quer fazer. E o que é pior: movimentos que tentem igualar a liberdade das pessoas, tentando, assim, anular fatos arbitrários, exteriores ao indivíduo, são vistos com maus olhos - ações afirmativas e os movimentos negro, LGTB e feminista.
"Mas, afinal", você se pergunta, "o que é ser livre pra você, Bruna?". Digo que concordo com Kant: somos livres quando agimos com autonomia - ou seja, quando agimos de acordo com um princípio criado por nós mesmo, que tem uma finalidade em si mesmo (ou seja, quando fazemos algo para atingir tal resultado, essa ação não é autônoma). Ou seja, ser bom por ser bom. Ser justo por ser justo. Escolher por escolher. É claro que damos significado para todas as nossas açõs - caso contrário, viveríamos num vazio de sentido. Mas o que eu quero dizer é que o princípio que rege todas essas ações é algo que foi criado por você mesmo, e, mesmo que você faça algo pressupondo uma finalidade, essa finalidade será apenas consequência de seu próprio ato, já que ele termina em si mesmo. Quando você é justo por ser justo, você o faz por acreditar que essa é a forma ética de agir, esperando, com isso, corrigir alguma injustiça ou dar um exemplo.

Porém, quando percebi que, sim, de fato, concordo com isso, fiquei angustiada. Muito angustiada. Porque parei pra pensar se alguma vez na minha vida eu já fui livre. E voltamos ao começo do texto.

Claro que, prontamente, já excluí todas as minhas ações baseadas numa escolha com opções restritas. Mas depois pensei melhor. E quando, dentre as opções apresentadas, há algo que eu realmente queria? Algo que eu continuaria querendo se não estivesse dentre minhas opções? Algo que eu faria como finalidade em si? Como, por exemplo, escolher um livro dentre os disponíveis na livraria. Escolher ouvir uma música dentre as disponíveis no youtube. Escolher assistir a um programa dentre os que estão passando na televisão. Sob essa perspectiva, as coisas melhoraram!, e não mais me senti tão escrava da contingência.
É claro que alguém poderia argumentar que os motivos que me fizeram fazer determinadas escolhas autônomas são fruto da contingência (que eu escolho o livro x e não o y porque a maioria das mulheres assim o fazem, ou porque é o livro valorizado pela minha classe social, ou porque meu pai gosta do livro e eu tenho complexo de édipo, interprete de acordo com sua corrente filosófica), mas eu prefiro acreditar que não, porque eu, aos meus 17-quase-18 anos já tive tempo suficiente para decidir meus próprios gostos sem interferência direta ou predominante de grupo ou instituição nenhuma.
Também excluí ações básicas do dia-a-dia, de rotina, porque, bem, não sei vocês, mas tudo o que eu faço no dia-a-dia faço ou por obrigação ou com alguma finalidade. Sobra o final de semana. No final de semana (para aqueles que o tem livre), no feriado, nas férias temos nosso momento de liberdade. E isso nos angustia. Liberdade dá angústia!, afinal, o que é o tédio dominical senão angústia devido a ociosidade? Sim, pois liberdade dá medo - quando fazemos tudo automaticamente, é fácil, é indolor, agora quando temos de fazer decisões por nós mesmos, a situação se complica, e sentimos angústia (segundo Kierkegaard, angústia é a vertigem da liberdade). Mas enfim.

O que eu realmente quero dizer é que eu me encontro livre nas coisas pequenas que faço. Ler o final de um livro, e não o começo, só pela graça do ato. Segurar as mãos do meu namorado só pelo prazer de segurar. Sentar do lado de fora de casa e olhar pro céu só por sua beleza. Sentar ao meu piano e tocá-lo só pela felicidade que isso me proporciona. Sentar à frente do computador e escrever... e escrever, e escrever.

Autonomia é um negócio complicado.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

now you say you're sorry

O delegado abriu a porta da sala de interrogatório. Vitória podia ver seu vulto, com os ombros pesados e os punhos cerrados.

"Eu tinha de ver com meus próprios olhos. O que você está fazendo aqui, Vitória? Como foi deixar isso acontecer?"
"O quê, Paulo? Ele quis se matar. A vida é dele, quem sou eu pra impedir?"
"Você é uma médica, isso que você é! Agora vai ter de enfrentar uma acusação de homicídio doloso, porque você foi negligente!"
"Se eu não fosse médica, eu estaria passando por isso?"
"Provavelmente não"
"Por que não? Qualquer um sabe que cicuta é veneno, e que veneno mata."
"Mas você é médica e podia - aliás, devia ter prestado socorro."
"Prestar socorro? Ele não pediu socorro!"
"Vítimas de acidentes também não pedem socorro"
"Vítimas de acidente não são suicidas, mentalmente instáveis, totalmente doentes!"
"Olha, Vitória, a questão é que é seu dever prestar ajuda a quem visivelmente se encontra na iminência da morte."
"Eu acho que é meu dever ajudar a quem pediu ajuda, ou a quem está à beira da morte por culpa de outra pessoa que não elas mesmas. Não é meu dever impedir um suicida de realizar seu desejo."
"Se ele era totalmente doente, então ele não estava em pleno juízo para tomar decisões, logo, não era responsável pelas consequências de seus atos. Sendo a consequência, bem, a morte, e a responsabilidade não é dele, então de quem é?
"Não sei, de deus?, por tê-lo colocado justo no meu caminho?"
"Sua, Vitória. Sua. Muito sua, porque você sabia de ambas a condição psicológica do homem e suas intenções quando ele foi à sua casa. Então eu  não diria que você foi apenas negligente... você foi egoísta. Desumana."

Vitória poderia ter saído da cadeira num pulo e parado no pescoço do delegado perante aquela afirmação, mas decidiu manter-se calma, no aparente controle da situação. Afinal, não se combate ignorância com ignorância.

"Não, Paulo. O que aconteceu foi que eu fiz um favor a mim, a ele, à humanidade. Ele estava ficando mais louco do que já era e estava me deixando louca também. E se o suicídio foi calculado ou foi puro impulso não faz diferença - ele não precisava da ajuda da minha especialidade médica, mas sim de um psiquiatra. Não havia nada que eu pudesse fazer. Se eu o tivesse impedido de tomar cicuta, ele provavelmente teria tomado alguma atitude agressiva para comigo, começaria um solilóquio interminável, eu o expulsaria da minha casa, ele ficaria atordoado com minha atitude e acabaria sendo atropelado saindo do meu prédio."
"Vitória, nada disso importa. Não existe 'se' em um julgamento. Não existe 'se' quando se trata de morte. O fato é que um homem se matou na sua frente, no seu apartamento, no apartamento de uma médica, e sua falta de interferência equivale ao consentimento e, portanto, à negligência."
"Se eu tivesse interferido e o impedido de se matar, eu estaria cerceando sua liberdade."
"O quê?"
"Sim. Pois o corpo era dele e eu não tinha o direito de dizer o que ele deveria ou não deveria fazer."
"Mas ele era doente mental, Vitória! O corpo não era mais dele, por assim dizer!"
"Então era de quem? Quem deveria tomar as decisões por ele, se ele mesmo não podia fazê-lo?!"
"Eu não sei, Vitória. Eu não sei. E não é minha obrigação saber. Eu só sei, e você também deveria aceitar esse fato, que você não agiu de acordo com seus deveres, e, portanto, vai ser julgada por isso."
"E eu vou refutar isso até o fim, porque ainda acho que a vida é dele e ele faz o que quiser com ela."
"Você está comprando briga"
"Pago à vista"

Paulo, o delegado, saiu da sala batendo a porta atrás de si. Vitória, sabendo que estava sendo observada através daquele espelho, tentava, com todas as fibras de seu ser, conter o impulso de gritar frustração perante aquilo tudo. Ela queria gritar que o canalha merecia morrer, que tudo seria melhor agora sem ele, que agora ela poderia viver de verdade, sem um encosto, sem um fardo, sem um medo constante; mas conteve-se. Respirou fundo, porque era a única coisa que ela podia fazer. Respirar.
Por fim, levantou-se, bateu com a ponta dos dedos duas vezes no espelho, "tenho direito a voltar pra casa enquanto espero, bem, por tudo?"
A porta foi aberta, "tem sim, pode vir comigo".

Entrou na viatura da polícia e foi conduzida até seu apartamento. Não havia mais viatura nenhuma lá, eles provavelmente já tinham levado o corpo embora. Seis horas da manhã, o sol estava nascendo - isso deveria significar alguma coisa? Não, Vitória estava cansada de tentar achar significado pra tudo. Melhor tentar dormir, hoje era dia de plantão.

...cry me a river, cry me a river, I cried a river over you

- FIM -

terça-feira, 19 de junho de 2012

escolhas

Ainda é cedo, amor... mal começaste a conhecer a vida...

Ana e Caio prosseguiram andando pelas estreitas ruas não-turísticas de Paris. Estar lá era melhor do que ela pensara, pois estava realmente acontecendo. A realidade é sempre melhor do que o melhor dos sonhos. Durante o passeio, passaram por muitos jardins; estar cercada por flores e não mais por cana certamente era um sentimento interessante.
Ela observava os nativos passeando pelas ruas com expressões totalmente apáticas. Triste pensar que, quando o belo é cotidiano, ele deixa de ser belo. Viver em uma cidade tão histórica, tão bonita, tão completa e ignorar esse fato por simplesmente estar em contato com ele todos os dias. Claro que, mais cedo ou mais tarde, tudo cai na rotina, tudo torna-se convencional - mas por isso devemos deixar de apreciar o que esse "tudo" tem pra oferecer, apresentar, emocionar?
Se esses parisienses fossem morar alguns dias em São Paulo, "selva de pedra" e asfalto, cinza, muito cinza e fria, certamente sentiriam falta de Paris.
Engraçado isso, de as pessoas precisarem perder para valorizar. Como se só a ausência demonstrasse que era pra haver algo ali. A permanência de algo em nossas vidas acaba virando rotina, acostumamo-nos com a rotina e passamos, egocentricamente, a acreditar que, se algo mudar, não fará diferença. Mas faz. Sempre faz.

"Olha só, um hostel"

Depois de algumas horas andando, Ana e Caio encontraram um lugar para ficar. Não era cinco estrelas, não ficava na avenida mais bonita da cidade, não era o prédio mais bonito da cidade, o caminho que levava até lá não era o mais fácil de se encontrar - e menos fácil e atrativo ainda de se seguir. Mas era o hostel que eles queriam, de que eles precisavam, e que eles podiam pagar.

Muitos fatores definem nossas escolhas. Nossos valores, nossas necessidades, nossas limitações - e o  que era mais triste: havia uma tendência atual muito crescente de se fazer escolhas baseando-se no número de empecilhos entre você e sua meta, sendo esta geralmente o sucesso (econômico, acadêmico, existencial). Esses empecilhos podem ser o tempo, a quantidade de estudo ou a quantidade de habilidade necessários para se atingir a meta. E quanto maior cada empecilho, menos esse caminho é escolhido - e mais à margem da sociedade em questão ele vai ficando. Não é à toa que pouquíssimas pessoas escolhem a docência - estudo demais, tempo demais, suor demais investido em algo que não é socialmente reconhecido como deveria ser. E também não é à toa que a procura pela participação em reality shows é tão grande: fama e dinheiro fáceis, rápidos e a qualquer custo, quem não quer?

Mas afinal o hostel, por dentro, não era ruim. Era confortável, caseiro e tinha cheiro de café. Ana e Caio logo sentiram que fizeram a escolha certa, e que era ali mesmo que deveriam ficar. Descobriram que dividiriam o quarto com outras três pessoas: um francês, de Marseille, uma iraniana, de Teerã, e um japonês, de Osaka. Nunca Ana tinha ficado em um só quarto com três culturas, ideologias e etnias diferentes. Nenhum dos três estava no quarto - compreensível, por serem quatro horas da tarde.
Caio, como de costume, levara mais livros do que roupas na mochila, e abriu um aleatório assim que terminaram de se acomodar.

Ana olhava pra Caio e se perguntava por que demorou tanto para conhecê-lo. Gostava muito de tudo o que a entrada de Caio proporcionara em sua vida - passou a se entender mais, a refletir mais, a analisar-se mais. Ele era muito parecido com ela, inclusive nos aspectos negativos. Eles aprendiam um com o outro e iam se reconstruindo em cima das bases que construíam juntos.

...já anuncias a hora de partida sem saber mesmo o rumo que irás tomar...

(continua)

terça-feira, 12 de junho de 2012

café de flores

Deixe-me ir, preciso andar; vou por aí a procurar... rir pra não chorar.


Outro aeroporto. Aquela multidão. Ficar ali, em pé, desafiando o fluxo de movimento das pessoas com o ato de simplesmente ficar parado, estático, é algo engraçado de se fazer. Ficar ali, em pé, torna totalmente compreensível e palpável a ideia de se estar sozinho mesmo quando rodeado de centenas de indivíduos.


Ana sentiu um arrepio.


Detestava aquele sentimento. Já o havia sentido muitas vezes, mais do que o suficiente pra entender que não é prudente fazer sua felicidade depender de outras pessoas.
Na verdade, estar em meio a uma multidão aflorava muitos sentimentos contrários em Ana. Ela gostava muito de andar pela rua, olhar para as outras pessoas e imaginar a história de suas vidas. Imaginar por quais problemas elas passam, o que elas estão pensando naquele momento. Essa atividade a fazia se sentir menos melancólica - Ana tinha essa tendência a aumentar muito a proporção de seus problemas, e imaginar que outras pessoas também têm tantos problemas quanto ela levava-a de volta à realidade. É como subir ao topo de uma montanha: os problemas de verdade, os realmente grandes, podem ainda ser vistos de lá de cima, e todo o resto perde importância. Sair andando pela rua, também, sempre fora uma prática muito produtiva, muito frutífera e inspiradora - algumas das filosofias mais complexas de Ana surgiram enquanto ela andava o quarteirão da Lafaiete até a Prudente de Morais, um quarteirão com nada que pudesse inspirar pensamento algum, mas as melhores ideias e contos sempre vêm em momentos de ócio e distração.
Por outro lado, Ana podia sentir-se extremamente sozinha enquanto cercada por tanta gente. Perceber que se é apenas mais um para alguns é reconfortante, mas, para Ana, é desesperador. Aquele sentimento de impotência. O nervosismo que nos toma conta, a vontade que dá de berrar "parem de andar, parem, sentem-se, respirem!", aquele caos, a turbulência... Ana tinha uma pastora extremamente bucólica dentro de si, por mais que odiasse reconhecê-lo. E, principalmente nos últimos meses, a vontade de fugir para um campo de clima temperado só vinha aumentando.


Pegaram um táxi até o centro da cidade. Como levavam pouca bagagem, decidiram andar e reconhecer se Paris era tudo aquilo de que sempre tinham ouvido falar.
"Você fez reserva em algum hotel?"
"Não. Você fez?"
"Não"
"Que faremos?"
"Andar por aí, respirar, tomar um café, e parar no primeiro hostel com que nos depararmos"
Isso podia às vezes atrapalhar, mas as espontaneidade e despreocupação de Caio vinham em bom momento naquela situação. A última coisa de que Ana precisava era de um neurótico, estressado, que não saberia lidar com a situação de simplesmente não ter uma cama garantida quando a noite caísse.


Era primavera em Paris. Alguns prefeririam passar um Outono em Nova Iorque, e lá estava Ana, na primavera em Paris.


Eles começaram a andar. Talvez fosse por pura frescurite, por puro placebo, porque cidades são cidades em qualquer lugar do mundo, e nem o trânsito nem as pessoas seriam a diferença entre Paris e São Paulo - mas Ana sentia que havia algo mais. Algo que não pode ser tocado. Talvez fosse pela arquitetura tão característica da cidade, ou pelo fato de que tantos eventos já se passaram lá historicamente, tantos grandes filósofos já se sentaram naqueles cafés, tantas ideias já circularam por aquelas ruas que, nossa. Passar pelo arco do Triunfo, pela torre Eiffel, pelo Café des Flores, quem sou eu perto dessa cidade?
Andaram. E andaram. Que é o que precisa ser feito para conhecer a cidade a fundo. Andar por ela, conhecer suas ruas tortas, seus prédios, suas galerias, seus jardins. Quem anda só de táxi ou de ônibus não conhece a essência da cidade nem de perto.
Ana, num sobressalto, parou de andar.
"O que foi, Ana?"
Ela encarou a extensão da rua à frente de si.
"Tem uma moça, andando de bicicleta, com um mochila cheia de jornais, passando por aqui", ela começou a falar, "que fica subindo e descendo as ruas que cortam a rua em que estamos"
"E qual o problema?"
"Isso está me deixando nervosa"
"Por quê?"
"Porque por mais que nós andemos, ela sempre está na nossa frente, e isso me deixa nervosa"
Caio encarou-a meio sem entender se Ana estava falando alegoricamente ou se aquele era um dos seus ataques de neurose. Ana era assim, costumava falar em metáforas e fazer analogias de seus próprios sentimentos, mas outras vezes era só um ataque de histeria.
"Mas o pior", continuou Ana, "é que eu sei que vou me sentir estranha quando nós a alcançarmos, pois agora me acostumei a sempre estar distante dela. Quando o encontro chegar, e chegará, fatidicamente, bem..."
"Então você vai encará-la, olhos nos olhos, e comprar um jornal."

(continua)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

quero nascer, quero viver

Ouvir os pássaros cantar; eu quero nascer, quero viver.

Ela levava em sua mochila algumas poucas trocas de roupa, dois livros, um caderninho e música. Além de documentos, dinheiro e toda a tralha burocrática de que se necessita quando se viaja ao exterior, é claro. Mas ela não precisa de muito mais do que isso. O mais importante levava consigo, intocável - a vontade de fugir, que faria a viagem ser muito bem aproveitada.
Entre multidões estéreis, finalmente ele apareceu.
"Demorei?"
"Demorou"
"Mas pelo menos apareci"
"Em todos os sentidos"
Trocaram sorrisos. Ana e Caio se conheciam há pouco tempo, mas - e digo isso da forma mais clichê e piegas possível - identificaram-se um no outro logo no primeiro contato. Extemporaneidade e gênio difícil eram suas principais semelhanças. Digamos que, aprendendo a lidar um com o outro, aprenderam a lidar consigo mesmos - e poucas coisas são mais eficientes para se alcançar qualquer objetivo do que aprender a lidar consigo mesmo, aceitar-se, enxergar-se, conhecer-se.
Ana levantou-se e, ao lado de Caio, foi andando até a plataforma de embarque.
"Você tem certeza, Ana?"
"Por que as pessoas ficam me perguntando se eu tenho certeza ou não? Eu sei o que eu quero, e eu quero ir embora daqui, dar um tempo de tudo, sentir-me viva de novo, e se pra isso eu preciso ir até Paris é isso que eu vou fazer"
"Tá certo, então vamos"
"E você?"
"Eu o quê?"
"Tem certeza do que está fazendo?"
"Certeza do quê?"
"De que quer ir comigo"
"De tudo o que vem acontecendo comigo, uma das minhas únicas certezas é que eu quero estar com você"
"Hum, ok, certo. Boa resposta."
Ana suspirou. Engraçado isso, gostar de alguém.
Sentir-se viva de novo. Ana tinha dito isso quase sem pensar, mas analisando bem, era realmente este o problema: há tempos ela não se sentia viva; sentia-se apenas existente. Sim, pois entre viver e existir há uma grande distância filosófica e também prática. Viver exige muito mais coragem. Viver é fazer escolhas e assumir suas consequências. Viver é sentir. Viver é escolher seu próprio rumo (claro que dentro de certas limitações; ninguém é integralmente livre). Pois se nós não escolhermos nosso próprio rumo, quem o fará? A sociedade? Nossos pais? Nossos amigos? Se havia algo que tirava Ana de órbita era a sombra do pensamento de que ela não estava no controle de sua vida. Pobre menina idealista.
Podia ser idealista ideologicamente, mas no âmbito das relações pessoais as ideias tomavam outro rumo. Sua filosofia era de não esperar nada das pessoas -  nem atitudes boas, nem ruins. Ela simplesmente não esperava ser surpreendida por ninguém. Isso era, muitas vezes, ruim, pois fazia Ana subestimar indivíduos que acabam se mostrando muito, digamos, dignos de sua afeição. Mas, por outro lado, Ana preservou-se de muitas decepções agindo assim.
Já estavam procurando seus lugares no avião. Como se praxe, Ana sentara-se junto à janela, para poder, sem perturbar mais ninguém, olhar o quanto quisesse para o mar, o céu, a escuridão.
"Olha só", disse Caio, apontando para a tela de computador no assento da frente. "Frank Sinatra"
"Tá, mas quando estivermos chegando, vou colocar Piaf"
"Exatamente o que eu ia falar"
"Ia nada"
Caio bufou, e Ana riu.

A inexplicável sensação de estar sobrevoando o mar, e nada mais importar além do próprio ato de viajar. As paisagens vistas, as emoções sentidas, as reflexões e confabulações, e, é claro, o destino.
Porque viver é isso. Não se pode chegar ao destino final sem se ter aproveitado a viagem. Qual a vantagem de viajar de janelas fechadas, não enxergando mais nada, porque nada mais importa do que o final? Da mesma forma, por que viajar só por viajar, só para curtir a paisagem, sentir o sol no rosto e aproveitar a calma de não se ter compromisso nenhum até se chegar ao destino? O ato completo de viajar engloba tudo: aproveitar a viagem, não se deixar cegar por um só objetivo, permitindo-se olhar para os outros lados e ver inclusive outros destinos que poderia ser alcançados; mas não perder de foco o objetivo final - que, depois de uma viagem bem aproveitada, será infinitamente mais valorizado.
E isso, isso era o que estava faltando; viver pelo simples ato de viver - não por trabalhar, enriquecer, ter de se sustentar economicamente, apenas por viver, aproveitar a viagem.
O engraçado é que as pessoas não sabem viver. Quando não têm compromissos, perde-se a noção de vida. Domingos são o maior exemplo disso. O fenômeno do Ócio Dominical é justamente aquele pensar "não tenho que estudar, trabalhar, fazer contas, nada - o que eu faço comigo mesmo?", e perde-se a noção do quando parar, pensar e respirar fundo é bom. Ler um livro e saboreá-lo. Ouvir uma música e internalizá-la. Sentar na grama e perceber todo o organismo que o circunda.
Por isso Ana gostava de praias. Nada melhor do que sentar na areia e passar horas ouvindo o som do mar.

"Ei, acorda, nós chegamos"

(continua)

domingo, 3 de junho de 2012

anacronismo ambulante

Deixe-me ir, preciso andar; vou por aí a procurar... rir pra não chorar.

Ana estava sentada no chão, ao lado de uma mochila e uma bolsa pequenas, do aeroporto de Congonhas. Ela encarava as passagens recém-compradas e absurdamente caras para Paris. Ela não pensara racionalmente sobre o assunto; sabia que, se o fizesse, ela mudaria de ideia e voltaria para sua vida - e isso estava fora de questão.
Quem a visse de fora prontamente a consideraria uma menina mimada, insatisfeita com a própria insatisfação e inventando mágoa porque a própria vida nunca proporcionou-lhe nenhuma. Mas a verdade é que Ana era um anacronismo ambulante e tinha consciência de sua condição desde, bem, sempre. É ruim sentir-se extemporâneo, principalmente quando o próprio motivo de Ana sentir-se extemporânea é extemporâneo. Entende? Ana adorava pensar, e pensar nos torna tristes, e ninguém gosta de gente triste. Mas o pensar era tão intrínseco, tão inerente a ela; não tinha como combater as náuseas que constantemente a assolavam.
As pessoas passavam e a encaravam. Ela virava os olhos; já se acostumara a olhares curiosos de pessoas pequenas.
Paris. Por que Paris? Fora uma decisão quase subconsciente. Paris é história e filosofia em seu estado mais puro, é beleza, é lirismo, é tudo de que Ana precisava. Precisava dar um rumo para sua própria história, um sentido para seu próprio viver. Ah, sim. Isso também causaria estranhamento. "Por que isso, Ana?", as pessoas diriam. "Você já tem um apartamento, um estágio bem remunerado e um carro, de que mais precisa?". De muita coisa. Do essencial.
Cadê o Caio?
Seu celular não parava de vibrar. "Marina ligando". Recusar chamada. Hoje era a festa de aniversário surpresa de uma colega sua, e Ana tinha confirmado presença. Marina, a organizadora, provavelmente estava ligando para dar uma bronca em Ana, chamá-la de egoísta e mandá-la ir para a festa naquele instante. Não pelo fato de que Ana era querida, mas porque festas só têm graça se há vários convidados.
Colegas.
Ana tivera muitos colegas em sua vida. No colegial, na faculdade, no estágio e agora no curso preparatório. 22 anos, três escolas depois, quatro ambientes de socialização frequentados atualmente e nada mais do que dois amigos. Deprimente, certo? Sim. Insuportável? Não. Situação difícil de se encarar? Talvez. Mas Ana, depois de um tempo, e por mais melancólico que isso soe, aprendeu a ser um pouco mais autossuficiente, mesmo isso não preenchendo a exiguidade de não realmente ter alguns semelhantes com quem repartir suas misérias, abstrações e até júbilos, eventualmente.
O aeroporto estava impressionantemente movimentado para uma quarta-feira no meio de março, pensando bem. Passou um homem com a expressão tão triste que Ana teve vontade de abraçá-lo. Passou uma mãe de mãos dadas com o filho, já adulto, que tinha a expressão mista de felicidade, tristeza e antecipada saudade mais bonita do mundo. Passou um casal que com certeza estava saindo em lua-de-mel, julgando pelas suas expressões de que mais nada existia além deles e de suas passagens.
O celular vibrava de novo. Dessa vez era a mãe de Ana.
"Ana, você tem certeza?", a mãe repetia. "É claro que eu te dou apoio, só preciso de que você me dê certeza de que sabe o que está fazendo". Não, Ana não tinha certeza.

Quero assistir ao sol nascer, ver as águas dos rios correr...


(continua)

terça-feira, 29 de maio de 2012

tic tac

"This is your life, and it's ending one minute at a time"

Noutro dia, resolvi reparar em como eu estava andando. Eu estava no shopping e olhando para meu próprio reflexo nas várias vitrines. Eu via uma menina andando a esmo, como quem possui um destino mas não tem direção, como quem tem necessidade mas não tem vontade. E senti pena. E eu odeio sentir pena de mim mesma. Mas por mais que eu odeie, eu sinto, forçosamente.

Olhei no relógio.

E, de repente, todo o lirismo cessou.

E de repente tudo ficou tão lógico, claro, óbvio, dissertativo, tão irritante, tenho um destino tão claro, definido e fatídico que, nesse ano, viver tem sido sem graça.
Porque eu acordo, alimento-me, estudo, estudo, estudo e estudo mais um pouco, então eu me alimento e durmo. E minha vida se resume a isso de segunda a sexta-feira. E isso lentamente vai empurrando pro lado toda a tortice que é tão intrínseca a mim.
Eu não tenho mais tempo pra parar... e parar. E pensar. Não tenho mais tempo para sentar e ler um livro, e saboreá-lo, e tirar dele toda a sua essência e espalhá-la por toda a minha essência, não tenho mais tempo de assimilar conteúdos e pensamentos, porque eu simplesmente não mais os tenho.
Viver, para mim, tem-se limitado à pura atividade de sobreviver e resistir, não mais existo.
E eu estou cansada, estou muito cansada de ficar na internet, navegando de forma letárgica, só comentando o que as pessoas escrevem ou entrando em sites de humor.

Sou só mais uma maquininha de decorar fórmulas necessárias para passar no vestibular.

E eu estou cansada de viver minha vida em função de vestibular, e de ler livros em função do vestibular, e de estudar em função do vestibular, e ler notícias de jornal em função do vestibular. Minha vida NÃO É o vestibular. Eu EXISTO. Eu PENSO e não aguento mais submeter minha vida a um sistema de seleção tão furado e atrasado como o vestibular.

E eu estava atrasada para minha adorável aula de redação. Para o vestibular.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A Náusea

Tema: Liberdade do ser e liberdade de ser: a responsabilidade de fazer escolhas


       Solidão, escolha e liberdade formam um dos tripés da existência. O homem percebe-se solitário ao dar-se conta de que deve fazer suas escolhas sozinho, justamente por ter liberdade de fazê-lo, e esse processo de percepção e de escolha gera sofrimento. A liberdade é angustiante.
     Para Sartre, o homem está condenado a ser livre - e nós o somos, forçosamente, mesmo que essa liberdade seja um tanto limitada por nosso momento histórico, por nosso meio e por nossa cultura. Isso devido ao fato de não nascermos prontos, com a essência definida (pois se isso fosse verdade, não teríamos responsabilidade por nossos atos). Ou seja, a existência precede a essência: primeiro vivemos para depois nos constituirmos como seres. Assim, nossas escolhas, e suas consequências, são nossa responsabilidade, justamente por termos tido a liberdade (novamente, mesmo que limitada) ao fazê-las - e isso proporciona a angústia, ou a náusea, como descreve em seu livro homônimo aquele existencialista.
     Se temos liberdade de escolha, deparamo-nos com a angústia de fazê-la. O processo incomoda não pela escolha em si, mas por suas consequências. Um exemplo disso é a opção pelo curso e pela faculdade: os jovens que, indecisos, escolhem suas carreiras orientados pelos testes vocacionais, podem culpar tais testes caso ocorra decepção pessoal.
     A liberdade do ser, além de levar à liberdade de escolha, também nos dá a liberdade de ser (o que quisermos). Porém, a nossa liberdade encontra uma barreira quando nos deparamos com o fato de que o outro também a possui - assim, se somos livres para, por exemplo, vestirmo-nos a nosso gosto, o outro também é livre para condenar nossas atitudes. Esse choque de ideias, intrínseco à vida em sociedade, gera angústia, porque temos a consciência de que ele é fruto da escolha que foi tomada por nós em primeiro lugar (de se ser o que se quer).
     Em suma: a liberdade do ser gera ambas, a liberdade de escolha e a liberdade de ser. As últimas são angustiantes por nos fazerem encarar as responsabilidades e as consequências de nossos atos e por nos mostrarem que somos quem comanda nossas vidas. Mas a liberdade é angustiante, principalmente, pelo fato de nos mostrar que estamos sozinhos em nossas escolhas - condenados à náusea filha da liberdade.

quinta-feira, 29 de março de 2012

meu vocabulário, meu limite

Mais uma dissertação que escrevi, desta vez para a Criar. O tema era "a leitura e a escrita engrandecem a alma".

         O poder da leitura é inquestionável: ela pode ser tanto manipuladora quanto enriquecedora; pode tanto iluminar quanto confundir. Mas, em quaisquer aspectos, a leitura e a escrita são agentes transformadores da nossa forma de pensar - e, quando usadas com o devido senso crítico, facilitam o processo de entendimento da realidade.
        O processo começa com a leitura - nela, é adquirido conhecimento de palavras que dão nome a tudo: ideias, sentimentos, estados e assim por diante. Diante desse conhecimento, o indivíduo faz paralelos com sua própria vivência, e passa a compreender melhor sua realidade, tanto psicológica quanto social e ideologicamente.
        Essa maior compreensão aumenta a variedade de recursos internos do indivíduo, ou seja, ele aprende a lidar melhor com diferentes situações simplesmente por entendê-las. Além disso, o ato de saber dar nomes a ideias e sentimentos, além de ser reconfortante, também melhora a própria capacidade de expressão do indivíduo, tanto na escrita quanto na fala. Ou seja, um vocabulário rico facilita a expressão, o que exige como seu precedente a própria reflexão. Logo, ao melhorar-se a capacidade de expressão, incentiva-se à reflexão.
         Então a linguagem é o caminho para a própria reflexão. Se não existe uma palavra para definir uma ideia, não será possível refletir sobre ela, ou seja, o vocabulário define o alcance do pensamento, como disse Wittgenstein. Muitos outros autores já trabalharam com essa ideia, como George Orwell. Em seu livro 1984, a ideia de criar uma nova língua (intitulada Novafala), com menos substantivos e sinônimos, era justamente de limitar o pensamento dos cidadãos, para que estes não refletissem sobre o sistema em que viviam - o que levaria ao questionamento e à insatisfação, algo que o Estado obviamente não queria.
        Em suma, pode-se dizer que a leitura e a escrita podem ser consideradas processos que engrandecem a alma no sentido de que aumentam nosso entendimento sobre a realidade, facilitando a compreensão de eventos cotidianos e levando-nos a refletir e questionar não só nossos atos, mas também os atos de outrém.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Solidão: perdas ou ganhos?

Este é uma dissertação que fiz na prova de redação do Einstein e é um dos textos meus de que eu mais gostei. Resolvi compartilhá-lo com vocês porque sei lá.

        Solidão é um termo complexo. Para uns, é sinônimo de infelicidade; para outros, é sinônimo de paz e liberdade - para mim, solidão é o estado indescritível de se estar solitário mas não sozinho, e de não aguentar mais ouvir os próprios pensamentos e necessitar dos pensamentos de outra pessoa. Solidão é ser, e esse estado traz inúmeras consequências para a (sobre)vivência do homem em sociedade. Solidão. Sobre o que ela fala mais alto: perdas ou ganhos?
       "O homem é um ser social". Esse aforismo contém a verdade por trás de todas as necessidades não-fisiológicas do homem. Logo, se há a necessidade de se estar em estado de socialização, a solidão é uma barreira para a felicidade. Se reclusão constante e ausência de qualquer relação afetiva - ou seja, se a misantropia fizesse o homem mais feliz, a solidão seria um ganho, e não existiriam famílias nem amizades, nem os próprios conceitos de amor e afeto, o que prova que a vivência em sociedade é inerente ao homem. A solidão, assim, seria uma perda para o homem, uma negação de sua própria natureza.
         Por outro lado, há indivíduos que encontram na solidão conforto e estabilidade - indivíduos que não se encaixam no meio ou no momento histórico em que se encontram, e que consideram a solidão como um ganho: pois é na solidão que se pode ser livre. Tomemos como exemplo Harry Heller, de Lobo da Estepe (Hermann Hesse), que constantemente encontra-se na dualidade homem x lobo - o que dificulta a convivência - e que encontra a paz (uma paz relativa) na solidão.
          Ainda falando de liberdade: "o homem está condenado a ser livre". A liberdade, então é uma libertação e ao mesmo tempo um aprisionamento, assim como a solidão. Nesse caso, a solidão seria ambos: perda e ganho - pois o homem quer ser livre, mas a sua liberdade acaba quando ele se sujeita a regras de convivência social. O que a solidão permite (a liberdade e, portanto - em termos - a felicidade) a socialização oferece (a felicidade).
       Levando em consideração os parágrafos anteriores e seus aforismos, pode-se concluir que a solidão, justamente por ser uma questão tão humana, é absolutamente antagônica, ou seja, traz tanto perdas quanto ganhos. "O homem é um ser social", "o homem está condenado a ser livre" e acrescento "é impossível ser feliz sozinho": qual das três frases fala mais alto, afinal? Nenhuma. A perda não anula o ganho e vice-versa, e o homem deve aprender a driblar essa dualidade tão intrínseca de sua própria natureza.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

loucura

- Ô Felipe...
- Que é?
- O que é ser louco?
- Que pergunta é essa, Lúcia? Louco é louco, ué. É quem não bate bem da cabeça.
- Tá, mas... o que é "não bater bem da cabeça"?
- Ah, menina, sei lá... é quando a pessoa acha que vive num mundo em que ela não vive. Ela vive uma realidade alternativa, que ela mesma montou.
- Mas então ela não sabe que ela é louca.
- É, acho que não.
- Então você pode muito bem ser louco, porque você não se considera louco.
- Ah Lucinha, não é tão simples assim...
- Como não? Se eu quiser ser Édith Piaf, eu vou colocar um vestido preto e vou ser feliz assim. E vou acreditar que sou uma cantora francesa. E você não vai acreditar nem mim, mas quem é você pra dizer que eu NÃO sou Édith Piaf?
- Mas...
- Se o cara que você diz que é louco está feliz, então por que ele é chamado de louco? Loucura não é saber que se é infeliz e continuar insistindo nisso? Não querer mudar de vida e conformar-se com a realidade em que se vive?
- Ah Lucinha, você tá pensando muito filosoficamente pro meu gosto...
- Pensa bem, Fê! Se vivemos em duas realidades diferentes, como eu posso opinar na sua? Quero dizer, é lógico que sua realidade vai parecer errada pra mim, e vice-versa, mas... entende?
- É, sabe, acho que faz sentido... são formas diferentes de se ver o mundo...
- Na minha opinião, louco é aquele que se sujeita à realidade dos outros e que não vive a realidade em que acredita viver. Entende?
- Mas então, Lucinha, como é possível viver em sintonia com qualquer pessoa?
- Enxergando e aceitando a loucura um do outro... mas principalmente, inserindo o outro na sua própria realidade...
- Certo... mas como é possível definir loucura sem se definir a razão? É possível uma pessoa ser inteiramente louca?
- Não, eu vejo a coisa de forma Machadiana... de que as pessoas têm um núcleo de loucura... alguns são maiores, outros menores. Então todos temos nossos momentos de... sanidade, por assim dizer, e é o que nos permite viver em sociedade. Expressamos nossa loucura quando fazemos o que queremos fazer.
- Lucinha...
- Que foi?
- Você tá muito louca.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Day 5 — Your dreams

Oi, sonhos.
Vocês me dão muito trabalho, sabe... vocês vão longe, longe demais, tão longe a ponto de eu perdê-los de vista e desistir pra sempre de reencontrá-los... eu só queria que vocês se definissem, que ficassem aqui perto de mim e perto do chão, e que parassem de mudar tanto de tonalidade e intensidade. É difícil escolher o que eu quero pra mim, pra minha vida e pra minha carreira se vocês não se definem também, entendem.
É claro que o que eu mais queria era poder seguir todos, mas alguns de vocês estão tão altos que minhas tentativas de segui-los acabaria na cena ridícula de uma menina sonsa pulando em vão pra tentar alcançar algo que só se distancia dela. Miserável. Então, olhem, eu fico realmente triste e ter de lhes dizer isso, mas eu só posso ficar com um por vez; o resto de vocês deverá ficar numa prateleira, quietos, até que eu tenha capacidade e força suficientes para realizá-los. Eu sei, isso é triste, e eu, de todas as pessoas no mundo, sou a que mais quer realizar todos de uma vez, conseguir tudo de uma vez, com certo prazo, aliás. Mas era preciso - é preciso - tomar uma boa dose de Realidade de vez em quando (não sempre, não todos os dias, pois corre-se o risco de a vida se tornar chata, monótona e insuportável).
Alguns de vocês foram abandonados há tempos, alguns são novos, alguns nasceram num dia e morreram no dia seguinte, e são poucos que sobreviveram/resistiram a todos os tipos de provações e decepções que eu já vivi. Alguns de vocês são extremamente realistas, alguns são vergonhosamente materialistas, alguns são ridiculamente adolescentes e alguns são tão corajosos e ambiciosos que fazem-me refletir de onde eles saíram. Alguns de vocês são expectativas e planos que moldam uma futura Bruna, um futuro marido, uma futura família, uma futura casa, um futuro emprego... e alguns de vocês vão mais longe e querem que eu entre para a história, de alguma forma (boa)...
Mas o que eu realmente quero dizer é: obrigada por existirem. Obrigada por darem sentido à minha existência; sem vocês eu provavelmente estaria num poço de descrença e melancolia. Por mais que alguns de vocês me façam perceber o quão insignificante eu sou na esfera macro - mundial -, outros me mostram que a esfera micro também merece atenção, e que toda contribuição para a melhoria dessa esfera é válida. Muitos de vocês me fizeram questionar acerca dos meus valores e da minha  moral; e alguns dos meus momentos de maior amadurecimento são quando eu tenho de repensar meus sonhos e metas.
Novamente, obrigada. De verdade. E por favor, não me abandonem nunca, pois vocês fazem grande parte de quem eu sou.
Bruna.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Day 27 — The friendliest person you knew for only one day

Não sei como começar esta carta. Eu nem sei o seu nome.
Não sei o seu nome, não sei onde você nasceu, o nome dos seus pais, se você tem irmãos, se você já voltou para o Brasil, se sua vida deu certo, se você está feliz ou se você sequer lembra de mim.
Só sei que nosso encontro certamente me marcou. E olha que foi uma grande coincidência, pois eu não devia ter sentado do seu lado, mas como eu não tinha onde sentar, colocaram-me lá. E tudo bem que grande parte da viagem nós nos ignoramos, mas ao ver aquele aviãozinho se aproximando do continente na tela - e você cedendo aos meus pedidos e finalmente abrindo a janelinha - acho que uma luz de animação se acendeu tanto dentro de mim quanto dentro de você.
Lembro-me que você devia ter entre vinte e cinco e trinta anos, e que ia para Londres a trabalho e estudo, ficar seis meses. Lembro-me muito bem do brilho fugaz nos seus olhos que traduzia o medo, a excitação, a ansiedade e o terror de estar vivenciando aquilo. Você me disse que nunca tinha ido a Londres e que nunca tinha tido a oportunidade de conversar em inglês com ninguém, mas que a vida era assim, ter de encarar as experiências com os olhos e ouvidos atentos e o coração e a mente abertos.
Lembro-me de quando você abriu a janelinha e ficou olhando lá para baixo. Após alguns momentos de intensa observação, você virou e me disse "lindo, né?". E esse "lindo, né?" deve ter sido um dos únicos "lindo, né?" sinceros que eu já ouvi na minha vida, porque dava pra sentir na sua voz que você realmente estava maravilhado, deslumbrado por aquela imensidão de mar e costa, que aquilo era realmente novo e que você estava realmente aproveitando a viagem em que você ia embarcar e que nem tinha começado ainda. Pois esse "lindo, né?" não é um "lindo, né?" que se fala quando se vê um sapato bonito, ou óculos de sol bonito, ou um rapaz bonito; é um "lindo, né?" que se diz quando não se consegue achar outras palavras pra expressar o que se está sentindo então recorre-se para frases populares e encarrega-se a voz de dar todo o sentimentalismo contido naquilo. A voz, o olhar, e a respiração contida antes de dizê-lo. Devo dizer, até aquele momento eu não tinha tido um momento "lindo, né?", mas passei a tê-los frequentemente. Passei a admirar mais a beleza das coisas e a dar mais valor para o que eu tinha e tenho. Afinal, eu estava indo para a Inglaterra pela primeira vez com 15 anos, e aquele moço só conseguiu fazê-lo depois de formado e estando trabalhando.
O avião pousou. Todos começaram a se levantar para pegar suas bagagens de mão. Você me ajudou a pegar a minha (que por sinal devia estar no limite de peso) e quando fomos liberados a sair do avião, olhei para você e disse sinceramente "boa estadia, espero que tudo dê certo", e você respondeu "boa viagem, aproveite".
E a última vez que eu o vi foi andando de um lado para o outro no aeroporto olhando freneticamente para seu celular, e quando estava no avião para voltar para o Brasil me peguei pensando onde você estava naquele momento.
Querido estranho, obrigada pelas 12 horas de vôo que passamos juntos e por me fazer rever meus valores do que é lindo e do que precisa ser realmente valorizado. Acho que o mundo ficou mais bonito depois do seu comentário a respeito da costa de Portugal e do mar. Não tenho palavras para lhe agradecer suficientemente, pois se teve algo que tornou minha estadia em Swanage inesquecível foi o fato de eu ter parado para apreciar o pôr-do-sol de cada dia e o mar indo e voltando. E todo dia eu me pegava pensando "lindo, né?".
Com carinho, 
A menina que sentou ao seu lado  no vôo de ida para Londres no começo de Julho de 2010.

domingo, 1 de janeiro de 2012

day 30: your reflection in the mirror

Como posso começar?

Cara Bruna,

  Eu tenho muitas coisas para falar-lhe. Não sei por qual começar. Primeiramente, da última vez que a vi você parecia tão abatida, tão desesperançosa, que com muito esforço contive meu ímpeto de abraçá-la. Eu perguntaria o que aconteceu, mas sei que você simplesmente responderia "a vida; a vida é que aconteceu".
  Sei que temos muitos assuntos mal-resolvidos, grande parte de nossos problemas caíram em oblívio, o que permaneceu foi aquele sorriso forçado e a frase dita em um semi-sussurro "está tudo bem". Sei bem que você - assim como eu - é uma criatura absurdamente obstinada, soberba, mas isso tem limite. Veja, todos temos problemas e é perfeitamente aceitável - e saudável - assumi-los e tomar uma atitude para resolvê-los.       Sim, eu sei que seria infinitamente mais fácil esconder-se por trás de uma máscara sociofóbica e antissocial, mas no fundo você é uma alma em agonia desmanchando-se no frio suplicando para que alguém a cubra com seu cobertor de afeto e atenção. Também sei que é mais fácil colocar a culpa na sociedade, nos valores sujos e corrompidos, no vazio niilista e por vezes dadaísta presente nas pessoas, no sistema massacrante capitalista, na mídia e no Jornal Nacional que desinforma... mas este é o comportamento padrão do ser humano: não admitir seus erros e colocar a culpa em outro alguém. Você acha que age muito diferentemente? Pois não age. Em vez de encarar a dor da difícil tentativa (pois ela pode levar a uma mais dolorosa ainda rejeição), você se esconde na conveniente indiferença. O quão patético é isso, Bruna?!
  Olha, perdão. Eu sei que não sou a pessoa mais amável do mundo, também tenho minhas preguiças sociais, também tenho alergia a futilidade e a ignorância, mas pra isso existe homeopatia. A homeopatia da internet, da psicoterapia, dos professores. Algumas horas com um desses pode servir de tratamento por até uma semana, acredite. E quanto ao borbulhar de ideias acontecendo na sua cabecinha e que você insiste em condensar e negar... deixe-o evaporar. Deixe-o borbulhar, esparramar-se no chão. É uma ótima prevenção contra o inevitável enlouquecimento. Eu tenho dó de você, mas não um dó ruim e sarcástico - um dó sincero, daqueles que fazem todo o ar sair dos seus pulmões só de você pensar no sofrimento da pessoa. E eu realmente quero que você melhore, que você mude, que você consiga tornar esse 2012 pelo menos um pouco melhor do que os dois anos que passaram, porque olha... dentre todas as pessoas que eu conheço, você é uma das poucas que merece, que realmente merece pelo menos um vislumbre do que significa ser feliz. E não digo isso porque, bem, você é meu reflexo, mas porque eu sei de tudo por que você passou, o quanto você é forte, e, bem, isso fez-me gostar bastante de você. Ao mesmo tempo que a acho incrivelmente estúpida, miserável e infeliz por você ser uma peça de quebra-cabeça que não sei encaixa em lugar nenhum, admiro-a justamente por isso.
  Então, enfim...
  Por favor. Mais surrealismo e menos barroco na sua vida.
Com todo o respeito,
Bruna S.F.