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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

a essência

Todos os livros, toda a poesia lida de 400 anos atrás, toda a música apreciada de um artista de rua, toda construção admirada, todo céu contemplado, toda organização valorizada; tudo isso; tudo isso foi feito com a finalidade de dar algum sentido a essa minha efêmera e sofrida existência.
Os dias toleráveis, medíocres e medianamente agradáveis só faziam adormecer a minha essência. Minha ideologia: antes tão séssil, então extremamente estéril. A necessidade de colocar a cabeça para funcionar, de refletir, de ler os clássicos, de duvidar de alguma teoria, de sentir-me vivo e plenamente útil só faz com que eu me repugne ainda mais nos dias burguesmente comuns!
Odeio-me, odeio-me por não ser capaz de viver um dia de paz, de descanso e de inutilidade.
Os homens não se atrevem a nadar enquanto não o sabem. Eu, eu já estou prestes a me afogar num mar de teorias e revoluções esquerdistas! Prestes a me afogar numa maré de mediocridade, de choques culturais, de discordância e de assim-chamadas músicas modernas!
Mas ah!, a vida burguesa! Como é desvalorizada! Toda a rotina, a calmaria, o planejamento e a ignorância. Quisera eu não ter nascido com este ímpeto, com esta inanição de justificativas e explicações.
Ignorância. A ignorância tão melíflua.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

carta suicida

Não estava chovendo, não estava nublado, o ambiente não estava denso por causa de um clima triste. Não havia nenhuma gota de álcool em volta dele, muito menos drogas, muito menos remédios para dormir. Nada que pudesse justificar tal atitude.
Na verdade, o dia era definitivamente muito bonito, claro e ensolarado, quente, aconchegante, um perfeito fim de tarde de primavera com cheiro de baunilha. A hora do dia era aquele momento entre o crepúsculo e o fim da tarde; quando o sol está lá no horizonte e a cor do céu fica indefinida por um dégradé do azul quase preto para o verde.
Quando encontraram-no já era tarde, estava inconsciente e seus lábios estavam azuis. Uma carta foi encontrada.
A carta foi publicada num jornal nacional no dia seguinte à morte.

"A todos e qualquer um que se importe, de alguma forma, ao ponto de ler esta carta.
Eu não ligo se a minha morte entristeceu-te, alegrou-te ou enraiveceu-te. O importante é que você foi afetado. A minha vida inteira tentei afetar as pessoas, e seria uma ironia se só em morte eu conseguisse, de fato.
A questão é que senti que minha batalha foi perdida em algum momento de fraqueza... tantas pessoas me dizendo o que e como fazer chegou a me tresloucar, eu estava sendo mais afetado do que estava afetando as pessoas, entende, caro leitor?
A causa da minha morte é simples. Trancarei-me na garagem e inalarei monóxido de carbono. Entende? O monóxido aos poucos me envenenará, me tomará por completo, assim como o veneno da minha infelicidade e insatisfação. Não busquei refúgio em drogas, pois sei que o cigarro e os alucinantes seriam uma saída finita. Não busquei substituir água por álcool, pois morrer aos poucos por causa de uma cirrose não seria agradável. Escolhi uma tarde simples e perfeita, uma tarde que não me faria mudar de ideia, uma tarde que não me faria sentar numa varanda e pensar sobre como sou (fui?) miserável.
A questão, novamente, é que fiquei louco depois de começar a trabalhar no jornal. Sim, faz anos, e sim, eu dizia a todos que estava feliz, mas é óbvio, devido às circunstâncias atuais, que era uma mentira. Poder finalmente dizer minhas ideias sem me esconder foi ótimo, mas as críticas me corroíam e me faziam perder minha fé nas outras pessoas. Diziam-me para escrever sobre atualidades, ninguém quer saber sobre o fascismo, as pessoas querem saber das novelas e das celebridades... como se tudo que acontece hoje não dependesse do que aconteceu anos atrás. Novamente digo, perdi a fé nas pessoas. Estavam, aliás, são tão ocupadas em criticar, em não refletir e em vituperar tudo que não vai de acordo com seus valores superficiais que até olhavam para meus textos, mas não os liam. As pessoas são tão ocupadas em provar que elas mesmas estão certas que agem da forma errada.
Veja bem, amigo ou amiga, ignorância é uma bênção, de fato. Mas a ignorância pura, como a das crianças. A partir da adolescência não é possível encontrar indivíduos ignorantes. Todos são espertos, mas tão espertos que sabem que a alienação é o caminho mais fácil e indolor. E por eu não ter escolhido esse caminho, bem, cá estou, frio e inconsciente. Eu, finalmente, inconsciente! Ah, as ironias da vida... ou da morte.
Eu sei que você, leitor, lerá esta carta, olhará para o horizonte, balançará a cabeça e refletirá por alguns instantes. Mas depois sua vida vai voltar ao normal e seu pensamento nunca mais retornará à minha morte, pois é isso que as pessoas fazem.
Mas eu não estou escrevendo isso por você. Eu faço isso por eles, aqueles jovens que estão prestes a percorrer o mesmo caminho que eu percorri. É nesses jovens que a minha nova esperança instalou-se. E o meu conselho é: vendam-se. Vendam-se bastante. E quando estiverem totalmente comercializados, quebrem toda essa hipocrisia e mediocridade, chacoalhem a cabeça das pessoas, essas pessoas que um dia foram suas fãs. Afetem quem quer ser afetado, e acreditem, eles vão querer ser afetados por uma celebridade. Vão ao talkshow da Oprah, dêem-lhes o que eles querem, depois mostrem o quão estúpido superficial é o que eles querem. Afetem esses seres. E, por obséquio, realizem esse pequeno desejo desse cadáver putrefato: usem a minha morte para afetar as pessoas em vida.
À sociedade o que é da sociedade. Minha breve existência e último suspiro"

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

sobre uma sociedade (i)moral

Certo. Estava eu a estudar filosofia, quando me deparo com alguns conceitos um tanto interessantes.

"Sujeito moral é aquele que é consciente; dotado de vontade e autonomia; responsável e livre."
"Ter consciência moral é ter capacidade de escolher, ter autonomia, questionar valores e pensar antes de agir. Agir com integridade. Implica em entendermos nossas ações como intencionais e voluntárias; sermos responsáveis por nossas escolhas. Integridade é a coerência entre nossos valores e nosso comportamento."

Eu particularmente adorei o conceito de integridade dado no livro. Mas enfim.
Se ter consciência moral implica em questionar valores, e não aceitar sem refletir o que nos é dado, dito, e apresentado; então a mídia e a televisão seriam os maiores criadores de seres imorais do mundo. O J.N. apenas vomita as informações em nossos ouvidos, e, sem nos dar tempo para refletir (as reportagens mais importantes não têm comerciais logo depois), mudam de reportagem, para algo menos sério ou importante. Todos aceitam as verdades ditas pelo Bonner como universais. Ninguém desenvolve sua consciência moral.
Se ter consciência moral implica em entendermos nossas ações como intencionais e voluntárias; por um lado não poderíamos culpar a mídia ou o J.N. pela alienação das pessoas, pois existem meios de se conseguir algo mais próximo da verdade. Qualquer um pode assistir a mesma reportagem por vários lados diferentes, seja assistindo a outro jornal, seja lendo na internet. Se o sujeito hipoteticamente diz "eu sou alienado por culpa do J.N." (sim, hipoteticamente, pois ninguém sabe quando é alienado), ele estará sendo imoral? Eu acho que sim. Ele não é alienado por fatores externos, e sim por uma escolha dele. Hoje todos têm acesso a toda a informação do mundo. Ele escolheu assistir ao jornal e ser alienado, ele escolheu não se informar sobre o assunto. É responsabilidade dele. Ele age assim intencionalmente e voluntariamente.

Se ter consciência moral implica em agir com integridade...
Essa parte, para mim, é a mais difícil. Retomando o conceito: "Integridade é a coerência entre NOSSOS valores e NOSSO comportamento". Logo, integridade está diretamente relacionada a nossa autonomia, que Kant contrapõe à heteronomia - que é o indivíduo estar sujeito à vontade de terceiros ou de uma coletividade.
Já deu pra entender a que ponto eu quero chegar?
Resumindo todo o meu ponto de vista, digo que a nossa cidade não é autônoma. É heterônoma.
Posso contar nos dedos as pessoas que agem com autonomia, integridade, e que não se deixam levar por vontades ou imposições de terceiros (sejam eles os amigos, a mííííídia - adoro falar mal da mídia - ou quaisquer outros).
Se ser moral implica em agir com integridade que implica em ser autônomo...
A maioria das pessoas que eu conheço age com heteronomia, o contrário de autonomia; logo, essas pessoas estariam agindo imoralmente. É lógica. Aristotélica, aliás.

É... dá bastante trabalho pensar.

quarta-feira, 31 de março de 2010

carta aos robôs

Eu realmente te adoro. Adoro sua futilidade, adoro sua incapacidade de percepção do mundo de hoje, adoro a sua capacidade obtusa pra reconhecer a sua insignificância, adoro as coisas aculturadas que você lê, adoro os lugares com cheiro de vômito a que você vai, adoro as pessoas acéfalas com quem você fica, adoro as músicas mastigadas que você ouve, adoro sua falta de objetivos e desejos, adoro sua falta de admiração por sucesso profissional, adoro seu desprezo por notas altas, adoro seu desejo de ser como todos os outros, adoro seu conformismo, adoro o modo como você me olha como se eu fosse de outra galáxia, adoro sua roupa uniformizada, adoro a forma como você segue a moda, adoro como você aceita tudo o que te é dito e que te soa agradável como verdade absoluta.

É em pessoas como você, caro ser praticamente abiótico, que eu encontro forças pra nadar contra a corrente, pra me superar, estudar, não ter medo de ser eu mesma, pesquisar, me informar, desenvolver habilidades extra-curriculares, preocupar-me com meu futuro, não preocupar-me com o que os outros pensam. Afinal, por que razão eu deveria me preocupar com robôs uniformizados e sistematicamente programados pra repelir conteúdos diferentes? Seria um ato de extremo rebaixamento eu me sistemalizar, burguesalizar, modernizar, chame como quiser.

Dessistemalize-se.

sexta-feira, 5 de março de 2010

adolescentes.

Fiquei muito tempo escrevendo só contos aqui. Agora um texto de opinião de verdade.
(texto extremamente crítico. Se você ouve powerpop ou lê crepúsculo, nem leia)

Quando eu era menor, mais ou menos uma década atrás, eu via os adolescentes (jovens de 15 ou 16 anos) e sentia medo deles. As roupas, a música, os tênis, o jeito de falar, a rebeldia. Uma década atrás, adolescentes ainda tinham fama de revoltados, teimosos e cabeça-dura. No filme "A Pequena Sereia", o siri Sebastião, em certo momento, fala: "Adolescentes. Pensam que sabem de tudo". Não estou mentindo.

E o estilo, as músicas? Atualmente, os adolescentes usam roupas coloridas. Calças coloridas, BEM coloridas. Até as músicas são coloridas! Esse negócio que surgiu agora, "powerpop", que raios de música é isso? Aliás, é música? Música pra mim é aquilo que vem de um instrumento. Acho que agora computadores estão substituindo por completo os instrumentos. Trinta anos atrás, os adolescentes criavam o punk, o screamo. Criavam o grunge. Os mesmos adolescentes que berravam junto com Serj Tankian ou repetiam cada palavra do Zack de la Rocha hoje, no máximo, acompanham os 'tututu' das músicas que escutam.

E a preguiça de pensar? E a despreocupação com o futuro? Antigamente, quem era inteligente ou demonstrava ter um pouco a mais de cultura era invejado. Hoje é xingado. Alguém pode me explicar isso? Desde quando inteligência virou uma coisa ruim? Certo filósofo uma vez disse "Existe apenas um bem, o conhecimento, e um mal, a ignorância". Aparentemente hoje a frase se inverteu. Qualquer verdade é aceita. Qualquer fato visto em novela ou filme é automaticamente interpretado como ponto pacífico, e não existe dentro dos adolescentes hoje a vontade de pesquisar, de saber mais, de contestar, seja por curiosidade, seja por teimosia.

E os filmes? Nada além de romances água-com-açúcar (ou sangue, no caso de crepúsculo). Nada existencial. Nada realmente adolescente. Adolescência é uma fase de transição, de medos, de inseguranças, de formação da sua personalidade, da sua integridade e valores. Da sua formação como indivíduo. Seguindo esse raciocínio, os personagens de filmes como High School Musical e Twilight são crianças. Tudo bem que hoje não se fabricam filmes sérios voltados para adolescentes - a maioria é voltada para o público adulto. Mas isso não impede os adolescentes de procurarem por filmes mais interessantes, certo? Porém, creio que se alguém falar que viu um filme chamado "A Insustentável Leveza do Ser" ele nunca mais fará amigos.

Tendo isso como base, digo meu apelo: que volte a rebeldia adolescente. Sinto falta de outros rebeldes. Anarquistas. Teimosos e donos da verdade!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

crônica - final

APESAR de ter decidido ir à psicóloga, acabei não realizando meus planos. Minha mente tem estado muito conturbada. Eu precisava esvaziá-la de alguma forma. Então comecei a escrever um tipo de um diário. Nele eu escrevia devaneios, reflexões, idéias, dúvidas e crises. Foi realmente bem útil pra tentar colocar minha cabeça no lugar, mas acho que já era tarde demais pra isso.

Comecei a me dar conta de que eu estava ouvindo vozes demais. Vozes na minha cabeça, diferentes pontos de vista. Vozes que se pareciam com os repórteres da televisão, que me jogavam informações, números de mortes, acontecimentos, tragédias, estatísticas. Vozes que me diziam o que pensar. E aqueles repórteres, os malditos repórteres! Estavam comigo em todo lugar! Comecei a me dar conta de que eu estava enlouquecendo.

Comecei a me dar conta de que eu estava ficando paranóico. Cada tilintar de pratos ou garfos era motivo pra me estressar, cada voz que não fosse a dos repórteres me dava dor de cabeça, cada novo problema que não fossem os noticiados na televisão me deixavam doente. Passei a não dar conta dos meus problemas pessoais. Passei a escutar mais aquelas vozes do que a minha própria consciência.

Então decidi fazer alguma coisa a respeito. Resolvi me desintoxicar da sociedade. Pois toda essa confusão, as vozes, as tão mencionadas vozes!, os problemas... tudo estava me consumindo, me desvirtuando, me corrompendo. Me enlouquecendo. Fiquei irracional. A sociedade me irracionalizou. Isso é um verbo? Deveria ser. Irracionalmente, me desfiz de toda essa irracionalidade...

Interprete como quiser.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

crônica - parte 2

O pôr-do-sol pode significar muitas coisas diferentes. E cada pessoa pode observar o pôr-do-sol de várias maneiras diferentes também, dependendo da fase pela qual está passando na sua vida. Se sua vida estiver triste, a pessoa vai encarar o pôr-do-sol como azulado e detestar o fato de que dali algumas horas mais um dia se arrastaria diante de seus olhos e mãos. Se sua vida estiver feliz, a pessoa vai encarar o pôr-do-sol como amarelado e detestar o fato de que mais um dia se passou sem o total aproveitamento.

Para pessoas que tiveram sua vida por um fio... O pôr-do-sol é sinônimo de vida. A variedade de cores representa uma nova forma de olhar a vida, com seus tons escuros e claros, cores de que não gostamos e cores de que tivemos de aprender a gostar. Um dia se passou. Um novo dia virá. Mais esperançoso que o pôr-do-sol, só o nascer. Um novo início. Um nascimento, ao pé da letra.

Todas essas conclusões chegaram a mim depois de muitas tardes ociosas em que eu estava sem televisão. Me surpreendi muito com o fato de que alguma coisa além da televisão pode nos transmitir idéias e opiniões. De fato, quando paramos pra pensar, nosso cérebro vira uma espécie de televisão: relacionamos imagens com fatos com idéias com opiniões até chegar a uma conclusão. Enfim.

Eu me sentia especialmente insignificante naquela tarde por causa de acontecimentos que vinham me abalando há tempos. Segunda-feira: comecei a contar o número de mortes que um jornal de meia hora anunciava. Terça-feira: aquele homem que vive aqui em casa e que vai a todo lugar que eu vou disse que eu deveria repensar meus conceitos de tristeza e felicidade. Quarta-feira: aquela criança que também está sempre em todo lugar disse que eu não devia me preocupar tanto com o que pensam os ouros. Quinta-feira: decidi ir a uma psicóloga.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Folha de São Paulo

11/05/1985

Foi encontrada ontem morta em seu apartamento a dona-de-casa Valentina Pires. Ela esteve presente em várias revoltas contra a ditadura quando mais jovem, e era uma das pessoas mais procuradas pelo antigo DOPS. Valentina fez parte de um dos MNR (Movimentos Nacionalistas Revolucionários) aqui da capital de 1965 até 1971, segundo relatos de seu diário (encontrado em cima do criado-mudo em seu apartamento), organizando revoltas, capturando policiais, orientando outras pessoas sobre a ditadura e divulgando os horrores que o DOPS fazia com seus presos políticos. Era conhecida como Maria.

A causa da morte foi envenenamento (o veneno ainda não foi divulgado), e ao lado de seu corpo foi encontrado um bilhete: "Enfim, a ditadura conseguiu me envenenar por completo. Não posso viver com ela, não posso viver sem ela.". Em seu diário, ela expressava sua necessidade por uma revolução e seu gosto por passeatas e revoltas, e quando a ditadura teve seu fim convicto, em suas palavras, "Minha vida toda eu lutei contra a ditadura, o controle de idéias e a restrição de ações. Agora que a ditadura acabou, o que eu vou fazer?".

Apesar de que agora o que mais se encontra é gente morta em esquinas, apartamentos, casas e estradas, essa morte pareceu afetar profundamente os nervos de antigos militares, principalmente com a divulgação confirmada de seu diário, que, como não tem título definido pela autora, será chamado "o Diário de Maria".

Lembramos que qualquer relação com "O Diário de Anne Frank" é pura coincidência.

- FIM -

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Dibs - continuação

Muito me questiono a respeito da minha certeza em relação a quem sou eu, e se alguma vez eu já me traí. Muitas vezes me pego pensando se nao seria mais fácil e vantajoso se eu seguisse outro caminho, contrário ao que eu penso. Outras tantas vezes eu me surpreendo pensando "mas, afinal, se eu estou considerando a hipótese de me trair, então eu estou mesmo sendo eu?, eu estou sendo verídica?, isso não mostra que tenho mais de uma face?".

Dibs, no livro, referia-se a si mesmo na terceira pessoa. Isso pode significar muitas coisas, mas, entre elas, isso transmitia o fato de ele não ter uma identidade consolidada, a ponto de não ter segurança o suficiente para falar de si mesmo na primeira pessoa. Ele transmite o que está sentindo, o que vai fazer e o que está pensando na terceira pessoa. Loucura? Não.

Pessoalmente, acho que Dibs estava apenas verbalizando o que se passava em sua cabeça. A confusão em relação à sua identidade principalmente. Afinal, quem nunca parou na frente do espelho e se cumprimentou, como se o reflexo fosse alguém diferente? Suponho que seja normal se questionar e se sentir confuso quando se trata do próprio caráter, porque o caráter é algo que está constantemente sendo construído e aperfeiçoado. Veja bem, não MUDADO - quando você constrói e aperfeiçoa algo, as bases não mudam.

O jeito de Dibs era bruto e irredutível. Com o passar do tempo, ele foi lapidando seu caráter e se adaptando ao mundo em que vivemos - porque, por mais diferenciado que você seja, você ainda mora no planeta Terra. (Sorte ou azar, um dia temos de aprender a conviver com nossos - biologicamente - semelhantes)

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Estupidez

Faz alguns dias que eu comecei a ler "Como me tornei Estúpido". Eu não achava que ia gostar tanto e me interessar tanto sobre o livro, mas tenho refletido bastante sobre as coisas lá escritas.
O protagonista se cham Antoine, e seu grande "problema", na visão dele, é que ele é inteligente, e por isso não se encaixa de forma alguma na sociedade. Ele está cansado de ser infeliz, então resolve tomar uma atitude: se tornar estúpido.
Sim. Se tornar estúpido. E essa atitude, olhando pelo lado de Antoine, não é nada estúpida. Pessoas estúpidas existem em abundância na sociedade. Já pessoas inteligentes e cultas são muito difíceis de serem encontradas.
Por exemplo; a primeira tentativa de Antoine é: se tornar alcoólatra. Pois alcoólatras são compreendidos pela sociedade. Eles frequentam grupos de apoio, têm amigos, iguais. Resumindo, eles têm um lugar na sociedade.

Antoine acha que ser inteligente é um problema. As pessoas o invejam e têm raiva dele por ele possuir um cérebro mais desenvolvido. Ele vive triste, mas não consegue identificar o problema. Por isso resolve se tornar estúpido. Um alcoólatra, como já citei, tem problemas com álcool. Um anêmico tem problemas na saúde, e alguém com depressão tem problemas psicológicos - ou seja, o problema é claramente especificado (e tratado, diga-se de passagem).

O livro é recente, retrata a sociedade atual. Mas que sociedade é essa que integra melhor bêbados do que "nerds"? Talvez por inveja? É a razão mais lógica, pois é como dizem por aí: nerd de outrora, rico de agora.