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domingo, 13 de outubro de 2013

...blindness

Love is blindness.

Foi a primeira coisa que veio à mente dela quando abriu a janela do vigésimo quarto andar do hotel. Inspirou o ar gelado da cidade de concreto que, às onze da noite, começava a sentir despertar sua vida alternativa. Engraçado algo despertar na cidade enquanto algo morria dentro dela mesma.
Olhou ao redor, para dentro dos outros prédios. Cenas da vida cotidiana: um casal assistindo ao jornal, um jovem debruçado sobre uma mesa cheia de livros, uma criança sendo posta para dormir por um adulto, uma mulher passando roupa, outro casal brigando aos gritos, um rapaz debruçado na janela também contemplando a cidade. Uma rua os distanciava.
Quando seus olhares se encontraram, sentiu uma faísca de compreensão. Algo como "é, cara... é isso aí", aquela sensação de estar preso, tácito, nas alturas, quando o mundo está lá embaixo, em ebulição.
Mas, afinal, a vida não se resume a isso? A desencontros?

- É lindo, não acha?
- Acho.
Sorriem um para o outro, achando bonito tanto a cena quanto a situação de plena sintonia.
- Eu poderia passar minha vida aqui com você, Marina.


love is clockworks and cold steel
fingers too numb to feel
squeeze the handle, blow out the candle
...blindness.

Deu para si um sorriso tragicômico. Ela já estava velha demais para se comportar feito adolescente. Pessoas vêm e vão, repete para si. Mas o aprendizado fica.
Que aprendizado? Uma vida de cicatrizes é aprendizado? Se ela tivesse aprendido alguma coisa, qualquer coisa, com suas experiências, provavelmente já teria tomado um coquetel de cicuta, garçom, e não pare de servir.
Mas acontece que existe um pequeno vaga-lume dentro dela que continua piscando. Um vaga-lume que faz o favor de acender toda vez que acontece alguma coisa ruim. Um desgraçado de um vaga-lume que é a única coisa que dá pra ser vista no escuro. E ele se chama esperança.

- O que você tem?
- Não sei, Marina.
- Não vai falar comigo?
- Não.

a little death without mourning
no call and no warning
a dangerous idea
that almost makes sense

O rapaz do prédio agora bebia algo que parecia ser cerveja. Quão patético, não? Beber cerveja, fazendo contato visual com uma estranha, quase meia-noite, numa quarta-feira.
Ela pegou uma latinha e fez um brinde mentalmente.
Engraçado como ela sentia que aquele era um momento só deles. Podia haver uma cidade inteira em volta, mas, naquele minuto, só existiam eles, os dois blocos de concreto e a rua separando-os.
E as cervejas.
Eram companheiros de solidão. Porque a vida se resume a isso: desencontros.

- Como assim, cara? Uma semana atrás você dizia que me amava, agora isso?
- Não é assim, Marina. Você que veio com essa história de morar junto, e...
- Como, não é assim? O que você esperava que eu pensasse? Sentisse?
- Você viajou. Sério.

love is drowning in a deep well
all the secrets, and nobody else to tell
take the money, why don't you, honey
...blindness

Ele agora atendia um celular. Saiu da janela. A luz se apagou.
É, Marina, agora só sobrou você. Até o rapaz arrumou algo a fazer.
Que raio de sintonia era essa? Mas que mania de achar que você tem sintonia com todo mundo! Agora o pretendido companheiro de solidão mostrou que companhia tem limite. Porque afinal a vida se resumiu a isso: desencontros e abandonos.
Por que mesmo você foi até a janela, Marina?
Ah, é.

Um vôo de alguns segundos. Solitário. Uma vida de desencontros terminou num encontro com o asfalto duro da avenida Paulista.


sexta-feira, 12 de julho de 2013

Atelofobia

- Muito bem, senhora Ana Regina... agora, última proposta: defina-se em uma palavra.

Nasceu. Foi direto para a incubadora. Passou um tempo, a mãe questionou.
- Não, não está forte o suficiente.
Cresceu. Estava prestes a ser matriculada na escola.
- Não, não temos vagas o suficiente.
Queria brincar.
- Não, você não é normal o suficiente.
Queria andar na montanha-russa.
- Não, você não tem altura o suficiente.
Queria estudar. Queria ler. Queria conhecer.
- Não, você não tem tempo o suficiente.
Queria tentar ser modelo.
- Não, você não tem altura o suficiente.
Queria ser útil.
- Não, você não tem idade o suficiente.
Tentou fazer aula de dança.
- Não, você não tem leveza o suficiente.
Tentou fazer, então, algum esporte.
- Não, você não tem rapidez o suficiente.
Ioga.
- Não, você não tem tranquilidade o suficiente.
Faculdade. Tentou um estágio.
- Não, suas notas não são altas o suficiente.
Tentou, então, reforço.
- Não, suas notas não são baixas o suficiente.
Quis doar sangue.
- Não, seu nível de ferro não é alto o suficiente.
Terapia.
- Você não tem problemas o suficiente.
Paquerar?
- Não gosto de você o suficiente.
Só ficar?
- Você não é mulher o suficiente.
Namorar?
- Você não é o suficiente.
Virar freira.
- Você não tem fé o suficiente.
Ficar pra titia. Literalmente.
- Não, já temos babás o suficiente.
Me escreve uma música?
- Você não me inspira o suficiente.
Queria comprar sorvete.
Não tinha dinheiro o suficiente.

Foi a gota d'água.

Tentou se matar.
- Por sorte, não inalou o monóxido de carbono por tempo suficiente.

Quando saiu do hospital, decidiu seguir vida nova e construir uma carreira.

- Ah, senhor, eu diria que sou... meticulosa.

Conseguiu emprego como crítica literária. Tocava o terror entre os escritores. Sua marca registrada era finalizar a resenha com uma palavra: "insuficiente".

domingo, 24 de julho de 2011

solidão

Vejo-os passando. Ouço-os conversando. Não os julgo, apenas escuto. Não opino. Entendo-os perfeitamente, mas não espero ser compreendida. Faço um comentário ou outro, irônico, e provoco risadas. Tento introduzir-me um pouco mais à conversa, mas parece que fui além do que estava sendo discutido. Recebo uma resposta cortante e me recluso novamente. Quando tempo é necessário observar até se aprender?
Eu não era nova ali, já tinha passado por isso inúmeras vezes, mas devo admitir que nunca vou aprender a me comportar dentro dos padrões e das necessidades desse grupo. Sim, é verdade que estou nesse trabalho há alguns poucos anos - quatro, para ser mais exata -, já participei de muitos ciclos e até meus empregadores já aceitaram que eu não me encaixarei perfeitamente em nenhum, mas eu continuo tentando, por ser masoquista, por ser idiota.
Eu cheguei a tentar pedir demissão, ou para ser transferida para outra área, mas meus empregadores sempre dizem que eu posso, que eu não devo negar minha habilidade para trabalhar naquela área, então os próprios me recusaram a mudança. E eu não pude fazer nada além de concordar e sair de cabeça baixa.
Mas eu não sei se sou útil. Provavelmente não. Provavelmente só estou ali para fazer volume. É fato que em trabalhos e projetos individuais eu sempre consigo impressionar meus chefes com minhas ideias, mas quando se trata de fazer uma reunião e chegar à unanimidade, minhas atitudes parecem ser todas falhas. Olham para mim como se eu fosse louca, como se eu enxergasse coisas que não existem. Pobres coitados. Eu realmente não enxergo o óbvio, porque sempre enxergo além dele! E eu me pergunto até quando, até quando essas almas se restringirão ao óbvio, ao palpável, ao fácil, ao conveniente e ao confortável? Toda grande mudança traz grandes benefícios morais, mas é tão difícil de ser fazer, precisa-se sair da zona de conforto. Sou louca por sair da zona de conforto? Sou anormal. Eu sei que sou anormal, pois o conceito de "normal" é dado pela maioria, e eu não estou nessa maioria. Mas terei de trabalhar o resto da minha vida com essa maioria, e depois de um tempo fica cansativo ser a anormal tantas vezes.
Uma vez sentei com meus empregadores e falei com eles sinceramente. De ser humano para ser humano. Perguntei a eles o porquê de toda essa tortura. Informei-os do meu vazio existencial, da minha solidão, do meu baixo moral, do meu cansaço e de uma possível desistência do melhoramento de minhas habilidades, sempre possível naquela empresa. Meus empregadores encararam-me com um misto de preocupação e compreensão.
"Sabemos por que razão você está triste", eles me disseram. "Você sente que não tem companhia". Lancei-lhes um olhar irônico. "Pelos motivos errados. Você tem de parar de exigir das pessoas o que elas não podem dar. Pare de ficar esperando, assim, sempre será surpresa. Nós sabemos que sua solidão não é física. Mas de qualquer forma, nós vamos mostrar-lhe a companhia perfeita para quando sentir-se sozinha".

E um espelho foi colocado na minha frente. "A melhor cura para a sua solidão de ideias é a introspecção".

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

a igreja

Começa o filme. Imagens de um rapaz de trinta e poucos anos, com maxilar bem quadrado e cabelos castanhos perfeitamente repartidos ao meio.
Eduardo era o tipíco amante do sucesso. Boa-pinta, charmoso, sedutor, carismático, tinha uma lábia que vou te contar. Exatamente por isso era sempre o funcionário do mês na empresa em que trabalhava. Emprego irritante aquele. Eduardo era encarregado de convencer as pessoas a comprarem todos aqueles aparelhos inúteis e multifuncionais - às vezes só pelo telefone. E era o mais bem sucedido vendedor dos últimos vinte e cinco anos, segundo aquela revista de circulação federal.
Era o cara que pede licença mas não pede desculpa se pisar no seu pé. Que não mente, mas omite muita coisa. Que te faz um favor se você já tiver feito-lhe muitos. Que consegue driblar até o jornalista mais crítico e competente de sua área. Quase um Collor. Realmente adorável. Tipinho imprestável e muito conhecido, mas que sempre cai nas graças do povo, certo?
Ele também era relativamente jovem, quando considerando seu tremendo sucesso profissional. Estava noivo de uma apresentadora de um talk-show, típica loura de olhos azuis e corpo lipoesculturado, e já tinham um filho de 4 anos - muito inteligente, muito bonito, menino prodígio da música e do desenho! Que vida perfeita.
Pausa.

Eduardo estava sentado na poltrona vermelho-sangue de sua sala. A única fonte de luz era uma luminária muito fraca, no canto da sala. O ambiente era gélido, mas ele estava completamente confortável, com uma taça de vinho na mão. Deu um último gole e descansou a taça sobre a mesa de centro. Recostou-se na poltrona e cruzou as pernas, enquanto tamborilava seus dedos nos braços dessa. Suspirou.
Levantou-se. Ia dar uma volta. Saiu de seu apartamento - no vigésimo sétimo andar do prédio localizado na área mais rica da cidade. Já estava bem escuro, aparentava ser mais de meia-noite, mas Eduardo não tinha assim tanta certeza. Saiu em busca de prazer, diversão, entretenimento.
Andando na rua vazia, pouco iluminada e de atmosfera úmida, ele finalmente sentiu-se à vontade. Afrouxou a gravata e deu um gole na garrafa de vinho tinto que trouxera consigo. Foi andando com passos largos e lentos até deter-se avistando uma igreja gótica. Mal iluminada, muito alta, vitrais que, à noite, davam a impressão de ter ilustrações do inferno. Eduardo sorriu.
Resolveu entrar na igreja. Não fez o costumeiro sinal-da-cruz ao entrar, não tinha religião nenhuma, ele era seu próprio deus. Foi andando tranquila e distraidamente por lá, mas parou ao ver uma imagem de capuz ajoelhada ao altar. Foi a seu encontro.

(continua)

domingo, 9 de janeiro de 2011

mônica e paola,

Era uma vez uma Mônica e uma Paola.
Andavam sempre juntas. Não faziam o estilo amigas de infância, não podiam se gabar de uma amizade de dez anos, ultrapassavam aquele clichê de serem "quase irmãs", ultrapassavam aquele clichê de uma amizade perfeita sem brigas, ultrapassavam aquele clichê de as qualidades de uma preencherem os defeitos da outra. Eram melhores amigas, de uma forma diferente. Uma não se espelhava na outra. Mônica não era nem de longe o projeto de amiga perfeita de Paola, e Paola nunca imaginara que poderia ser amiga de alguém como Mônica. Mas aconteceu. E uma era o que a outra precisava naquele momento. Paola era totalmente louca, inconsequente e sensível demais. Mônica era rígida e não se permitia fazer muitas coisas. Viviam num equilíbrio instável.
Trabalhavam no mesmo lugar e se conheceram numa reunião. Ficaram bêbadas, riram muito juntas e desse começo muito saudável iniciou-se uma amizade. Desde então, faziam tudo juntas. Iam às compras, à academia, ao shopping, aos bares, e quando não existia a possibilidade de algo melhor para fazer, abriam uma Sprite e jantavam Twix na casa de Mônica. Tudo muito normal.
Até Paola conseguir uma promoção em sua área. Naturalmente, começou a trabalhar mais, a se esforçar mais, coisas que Mônica sempre recomendou que ela fizesse. Começou a não ser tão inconsequente, coisa que Mônica sempre recomendou que ela fizesse. Começou a sair com colegas de trabalho, não por simpatia, mas por interesse.
Mônica, um tempo depois, também conseguiu uma promoção. Mas ela não mudou seus hábitos, pois não havia necessidade. Ela fez amizade com seus novos colegas de trabalho, e nenhum ocupou o tempo de Paola em sua agenda, mas não era mais tão recíproco.
As duas começaram a brigar por motivos bobos, mas a implicância estúpida era só uma forma de demonstrar a insatisfação com aquela repentina mudança no relacionamento. Agora era desgastante, e as duas se encontravam meio que por obrigação. Já não era mais tão divertido e espontâneo.
Então, um dia, Paola mudou de cidade. E as duas simplesmente pararam de se falar. Paola seguiu com sua vida, sempre conhecendo gente nova, se apegando a alguns, ajustando-se a cada ambiente que ia. E Mônica voltou a viver a mesma vida de antes de Paola, saía de vez em quando para uns drinks com os amigos, mas nada além. Depois de anos e anos de separação, Mônica ainda sentia que parte da alegria e da espontaneidade dela se foram junto com Paola, mas aprendeu a conviver com isso. Ela não tinha escolha, tinha? Ela só se perguntava às vezes se Paola sentia a falta dela, também.
Mônica, eu tenho assistido você de longe. Adapte-se. Mude. Faça amizade com seus colegas de trabalho. Pinte suas paredes. Deixe o passado onde ele deveria estar.
No passado.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

happy ending part 1

Annie chegou à frente da porta de Tiago e lá ficou, sem coragem pra mover o braço e tocar a campainha., torcendo a barra de seu casaco. Ironicamente, Tiago estava parado do outro lado da porta, sem coragem para sair. Ao mesmo tempo que ela toca a campainha, ele abre a porta. Encararam-se com um sorriso tolo durante algum tempo que pode ter sido de alguns segundos a vários minutos. Annie abriu a boca para falar alguma coisa, mas nada saiu além de um suspiro. Mas enfim tomou coragem.
- É, então, eu vim aqui pra...
- É... tô vendo. Então...
- É.
- Ahn... então as coisas não deram certo com meu irmão? - Tiago disse rispidamente, como se estivesse com algo azedo na boca. - Eu te disse que ele não prestava.
- Na verdade, ele é um cara legal. - Annie pensou em dizer isso, mas tudo o que saiu foi: - É, né...
- Hã, quer entrar?
- Ah, claro. - Annie disse,
torcendo a barra de seu casaco.
O clima estava péssimo. Estava óbvio que os dois tinham certos assuntos para resolver, mas nenhum dos dois tomava iniciativa. Tiago porque era tímido e não sabia dos sentimentos de Annie, e esta porque não queria ser impulsiva e não sabia dos sentimentos de Tiago. Entraram, sentaram-se nos grandes pufes na sala de televisão e ficaram encarando os próprios pés. E Annie torcendo a barra de seu casaco.
- Sabe - Tiago começou -,pra falar a verdade, eu não gosto da sua irmã.
Annie sentiu-se aliviada. Então ela não precisaria começar o assunto. Isso não precisava ser tão difícil.
- Ah, é? Então você não está apaixonado por ninguém no momento? E mentiu pra mim?
Tiago encarou Annie com raiva. Ele sabia o que ela estava fazendo. E não gostou disso.
- Eu não falei que gostava da sua irmã. Eu fiquei quieto. E eu não menti, eu gosto de alguém, sim.
- Então por que não me revela a identidade dessa sua amada?
- Por que você não me revela a identidade do SEU amado?
- Acho que você não se importa, porque está ocupado demais tentando esconder as coisas de mim!
- Ótimo, então, se é isso que você pensa!
- Ótimo!
Annie se levantou, torcendo a barra de seu casaco freneticamente, e começou a andar em passos largos até a porta. Mas parou antes de sair.
- Sabe, não sei por que eu me dei ao trabalho de vir até aqui. Foi uma total perda de tempo.
- Mas você veio. - Tiago olhou para Annie de forma intensa. - E você, por algum motivo, teve a necessidade de parar antes de sair e me dizer isso. Você quer que eu saiba que era importante para você vir aqui.

(continua)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

annie's love sick

Saí bufando da casa de Tiago e fui pra minha. Fui direto ao meu quarto e, como sempre, me joguei na cama, de barriga para cima, encarando o meu teto estrelado. Meu cabelo estava molhado, mas pelo menos trouxera um cheiro de chuva agradável pra dentro do quarto. O que exatamente aconteceu?

Marcelo não fizera nada. Tiago sempre me falou que ele era um vagabundo e coisas do tipo, mas ele não agiu dessa forma comigo. Na verdade, o que aconteceu foi que ele me disse que não se permitia gostar de mim daquele jeito. Eu saí andando, mas ele me parou no meio da rua. Comecei a gritar e gesticular, perguntando o porquê de todos os sinais que me foram enviados, o porquê da relutância, o porquê de tudo, mas ele continuava de braços cruzados, e vez ou outra olhava para a janela do quarto de Tiago, ou falava "não posso fazer isso". Então desisti.

Eu não sei mais o que estou sentindo. Confusão demais pra uma tarde só, nossa. No começo da tarde, achava que estava arranjando Tiago para minha irmã. Depois, pensei que eu quisesse Marcelo. Agora, não sei se quero que Tiago fique com minha irmã... ah.
E sempre, sempre quando eu mais precisava, e, claro, sempre muito convenientemente começava a tocar NeverShoutNever! no meu celular.

"Dear, I wrote you a song despite the fact, you did me wrong. And dear, I don't know what the hell is going out with you, but something ain't right..."

Era Tiago me ligando. Eu mesma coloquei essa música de toque. Ele é quem me mandou essa música, uns meses atrás, e eu até pensei que pudesse significar alguma coisa, mas não dei muita atenção. Meus sentimentos por Tiago são muito, muito instáveis. Eu não sei se o que eu sinto é um carinho muito grande ou se é amor. O fato é que meus namoros nunca duram mais de dois ou três meses, porque eu sempre me pego pensando, "será que o Tiago faria isso?". Nunca me imaginei ficando com ninguém além de Tiago, mas sempre atribuí isso ao fato de que crescemos juntos e eu realmente não consigo imaginá-lo fora de minha vida.

"...you tell me that you love, then you go and leave me, why do you do this to me? Baby, I'm lovesick..."

Meus sentimentos são confusos, mas também não é como se o Tiago já tivesse me dado claras insinuações de sentimentos mais profundos por mim. Eu teria captado. Ou não? Ou será que eu não captei nada? Tiago nunca teve muitas amigas, todas as minhas tentativas de apresentar alguém a ele foram falhas, e além de mim, ele conversa com minha irmã, a mãe dele e a professora de violão (cujo sexo na verdade é meio duvidoso)... Ele poderia gostar de mim. Isso explicaria os "não posso" de Marcelo e os olhares de relance pra janela do quarto de Tiago.
Uns meses atrás eu me peguei apaixonada por ele de fato, mas desencanei porque todas as minhas investidas falhavam de alguma forma. Não sei, é muito chato isso! Eu não sei o que fazer, se devo dar o primeiro passo, se espero, se escrevo na minha testa "me beije" ou alguma coisa do tipo...

"...I just can't sleep, just can't eat, can't do much of anything at all 'cause I'm sick and in love with you, dear."

Ao ouvir esse trecho da música, resolvi me olhar. Que deprimente. Jogada na cama ao som de um toque de celular, cabelo molhado ensopando o travesseiro, maquiagem borrada, olhando para o teto curtindo minha depressão.
Isso não tem absolutamente nada a ver comigo. Por mais confusa, frustrada, brava e ainda assim, feliz por ter percebido o que eu realmente sinto, decidi sair dali e ter uma conversa esclarecedora com Tiago. Não sei de onde eu tirei coragem e força suficiente para me levantar, mas o fiz. E andei a passos lentos, embaixo de chuva, até a porta dele.

terça-feira, 23 de março de 2010

o mundo embaçado

Um belo dia ele acordou e levou um susto. O mundo estava embaçado. Ele mal conseguia enxergar - distinguia algumas poucas formas, e ainda sim, com dificuldade, e ainda assim, com muita ajuda da luz. Sentou-se na cama, olhou ao redor - como se o borrão que ele estava vendo fosse apenas daquela parte do quarto - e percebeu que todo o mundo ao seu redor decidiu ficar indistinguível. Gritou pela sua mulher. A mulher veio correndo, e ele quase foi às lágrimas ao perceber que não conseguia ver os traços do tão bonito rosto de sua mulher. Já não bastasse o mundo estar embaçado, suas lágrimas o pioravam. Enxugou os olhos. A mulher perguntou se ele estava se sentindo bem, se algo tinha acontecido. Ele olhou para a mulher como se ela fosse louca. "Como assim, o que aconteceu? Você não vê? O mundo está embaçado!". Ela somente respondeu, "Você não acha que precisa de óculos, apenas?". "Meu mundo é o que os meus olhos vêem. Eu não preciso de óculos nenhum, eles não melhorariam a mancha cinza que o meu mundo está". A mulher apenas consentiu. "O que eu tinha programado para hoje, mulher?". "Você ficou de ir ao banco, pagar as contas, buscar nossa filha na escola, me levar ao aeroporto, pagar a fiança do teu filho que foi preso ontem por causa de uma briga de bar. Também ficou de entregar os relatórios do trabalho, demitir cinco ou seis funcionários, e comparecer à reunião às quatorze horas. Precisa também ir ao supermercado, ir à farmácia e comprar os remédios do seu coração, visitar a sua mãe que está de repouso no hospital e sua irmã que foi internada ontem.", a mulher respondeu. O homem ficou indignado com o número de obrigações que ele tinha para realizar em apenas um dia. "E você acha que eu vou dar conta de fazer tudo isso com o mundo embaçado? Aliás, mesmo o mundo estando normal, quando foi a última vez que eu dei conta de fazer tanta coisa assim num dia só?" ele gesticulava e cuspia enquanto falava. A mulher apenas suspirou.

"Ontem."

domingo, 7 de março de 2010

crônica em um terraço

- Não. Eu não vou mudar de idéia - o homem dizia ao telefone -, eu já estou subindo as escadas que dão pro terraço e vou me tacar de lá de cima. Estou abrindo a porta, e... - assim que ele abriu a porta, se deparou com um outro homem. - Solange, vou desligar.
Ele desligou o celular e olhou com surpresa para o outro homem.
- Ora, bom... olá - o outro homem disse, um pouco surpreso.
- Boa noite - o primeiro disse. Os dois ficaram um instante quietos, sem saber realmente o que falar.
- Então... noite bonita, não é?
- Sim, sim, maravilhosa. Ouvi falar que hoje é a noite mais limpa dos últimos 25 anos.
- Pois é...
Mais um instante de silêncio. A trilha sonora era de sirenes e buzinas.
- Meu nome é André - o primeiro homem disse.
- Ah, claro! O meu é Lucas.
- Lucas, certo...
- É.
- Assistiu ao jogo hoje à tarde?
- Opa! Jogaço, hein? Esse tipo de jogo é que me dá orgulho de ser santista!
- Já é, irmão, sou santista também.
- Robinho deu um show.
- Ô se deu.
Mais um instante de silêncio.
- Então - Lucas disse - O que te trouxe aqui? Domingo é dia de família.
- Tenho família não. Minha namorada me deixou e meus irmãos estão no exterior.
- Ah, que barra.
- Pois é. Mas e você?
- Fui demitido, meu carro foi guinchado e tive minha casa assaltada. Tudo hoje.
- Pô, cara, meus pêsames...
- É, eu amava meu carro.
- Quando eu tinha dezoito anos ganhei um Impala 67. Aquele carro era o meu xodó. Na segunda semana minha com ele, bebi demais, bati o carro e dei PT... nunca mais fui o mesmo.
- Impala 67? Clássico! Mas eu bati um C4. Juntei dinheiro durante dois anos pra comprar um carro decente, e no quinto mês de uso, o tiram de mim! Puta mundo injusto.
- Ô se é. Mês passado eu quis pintar meu carro de cor diferente. Gastei uma grana, e minha ex disse que com aquele dinheiro dava pra comprar uma aliança. Eu disse que a pintura vinha primeiro. É muito absurdo isso?
- Claro que não! Aposto que se você tivesse comprado a aliança, ela teria falado que não se casaria com um homem que tem um carro tão feio e mal pintado.
- Exatamente!
Ambos olharam lá para baixo, onde no momento acontecia um incêndio e os bombeiros tentavam controlar tudo aquilo.
- Você veio aqui pelo mesmo motivo que eu? - André perguntou.
- Eu queria me matar.
- É...
Eles olharam pro incêndio. Pessoas queimadas saíam do prédio toda hora.
- Essa água toda dos bombeiros me lembra que eu nem bebi hoje - Lucas disse.
- Quer tomar uma cerveja?
- Bora.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Folha de São Paulo

11/05/1985

Foi encontrada ontem morta em seu apartamento a dona-de-casa Valentina Pires. Ela esteve presente em várias revoltas contra a ditadura quando mais jovem, e era uma das pessoas mais procuradas pelo antigo DOPS. Valentina fez parte de um dos MNR (Movimentos Nacionalistas Revolucionários) aqui da capital de 1965 até 1971, segundo relatos de seu diário (encontrado em cima do criado-mudo em seu apartamento), organizando revoltas, capturando policiais, orientando outras pessoas sobre a ditadura e divulgando os horrores que o DOPS fazia com seus presos políticos. Era conhecida como Maria.

A causa da morte foi envenenamento (o veneno ainda não foi divulgado), e ao lado de seu corpo foi encontrado um bilhete: "Enfim, a ditadura conseguiu me envenenar por completo. Não posso viver com ela, não posso viver sem ela.". Em seu diário, ela expressava sua necessidade por uma revolução e seu gosto por passeatas e revoltas, e quando a ditadura teve seu fim convicto, em suas palavras, "Minha vida toda eu lutei contra a ditadura, o controle de idéias e a restrição de ações. Agora que a ditadura acabou, o que eu vou fazer?".

Apesar de que agora o que mais se encontra é gente morta em esquinas, apartamentos, casas e estradas, essa morte pareceu afetar profundamente os nervos de antigos militares, principalmente com a divulgação confirmada de seu diário, que, como não tem título definido pela autora, será chamado "o Diário de Maria".

Lembramos que qualquer relação com "O Diário de Anne Frank" é pura coincidência.

- FIM -

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

10/05/1985

Há tempos não escrevo aqui. A última vez que escrevi foi mês passado, abril... pois bem. Em um mês, a história mudou completamente.

Decidi fazer parte do movimento Diretas Já. Resolvi seguir o senhor Teotônio, pois suas palavras me pareciam extremamente promissoras. Sonhar com um Brasil de eleições diretas era bom. E depois de tantos anos parada, me dei ao luxo e risco de participar de mais passeatas.

Então dia 27 de novembro, aconteceu uma passeata em São Paulo, 15 mil pessoas. Se o senhor Teotônio tivesse visto, estaria orgulhoso... Esta aqui é pra você, Teotônio! Mas o infeliz morreu no dia da passeata. E que morte terrível... câncer generalizado. Eles te pegaram, Teotônio... te infectaram. Você até que resistiu bastante, mas no final, eles se juntaram, ficaram muito fortes, não dava pra combatê-los. Quem sabe um dos teus filhos, Teotônio Vilela Filho, não vira político pra honrar teu nome? Eu votarei nele, um dia.

1984 passou relativamente tranquilo. Eu ainda esperava por uma mudança no sistema, quando 1985 chegou. Chegou janeiro, fevereiro, março, em abril comecei a escrever meu diário, mas parei, quando vi rumores sobre tirarem militares do poder. Então anteontem foi aprovada no Congresso uma emenda que acabava com a ditadura. Eu não pude acreditar! E inclusive teríamos eleições diretas. Enfim, Teotônio! Tua batalha não foi em vão.

Isso significava que finalmente poderíamos ser livres. Isso significava que eu não sobrevivi à ditadura à toa... Esta era minha recompensa. Por perder minha família, por perder meu amor, por perder minha dignidade, por ter sido torturada, por ver meu país, minha CASA ruir. Mas e agora?

Minha vida toda eu lutei contra a ditadura, o controle de idéias e a restrição de ações. Agora que a ditadura acabou, o que eu vou fazer? Voltar ao meu trabalho antigo? Procurar outro amor, formar uma família e passar meus finais de semana assando bolos? Isso não tem nada a ver comigo. Então só há uma coisa a ser feita.

(continua)

domingo, 10 de janeiro de 2010

04/04/1985

Com a censura, nossas atividades e relações com a imprensa foram cortadas. Não havia mais chance de nosso grupo aumentar de qualquer jeito. Mas meu grupo se manteve forte. Hoje, desejo que tivéssemos sido fracos. Durante 1969 e 1973, vivi na pobreza. Com aquela história de "milagre econômico", alguns ficaram muito ricos, e alguns muito pobres. Infelizmente, minha opção é a segunda.

Então aconteceu. Em 1971 foi quando aconteceu. Estávamos fazendo mais uma de nossas costumeiras passeatas, quando um grupo de militares surgiu. Aparentemente estavam à espreita... como se já soubessem por onde íamos passar. Eles chegaram e começaram a tacar bombas para todos os lados. Vários de meus companheiros caíram e acabaram morrendo. Eu corria para encontrar João, mas quando o encontrei, ele disse para eu recuar. E foi só eu parar de andar, que dois policiais se tacaram em cima dele... Um segurando seus braços, e o outro batendo-o com sua arma, mesmo. Ele evitava me olhar, pois sabia que entregaria minha posição. Então eu corri.

Corri em direção ao nosso esconderijo, fazendo muitas curvas e pegando o caminho mais longo. Chegando lá, vi muitos papéis e documentos em cima da mesa. RGs, passaportes e dinheiro, inclusive. Aparentemente, meu João planejava nos pagar uma viagem fora da lei para o Reino Unido - eles viviam um período de recessão econômica mundial e competição industrial, então era uma ótima oportunidade de trabalho. Eu já me afastava da mesa quando me lembrei de olhar direito para o RG de João... e foi a primeira vez que fiquei sabendo de seu nome verdadeiro. Gustavo. E ele era exatamente como o significado de seu nome...

E durante os 3 anos seguintes, vivi uma meia realidade. O Rock estava estourando. Comecei a me drogar. Eu não queria mais saber de nada. Fui presa, torturada. Fugi nas duas vezes que me prenderam. Então me cansei. Me cansei de ficar sentindo pena de mim mesma. E em 1975, decidi começara trabalhar, para ocupar a cabeça. Eu tinha diploma em medicina, mas acho que isso não me ajudaria muito. Eu não conseguiria arrumar um emprego bom de verdade, porque eu obviamente não tinha o "atestado ideológico" fornecido pelo DOPS. Fui então trabalhar numa creche da minha vizinhança. Pagavam bem e o almoço era por conta dos donos. Eu gostei bastante do trabalho, sempre gostei muito de crianças, e, ao meu ver, era hora de eu me sentir mais... mulher, mesmo. Eu passara muitos anos lutando ao lado de homens, e no meu grupo todos éramos iguais. Mas nessa creche, eu me sentia quase uma mãe.

E eu trabalhei lá até 1983. Então um belo dia, estava eu sentada, assistindo a tv na creche, quando vejo um programa novo: Canal Livre, liderado pelo senador Teotônio. Ele dizia que devíamos lutar por eleições diretas, e que novas manifestações estavam por vir. Como resistir?

(continua)

03/04/1985

Certo. Não sei bem o que devo escrever em um diário... Mas visto que estou sozinha, não há muito a se fazer. Se eu não coloco as coisas no papel, se eu explodir não vai ser uma grande surpresa, mas enfim.

Nasci em 1940. A passagem da minha infância para a adolescência foi marcada por aquele glamour falso dos anos 50 - carros brilhantes, saias rodadas e muitos neons. Mas eu nunca gostei daquilo, não. Me lembro de que eu ia todo fim de semana ao cinema para fazer nada mais, nada menos do que entregar panfletos visando chacoalhar a cabeça das pessoas um pouco. Sabe? Acordá-las para a vida. Fazê-las saírem daqueles carros enormes, e olharem para quem está sentado na calçada.

E foi numa dessas vezes que eu vi meu marido (bom, ex-marido) pela primeira vez. Ele ia assistir a um filme qualquer, não me lembro bem. Ah, mas de uma coisa eu me lembro: dos olhos! Os olhos de quem não estava realmente naquele lugar. Os olhos de quem fantasiava e sonhava muito, mas não sonhos inúteis - sonhos de revolução. E eu estava certa, de fato.

Então em 1965 - ano seguinte do golpe militar, como todos sabem - resolvi fazer parte de algum grupo para ver se a situação mudaria no nosso país. Entrei em um dos MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário) e lá fiquei. Acho que foi a fase mais produtiva da minha vida. Organizávamos passeatas, distribuíamos panfletos, driblávamos a imprensa, atiçávamos o governo... e eles nunca nos pegavam! Nunca me senti tão viva e útil. Foi incrível.

Em 1967, então, resolvem criar pseudônimos, para preservar nossa identidade. Eu escolhi o meu - Maria. Interprete minha escolha como quiser. Bem, durante uma das reuniões, eu o vejo novamente - o moço que estava aquele dia, no cinema. Seu pseudônimo era João, ironicamente. (Na verdade, só fui saber seu nome 4 anos depois). Ele era um dos membros mais antigos do MNR. Era realmente fantástico. Muito forte e confiante. Me apaixonei, é claro.

Mas também é claro que nada desse tipo de intimidade era permitido em nosso grupo. Tive de me conter um ano. Mas em 1968, eu soube que ele também me amava. Não podia ser a hora mais errada... Com a liberação do AI-5, tínhamos de tomar muito, mas MUITO cuidado em nossas passeatas - pois quaisquer atividades ou manifestações sobre assuntos políticos eram expressamente proibidas. Também não podíamos mais votar. E nossas casas foram escolhidas, nossa liberdade vigiada... Tivemos de renunciar de nossos nomes para vivermos decentemente - ainda que clandestinamente. Um absurdo eu ter de renunciar do meu nome, que me tornava um indivíduo, brasileiro, para conseguir morar em paz no meu país... Que vergonha. Que absurdo. Não fosse a passeata dos Cem Mil, em junho, eu teria abandonado o país.

(continua)

sábado, 2 de janeiro de 2010

O que poderia dar errado?

Eu simplesmente saí andando a esmo pela avenida, à espera de algo que eu sei que nunca poderia acontecer. Minhas esperanças se limitavam a desejar que eles voltassem... Pois não me restava mais nada no mundo. Eu só tinha a eles, e eles, a mim. Mas eles se foram. Minha vida se resumia a comer, beber, dormir, e passear por avenidas como esta, que me inspiravam um pouco de alegria... Ou o que eu achava ser alegria.

Era uma avenida bem movimentada... Sua continuação era uma estrada estadual, ou seja, o tráfego de carros era bem maior comparado com as outras avenidas da cidade. Obviamente, muitos acidentes aconteciam, por conseqüência de desamor à vida ou simples pressa. O fato é que as pessoas estavam tão concentradas em seus destinos, que não prestavam atenção ao caminho. Como se os fins justificassem os meios, quando eu achava o contrário.

Então eu me sentei num banco, num dos raros desocupados bancos daquela avenida, e olhei para o céu. Qualquer um enxergaria bonitos tons de azul, amarelo e nuances de branco no céu, mas não eu. Eu enxergava tudo em escala de cinza, pois nada mais tinha graça, depois da minha impossibilidade de ver os olhos verdes de minha mãe sorrindo para mim.

Foi quando eu os vi... uma família andando de mãos dadas, com roupas coloridas, sorrisos brilhantes, e mãos seguras e quentes. Eu queria, eu precisava me juntar a eles, me sentir parte de alguma coisa de novo, me sentir ali... Me levantei do bando, olhei para o céu, e, devagar, cheguei à sarjeta. Olhei para meus pés, a alguns centímetros acima da rua, e decidi tirar meus sapatos. O fiz. Um passo após o outro, fui andando em direção àquela família...

E encontrei a minha.

sábado, 28 de novembro de 2009

encontros

Olhei pela janela. Haviam muitos carros em volta.

Dentro dos carros, dos muitos carros, pessoas. Com seus destinos em mente, com sua agenda, programação, horário, responsabilidades, tarefas, e afazeres. E passa mais um carro, com mais uma pessoa. E outro, e outro. São tantas pessoas, e tantas situações diferentes em que elas vão se encontrar daí alguns minutos. Milhares de pessoas moram na mesma cidade que você. Milhares de pessoas vezes milhões de possibilidades de caminhos a seguir, escolas em que estudar, lugares para frequentar. As chances de desencontro são incalculáveis.

As de encontro então, nem se fala. É incrível pensar que, numa cidade tão grande, com infindáveis ruas e lugares e lojas e escolas, eu consiga achar pessoas tão certas. Não só amigos certos, mas conhecidos certos, com sorrisos e olhares reconfortantes. É engraçado como não paramos nunca pra pensar nisso.

E mais engraçado ainda é quando não nos damos conta de que a pessoa é a pessoa certa - e precisamos dar um giro de 360º pra perceber que tudo o que você queria estava na sua frente o tempo todo. Ou, no meu caso, na sala ao lado.