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domingo, 27 de janeiro de 2013

chuva

(continuação)

Ajudada pelo marido, Clarice se levantou e andou até a cozinha para tomarem um café. De lá, ela podia ouvir as pessoas conversando em voz baixa na sala. Sobressaíam-se as vozes de Carolina e Fernanda, mas Rafael e sua mãe também pronunciavam-se. Clarice suspirou. Todos estavam lá, discutindo sua vida, decidindo o que era melhor pra ela, mas é claro que ela mesma nunca era consultada. Sentou-se. Olhou para o fogão.

"Marcelo, onde está a Beta?"

Ele a olhou confuso. "Querida, você não se lembra? Ela se demitiu. Foi tentar formação em enfermaria, esqueceu?"

"Não me lembro de nada disso."
Marcelo respirou fundo e encarou seus pés, desconfortável. "Acontece que um dia você estava especialmente... bem... afetada, e Beta disse que não aguentava mais vê-la daquele jeito. Disse que queria ser capaz de ajudar. Então foi tentar fazer faculdade de enfermagem, para ajudar as pessoas. É isso."

Clarice bebericou seu café, desviou seus olhos do fogão e fixou-os nos do marido. "E quanto à Clara?"
"O que tem ela?"
"Você sabe, Marcelo. Na escola. Quero dizer, não é possível que a notícia de meu surto não se espalhou."
Ele passou a mão na testa, ainda mais desconfortável. Era difícil expor a verdade, assim, nua e crua, sobre todas as consequências do colapso de sua esposa. Ele não queria que ela se sentisse culpada, mas também sabia que, sendo quem era, ela precisava saber de tudo. "Bom, querida, algumas mães ficaram sabendo, então seus filhos começaram a mexer com nossa filha... uma ou outra professora tentou conter a sala, mas outras eram partidárias de que você mereceu, de que você precisava de freios. Então eu a tirei daquela escola."
Ela tentava conter as lágrimas que afloravam ao pensar em tudo por que sua filha tinha passado. Ela certamente não merecia nada daquilo. Mas pessoas são cruéis, crianças são cruéis. Tomou mais um gole do café. "Então onde ela está estudando agora?"
"Eu descobri que um colega seu, do conservatório, era professor de música em uma escola não tão conhecida. Fui conhecê-la e gostei. Aparentemente, esse seu colega impediu que os fatos sobre você se espalhassem e fez uma dinâmica muito interessante com as crianças sobre fenômenos mentais, psicológicos. Foi bem interessante, e de grande ajuda. E Clara está feliz, acima de tudo. Só tem um problema."
Clarice olhou para fora e viu sua filha correndo até o balanço na árvore e sentando-se. Ela tinha uma rosa amarela na mão.
"Ela não suporta ouvir violinos, Clarice. Na verdade, até orquestras a incomodam. Acho que, na cabeça dela, a música é culpada pelo que aconteceu com você."
"Ah, a culpa não é da música. É minha. Eu gostaria de dizer que não, mas... se não fosse minha, de quem seria?". Descansou sua xícara na mesa e levantou-se, indo em direção à sala. Parou na porta que dividia os dois ambientes. "Vem comigo?"
"Eu estou logo ao seu lado."
Abriu a porta.

Todos pararam de falar. Carolina, que estava sentada, levantou-se num salto e foi correndo até sua irmã. "Eu não queria que tudo isso acontecesse, irmã. Eu só queria presentear-lhe, e sempre achei que você levasse jeito pra escrever, e..."
Clarice interrompeu-a, segurando-a pelos ombros. "Carol, você fez certo."
"Mas você está diferente, e eu não sei se isso é bom ou ruim, e..."
"Carol, isso é bom, muito bom."

"Mas..."
"Carol, eu precisava disso. Precisava do seu presente, e do livro de Fernanda, e das flores de Alice. Eu precisava de tudo isso pra me lembrar de quem eu sou, de quem eu fui.". Ela apertou as mãos em seus ombros, depois a abraçou. "Vai ficar tudo bem. Muito obrigada."

Então, dirigindo-se a todos da sala, aumentou a voz. "Obrigada por terem vindo. Obrigada por hoje. Obrigada, Carol, Alice e Fernanda, por terem fornecido o combustível, e mamãe, por ter fornecido a faísca que proporcionaram a explosão interna que me acordou. Agradeço por mim e por minha família.". Cumprimentou todos com um abaixar de cabeça, foi até Alice e beijou-a na testa, pegou sua filha pela mão e retirou-se.
Chovia.

Agora Clarice dirigia-se à porta da frente. "Menina, seu pai me contou que você não gosta do som do violino."
Clara fez uma careta. "Não gosto, mamãe. Me incomoda. Acho que sinto dor."
"Bom, nós vamos mudar isso, não vamos? Porque você adorava quando mamãe tocava violino, e eu talvez volte a tocar um dia. Nós precisamos de música, criança. E não se preocupe, mamãe não vai desmaiar toda vez que chegar perto de um instrumento."
Clara balançou a cabeça.

"Por falar nisso, você tem vontade de aprender a tocar alguma coisa?"
A menina desviou os olhos, olhando para frente. "Você vai ficar brava se eu não quiser tocar violino?"
Clarice abaixou-se para ficar na altura na menina. "Claro que não. Você tocará o que quiser, quando quiser. A escolha é só sua."

Ela sorriu. "Eu queria saber tocar piano." Clarice devolveu o sorriso e levantou-se. Saíram pela porta da frente.

"Clarice?", a voz de Marcelo interrompeu seu pensamento. "O que você vai fazer agora?"
Ela parou. Não estava pensando, na verdade um grande vazio apossava-se de sua mente; agora que tinha se libertado de antigos pensamentos, sua cabeça tinha espaço livre pra ocupá-lo como bem entendesse. "Eu não sei, e gosto disso. Vou fazer o que eu quiser. E, agora, eu quero andar na chuva.". Ela soltou a mão de sua filha, soltou a mão de seu marido, e saiu pela porta da frente.

Chovia, mas também fazia sol, e Clarice andou por sua rua com seu melhor vestido de festa.

-fim-

segunda-feira, 4 de junho de 2012

quero nascer, quero viver

Ouvir os pássaros cantar; eu quero nascer, quero viver.

Ela levava em sua mochila algumas poucas trocas de roupa, dois livros, um caderninho e música. Além de documentos, dinheiro e toda a tralha burocrática de que se necessita quando se viaja ao exterior, é claro. Mas ela não precisa de muito mais do que isso. O mais importante levava consigo, intocável - a vontade de fugir, que faria a viagem ser muito bem aproveitada.
Entre multidões estéreis, finalmente ele apareceu.
"Demorei?"
"Demorou"
"Mas pelo menos apareci"
"Em todos os sentidos"
Trocaram sorrisos. Ana e Caio se conheciam há pouco tempo, mas - e digo isso da forma mais clichê e piegas possível - identificaram-se um no outro logo no primeiro contato. Extemporaneidade e gênio difícil eram suas principais semelhanças. Digamos que, aprendendo a lidar um com o outro, aprenderam a lidar consigo mesmos - e poucas coisas são mais eficientes para se alcançar qualquer objetivo do que aprender a lidar consigo mesmo, aceitar-se, enxergar-se, conhecer-se.
Ana levantou-se e, ao lado de Caio, foi andando até a plataforma de embarque.
"Você tem certeza, Ana?"
"Por que as pessoas ficam me perguntando se eu tenho certeza ou não? Eu sei o que eu quero, e eu quero ir embora daqui, dar um tempo de tudo, sentir-me viva de novo, e se pra isso eu preciso ir até Paris é isso que eu vou fazer"
"Tá certo, então vamos"
"E você?"
"Eu o quê?"
"Tem certeza do que está fazendo?"
"Certeza do quê?"
"De que quer ir comigo"
"De tudo o que vem acontecendo comigo, uma das minhas únicas certezas é que eu quero estar com você"
"Hum, ok, certo. Boa resposta."
Ana suspirou. Engraçado isso, gostar de alguém.
Sentir-se viva de novo. Ana tinha dito isso quase sem pensar, mas analisando bem, era realmente este o problema: há tempos ela não se sentia viva; sentia-se apenas existente. Sim, pois entre viver e existir há uma grande distância filosófica e também prática. Viver exige muito mais coragem. Viver é fazer escolhas e assumir suas consequências. Viver é sentir. Viver é escolher seu próprio rumo (claro que dentro de certas limitações; ninguém é integralmente livre). Pois se nós não escolhermos nosso próprio rumo, quem o fará? A sociedade? Nossos pais? Nossos amigos? Se havia algo que tirava Ana de órbita era a sombra do pensamento de que ela não estava no controle de sua vida. Pobre menina idealista.
Podia ser idealista ideologicamente, mas no âmbito das relações pessoais as ideias tomavam outro rumo. Sua filosofia era de não esperar nada das pessoas -  nem atitudes boas, nem ruins. Ela simplesmente não esperava ser surpreendida por ninguém. Isso era, muitas vezes, ruim, pois fazia Ana subestimar indivíduos que acabam se mostrando muito, digamos, dignos de sua afeição. Mas, por outro lado, Ana preservou-se de muitas decepções agindo assim.
Já estavam procurando seus lugares no avião. Como se praxe, Ana sentara-se junto à janela, para poder, sem perturbar mais ninguém, olhar o quanto quisesse para o mar, o céu, a escuridão.
"Olha só", disse Caio, apontando para a tela de computador no assento da frente. "Frank Sinatra"
"Tá, mas quando estivermos chegando, vou colocar Piaf"
"Exatamente o que eu ia falar"
"Ia nada"
Caio bufou, e Ana riu.

A inexplicável sensação de estar sobrevoando o mar, e nada mais importar além do próprio ato de viajar. As paisagens vistas, as emoções sentidas, as reflexões e confabulações, e, é claro, o destino.
Porque viver é isso. Não se pode chegar ao destino final sem se ter aproveitado a viagem. Qual a vantagem de viajar de janelas fechadas, não enxergando mais nada, porque nada mais importa do que o final? Da mesma forma, por que viajar só por viajar, só para curtir a paisagem, sentir o sol no rosto e aproveitar a calma de não se ter compromisso nenhum até se chegar ao destino? O ato completo de viajar engloba tudo: aproveitar a viagem, não se deixar cegar por um só objetivo, permitindo-se olhar para os outros lados e ver inclusive outros destinos que poderia ser alcançados; mas não perder de foco o objetivo final - que, depois de uma viagem bem aproveitada, será infinitamente mais valorizado.
E isso, isso era o que estava faltando; viver pelo simples ato de viver - não por trabalhar, enriquecer, ter de se sustentar economicamente, apenas por viver, aproveitar a viagem.
O engraçado é que as pessoas não sabem viver. Quando não têm compromissos, perde-se a noção de vida. Domingos são o maior exemplo disso. O fenômeno do Ócio Dominical é justamente aquele pensar "não tenho que estudar, trabalhar, fazer contas, nada - o que eu faço comigo mesmo?", e perde-se a noção do quando parar, pensar e respirar fundo é bom. Ler um livro e saboreá-lo. Ouvir uma música e internalizá-la. Sentar na grama e perceber todo o organismo que o circunda.
Por isso Ana gostava de praias. Nada melhor do que sentar na areia e passar horas ouvindo o som do mar.

"Ei, acorda, nós chegamos"

(continua)

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

cegueira

- O que é ver?
Por essa eu não esperava. Éramos amigos havia uns dois anos e foi a primeira vez que ele me perguntou isso.
- Quero dizer, como é? Dói?
- Não, não dói, Beto. Na verdade, você não sente nada.
- Como, não sente nada? Quando eu encosto em algo cortante, eu sinto dor. Quando você... vê algo ruim, você não sente dor?
Fiquei alguns segundos hesitante. Não é que ele tinha razão? Não é que ele sabia mais sobre a visão do que eu?
- Ah, Beto... sim, quando eu vejo algo triste eu fico triste, mas não é uma dor física, é uma dor, digamos, espiritual, moral, sabe? Essa dor, se ficar muito tempo dentro de você, pode virar uma dor física, mas num primeiro momento, ver não dói.
- Mas, Carol, já ouvi tanta gente dizer que preferiria ser cego do que ver todas as misérias que existem no nosso mundo. Como você explica isso?
- Existem várias formas de se ser cego. Uma das formas é a literal, literalmente não conseguir enxergar, mas outra, a mais comum, é uma epidemia crescente na nossa geração: as pessoas se recusam a enxergar a própria realidade, e simbolicamente fecham os olhos pra tudo, entende? Você tem mais visão do que metade das pessoas que eu conheço.
- Tá, mas agora eu quero saber como é, mesmo, sabe? O que são cores? O que é ser bonito?
Eu nunca me sentira tão privilegiada por enxergar antes na minha breve existência. Só de pensar em nunca ter visto um pôr-do-sol, um céu estrelado, um sorriso, uma lágrima, pássaros voando, o vento batendo nas árvores, as mudanças de expressão das pessoas...
- Você sabe muito bem o que é ser bonito, Beto.
- Mas é diferente.
- Exatamente! É diferente! E o seu conceito de beleza é muito acima do conceito de beleza das pessoas que enxergam, pois a partir do momento que se enxerga o rosto da pessoa, a roupa que ela usa, como ela anda ou as caras que faz enquanto fala, você já tem uma pré-ideia de como essa pessoa é, você a julga, entende? Quando não se enxerga, não há outra forma de conhecer a pessoa que não seja pela conversa, e por esta, sim, pode-se conhecer alguém de verdade e dizer se ela é bonita ou... feia.
Beto bufou. Ele não parecia satisfeito com minhas respostas. Acho que ele esperava coisas mais materiais e objetivas. A conversa estava sendo muito mais enriquecedora para mim do que para ele.
- Carol... eu sou bonito?
Olhei para ele. Seus olhos azuis extremamente claros encaravam o nada, o vazio, mas ele se curvava na minha direção e tinha seus joelhos apontados para mim.
- Claro que é, Beto! Você é uma das pessoas mais admiráveis que eu já conheci, sem falar...
- Não, Carol. Eu quero dizer bonito para quem enxerga.
Sim, muito bonito, inclusive. Sobrancelhas delineadas, grandes cílios, boca bem desenhada, cabelos castanhos sedosos, maxilar forte. Se ele soubesse o quão bonito é fisicamente não teria nem metade do caráter que tem. A grande tendência de hoje é de a beleza corromper imensamente as pessoas.
- Sim, Beto, mas você não devia se ligar a isso, sabe? Muitas meninas se aproximam de você só por causa da sua beleza, mas quando percebem que você é mais do que um rosto bonito e que você não liga para o quão loiras tunadas elas são, elas meio que se assustam. Sabe, Beto? Acho que a sua cegueira é um dos maiores presentes que você tem. Não só você, mas todos ao seu redor.
- Tá, Carol, mas só uma vez, só uma única vez, eu queria poder enxergar.
- Pra ver o que, Beto? Não há nada nesse mundo pra ver que você já não conheça de uma forma ou outra... claro, eu não abriria mão da minha visão, porque algumas imagens valem muito, mas não por serem imagens, mas por o que elas causam, entende? Eu acho incrível que você não precise ver o rosto de alguém pra saber como a pessoa está se sentindo, você entende?
- Mas conversa nenhuma vai me fazer ver o seu rosto.
Senti meu coração partir em dois. Quase deu pra escutar o som dos meus batimentos cardíacos acelerando. O rosto ingênuo de Beto denunciava que ele ainda não tinha captado o que eu senti ao ouvir aquela frase dele.
- Meu rosto?... por que razão você iria querer ver meu rosto, se você já viu tanto além dele?
Beto tateou pelos meus braços até colocar-se na posição certa e abraçou-me.
- Você é incrível, Carol, por que diz que sou seu único amigo?
- Ah, você não entenderia.
Enquanto me despedia dele, passei meus dedos pela profunda cicatriz que cortava meu rosto na diagonal. "Você não entenderia mesmo.".

segunda-feira, 4 de julho de 2011

união

Silêncio. Não do tipo constrangedor, nem do tipo questionador, nem do tipo ensurdecedor. Só o puro silêncio, sem nenhuma interpretação, podendo ser analisado como uma pausa entre notas.
- Você não vai me perguntar mais nada?
- Não. Não preciso saber mais nada pra concluir que você é absurdamente perturbada. Aliás, eu comecei a suspeitar disso quando vi você entrando. Apesar do seu olhar penetrante e da sua pose ferina, algumas coisas te denunciam, como suas unhas por fazer, seus sapatos gastos e seu cabelo por pintar. Se você vivesse inteiramente por essa vida, sua apresentação estaria impecável.
Luana surpreendeu-se mais uma vez. Torceu a barra do seu robe com as mãos e mordeu a língua.
- Você tem alguma ideia acerca do motivo de isso acontecer com você? Quero dizer, essa quebra dentro de você...
- O que é você? Um psicanalista? Eu não sei e não quero saber.
Victor olhou para baixo, compreensivamente. Aquele ataque fora só uma forma de defesa.
- Sabe, minha mulher diz que eu sou um babuíno que não consegue controlar seus impulsos sexuais. Não sei por que ela começou a falar isso, nunca dei motivos para tal, mas uma mulher infeliz consegue achar impurezas em qualquer lugar, e de certa forma...
Victor ia falando, mas Luana sentia como se tivesse sido sugada para outra dimensão. Uma dor de cabeça insuportável e um bombardeio de memórias haviam tomado conta de sua mente. Ela queria gritar, queria correr, jogar-se de cima do prédio, bater sua cabeça contra a parede para fazer tudo aquilo parar, mas seu corpo só respondeu àquilo com um súbito desmaio.
Uma criança sorrindo, de rosto conhecido - um dos alunos de Luana. Um homem chegando - Victor. Os dois aproximando-se. Eram filho e pai. A criança corre, parecia não querer ficar na presença do pai, ela quer ser livre, fazer o que quiser. O pai coloca as mãos no rosto, visivelmente transtornado pelas atitudes do filho, refletindo se não é melhor deixá-lo fugir, vira as costas e começa a ir embora. Mas algo os impede. A criança tropeça e cai, o pai, instintivamente ao ouvir o barulho da queda, vira o rosto e o vê, sangrando, chorando, e corre em sua ajuda.
Quando estavam na iminência de darem-se as mãos, a cena muda.
A sala onde Luana dava aula. Em vez das crianças, lá estavam babuínos, e a professora usava vermelho e um decote que mostrava mais do que deveria. Ela dava aula. Um dos babuínos começa a comportar-se mal.
Quando Luana ia reprimi-lo, a cena muda.
A sala vermelha. Luana de branco, óculos e cabelos presos num rabo-de-cavalo, sentada numa poltrona, rodeada por prostitutas, ensinando-as história. Uma das moças levanta a mão para fazer uma pergunta.
Quando Luana ia atendê-la, ela acorda.

No hospital.

O barulho esperançoso do monitor que mostrava sua frequência cardíaca foi ficando cada vez mais alto, sons de pessoas andando e conversando ao longe foram ficando mais distintos, pouco a pouco ela começou a ouvir os barulhos da cidade até que, por fim, abriu os olhos.
Viu uma enfermeira se aproximando.
- Ah, você acordou! Antes do previsto, que bom! Achávamos que você só ia acordar daqui uns três ou quatro meses.
- O quê? Faz quanto tempo que eu estou aqui?
- Dois meses. Pelo que sei, você sofreu grande estresse e seu cérebro meio que entrou em curto-circuito. Você se desligou, garota, entrou em coma. Que bom que foi socorrida a tempo, o seu marido estava super preocupado...
- Quem?
- Seu marido, Victor. Foi ele quem te trouxe aqui, lembra?
- Meu... marido?
Victor entra na sala, com uma expressão ansiosa e cabelos amassados de quem tinha acabado de acordar.
- Fui bipado, me disseram que estavam monitorando a atividade cerebral e que ela estava se normalizando e...
Os olhos de Victor encontraram os de Luana. Ele prendeu sua respiração um instante.
- Minha garota, você acordou!, ele saiu tropeçando e caiu aos pés da maca de Luana, segurando sua mão. Você se lembra do que aconteceu?
Luana acenou negativamente com a cabeça.
- Não tem importância, olha, olha quem veio aqui te visitar... Olha, Tiago, a mamãe acordou!
Um menino de aproximadamente 6 anos foi entrando timidamente no quarto. Cabelos louros, olhos cor-de-mel, suas mãozinhas torcendo a barra da camiseta.
- Mamãe, você dormiu tanto tempo...

Ao ver esse rosto, ao ver o rosto de Tiago e olhar para os olhos cor-de-mel de Victor, tudo atingiu Luana de novo. Ela lembrou-se de conhecer Victor na faculdade e casar-se com ele alguns anos depois, de começar sua carreira de professora, de ter um filho, de começar a ter lapsos momentâneos e perda de memória recente, de ir a um psiquiatra que diagnosticou-a com um certo transtorno de personalidade, lembrou-se de começar a surtar com sua vida perfeita com Victor, de dar aulas para seu próprio filho, de começar a irritar-se com nada, de começar a sair a noite, de arrumar um escape para toda sua bilateralidade, de Victor apoiá-la e encontrar-se com essa outra personalidade e ajudá-la a se recuperar... Tudo isso atingiu-a em alguns milésimos de segundo, mas, dessa vez, não causou um desmaio.

- Você está bem, meu amor?, a voz de Victor a trouxe de volta.
- Estou, sim... acho que agora estou bem.

Tiago sorriu e sentou-se no pé da maca de Luana.
- Senti sua falta, mamãe.

terça-feira, 10 de maio de 2011

dibs pronuncia-se

- Sabem o que eu acho? - começou Dibs. - Acho que os tolos aqui são vocês. Vocês é que são o hedonistas e escravos do capitalismo, os manipulados, os infelizes, os insatisfeitos e os ingênuos! Vocês - até você, Hermann - é que se deixam cegar pela ganância, prepotência, ignorância e pseudo-busca por um sentido da vida. Não os culpo! Acho que o tempo tornou-os duros e de certa forma cegos ao que realmente importa. Mas é muita agnosia da parte de vocês acharem, que por serem mais velhos e estudados do que eu, que sabem mais sobre a vida ou que têm o futuro mais apropriadamente traçado. Filósofos, pensadores, psicólogos e sociólogos de muitas gerações já afirmaram que devíamos ver o mundo com o olhar das crianças, não no sentido de um olhar sem malícia, mas de um olhar de quem aproveita o que está vivendo, de quem tem sonhos no coração e procura concretizá-los da forma melhor e mutuamente benéfica possível... quando crianças é que aprendemos a amar, sentir, sonhar e planejar corretamente... esses valores todos vão se dissolvendo dentro de nós com a idade e o falso conceito de maturidade... Portando, do meu ponto de vista, ingênuos são vocês, que se acham bons o suficiente para viverem sozinhos!
Não é preciso dizer, caro leitor, que a atmosfera ficou cheia de tensão e indignação. Hermann sentia-se envergonhado por ter recebido uma lição de moral de tão jovem criatura, Fitz sentia-se indignado e já calculava respostas para cada sentença dita por Dibs, e Eduardo estava realmente refletindo sobre o que Dibs dissera. Mas, de forma geral, o que cada um se perguntava era: e se Dibs estiver realmente certo? E se aqueles valores mencionados por ele tornassem a vida realmente mais proveitosa e menos difícil?
Eduardo começava a sentir vontade de bater sua cabeça contra a parede. Trinta e tantos anos, vinte e tantos investidos em agradar a terceiros. Os últimos dez anos de sua vida empregara apenas em reverter suas habilidades em algo que poderia ser útil apenas aos outros e que não lhe dava nenhum prazer. Alguém que passa tanto tempo assim ou é realmente ignóbil e não dá valor à própria vida ou é alguém que aterroriza-se só com a ideia de fazer algo por si próprio, de seguir os próprios sonhos independentemente de sua utilidade ao capitalismo atual, se arcar com as consequências das próprias escolhas.
Hermann tentava calcular onde é que tinha errado. Tudo aquilo parecia tão óbvio, mas Hermann acostumou-se a olhar através do óbvio, então muitas vezes não capta as coisas mais simples. Tanta complicação, tantas desculpas, tantos motivos para não aproveitar a vida; que Hermann esqueceu-se do valor-mor, instintivo, primitivo e poético em todos os sentidos: simplesmente aproveitá-la, pois não teria outra. Tornar-se escravo das próprias ideologias, epifanias, medos, hipóteses e obrigações para com a tal sociedade também é uma forma de anular-se. Prender-se à tarefa sem aproveitá-la é tão herege quanto não fazê-la.
Fitz não queria aceitar que sim, talvez Dibs esteja certo, talvez afastar as pessoas não seja a atitude mais certa a se tomar. Julgar o caráter das pessoas baseado em seu nível intelectual é tão errado. Prova disso era ele mesmo - extremamente dotado intelectualmente, mas não serviria como referência de cidadão moral. Tampouco seria um amigo de verdade. Tendo sua existência marcada por solidão e muitas contradições dentro de si, Fitz concluiu que sim, há um método alternativo, a felicidade é possível, arrogância não é sinônimo de superioridade.
Dibs era, sem dúvida, o jovem que um dia os outros três foram, mas abandonaram por conveniência ou falta de utilidade, e aquela conversa resgatara valores há muito esquecidos...

quinta-feira, 28 de abril de 2011

o sentido da vida

- Utopias me deixam extremamente frustrado. - Eduardo continuou. - Se eu detesto o sentimento de não ter conseguido cumprir uma meta, me sinto ainda pior quando percebo que tal meta é inalcançável.
- Quando sua meta passa a ser algo inalcançável, alguma coisa está errada. - Fitz comentou. - Quero dizer, quem em sã consciência passa a desejar algo que não pode nunca ser atingido? É masoquismo!
- Acho que uma pessoa já muito realizada tende a, cada vez mais, sonhar mais alto, consequentemente exigindo mais de si e empenhando-se mais na conquista de seu objetivo... - Dibs disse.
- Não. Acho que desejar algo inalcançável não significa que a pessoa seja realizada, significa falta de humildade e sentimento de onipotência. Em outras palavras, estupidez. - Fitz disse.
- Se todos pensássemos assim - Hermann começou - ninguém não buscaria nem encontraria um sentido para a própria vida, visto que a busca pelo mesmo geralmente leva bastante tempo e muitas vezes parece inatingível.
- Mas encontrar um sentido para a própria vida é algo muito mais profundo e complexo do que simplesmente considerar-se admirável o suficiente para atingir todo e qualquer objetivo almejado - disse Fitz. - O indivíduo pode muito bem ter um objetivo moral para cumprir durante sua vida sem começar a achar que é capaz de cumprir com todos as suas metas.
- Mas então - disse Hermann, e começou a desenvolver a frase vagarosamente:- o que torna uma busca por um sentido na vida diferente de uma outra meta qualquer?
Os outros três puseram-se a pensar. Dibs resolveu pronunciar-se.
- A busca por um sentido deve basear-se nas suas aptidões, gostos... Deve ser uma união do útil com o agradável, ao mesmo tempo pensando de que forma se estará contribuindo ao mundo ao seu redor. Seja esse mundo composto por 6 ou 6 bilhões de pessoas, tudo o que você faz é de certa forma importante para pelo menos uma pessoa... independentemente da área de sua atuação, deve-se sempre segurar sua lâmpada, seja pra iluminar uma pequena área ou um ambiente inteiro...
- Então, basicamente, devemos todos empregar nossas habilidades e o que gostamos de fazer para o bem? Para a melhoria do mundo? - Fitz soava incrédulo. - Isso é tão romântico.
- Perdão pelo clichê, mas se todos fossem como Dibs, senhor Fitzwillian, o mundo de fato seria melhor. - disse Hermann.
- Olha, meu caro, minha melhor habilidade é a manipulação, e o que eu mais gosto de fazer é fazer o que eu quero. Como isso pode ser revertido para o bem?
- Você é um pobre coitado que precisa de muita ajuda para livrar-se desse seu lado que foi esculpido por conveniências, negócios e seu pai. Fitzwillian, você sabe bem que manipulação não é seu maior dom, e que se você investisse um mínimo de tempo em um processo de autodescoberta você seria um homem completamente diferente. - Hermann disse, deixando Fitz a olhar pela janela, vermelho. - E você, Eduardo? Já descobriu um sentido para sua vida?
Os olhos se voltaram para Eduardo. Hermann olhava-o curiosamente.
- Na verdade, não. Passei tanto tempo sendo o que o mundo queria que eu fosse que me perdi no meio do caminho.
- Você não tem uma esposa e filhos?
- Sim... posso dizer que depois de um tempo pude sentir que começou a florescer alguns traços de amor dentro de mim, por ela. Casamo-nos por conveniência social. Ela é tão perdida quanto eu, mas mostra-se, dentro de casa, uma mulher decente e ótima mãe... E meu filho, meu filho provavelmente é o único motivo pelo qual eu continuo seguindo com minha vida de fachada.
- Você não acha que isso é um ótimo sentido para sua vida? - Dibs perguntou. - Viver para fazer alguém feliz, viver sendo feliz porque o outro está feliz. Mesmo que sua busca seja eterna e que você nunca se conheça por completo, sua vida não vai ter sido um completo desperdício, pois você terá compartilhado-a com sua esposa e filho. Uma vida com amor nunca é vazia, pois o amor é o sentimento mais nobre e satisfatório que existe.
- Dibs, você é um eterno romântico, ingênuo, tolo. - Disse Fitz. Ele olhava pela janela novamente, mas não conseguiu disfarçar que as palavras do mesmo haviam atingido-o - ele, cuja vida esteve repleta de tudo, menos de amor.

sábado, 16 de abril de 2011

liberdade

- Ao menos eu sou livre, Fitzwillian.
Essa foi a resposta dada por Hermann, uns tensos segundos depois das explosão e confissão de Fitz.
Dibs tinha suas orelhas vermelhas e as mãos juntas em seu colo.
Eduardo encarava Fitz e Hermann como se estivesse acabado de assistir um diálogo entre ele e ele mesmo.
A Dama observava toda a composição da cena com um êxtase profundo.
- Que diabos, Hermann! - Fitz agora encarava-o como se fosse louco. - Eu sou livre, legalmente livre e responsável por mim mesmo e por qualquer outro alguém desde que completei vinte e um anos de miserabilidade!
- O que quer dizer com isso? - Eduardo interveio. - Você supõe que algum de nós não seja livre?
- Eu sou livre porque sou escravo das minhas virtudes e dons. Vocês são escravos do que a nossa sociedade, hedonista e que padroniza, impõe que sejam. Vocês são escravos do trabalho e do dinheiro, são escravos da falsa ideologia (que atua como uma pseudo-crença a ser seguida) que lhes é imposta todos os dias por todos os meios de comunicação, são escravos de seus impulsos e desejos carnais e materiais, são escravos de uma falsa necessidade de atualização. São pobres seres racionais que são enganados a todo instante. Mas vocês todos, todos, são ignorantes a ponto de não saber que, se vocês são escravos de si mesmos (de um eu idealizado e requerido pela sociedade), são também os donos de si mesmos, possuidores da única chave para sua própria libertação. Libertação essa que exigiria muita reflexão e desprendimentos, mas que traria uma recompensa para toda a vida.
Ficaram todos, exceto Fitz, encarando os próprios sapatos, como crianças que acabaram de levar uma bronca moral da mãe. Dibs mostrava-se incrivelmente maravilhado de ter acabado de escutar toda aquela profecia ditada por Hermann. Não conseguia esconder a admiração e, ao mesmo tempo, a pena que sentia pelo homem.
- Se você é escravo de suas virtudes, Hermann, você também pode estar sendo ludibriado pelo que acha ser um bom motivo para continuar vivo. Se você acha que ser escravo de sua inegável habilidade para refletir criticamente acerca das coisas, escrever sobre o comportamento humano, cercar-se de cultura e embriagar-se de poesia modernista são virtudes, provavelmente o pensa porque são atitudes não tão comuns em nossa sociedade. Logo, você continua sendo escravo da mesma - no caso, é escravo do que não é requisitado ou apreciado. - Fitz concluiu, finalizando sua fala num tom estranhamente reflexivo e não tão sarcástico.
- Hermann, também há a possibilidade de você cegar-se tanto acerca de suas virtudes que se esqueça de trabalhar seus defeitos. - Dibs disse. - Ou você acha que é completamente normal e são estar total e completamente alternativo à sociedade? O homem é um ser social, vive em sociedade e de uma forma ou de outra deve fazer parte dela, e você precisa parar de acreditar que assistir à programação que passa em seu televisor ou comer fast food de final de semana acabaria por corromper seu rico caráter.
Ficaram quietos, refletindo. Era muito conteúdo em um demasiadamente curto espaço de tempo.
- Mas então - Eduardo quebrou o silêncio - o que é ser livre?
- Acredito que seja não prender-se a nada. Não prender-se a valores como se fossem a única verdade do mundo. - Fitz disse. - Acho que um homem realmente livre é aquele que consegue enxergar e refletir acerca de ideologias e opiniões diferentes, e, por fim, montar, como num mosaico, sua própria tese acerca da vida.
- Mas como? Como uma pessoa pode montar seu caráter e ter uma posição definida, se ela não se prende a ideia nenhuma? Uma pessoa assim seria indecisa pelo resto da sua vida! Estaria destinada a ficar em cima do muro em todas as decisões que envolvam uma moral, por toda a sua vida! - Hermann disse. - Ser livre é ser indefinido?
- Não, Hermann. É totalmente possível que se tenha um ponto de vista mesmo não se prendendo a uma só teoria. E esse é o real valor da liberdade que Fitz está tentando nos mostrar. A liberdade é um valor acima de todos, e só é possível alcançá-la quando nos libertamos dos nossos preconceitos e passamos a olhar tudo por cima, conseguindo compreender tudo à nossa volta, porque temos nosso olhar livre o suficiente para analisar uma situação sem nos prendermos à uma ideia totalmente contra ou totalmente a favor a ela. O indivíduo livre não é aquele indeciso, pelo contrário, é aquele que reflete e pensa e define muito mais do que qualquer um, pois tem sua mente aberta a tudo. - Foi a vez de Eduardo manifestar-se. - Utópico. Não acredito que alguém consiga atingir esse estado. Talvez Buda, Gandhi, Maomé ou Jesus Cristo, mas não nós.
- Não gosto de utopias. - Dibs pontuou.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

felicidade

A atmosfera ia ficando cada vez mais carregada de faíscas e tensão entre Eduardo e Hermann. Comentários cínicos e indiretas ficando cada vez mais frequentes. Dibs olhava-os de forma confusa, Fitz tinha seus pés apoiados na mesa e consumia seu segundo charuto. Dama passava os dedos ao redor da sua taça meio cheia (ou meio vazia, dependendo da corrente filosófica do leitor). Tomou fôlego, hesitou, mas levantou a voz.
- Eu queria propor-lhes uma troca de ideias...
- Deus me livre!, para citar Mário Quintana, mademoiselle. Prefiro abster-me da discussão. - Suponho que o leitor já saiba de quem foram essas palavras.
Fitz soltou a fumaça pela boca com um estalo.
- Qual seria o tema?
- Felicidade.
- E se eu não souber o que me faz feliz? - Dibs pronunciou-se.
- Acho que é mais provável que nenhum de nós saiba o que é a felicidade porque a possibilidade de alguém aqui ter sido feliz alguma vez é mínima - Eduardo disse, num tom baixo, calmo, controlado e até vago.
- Não é possível ser feliz -, máxima lançada por Fitz.
Dama encarou-o.
- E por que não?
- Pois a felicidade é algo a que sempre almejamos e sempre almejaremos, e quando superamos um obstáculo para alcançá-la surge sempre outro e outro, por mais que esses obstáculos sejam colocados por nós mesmos. O homem não quer e não merece ser feliz.
- Essa quantidade de obstáculos surge quando não se sabe o que quer - Eduardo disse, encarando Fitz e surpreendendo-se com a similaridade entre os dois. - quando se tem um objetivo em mente, não surgem novos obstáculos, esses só vão ficando cada vez mais complexos, exigindo cada vez mais de nós, e é esse desgaste que nos impede de alcançar o êxtase.
- Eu não sei vocês, mas - Dibs disse, timidamente - eu sou feliz quando estou amando alguém e consequentemente amando-me. Eu... acho que vocês só afastam a felicidade quando pensam muito sobre ela...
Fitz e Eduardo calaram-se. O garoto tinha uma opinião. O garoto tinha uma opinião a respeito de um assunto complexo e labiríntico como felicidade, e expressou-se de forma clara e modesta. Fitz mostrou-se balançado, Eduardo tinha uma expressão nostálgica em seu rosto. Via seu eu adolescente em Dibs.
- A felicidade - Hermann começou a falar, devagar, como se estivesse escolhendo as palavras certas - está na busca pelo que achamos que ela é. A felicidade está no processo, em tudo que conquistamos achando que só no final seremos felizes. Se a busca terminasse, qual seria o motivo para continuarmos vivos? A incessante busca por algo mais nos motiva e deve sempre nos motivar, o problema é que muitos se perdem no caminho e acabam não apreciando a verdadeira beleza da vida, que é o viver, e não o terminar...
No rosto misterioso de expressão quimérica esboçou-se um sorriso. Dama parecia satisfeita.
- Eu não... me considero feliz. Não faço o que eu quero, nunca fiz o que eu queria, e a única certeza que eu tenho é de que eu não gosto de como minha vida está - Eduardo disse.
- Isso é um começo, oras... ao menos você sabe do que você não gosta. - Dibs disse, encarando os próprios sapatos.
- Se o verdadeiro proveito encontra-se na busca pela tal felicidade, então por que eu não sou feliz, Hermann? - Fitz perguntou.
- Talvez você esteja procurando no lugar errado. - Hermann respondeu com um sorriso terapêutico. - Se começasse a viver sua vida por você e não pelos outros talvez você aproveitasse o que eu chamo de processo de descoberta.
- Isso não está certo. Eu tenho meu objetivo em mente. Eu sei o que eu quero. E eu sempre consigo o que eu quero. Na verdade, eu já conquistei meu último objetivo - Fitz disse. - Não é como se eu ligasse também.
- Objetivos superficiais e fáceis. Pela forma como você diz, você deve morrer de medo de desejar algo mais difícil e frustrar-se se não o alcançasse. Fitz, é normal e bom falhar às vezes. Torna-nos humanos.
- Você é um hippie doido! Quer o quê? Que eu me desprenda da sociedade vá viver no campo lendo poesia do século quatorze? Que eu passe a admirar cada segundo do meu dia entediante e sem novidades? Que eu chegue atrasado ao trabalho e quando meu pai pedir uma explicação, eu diga que estava apreciando o milagre da vida ao ver um pássaro sair de um ovo? - Fitz ficou vermelho e fumava cada vez mais compulsivamente. - Poupe-me, Hermann! Eu não quero acabar como você.

sábado, 19 de março de 2011

três homens - 2

Então a cena era a seguinte: uma taverna escura. Atrás do balcão, um garçom enxugando um copo. Numa mesa ao lado de uma janela, uma dama - cujas feições não podiam ser vistas - sentada ao lado de três cavalheiros, de um lado da mesa, e do outro encontrava-se sentado um jovem adulto, que encarava-os com interesse. Este último chamava-se Eduardo, e nada sabia dos outros três homens sentados a sua frente.
Após algum tempo dedicado ao silêncio e à reflexão, o senhor melancólico pronunciou-se.
- Mil perdões, minha dama, mas receio que minha presença aqui seja inútil, no melhor sentido da palavra. Creio que não há nada que eu possa adicionar à alma deste jovem rapaz. Ele parece-me decidido a não ouvir uma só palavra do que for dito aqui.
- Com licença, senhor, mas de onde veio tal afirmação? Eu nem sequer dirigi-te a palavra - Eduardo retrucou.
- Pela sua postura, meu jovem, é óbvio que você está convencido de que o modo como está vivendo é o melhor. Você está sentado de braços cruzados lançando-nos um olhar de frio e intensos desprezo, subestimação e desesperança. Acredito que tenha mudado de vida um tempo atrás e decidiu não voltar ao que foi outrora, estou certo? Bem, não é uma conversa com três homens desconhecidos que mudará suas atitudes. Epifanias morais não são tão recorrentes assim.
- Hermann, sê cauteloso com tuas palavras. Eduardo precisa de ti mais do que qualquer um neste instante. - a Dama interviu.
- Rapaz - o forte pronunciou-se - com licença, prazer. Meu nome é Fitzwillian, mas chamam-me Fitz. Tenho apenas uma pergunta: o que é que está fazendo aqui quando uma vida perfeita e almejada por todos encontra-se em sua casa?
- Minha Dama, acho que eu sou o que menos importa daqui, por que fui chamado? - o pequeno burguês perguntou.
Com um gesto, a Dama calou os três.
- Eduardo, estes são Hermann, Fitz e Dibs. Chamei-os porque cada um tem algo de essencial para dizer-te.
- Dama, como um velho frustrado como eu pode ajudar um jovem bem sucedido e realizado profissionalmente como este? Ele está por acaso procurando uma possível absolvição através da busca por excelência moral e intelectual? Não? Nesse caso, não há auxílio que eu possa oferecer. Retiro-me.
- Com licença, senhor Hermann, posso informar-me do motivo pelo qual o senhor está julgando-me a todo instante? Está aqui há pouco mais de um quarto de hora e acha que já me analisou completamente. Um cavalheiro digno e experiente como o senhor devia constituir suas opiniões de tópicos que vão além do preconceito. - Eduardo levantou-se e impediu que Hermann saísse.
- Oh, entendo. Vista essa reação, passo a acreditar que o senhor é um sujeito moral dos mais altos índole e caráter, que possui mente aberta e prontifica-se a uma mudança radical em seu estilo de vida caso haja interferência neste?
- Hermann, sossegue, não está vendo que o rapaz não está interessado em seus conflitos e críticas existencialistas? - Fitz intrometeu-se. A postura deste era realmente curiosa. Enquanto surgiam faíscas entre Hermann e Eduardo, ele apenas fumava seu charuto com os pés apoiados em cima da mesa. E Dibs apenas observava-os. Quando Hermann pronunciava-se, Dibs dava a impressão de querer levantar-se para concordar e defendê-lo, mas continha-se, e quando Eduardo fala, agia da mesma forma. Era um pobre homem perdido em delírios intelectuais e morais, reprimido pela própria consciência.
Já a Dama, a Dama assistia a tudo com certo prazer. Não falava, mas com certeza exercia uma grande força sobre os quatro ali presentes.

quarta-feira, 9 de março de 2011

três homens

Balançou a cabeça como se quisesse afastar aqueles pensamentos e voltar à sua realidade.
- O fato é que eu fui extremamente anti-ético e compartilhei a vida desse meu paciente deprimido com uma certa moça. Uma moça que não tinha como ser mais fútil. Na verdade, eu a considerava tão miserável que nem me lembro o que levou-a a procurar-me. Eu contei a ela sobre todas as preocupações, desilusões e inquietações do meu paciente, e ela convenceu-me de que ele era louco, de que ele estava cego; e vendeu-me o ideal de ser exatamente o oposto disso. Comecei a me tornar mais pragmático, fui perdendo meu lado idealista, parei de perder meu tempo com planos de uma revolução. Sei que ela foi muito conveniente.
- Ela apenas confirmou a ideia que estava se desenvolvendo dentro de ti. Não culpes tu essa moça totalmente por algo que só pôde tomar uma forma consistente depois que tu mesmo começaste a refletir a respeito.
Eduardo encarou-a. Tentou se lembrar do rosto da antiga paciente dissimulada. Havia algo de muito familiar entre a paciente e a moça.
Ele abriu a boca pra murmurar alguma coisa, algum protesto, mas foi interrompido pelo baque surdo da porta da taverna batendo na parede. Três homens entraram e juntaram-se a Eduardo e à moça. Ela parecia à vontade e familiarizada com aqueles homens. Um era alto, magro, até meio cadavérico - sua expressão era melancólica, tinha cabelos ainda muito negros e usava óculos de aro redondo. Estava vestindo terno e gravata, um traje excessivamente formal para a ocasião. O outro era forte, bonito, em seu olhar havia traços de desprezo e em seu sorriso havia linhas de superioridade. Por fim, o terceiro parecia incrivelmente comum, não tinha nenhuma linha de expressão muito marcante em seu rosto e usava roupas comuns de um burguês comum.
O terceiro homem foi o primeiro a se pronunciar.
- Chamou-nos, dama?
- Certamente, senhor. Eu preciso de ajuda com esse promissor rapaz.
Eduardo olhou diretamente para os olhos do terceiro homem e, novamente, sentiu que o conhecia ou reconhecia. Mas nada era certo - estava ébrio e ultrapassando a tênue divisão entre a realidade e a fantasia.

domingo, 6 de março de 2011

embriaguez de memórias

A moça encarou-o como se estivesse se divertindo com aquelas respostas. Ela tinha um ar de superioridade tal, que, quando sorria, fazia Eduardo sentir um impulso elétrico subindo-lhe pela espinha e forçando-o a gritar de desespero, de agonia, de desesperança. Como era inusitado sentir-se inferior. Era uma sensação tão agridoce.
- Conta-me como era tua vida antes.
- Antes do quê?
- Antes de vender-se ao mundo das vendas e manipulação.
- Eu era psicólogo. Hoje tenho ojeriza a pessoas. Minha vida baseava-se em tentar convencê-las de que não estavam levando a vida de uma forma saudável, de que elas poderiam ser felizes, de que - com um pouco de esforço - suas vidas poderiam mudar drasticamente... Mas depois de anos trabalhando com isso fica claro que ninguém quer realmente mudar. Há uma insistência em dar continuidade a suas vidas miseráveis, medíocres, medianas, fúteis - e eu tinha a sensação de que naquele consultório o mentecapto era eu mesmo! As pessoas chegavam e tentavam-me com a inebriante essência da ignorância, da apatia, do conformismo, tentavam vender-me um projeto de vida ideal, sem preocupações, sem grandes questionamentos...
- Mas não foi isso que te fez mudar.
- Não. Foi um paciente em particular. Tinha por volta de uns cinquenta anos. Chegou a meu consultório dizendo estar louco - dizendo estar louco de tanto não entender o mundo a sua volta. Tinha tendências suicidas, mas era presunçoso demais para acabar com a própria vida. Era incrivelmente deprimido. Tudo era motivo para uma reflexão pessimista ou uma análise destrutiva da sociedade. Tinha um histórico muito interessante - pois, diferente de muitos dos meus pacientes, não tivera uma família ou infância desregulada. Decidi estudá-lo a fundo, e descobri que tratava-se de um caso raro de excesso de consciência. Eu tentei ajudá-lo, tentei levá-lo a descobrir algo em sua vida pelo qual valesse a pena lutar, mas tudo que o fazia feliz e útil também o levava à bebida, às drogas, pois ele não se sentia capaz e forte o suficiente pra conseguir lidar com tudo aquilo.
- E o que te assustou foi o fato de que tu estavas destinado a acabar assim também.
Durante alguns curtos instantes, Eduardo teve a sensação de que já vira aquele rosto e já ouvira aquela voz antes. Sentia como se a moça fosse um amigo de infância que agora havia voltado para mostrá-lo um caminho para a absolvição. Ou era alguma ilusão causada pela sua mente, embriagada de memórias da sua antiga vida, do seu antigo eu. Difícil distinguir.

terça-feira, 1 de março de 2011

a primeira conversa

Achou um tanto estranho aquela quantidade de imposições numa só frase. Claro que não estava acostumado a receber ordens de ninguém - era sempre ele mesmo quem ditava as regras. Talvez por esse motivo mostrou-se tão obediente e ávido por sentir-se subordinado a alguém.
De qualquer forma, levantou-se e foi atrás da mulher. Sua próxima lembrança começa em uma taverna estranhamente vazia. Lá, encontravam-se apenas ele e sua mentora. Ainda não podia ver-lhe as faces, mas tornou a ver seus braços, muito brancos, de pele aveludada. Estavam sentados um de fronte ao outro, e a moça segurava o queixo com as mãos, com os cotovelos apoiados na mesa. Chegava a aparecer que estava admirando-o.
- Do que precisas?, ela finalmente perguntou, após alguns instantes apenas observando-o.
- Como assim, do que eu preciso? Não preciso de nada, já tenho tudo.
- Se hesitas e perguntas é porque não sabes. Responde. Do que precisas?
- Não preciso de nada.
- E por que razão? Não desejas nada?
- Claro que desejo. Desejo sentir algo além de tédio.
- O que comprova minha teoria. Achaste-me pois não aguentavas mais tua rotina.
- Eu te achei fazendo algo que faço todos os dias. Andando na rua à noite, vagando e bebendo.
- E é isto que torna nosso encontro tão interessante.
Eduardo encarou-a. Tinha uma expressão digna de uma esfinge. Parecia que estava desafiando-o a cada palavra. Desafio aceito.
- Quão egoísta és tu?
- Egoísta a ponto de achar que nada pode me salvar além de mim mesmo, e minhas tentativas de absolvição foram totalmente falhas.
- Realmente achas que isto significa ser egoísta?
- Certamente. Alguns buscam a redenção no amor; alguns na religião; outros na realização de sonhos; mas eu, eu transpus todos esses limites.
- Pelo que conheço de ti, sei que nem sempre foste assim. Consegues lembrar-se de como eras antes da vida boêmia?
- Eu era infeliz.
- E o que és agora?
- Apático.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

a moça

Quanto mais ele chegava perto, mais audíveis os sussurros da pessoa ficavam. Eduardo ajoelhou-se ao lado da figura e esperou por uma reação.
Nada.
Mas antes de ele abrir a boca para falar algo, a figura pronunciou-se.
- Não é obvio que eu estou rezando? - e da figura encapuzada saiu uma feminina voz, muito doce, mas com alguns indícios de melancolia. Disse isso sem virar o rosto, sem sair de sua posição oratória.
- Por que está rezando?
- Não por que, mas por quem. - a voz saiu quase que como um sussurro. - Estou rezando por você.
Eduardo assustou-se. Como, por mim?, ele pensou, se eu nunca a vi na vida?
- Estou pedindo que Deus lhe perdoe. - a moça disse. Eduardo não entendeu. Não era religioso, não acreditava em nada além dele mesmo.
- Não preciso que ninguém interceda por mim, moça.
- Certo. - Ela se levantou e, sem que Eduardo pudesse ver seu rosto, virou-se e saiu andando. A única coisa que podia se dizer acerca de sua aparência física era a respeito de sua altura, pois ela usava uma capa de lã muito grossa que se estendia até o chão. Incomum. Não é de se admirar que esse repentino acontecimento tenha despertado tanta curiosidade em Eduardo. Há muito tempo ele esperava por alguma coisa que tirasse sua vida do total e completo tédio. Então seguiu a moça.
A única parte de seu corpo que Eduardo pôde ver até então foi seu braço direito - quando a moça estendeu-o para abrir a porta da igreja, Eduardo notou que ela possuía uma cicatriz em forma de cruz no antebraço. Olhou para o seu próprio. Ele tinha uma cicatriz idêntica. Isso sempre esteve aqui?, ele pensou.
Os momentos seguintes ficaram memorizados de forma muito confusa na mente de Eduardo; uma série de acontecimentos não passam de borrões; até que ele se encontrou deitado num banco na entrada de uma taverna. E, surpreendentemente - ou não -, encontrava-se ao seu lado a tal moça da cicatriz de cruz. Desta vez, metade de seu rosto estava visível. Não era magro, era de um formato deveras masculino, a boca estava machucada e ela tinha um hálito de absinto.
- Você me encontrou porque sua vida estava um tédio, ou estou enganada? - Eduardo consentiu. Estava ainda um pouco tonto. - Serei a tua fonte de absolvição. Deverá escutar-me e responder sinceramente às minhas perguntas. Agora recomponha-se, que nosso lugar não é aqui.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

a igreja

Começa o filme. Imagens de um rapaz de trinta e poucos anos, com maxilar bem quadrado e cabelos castanhos perfeitamente repartidos ao meio.
Eduardo era o tipíco amante do sucesso. Boa-pinta, charmoso, sedutor, carismático, tinha uma lábia que vou te contar. Exatamente por isso era sempre o funcionário do mês na empresa em que trabalhava. Emprego irritante aquele. Eduardo era encarregado de convencer as pessoas a comprarem todos aqueles aparelhos inúteis e multifuncionais - às vezes só pelo telefone. E era o mais bem sucedido vendedor dos últimos vinte e cinco anos, segundo aquela revista de circulação federal.
Era o cara que pede licença mas não pede desculpa se pisar no seu pé. Que não mente, mas omite muita coisa. Que te faz um favor se você já tiver feito-lhe muitos. Que consegue driblar até o jornalista mais crítico e competente de sua área. Quase um Collor. Realmente adorável. Tipinho imprestável e muito conhecido, mas que sempre cai nas graças do povo, certo?
Ele também era relativamente jovem, quando considerando seu tremendo sucesso profissional. Estava noivo de uma apresentadora de um talk-show, típica loura de olhos azuis e corpo lipoesculturado, e já tinham um filho de 4 anos - muito inteligente, muito bonito, menino prodígio da música e do desenho! Que vida perfeita.
Pausa.

Eduardo estava sentado na poltrona vermelho-sangue de sua sala. A única fonte de luz era uma luminária muito fraca, no canto da sala. O ambiente era gélido, mas ele estava completamente confortável, com uma taça de vinho na mão. Deu um último gole e descansou a taça sobre a mesa de centro. Recostou-se na poltrona e cruzou as pernas, enquanto tamborilava seus dedos nos braços dessa. Suspirou.
Levantou-se. Ia dar uma volta. Saiu de seu apartamento - no vigésimo sétimo andar do prédio localizado na área mais rica da cidade. Já estava bem escuro, aparentava ser mais de meia-noite, mas Eduardo não tinha assim tanta certeza. Saiu em busca de prazer, diversão, entretenimento.
Andando na rua vazia, pouco iluminada e de atmosfera úmida, ele finalmente sentiu-se à vontade. Afrouxou a gravata e deu um gole na garrafa de vinho tinto que trouxera consigo. Foi andando com passos largos e lentos até deter-se avistando uma igreja gótica. Mal iluminada, muito alta, vitrais que, à noite, davam a impressão de ter ilustrações do inferno. Eduardo sorriu.
Resolveu entrar na igreja. Não fez o costumeiro sinal-da-cruz ao entrar, não tinha religião nenhuma, ele era seu próprio deus. Foi andando tranquila e distraidamente por lá, mas parou ao ver uma imagem de capuz ajoelhada ao altar. Foi a seu encontro.

(continua)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

o despertar

Trilha sonora: Clair de Lune - Claude Debussy

Foi abrindo os olhos lentamente. Queria aproveitar o sentimento único de transição entre o mundo dos sonhos e o real. Enquanto a imagem se focava, sentiu a brisa gelada acariciando as maçãs de seu rosto. Sorriu. Estava tudo perfeito. Sentou-se na cama, olhou para sua direita - uma janela aberta por onde a brisa entrava -, olhou para sua esquerda - onde um anjo dormia tranquilamente -, olhou para frente - onde encontrava-se uma bandeja de café da manhã com direito a morangos e torradas.
Olhou através da janela. Não poderia existir paisagem mais bonita. Por alguns instantes, compreendeu toda a ideologia árcade e deixou-se entregar pelo sentimento bucolista que a envolvia. Entendeu o que é uma natureza em harmonia. Entendeu o significado de fugere urbem. Era outono, época das cores mais bonitas do ano. Folhas em tons de marrom, laranja, vermelho, alguns verdes e amarelos. As flores que ainda restavam tinham cores contrastantes com a paisagem; aquela cena, aquele instante perfeito do sol surgindo por entre as árvores daria uma fotografia maravilhosa.
Olhou para o anjo que dormia ao seu lado. Não poderia estar com o semblante mais sereno. Uma ótima noite de sono depois de um amor ardente tinha como consequência um dia tranquilo e perfeito, fora o bom-humor característico. Recém casados. Recém realizados. Sonhos e sonhos pairavam em sua mente. Mas queria focar-se no presente, não queria esquecer-se nunca daquela primeira manhã de sua (tão ansiada) lua-de-mel. Beijou-lhe o rosto e, cuidadosamente, foi em direção à bandeja de café da manhã.
Sentiu o ar gélido da manhã de Quebéc roçar-lhe a nuca. Lembrou-se de colocar o roupão. Aquela paz. Aqueles morangos tão grandes e vermelhos, o chá quente e acolhedor - riu-se fazendo a comparação do chá com o corpo do recém marido. Inclinou a cabeça para o lado. Sim, estava muito feliz. E não havia passado nem um quarto de hora desde que levantou.

Isto, sim, é carpe diem.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

conto de natal

Lisa estava indo ao Subway mais próximo, na esquina da Nove com a Portugal, pois era o único restaurante que poderia estar aberto até tão tarde. Como uma boa workaholic, Lisa fizera hora extra para usar de argumento quando for pedir para o chefe a tão almejada promoção.
O lado bom de andar nas calçadas da Nove de Julho à uma da manhã é que as luzes de natal deixam o ambiente úmido e frio mais aconchegante e mágico. O céu estava limpo e as estrelas brilhavam com força, mas se estivesse nevando um pouco o lugar ficaria mais bonito ainda.
Ela andava a passos longos e arritmados, só conseguia andar com um ritmo constante quando estava ouvindo alguma música. Seus passos ecoavam ao longo do quarteirão, e o único movimento por ali, apesar de ser madrugada de sexta para sábado, era o de prostitutas. Ela esfregou as mãos e percebeu que o frio agradava-lhe, e praguejou mentalmente por morar num país tropical.
Estava chegando ao Subway quando viu que a porta estava fechada, e ali encontrava-se uma placa, na qual lia-se o bilhete "Horário especial: dia 24, das 10:00 às 18:00; dia 25 não abriremos". É claro, que tolice. Era uma da manhã do dia vinte e cinco de dezembro. Ingenuidade pensar que algum lugar estaria aberto. Ela sentou-se na calçada, beirando a rua, e bufou. Riu sozinha da besteira que fez.
Foi quando viu alguém do lado oposto da rua, sentado exatamente como ela, na frente de um posto de gasolina fechado. Ela virou a cabeça para o lado, a figura o fez também. Ela piscou com a luz do celular duas vezes, a figura o fez três vezes. Esta então sentou-se embaixo de um dos poucos postes iluminados, possibilitando assim que Lisa tivesse a visão, embora embaçada, do seu rosto. Era um rapaz de camisa, gravata e mochila; provavelmente estava ali porque trabalhara até mais tarde, seus cabelos estavam bagunçados pelo vento frio e cortante e suas mãos cobertas por luvas. Não era de uma beleza excepcional, mas chamava atenção pelos olhos bonitos.
Lisa fez menção de levantar-se e dividir a madrugada de Natal com aquele amável desconhecido, mas desistiu. Ele provavelmente devia estar esperando pela carona de alguém. Então ela refletiu mentalmente por que razão ela estava sozinha. Bom, não tinha namorado, seus pais estavam na Califórnia, sua irmã estava passando o Natal com a família do marido e seu irmão... bem, ela não tinha notícias do irmão havia meses. Não que ela se esforçasse para consegui-las, também. Devia haver alguns meses já que ela não via os pais; qualquer feriado era oportunidade para trabalhar mais e ganhar mais dinheiro. Certo. Ela tinha milhares na poupança, mas não tinha um único indivíduo com quem tomar um vinho espumante, com quem trocar presentes, com quem sorrir e conversar no Natal. Triste? Triste. Deprimente? Deprimente. Satisfatório? Talvez. Lisa era bem conformista e conformada com sua vida. Fazer o quê?, era seu lema.
Absorta em seus pensamentos, não percebeu o amável desconhecido atravessando a rua - sem se preocupar com carros, pois passava um a cada 10 minutos, e era da polícia, fazendo ronda -, sentando-se ao lado dela, abrindo a mochila, pegando uma garrafa de vinho de supermercado e servindo-o num par de copos de plástico.
"Está servida?", ele perguntou, sorrindo.
"Claro", Lisa respondeu. "Um brinde à solidão."
"Não, não gostei..." ele disse, olhando para seus pés e refletindo. "Um brinde ao Natal", disse, por fim.
Ela consentiu com um gesto de cabeça. "Feliz Natal". Os dois brindaram e deram goles longos em seus respectivos copos.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

happy ending, part 2 - final

Annie apertou os olhos e mordeu o lábio, quase fazendo-o sangrar, de raiva. Detestava sentir que não estava mais no comando. Detestava sentir principalmente que não comandava mais a situação com Tiago. Disse a coisa mais cínica que veio-lhe à cabeça.
- É. Parabéns. Você devia fazer psicologia!
- Annie. - Tiago as mãos na cabeça, em sinal de rendição. - Vamos parar com isso, certo?
Ela olhava para ele, encorajando-o a continuar. Ele olhou para cima, fechou os olhos, e tentou esquecer seu medo de ser ridicularizado, não correspondido ou desprezado. Andou até Annie e colocou suas mãos no rosto dela.
- Certo, vou te dizer o que eu estou pensando. Primeiro, não sei de onde você tirou que eu gostava da sua irmã de um jeito diferente. Segundo, não sei de onde você tirou que você gostava do meu irmão. E, terceiro... - Ele suspirou, como se juntando forças para continuar - não sei por que apaixonar-se por mim parece-te uma ideia tão absurda e... ruim. Porque, sabe... tudo seria tão mais simples, quero dizer, se você gostasse de mim, e... recíproco...
Ele tirou suas mãos do rosto dela e esperou por uma reação. A cada palavra dita por Tiago, Annie torcia mais forte a barra de seu casaco. E quando Tiago terminou seu discurso, a primeira coisa que fez foi separar as mãos dela do casaco. Os dois ficaram lá, de mãos dadas, encarando-se, pensando qual seria a próxima coisa a ser feita.
Tiago, observando a reação, ou falta de ação de Annie, decidiu soltá-la.
- Certo. Se isso é o que você quer, então eu não toco mais no assunto. - Tiago ameaçou voltar para a sala de televisão, mas ouviu a voz fraca de Annie.
- Calma, espera, Ti... - Annie quase nunca chamava Tiago pelo apelido. - Eu... é que...
Tiago encarava-a com uma expressão de riso. Ele sabia que ceder, admitir e perder coisas nunca fora o forte dela. Annie encarou-o com um olhar suplicante, que dizia "eu tenho mesmo de passar por isso?", e Tiago lançava-lhe um que podia ser interpretado como "sim, você tem".
- É que, Ti, eu não queria gostar de você.
- Ótimo começo.
- Cala a boca, você sabe que isso é difícil pra mim. Por que faz isso comigo? Que idiota, você sempre faz isso e...
- Continua, Annie, não muda de assunto.
Annie apertou os olhos. Ficou parada um instante, olhando pra cara de zombador de Tiago. Olhou para baixo, respirou fundo, depois deu dois passos à frente, alcançando Tiago, então aproximou-se dele suavemente, e, por fim, beijou-o.
Tiago, surpreendido, demorou a perceber que aqueles lábios macios colados aos dele eram de Annie. E demorou a perceber que aquele sonho de beijá-la, que ele tinha desde a sétima ou oitava série, finalmente estava se realizando. Ele então tocou o rosto de Annie, com delicadeza, quando se separaram, e pôde ver o brilho nos olhos dela. E ela pôde ver o quão corado ele estava. E no rosto de ambos estava estampado um semblante óbvio de que eram, sem dúvidas, apaixonados um pelo outro. De certa forma, sempre foram.
- Ti... é que, eu...
- Eu sei. Eu também.

xx Fim! :D

happy ending part 1

Annie chegou à frente da porta de Tiago e lá ficou, sem coragem pra mover o braço e tocar a campainha., torcendo a barra de seu casaco. Ironicamente, Tiago estava parado do outro lado da porta, sem coragem para sair. Ao mesmo tempo que ela toca a campainha, ele abre a porta. Encararam-se com um sorriso tolo durante algum tempo que pode ter sido de alguns segundos a vários minutos. Annie abriu a boca para falar alguma coisa, mas nada saiu além de um suspiro. Mas enfim tomou coragem.
- É, então, eu vim aqui pra...
- É... tô vendo. Então...
- É.
- Ahn... então as coisas não deram certo com meu irmão? - Tiago disse rispidamente, como se estivesse com algo azedo na boca. - Eu te disse que ele não prestava.
- Na verdade, ele é um cara legal. - Annie pensou em dizer isso, mas tudo o que saiu foi: - É, né...
- Hã, quer entrar?
- Ah, claro. - Annie disse,
torcendo a barra de seu casaco.
O clima estava péssimo. Estava óbvio que os dois tinham certos assuntos para resolver, mas nenhum dos dois tomava iniciativa. Tiago porque era tímido e não sabia dos sentimentos de Annie, e esta porque não queria ser impulsiva e não sabia dos sentimentos de Tiago. Entraram, sentaram-se nos grandes pufes na sala de televisão e ficaram encarando os próprios pés. E Annie torcendo a barra de seu casaco.
- Sabe - Tiago começou -,pra falar a verdade, eu não gosto da sua irmã.
Annie sentiu-se aliviada. Então ela não precisaria começar o assunto. Isso não precisava ser tão difícil.
- Ah, é? Então você não está apaixonado por ninguém no momento? E mentiu pra mim?
Tiago encarou Annie com raiva. Ele sabia o que ela estava fazendo. E não gostou disso.
- Eu não falei que gostava da sua irmã. Eu fiquei quieto. E eu não menti, eu gosto de alguém, sim.
- Então por que não me revela a identidade dessa sua amada?
- Por que você não me revela a identidade do SEU amado?
- Acho que você não se importa, porque está ocupado demais tentando esconder as coisas de mim!
- Ótimo, então, se é isso que você pensa!
- Ótimo!
Annie se levantou, torcendo a barra de seu casaco freneticamente, e começou a andar em passos largos até a porta. Mas parou antes de sair.
- Sabe, não sei por que eu me dei ao trabalho de vir até aqui. Foi uma total perda de tempo.
- Mas você veio. - Tiago olhou para Annie de forma intensa. - E você, por algum motivo, teve a necessidade de parar antes de sair e me dizer isso. Você quer que eu saiba que era importante para você vir aqui.

(continua)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

frio

- Alguém me escuta? - Bruna berrou e suspirou. Após isso, perdeu todas as suas forças. Estava muito frio, e juntar forças para gritar daquela altura, intensidade e força demorou. Com certeza em vão, quem estaria nas proximidades naquele instante, naquele frio?
O aquecedor começava a dar problemas. O frio tentava dominar aquele lugar, Bruna podia ver as massas de ar congelante entrando e saindo de seus pulmões. Seus lábios estavam roxos, assim como as pontas dos seus dedos. Perdera toda sua sensibilidade, não conseguia chorar - a lágrima esfriava ainda mais seu rosto, já vermelho de frio. Desejava ser uma máquina. Bom, de certa forma, ela já era uma máquina.
Bruna olhou ao redor do que era para ser o chalé em que ela passaria suas férias de inverno. Agora era apenas uma casinha de onde não era possível sair. As portas e janelas estavam todas impossíveis de serem abertas por dentro. Só com a ajuda de alguém de fora ela conseguiria sair daquele lugar tão frio.
Passou algum tempo. Impossível dizer se foram instantes, minutos ou horas, mas ela ficou ali, sentada, esfregando as mãos perto do que restava de fogo e ocupando sua mente com o que restava de esperança.
- Tem alguém aí? - Bruna ouviu uma voz de fora. Primeiro achou que estava ficando louca, depois fez o máximo de silêncio para ouvir a voz de novo. - Oi, tem alguém aí dentro?
- Tem sim! Eu estou presa! - Bruna disse com a voz surpreendentemente rouca, e rezou para que a voz escutasse. - Por favor, me ajude a sair daqui...
- Fique calma, eu vou tentar te tirar daí - a voz era masculina. - Vou tentar abrir a porta, e depois a janela.
Bruna suspirou. Seu rosto ficou mais liso. Até apareceu um esboço de sorriso ali naquela boca torta. Agora ela tinha alguma chance de sair dali e de viver de novo. Enquanto ouvia a voz cavando a neve e realmente se esforçando para tirá-la de lá, sentiu-se desmerecedora de toda aquela atenção. Sentiu-se preguiçosa. Levantou-se e foi até a porta, para tentar abri-la também.
- Sem chance de entrar pela porta. Tem uma camada imensa de água congelada aqui, moça - a voz masculina disse. - Vou tentar abrir a janela.
Mesmo sabendo que ele não via seu rosto, ela balançou a cabeça, consentindo. Foi até a janela, embaçada, esperar. Foi quando viu o rosto de seu salvador. Combinava bastante com a voz. Seu sorriso passava uma segurança que agora ela tinha certeza absoluta de que sairia dali. Ele retirou muita neve da janela, do lado de fora. Quando conseguiu chegar ao vidro, fez um pouco de força mas o vidro cedeu e quebrou, abrindo uma enorme passagem. Bruna estava livre. A voz masculina deu um sorriso, ofereceu-lhe luvas e disse:
- Ah, meu nome é Pedro.

domingo, 7 de março de 2010

crônica em um terraço

- Não. Eu não vou mudar de idéia - o homem dizia ao telefone -, eu já estou subindo as escadas que dão pro terraço e vou me tacar de lá de cima. Estou abrindo a porta, e... - assim que ele abriu a porta, se deparou com um outro homem. - Solange, vou desligar.
Ele desligou o celular e olhou com surpresa para o outro homem.
- Ora, bom... olá - o outro homem disse, um pouco surpreso.
- Boa noite - o primeiro disse. Os dois ficaram um instante quietos, sem saber realmente o que falar.
- Então... noite bonita, não é?
- Sim, sim, maravilhosa. Ouvi falar que hoje é a noite mais limpa dos últimos 25 anos.
- Pois é...
Mais um instante de silêncio. A trilha sonora era de sirenes e buzinas.
- Meu nome é André - o primeiro homem disse.
- Ah, claro! O meu é Lucas.
- Lucas, certo...
- É.
- Assistiu ao jogo hoje à tarde?
- Opa! Jogaço, hein? Esse tipo de jogo é que me dá orgulho de ser santista!
- Já é, irmão, sou santista também.
- Robinho deu um show.
- Ô se deu.
Mais um instante de silêncio.
- Então - Lucas disse - O que te trouxe aqui? Domingo é dia de família.
- Tenho família não. Minha namorada me deixou e meus irmãos estão no exterior.
- Ah, que barra.
- Pois é. Mas e você?
- Fui demitido, meu carro foi guinchado e tive minha casa assaltada. Tudo hoje.
- Pô, cara, meus pêsames...
- É, eu amava meu carro.
- Quando eu tinha dezoito anos ganhei um Impala 67. Aquele carro era o meu xodó. Na segunda semana minha com ele, bebi demais, bati o carro e dei PT... nunca mais fui o mesmo.
- Impala 67? Clássico! Mas eu bati um C4. Juntei dinheiro durante dois anos pra comprar um carro decente, e no quinto mês de uso, o tiram de mim! Puta mundo injusto.
- Ô se é. Mês passado eu quis pintar meu carro de cor diferente. Gastei uma grana, e minha ex disse que com aquele dinheiro dava pra comprar uma aliança. Eu disse que a pintura vinha primeiro. É muito absurdo isso?
- Claro que não! Aposto que se você tivesse comprado a aliança, ela teria falado que não se casaria com um homem que tem um carro tão feio e mal pintado.
- Exatamente!
Ambos olharam lá para baixo, onde no momento acontecia um incêndio e os bombeiros tentavam controlar tudo aquilo.
- Você veio aqui pelo mesmo motivo que eu? - André perguntou.
- Eu queria me matar.
- É...
Eles olharam pro incêndio. Pessoas queimadas saíam do prédio toda hora.
- Essa água toda dos bombeiros me lembra que eu nem bebi hoje - Lucas disse.
- Quer tomar uma cerveja?
- Bora.