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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

(continuação)

Vinte minutos desde o golpe.
"Ora, ora, ora, Peixoto. Desde quando você é crente de que a ética não existe?", uma voz zombadora entrou na sala saída da garganta de um homem magro de dentes amarelos. "Você me dava um soco no olho direito toda vez que eu insistia em dizer-lhe isso há trinta e cinco anos."
O diretor sentiu seu corpo inteiro enrijecer ao escutar aquela voz que mais parecia um sibilo.
"As pessoas mudam, Igor. O mundo muda junto com elas. A sociedade brasileira de trinta e cinco anos atrás não sabia o que era ética ou se ela existia porque havia sido privada dela em 1964, quando nem eu nem você tínhamos idade o suficiente para saber o que significava um golpe daqueles!", e o ponto de exclamação da frase foi demarcado por o diretor levantar-se da mesa e tentar, em vão, servir-se de café.
"Droga de café...", ele resmungou baixo, enquanto constatava que não havia mais café na garrafa térmica. Suas mãos tremiam de abstinência. "Sônia, me faz café! Cadê a Sônia? Cadê o cara da papelada???!"
"O que é isso, Peixoto? Não fique tão nervoso! Sua horda de pseudo-cultos, pseudo-jornalistas e pseudo-democratas precisa de você para guiá-la por esse túnel escuro que o Brasil acabou de se tornar..."
"Igor, só porque você se vendeu para a política e se tornou um homem sem escrúpulos e rico não significa que eu o inveje por isso.". Peixoto foi caminhando até o homem, abriu a porta e apontou para fora. "E essa é uma reunião particular. Saia."
Igor por um instante pareceu abalado pela atitude firme de Peixoto, mas apenas lançou-lhe um olhar frio e se retirou. Peixoto pensou ter ouvido algo do tipo "eu tenho amigos no governo", mas deixou essa vaga frase sublimar-se de sua mente.
Pouco depois de a porta fechar-se para Igor, ela se abriu novamente. Uma mulher entrou, com os óculos tortos no rosto e pastas na mão.
"Sônia, cadê o cara da papelada e cadê o café?!"
A mulher respirou fundo e saiu, fechando a porta novamente.
"É isso, diretor!", uma voz difundida na massa de pessoas ali começou. "Em vez de falar diretamente do regime, o que nos traria o risco da censura, poderíamos falar de portas que se abrem e portas que se fecham nesse novo sistema. Como uma lista de prós e contras mais metafórica, e em vez de colocar o texto como uma reportagem comum, colocamos no espaço de editorial. Assim, estamos, mas não estamos reportando sobre o golpe."
Mais uma vez, desencadeou-se uma onda de vozes.
"Isso é absurdamente covarde"
"É a nossa única escolha"
"Metáforas? Num país com uma porcentagem absurda de analfabetos funcionais?!"
"É muito presunçoso, além do mais, quem lê o editorial?"
"Manifestos na forma de folhetins!".
Todos se calaram.
"Sim, folhetins. O jornal será composto de todos os seus cadernos habituais, mas na segunda página colocaremos o início de nosso manifesto - que será composto de nossa opinião a respeito do golpe com realismo - e todos os dias, ou toda semana, desenvolveremos o tema na forma de um romance. Se atingir massas é uma preocupação", ela continuou, ao ver pessoas tomando fôlego para protestar, "alternaremos com relação à dificuldade do texto. Complexidade moral semana sim, semana não. O que acham?"
Peixoto tentava conter o tremor das mãos. Ele estava prestes a se manifestar quando a porta foi novamente aberta. Um homem parecendo confuso, de olhos bem azuis, segurando uma maleta semi-aberta, foi empurrado para dentro, atrás dele entrou bufando Sônia, que já não usava mais seus óculos e parecia muito nervosa.
"Aqui está o cara da papelada, Peixoto! E eu não sou garçonete para trazer-lhe café!"

sábado, 17 de setembro de 2011

o Jornal do Povo

Havia gente em demasia na sala. Cinco pessoas por metro quadrado no mínimo, considerando que uma mesa gigante ocupava praticamente um terço da sala, e que quem não tinha onde se sentar devia permanecer de pé, ou na ponta do mesmo, pois aquela era uma reunião extraordinária que mudaria o destino daquela empresa. Sim, pois o Jornal do Povo deixara de ser d'O Povo havia muito tempo - pelo menos desde que deixou de ser estatal e foi comprado por um milionário dono de alguns milhares de hectares de plantação de soja.
- Muito bem, muito bem - o homem sentado a uma das pontas da mesa começou. Fracassado em su tentativa de instaurar o silêncio, recomeçou, dessa vez mais alto e agressivamente: - Muito bem, senhoras e senhores! Creio que todos aqui saibam o motivo dessa reunião.
Ele fez uma pausa dramática e passou os olhos por cada rosto presente na sala.
"Vocês sabem que há exatos seis minutos foi declarado um golpe de Estado feito pelo senhor Presidente. Ele, há seis minutos e meio, instaurou o - em suas palavras - Socing. Agora digam-me, pelo amor que vocês têm à suas mães, que vocês sabem o que é Socing."
Uma dúzia de mãos trêmulas levantou a mão. O homem olhou para eles, incrédulo.
"Como?, vocês fizeram jornalismo, filosofia e ciências sociais e não leram sobre o Socing?"
Pausa dramática.
"Sônia, demita-os e traga o cara da papelada.", ele disse à mulher sentada à sua direita.
Com a saída dos seis, as pessoas tiveram a liberdade de inalar mais oxigênio por centímetro cúbico de ar do que antes, e suspiraram aliviadas.
"Não mais perderei tempo explicando o que é Socing, visto que ninguém mais se manifestou. Agora, a pauta da reunião é..."
"Mas, senhor", uma jovem que não devia ter mais de 1,55m e com cabelos muito pretos falou, "nós estamos no Brasil, e não na Inglaterra. O nome não deveria ser... Não sei, Brassoc, ou Socrasil, ou alguma coisa assim?".
Ele encarou-a por alguns instantes. "Exatamente, moça. Sua fala será o primeiro parágrafo, depois do lead, da manchete da capa. Tente pensar em um nome melhor que esses, mas se não conseguir, usaremos Brassoc de qualquer jeito. Mais algum comentário?".
Não, a sala respondeu com seu silêncio.
"A primeira coisa que precisamos nos decidir é: do lado de quem estamos?", e, ao ver a cara descrente de alguns recém-formados em jornalismo ali, continuou "e sejamos realistas, pois a 'ética do jornalismo' deixou de existir há muito tempo.".
"Mas, senhor", um moço que ajeitava nervosamente os óculos no rosto disse, "se nós deixamos de ser uma empresa estatal há 15 anos, não há por que defendermos o governo, e, ainda por cima de tudo, devemos aproveitar a nossa liberdade 'plena', pois se o senhor Presidente levar a termos literários, literais e fiéis o Brassoc, então começaremos a ser censurados em pouco tempo".
Um muxoxo de aprovação e concordância com o que o moço disse percorreu a sala.
"Você tem um ponto válido, filho. Você se esqueceu apenas de uma coisa: jornais já foram censurados antes, e nem por isso eles deixaram de divulgar propagandas anti-governo".
"Mas qual porcentagem da população entenderia as mensagens implícitas anti-governo contidas em nossas reportagens banais? Esse é o Jornal do Povo, senhor, e deveríamos dar ao povo o que o povo tem de saber", disse uma moça conhecida por achar que toda discussão é uma briga entre o certo e o errado, e não um conflito entre duas opiniões diferentes. Depois de seu comentário, várias outras vozes irromperam da sala, algumas falando mais alto, outras tentando se esconder atrás dessas vozes.
"Se for assim, podemos nos declarar desempregados, pois o governo acabará com a empresa assim que farejar um fagulha de insatisfação!"
"E o que o dono da nossa empresa dirá? Ele pode nos demitir se nossa postura não lhe agradar!"
"As pessoas já têm conhecimento desse golpe? Elas têm noção do que isso representa?"
"Qual! Devíamos considerar também que a maioria simplesmente não liga para o que acontece ou deixa de acontecer em Brasília!"
"Por outro lado, se nós fizéssemos propaganda positiva do governo, suas rédeas para conosco ficariam mais frouxas"
"Mas a imprensa deve denunciar a realidade, e não encobri-la!"
"Se eu me envolver nisso e isso desagradar ao governo, vou ficar com meu histórico manchado pelo resto de minha vida e nunca mais vou arranjar emprego!"
"Nós devemos expor a verdadeira realidade, mostrar ao povo o que significa Socing ou Brassoc, eles têm o direito de saber no que o país deles vai se tornar!"
"Eles tinham o direito."
"Ora, SEJAMOS REALISTAS!". O brado do diretor acalmou a sala. "Vocês estão pensando eticamente! Não existe ética. Cidadãos, há alguma ética em dar um golpe de estado ignorando o princípio da democracia e outorgando uma nova forma de controle estatal sobre as pessoas?"
É, aquilo devia ser pensado.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

a volta do movimento estudantil?

Tenho lido em muitos lugares e ouvido de muitas bocas que os recentes protestos contra o ENEM são "a volta do movimento estudantil". Ouvi também falar que os protestos eram para defender nossos direitos como estudantes. E não concordo com isso.

Primeiramente, concordo 100% com o fato de que as pessoas se manifestaram, adoro a idéia e o fato de que ainda há pessoas que são engajadas e que saem para protestar quando se encontram numa situação injusta - muito melhor tomar uma atitude do que só reclamar. A idéia dos protestos é ótima. Realmente o governo precisa dar mais atenção à área da educação; se o ENEM é a primeira fase de universidades federais (por sinal, muito boas) então devia ser bem feito.

Nós, como estudantes, temos certos direitos, como acesso a escola; igualdade e liberdade de aprendizado; temos inclusive direito à garantia de padrão de qualidade e ao ensino de qualidade gratuito. Mas em que lugar na Constituição foi dito que temos direito a, por exemplo, uma anulação de uma prova mal elaborada? Ao meu ver, fazer um protesto visando a melhoria da educação em escolas públicas é mais palpável do que um contra uma prova malfeita. O protesto só foi feito porque, por ter se tornado a primeira fase de universidades federais, atingiu as classes mais altas da sociedade. (Leiam a Constituição, Capítulo terceiro, seção primeira, da Educação.)

Os "movimentos estudantis" mais famosos, no Brasil, foram a luta "O Petróleo é Nosso", os contra o ingresso do Brasil na 2ªGM, os da época da ditadura, os movimentos das Diretas-Já e os a favor do impeachment de Collor. Ou seja, todos os movimentos tinham engajamento e fundo político-econômico. Deve-se mesmo comparar movimentos a favor de eleições diretas com protestos contra uma prova de qualidade duvidosa?

Se é para protestar com base na prova do ENEM, então que protestem contra a falta de atenção do governo para as questões educacionais, e isso não envolve só a prova de primeira fase para o ingresso numa universidade federal. A questão educacional é muito maior. Os "direitos do estudante" vão além de uma prova.

Se eu acho que a série de protestos que aconteceram nas cidades brasileiras vai alterar alguma coisa? Depende. Se o futuro governo Dilma decidir ser popular, então ela deverá dar atenção a movimentos populares. E mesmo que nesse ano não tomem providência nenhuma; me dou ao luxo de acreditar que ano que vem a prova estará melhor.

A prova. Já o resto...

sábado, 16 de janeiro de 2010

Folha de São Paulo

11/05/1985

Foi encontrada ontem morta em seu apartamento a dona-de-casa Valentina Pires. Ela esteve presente em várias revoltas contra a ditadura quando mais jovem, e era uma das pessoas mais procuradas pelo antigo DOPS. Valentina fez parte de um dos MNR (Movimentos Nacionalistas Revolucionários) aqui da capital de 1965 até 1971, segundo relatos de seu diário (encontrado em cima do criado-mudo em seu apartamento), organizando revoltas, capturando policiais, orientando outras pessoas sobre a ditadura e divulgando os horrores que o DOPS fazia com seus presos políticos. Era conhecida como Maria.

A causa da morte foi envenenamento (o veneno ainda não foi divulgado), e ao lado de seu corpo foi encontrado um bilhete: "Enfim, a ditadura conseguiu me envenenar por completo. Não posso viver com ela, não posso viver sem ela.". Em seu diário, ela expressava sua necessidade por uma revolução e seu gosto por passeatas e revoltas, e quando a ditadura teve seu fim convicto, em suas palavras, "Minha vida toda eu lutei contra a ditadura, o controle de idéias e a restrição de ações. Agora que a ditadura acabou, o que eu vou fazer?".

Apesar de que agora o que mais se encontra é gente morta em esquinas, apartamentos, casas e estradas, essa morte pareceu afetar profundamente os nervos de antigos militares, principalmente com a divulgação confirmada de seu diário, que, como não tem título definido pela autora, será chamado "o Diário de Maria".

Lembramos que qualquer relação com "O Diário de Anne Frank" é pura coincidência.

- FIM -

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

10/05/1985

Há tempos não escrevo aqui. A última vez que escrevi foi mês passado, abril... pois bem. Em um mês, a história mudou completamente.

Decidi fazer parte do movimento Diretas Já. Resolvi seguir o senhor Teotônio, pois suas palavras me pareciam extremamente promissoras. Sonhar com um Brasil de eleições diretas era bom. E depois de tantos anos parada, me dei ao luxo e risco de participar de mais passeatas.

Então dia 27 de novembro, aconteceu uma passeata em São Paulo, 15 mil pessoas. Se o senhor Teotônio tivesse visto, estaria orgulhoso... Esta aqui é pra você, Teotônio! Mas o infeliz morreu no dia da passeata. E que morte terrível... câncer generalizado. Eles te pegaram, Teotônio... te infectaram. Você até que resistiu bastante, mas no final, eles se juntaram, ficaram muito fortes, não dava pra combatê-los. Quem sabe um dos teus filhos, Teotônio Vilela Filho, não vira político pra honrar teu nome? Eu votarei nele, um dia.

1984 passou relativamente tranquilo. Eu ainda esperava por uma mudança no sistema, quando 1985 chegou. Chegou janeiro, fevereiro, março, em abril comecei a escrever meu diário, mas parei, quando vi rumores sobre tirarem militares do poder. Então anteontem foi aprovada no Congresso uma emenda que acabava com a ditadura. Eu não pude acreditar! E inclusive teríamos eleições diretas. Enfim, Teotônio! Tua batalha não foi em vão.

Isso significava que finalmente poderíamos ser livres. Isso significava que eu não sobrevivi à ditadura à toa... Esta era minha recompensa. Por perder minha família, por perder meu amor, por perder minha dignidade, por ter sido torturada, por ver meu país, minha CASA ruir. Mas e agora?

Minha vida toda eu lutei contra a ditadura, o controle de idéias e a restrição de ações. Agora que a ditadura acabou, o que eu vou fazer? Voltar ao meu trabalho antigo? Procurar outro amor, formar uma família e passar meus finais de semana assando bolos? Isso não tem nada a ver comigo. Então só há uma coisa a ser feita.

(continua)

domingo, 10 de janeiro de 2010

04/04/1985

Com a censura, nossas atividades e relações com a imprensa foram cortadas. Não havia mais chance de nosso grupo aumentar de qualquer jeito. Mas meu grupo se manteve forte. Hoje, desejo que tivéssemos sido fracos. Durante 1969 e 1973, vivi na pobreza. Com aquela história de "milagre econômico", alguns ficaram muito ricos, e alguns muito pobres. Infelizmente, minha opção é a segunda.

Então aconteceu. Em 1971 foi quando aconteceu. Estávamos fazendo mais uma de nossas costumeiras passeatas, quando um grupo de militares surgiu. Aparentemente estavam à espreita... como se já soubessem por onde íamos passar. Eles chegaram e começaram a tacar bombas para todos os lados. Vários de meus companheiros caíram e acabaram morrendo. Eu corria para encontrar João, mas quando o encontrei, ele disse para eu recuar. E foi só eu parar de andar, que dois policiais se tacaram em cima dele... Um segurando seus braços, e o outro batendo-o com sua arma, mesmo. Ele evitava me olhar, pois sabia que entregaria minha posição. Então eu corri.

Corri em direção ao nosso esconderijo, fazendo muitas curvas e pegando o caminho mais longo. Chegando lá, vi muitos papéis e documentos em cima da mesa. RGs, passaportes e dinheiro, inclusive. Aparentemente, meu João planejava nos pagar uma viagem fora da lei para o Reino Unido - eles viviam um período de recessão econômica mundial e competição industrial, então era uma ótima oportunidade de trabalho. Eu já me afastava da mesa quando me lembrei de olhar direito para o RG de João... e foi a primeira vez que fiquei sabendo de seu nome verdadeiro. Gustavo. E ele era exatamente como o significado de seu nome...

E durante os 3 anos seguintes, vivi uma meia realidade. O Rock estava estourando. Comecei a me drogar. Eu não queria mais saber de nada. Fui presa, torturada. Fugi nas duas vezes que me prenderam. Então me cansei. Me cansei de ficar sentindo pena de mim mesma. E em 1975, decidi começara trabalhar, para ocupar a cabeça. Eu tinha diploma em medicina, mas acho que isso não me ajudaria muito. Eu não conseguiria arrumar um emprego bom de verdade, porque eu obviamente não tinha o "atestado ideológico" fornecido pelo DOPS. Fui então trabalhar numa creche da minha vizinhança. Pagavam bem e o almoço era por conta dos donos. Eu gostei bastante do trabalho, sempre gostei muito de crianças, e, ao meu ver, era hora de eu me sentir mais... mulher, mesmo. Eu passara muitos anos lutando ao lado de homens, e no meu grupo todos éramos iguais. Mas nessa creche, eu me sentia quase uma mãe.

E eu trabalhei lá até 1983. Então um belo dia, estava eu sentada, assistindo a tv na creche, quando vejo um programa novo: Canal Livre, liderado pelo senador Teotônio. Ele dizia que devíamos lutar por eleições diretas, e que novas manifestações estavam por vir. Como resistir?

(continua)

03/04/1985

Certo. Não sei bem o que devo escrever em um diário... Mas visto que estou sozinha, não há muito a se fazer. Se eu não coloco as coisas no papel, se eu explodir não vai ser uma grande surpresa, mas enfim.

Nasci em 1940. A passagem da minha infância para a adolescência foi marcada por aquele glamour falso dos anos 50 - carros brilhantes, saias rodadas e muitos neons. Mas eu nunca gostei daquilo, não. Me lembro de que eu ia todo fim de semana ao cinema para fazer nada mais, nada menos do que entregar panfletos visando chacoalhar a cabeça das pessoas um pouco. Sabe? Acordá-las para a vida. Fazê-las saírem daqueles carros enormes, e olharem para quem está sentado na calçada.

E foi numa dessas vezes que eu vi meu marido (bom, ex-marido) pela primeira vez. Ele ia assistir a um filme qualquer, não me lembro bem. Ah, mas de uma coisa eu me lembro: dos olhos! Os olhos de quem não estava realmente naquele lugar. Os olhos de quem fantasiava e sonhava muito, mas não sonhos inúteis - sonhos de revolução. E eu estava certa, de fato.

Então em 1965 - ano seguinte do golpe militar, como todos sabem - resolvi fazer parte de algum grupo para ver se a situação mudaria no nosso país. Entrei em um dos MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário) e lá fiquei. Acho que foi a fase mais produtiva da minha vida. Organizávamos passeatas, distribuíamos panfletos, driblávamos a imprensa, atiçávamos o governo... e eles nunca nos pegavam! Nunca me senti tão viva e útil. Foi incrível.

Em 1967, então, resolvem criar pseudônimos, para preservar nossa identidade. Eu escolhi o meu - Maria. Interprete minha escolha como quiser. Bem, durante uma das reuniões, eu o vejo novamente - o moço que estava aquele dia, no cinema. Seu pseudônimo era João, ironicamente. (Na verdade, só fui saber seu nome 4 anos depois). Ele era um dos membros mais antigos do MNR. Era realmente fantástico. Muito forte e confiante. Me apaixonei, é claro.

Mas também é claro que nada desse tipo de intimidade era permitido em nosso grupo. Tive de me conter um ano. Mas em 1968, eu soube que ele também me amava. Não podia ser a hora mais errada... Com a liberação do AI-5, tínhamos de tomar muito, mas MUITO cuidado em nossas passeatas - pois quaisquer atividades ou manifestações sobre assuntos políticos eram expressamente proibidas. Também não podíamos mais votar. E nossas casas foram escolhidas, nossa liberdade vigiada... Tivemos de renunciar de nossos nomes para vivermos decentemente - ainda que clandestinamente. Um absurdo eu ter de renunciar do meu nome, que me tornava um indivíduo, brasileiro, para conseguir morar em paz no meu país... Que vergonha. Que absurdo. Não fosse a passeata dos Cem Mil, em junho, eu teria abandonado o país.

(continua)

domingo, 3 de janeiro de 2010

1968

- Você! Parada! Mãos para cima e joelhos no chão!
É simplesmente ÓBVIO que eu não obedeci ao policial. Meu grupo de revolucionários já havia lutado contra a polícia várias vezes... E essa é apenas mais uma vez... Nossas revoltas não estavam tendo muito sucesso, mas não podíamos ficar parados, sem fazer nada. Não podíamos sentar e assistir enquanto nosso país era dominado por militares e inflação. Não, isso era demais pro nosso orgulho!

Enfim, eu corria pelas ruas - as ruas que eu já conhecia muito bem, depois de tantas fugas - e procurei por algum rosto amigo que pudesse me mostrar uma saída, atalho o "passagem secreta" - que era como chamávamos esgotos e túneis subterrâneos - que me levasse ao meu exílio. Meu e dos meus companheiros. Mas não achei nada.

Virei uma esquina, segui reto, após saltar um muro ganhei uma boa distância do policial e consegui escapar. "Isso está ficando cada vez mais fácil", pensei comigo mesma, "mas devo começar a maneirar, já estou em muitos cartazes". Cheguei ao bar cujo dono era amigo meu. O bar era no térreo de um prédio cujo quarto andar era meu exílio.

- E aí Zé, muito movimento hoje? - eu pergunto ao meu amigo, o dono do bar.
- Nada! Com essa opressão toda pra esses lados, quase ninguém tem vindo aqui... Você e seu grupo um dia terão de pagar por todas as cervejas que eu não tenho vendido! - ele me respondeu. No fundo, eu sabia que ele estava brincando, e que apoiava qualquer tipo de ação/revolução tanto quanto eu. Respondi com uma piscadela, e subi as escadas até o quarto andar.

Abri a porta, e o vi. Ele era forte, íntegro, batalhava por uma mudança no sistema como nenhum de nós conseguia. Sempre sabia o que fazer, como agir, o que dizer, o que divulgar. Ele tinha tudo em suas mãos. Inclusive eu. Eu o amava. A segurança que ele transmitia, a confiança, mas principalmente os sonhos, me deixavam suspirando em meu quarto todas as noites. Mas é claro que eu não poderia dizer isso! Qualquer tipo de ligação entre os membros do MRN-03, do qual eu fazia parte, era expressamente proibido por ser perigoso para os membros.

- Maria? - ele me chamou pelo meu nome fictício ou pseudônimo.
- Diga, João. - João era, ironicamente, seu pseudônimo.

Ele se aproximou, e pude sentir seu olhar cair sobre meus ombros, que estavam machucados graças ao arame farpado pelo qual passei durante a fuga. Colocou sua mão direita em meu ombro direito. Uma mão firme, quente, segura. Me senti como se pudesse pegar sua mão e sair pra guerra, porque com ele, eu estaria segura. Uma lágrima brotou dos seus olhos, tirando-me do transe.

- Eu temo muito pela sua vida. Isso, em que estamos envolvidos, é tão perigoso... Sinto que você faria coisas grandiosas se esperasse tudo isso passar, e resolvesse trabalhar na imprensa ou num futuro governo. - Eu ouvi cada palavra. Sua voz de veludo, profunda, me deixava embriagada.
- Não se preocupe, João, eu sei me defender...
- Maria - ele me interrompeu -, se algo acontecer a você, eu nunca vou me perdoar.

Olhei pra ele com ternura e me perguntei se ele me amava como uma irmã mais nova ou como... amante.

Então eu soube.

Ele pegou minha mão, e me abraçou. E naquele momento, naquele milésimo de segundo, senti uma fagulha dentro de mim me dizendo que ele me amava. Que ele me amava com tanta ou mais intensidade do que eu. E que nós estávamos destinados a encarar juntos esse mundo, esse mundo tão frio, controlado e corrompido no qual nós vivemos... E eu também soube que a vida sempre seria uma aventura ao seu lado. E eu também soube que se eu morresse na próxima hora, dia, semana ou mês, eu morreria satisfeita de saber que eu encontrei meu amor verdadeiro antes de morrer.

Então ele me guiou até o sofá, ligou a TV, e começamos a assistir.