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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

(continuação)

Vinte minutos desde o golpe.
"Ora, ora, ora, Peixoto. Desde quando você é crente de que a ética não existe?", uma voz zombadora entrou na sala saída da garganta de um homem magro de dentes amarelos. "Você me dava um soco no olho direito toda vez que eu insistia em dizer-lhe isso há trinta e cinco anos."
O diretor sentiu seu corpo inteiro enrijecer ao escutar aquela voz que mais parecia um sibilo.
"As pessoas mudam, Igor. O mundo muda junto com elas. A sociedade brasileira de trinta e cinco anos atrás não sabia o que era ética ou se ela existia porque havia sido privada dela em 1964, quando nem eu nem você tínhamos idade o suficiente para saber o que significava um golpe daqueles!", e o ponto de exclamação da frase foi demarcado por o diretor levantar-se da mesa e tentar, em vão, servir-se de café.
"Droga de café...", ele resmungou baixo, enquanto constatava que não havia mais café na garrafa térmica. Suas mãos tremiam de abstinência. "Sônia, me faz café! Cadê a Sônia? Cadê o cara da papelada???!"
"O que é isso, Peixoto? Não fique tão nervoso! Sua horda de pseudo-cultos, pseudo-jornalistas e pseudo-democratas precisa de você para guiá-la por esse túnel escuro que o Brasil acabou de se tornar..."
"Igor, só porque você se vendeu para a política e se tornou um homem sem escrúpulos e rico não significa que eu o inveje por isso.". Peixoto foi caminhando até o homem, abriu a porta e apontou para fora. "E essa é uma reunião particular. Saia."
Igor por um instante pareceu abalado pela atitude firme de Peixoto, mas apenas lançou-lhe um olhar frio e se retirou. Peixoto pensou ter ouvido algo do tipo "eu tenho amigos no governo", mas deixou essa vaga frase sublimar-se de sua mente.
Pouco depois de a porta fechar-se para Igor, ela se abriu novamente. Uma mulher entrou, com os óculos tortos no rosto e pastas na mão.
"Sônia, cadê o cara da papelada e cadê o café?!"
A mulher respirou fundo e saiu, fechando a porta novamente.
"É isso, diretor!", uma voz difundida na massa de pessoas ali começou. "Em vez de falar diretamente do regime, o que nos traria o risco da censura, poderíamos falar de portas que se abrem e portas que se fecham nesse novo sistema. Como uma lista de prós e contras mais metafórica, e em vez de colocar o texto como uma reportagem comum, colocamos no espaço de editorial. Assim, estamos, mas não estamos reportando sobre o golpe."
Mais uma vez, desencadeou-se uma onda de vozes.
"Isso é absurdamente covarde"
"É a nossa única escolha"
"Metáforas? Num país com uma porcentagem absurda de analfabetos funcionais?!"
"É muito presunçoso, além do mais, quem lê o editorial?"
"Manifestos na forma de folhetins!".
Todos se calaram.
"Sim, folhetins. O jornal será composto de todos os seus cadernos habituais, mas na segunda página colocaremos o início de nosso manifesto - que será composto de nossa opinião a respeito do golpe com realismo - e todos os dias, ou toda semana, desenvolveremos o tema na forma de um romance. Se atingir massas é uma preocupação", ela continuou, ao ver pessoas tomando fôlego para protestar, "alternaremos com relação à dificuldade do texto. Complexidade moral semana sim, semana não. O que acham?"
Peixoto tentava conter o tremor das mãos. Ele estava prestes a se manifestar quando a porta foi novamente aberta. Um homem parecendo confuso, de olhos bem azuis, segurando uma maleta semi-aberta, foi empurrado para dentro, atrás dele entrou bufando Sônia, que já não usava mais seus óculos e parecia muito nervosa.
"Aqui está o cara da papelada, Peixoto! E eu não sou garçonete para trazer-lhe café!"

sábado, 17 de setembro de 2011

o Jornal do Povo

Havia gente em demasia na sala. Cinco pessoas por metro quadrado no mínimo, considerando que uma mesa gigante ocupava praticamente um terço da sala, e que quem não tinha onde se sentar devia permanecer de pé, ou na ponta do mesmo, pois aquela era uma reunião extraordinária que mudaria o destino daquela empresa. Sim, pois o Jornal do Povo deixara de ser d'O Povo havia muito tempo - pelo menos desde que deixou de ser estatal e foi comprado por um milionário dono de alguns milhares de hectares de plantação de soja.
- Muito bem, muito bem - o homem sentado a uma das pontas da mesa começou. Fracassado em su tentativa de instaurar o silêncio, recomeçou, dessa vez mais alto e agressivamente: - Muito bem, senhoras e senhores! Creio que todos aqui saibam o motivo dessa reunião.
Ele fez uma pausa dramática e passou os olhos por cada rosto presente na sala.
"Vocês sabem que há exatos seis minutos foi declarado um golpe de Estado feito pelo senhor Presidente. Ele, há seis minutos e meio, instaurou o - em suas palavras - Socing. Agora digam-me, pelo amor que vocês têm à suas mães, que vocês sabem o que é Socing."
Uma dúzia de mãos trêmulas levantou a mão. O homem olhou para eles, incrédulo.
"Como?, vocês fizeram jornalismo, filosofia e ciências sociais e não leram sobre o Socing?"
Pausa dramática.
"Sônia, demita-os e traga o cara da papelada.", ele disse à mulher sentada à sua direita.
Com a saída dos seis, as pessoas tiveram a liberdade de inalar mais oxigênio por centímetro cúbico de ar do que antes, e suspiraram aliviadas.
"Não mais perderei tempo explicando o que é Socing, visto que ninguém mais se manifestou. Agora, a pauta da reunião é..."
"Mas, senhor", uma jovem que não devia ter mais de 1,55m e com cabelos muito pretos falou, "nós estamos no Brasil, e não na Inglaterra. O nome não deveria ser... Não sei, Brassoc, ou Socrasil, ou alguma coisa assim?".
Ele encarou-a por alguns instantes. "Exatamente, moça. Sua fala será o primeiro parágrafo, depois do lead, da manchete da capa. Tente pensar em um nome melhor que esses, mas se não conseguir, usaremos Brassoc de qualquer jeito. Mais algum comentário?".
Não, a sala respondeu com seu silêncio.
"A primeira coisa que precisamos nos decidir é: do lado de quem estamos?", e, ao ver a cara descrente de alguns recém-formados em jornalismo ali, continuou "e sejamos realistas, pois a 'ética do jornalismo' deixou de existir há muito tempo.".
"Mas, senhor", um moço que ajeitava nervosamente os óculos no rosto disse, "se nós deixamos de ser uma empresa estatal há 15 anos, não há por que defendermos o governo, e, ainda por cima de tudo, devemos aproveitar a nossa liberdade 'plena', pois se o senhor Presidente levar a termos literários, literais e fiéis o Brassoc, então começaremos a ser censurados em pouco tempo".
Um muxoxo de aprovação e concordância com o que o moço disse percorreu a sala.
"Você tem um ponto válido, filho. Você se esqueceu apenas de uma coisa: jornais já foram censurados antes, e nem por isso eles deixaram de divulgar propagandas anti-governo".
"Mas qual porcentagem da população entenderia as mensagens implícitas anti-governo contidas em nossas reportagens banais? Esse é o Jornal do Povo, senhor, e deveríamos dar ao povo o que o povo tem de saber", disse uma moça conhecida por achar que toda discussão é uma briga entre o certo e o errado, e não um conflito entre duas opiniões diferentes. Depois de seu comentário, várias outras vozes irromperam da sala, algumas falando mais alto, outras tentando se esconder atrás dessas vozes.
"Se for assim, podemos nos declarar desempregados, pois o governo acabará com a empresa assim que farejar um fagulha de insatisfação!"
"E o que o dono da nossa empresa dirá? Ele pode nos demitir se nossa postura não lhe agradar!"
"As pessoas já têm conhecimento desse golpe? Elas têm noção do que isso representa?"
"Qual! Devíamos considerar também que a maioria simplesmente não liga para o que acontece ou deixa de acontecer em Brasília!"
"Por outro lado, se nós fizéssemos propaganda positiva do governo, suas rédeas para conosco ficariam mais frouxas"
"Mas a imprensa deve denunciar a realidade, e não encobri-la!"
"Se eu me envolver nisso e isso desagradar ao governo, vou ficar com meu histórico manchado pelo resto de minha vida e nunca mais vou arranjar emprego!"
"Nós devemos expor a verdadeira realidade, mostrar ao povo o que significa Socing ou Brassoc, eles têm o direito de saber no que o país deles vai se tornar!"
"Eles tinham o direito."
"Ora, SEJAMOS REALISTAS!". O brado do diretor acalmou a sala. "Vocês estão pensando eticamente! Não existe ética. Cidadãos, há alguma ética em dar um golpe de estado ignorando o princípio da democracia e outorgando uma nova forma de controle estatal sobre as pessoas?"
É, aquilo devia ser pensado.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

sobre meu doppelgänger

Sabe aquela premissa de que se todos são especiais, ninguém o é?
Eu parti da premissa de que se há várias possibilidades de sentido para a minha vida e eu não consigo escolher é porque minha vida não tem sentido. Entendem? Eu enxergo tantas possibilidades, tantos futuros, tanto crescimento (tanto intelectual quanto humano) que me sinto intimidada por todas essas possíveis Brunas, muito melhores do que a Bruna atual, indecisa e irracionalmente infeliz.
Essa imagem de uma Bruna mais evoluída, mais sábia, mais culta, mais humana, mais tudo; essa imagem me assombra, como se fosse um doppelgänger que constantemente me segue e está comigo toda vez que devo fazer uma decisão. É como se eu me olhasse no espelho me visse em duas: o que eu sou, e essa imagem eu tendo a deturpar ao máximo possível, e esse doppelgänger, essa assombração (porque é isso que essa imagem faz: me assombra! em vez de me animar, me põe pra baixo; em vez de eu ficar feliz com todas as minhas possibilidades, eu me deixo deprimir por ter medo de fazer a decisão não errada, mas a menos certa).
E, tendo em vista a minha nova filosofia prática de tentar incorporar a essência do espírito de Poliana, tentei olhar as coisas de um outro ângulo. Eu posso não ter decidido o que eu quero fazer ou qual das inúmeras possibilidades eu vou seguir, mas isso não esvazia minha vida de sentido - na verdade, o meu objetivo de vida é justamente escolher qual sentido minha vida terá. Pois eu não acredito que a vida tenha apenas um sentido, eu acho que esse sentido muda de acordo com seu momento e suas vontades, por isso, a minha maior aspiração agora é descobrir o que eu posso fazer de melhor e como eu posso me tornar útil para alguém ou para o mundo.

[Um sentido para a vida não precisa ser algo grande, algo macro. Não é porque a pessoa não é aspirante a revolucionária que ela é corroída pelo vazio de sentido. A incredulidade no próprio sentido também não tira o sentido das coisas: o niilista pode achar que suas ações são desprovidas de um sentido, mas as pessoas ao seu redor podem discordar. O logos se encontra também em ações pequenas, como em fazer o bem ao próximo, pois quando você o faz, se sente bem com você e sente que fez sua parte. O sentido pode se encontrar em dedicar-se a uma causa, ou mesmo dedicar-se a alguém - à pessoa amada, à família, ou a você mesmo.]

Toda essa epifania teve muitos agravantes e catalizadores, e após uma pseudo-reclusão (sim, pseudo, pois a minha ideia de reclusão é ficar dias sem falar com ninguém para garantir que sua linha de raciocínio não será interrompida, mas como isso não é possível no momento, tentei fazer o máximo possível), decidi olhar as coisas do alto da montanha e apagar a infelicidade e miserabilidade que estava contida dentro de problemas muito pequenos e insignificantes comparados com os problemas que existem no mundo - um mundo muito mais real do que o meu, uma burguesinha de classe média alta metida a besta.

Meu objetivo agora é tentar ser a melhor versão possível do que eu sou; aprimorar meu ser; lapidar meu ente; aprender a fazer boas decisões e não me deixar derrubar por questões demasiadamente racionais pois, cá entre nós, o ser humano não é tão racional quanto julga ser.
E em vez de me deixar deprimir pela constante imagem da doppelgänger que me invade, vou emoldurá-la e pendurá-la na minha parede de possibilidades.

domingo, 24 de julho de 2011

solidão

Vejo-os passando. Ouço-os conversando. Não os julgo, apenas escuto. Não opino. Entendo-os perfeitamente, mas não espero ser compreendida. Faço um comentário ou outro, irônico, e provoco risadas. Tento introduzir-me um pouco mais à conversa, mas parece que fui além do que estava sendo discutido. Recebo uma resposta cortante e me recluso novamente. Quando tempo é necessário observar até se aprender?
Eu não era nova ali, já tinha passado por isso inúmeras vezes, mas devo admitir que nunca vou aprender a me comportar dentro dos padrões e das necessidades desse grupo. Sim, é verdade que estou nesse trabalho há alguns poucos anos - quatro, para ser mais exata -, já participei de muitos ciclos e até meus empregadores já aceitaram que eu não me encaixarei perfeitamente em nenhum, mas eu continuo tentando, por ser masoquista, por ser idiota.
Eu cheguei a tentar pedir demissão, ou para ser transferida para outra área, mas meus empregadores sempre dizem que eu posso, que eu não devo negar minha habilidade para trabalhar naquela área, então os próprios me recusaram a mudança. E eu não pude fazer nada além de concordar e sair de cabeça baixa.
Mas eu não sei se sou útil. Provavelmente não. Provavelmente só estou ali para fazer volume. É fato que em trabalhos e projetos individuais eu sempre consigo impressionar meus chefes com minhas ideias, mas quando se trata de fazer uma reunião e chegar à unanimidade, minhas atitudes parecem ser todas falhas. Olham para mim como se eu fosse louca, como se eu enxergasse coisas que não existem. Pobres coitados. Eu realmente não enxergo o óbvio, porque sempre enxergo além dele! E eu me pergunto até quando, até quando essas almas se restringirão ao óbvio, ao palpável, ao fácil, ao conveniente e ao confortável? Toda grande mudança traz grandes benefícios morais, mas é tão difícil de ser fazer, precisa-se sair da zona de conforto. Sou louca por sair da zona de conforto? Sou anormal. Eu sei que sou anormal, pois o conceito de "normal" é dado pela maioria, e eu não estou nessa maioria. Mas terei de trabalhar o resto da minha vida com essa maioria, e depois de um tempo fica cansativo ser a anormal tantas vezes.
Uma vez sentei com meus empregadores e falei com eles sinceramente. De ser humano para ser humano. Perguntei a eles o porquê de toda essa tortura. Informei-os do meu vazio existencial, da minha solidão, do meu baixo moral, do meu cansaço e de uma possível desistência do melhoramento de minhas habilidades, sempre possível naquela empresa. Meus empregadores encararam-me com um misto de preocupação e compreensão.
"Sabemos por que razão você está triste", eles me disseram. "Você sente que não tem companhia". Lancei-lhes um olhar irônico. "Pelos motivos errados. Você tem de parar de exigir das pessoas o que elas não podem dar. Pare de ficar esperando, assim, sempre será surpresa. Nós sabemos que sua solidão não é física. Mas de qualquer forma, nós vamos mostrar-lhe a companhia perfeita para quando sentir-se sozinha".

E um espelho foi colocado na minha frente. "A melhor cura para a sua solidão de ideias é a introspecção".

quarta-feira, 20 de julho de 2011

o foguete

Paola deu um grande suspiro. Nada poderia tê-la preparado para o que ela iria fazer naquele momento. Por que motivo, certo? Seria tão mais fácil se todos estivéssemos prontos para tudo, mas acho que aí perderíamos a verdadeira emoção de viver. A essência da vida é isso - a imprevisibilidade. Bateu na porta e entrou.
"Lucas, meu filho, a mamãe precisa conversar com você".
O menino de olhos doces, amendoados e cor-de-mel levantou os olhos da sua construção de blocos.
"O que foi, mamãe?", ele perguntou. "Onde está o papai?". Quanta inocência exalava de cada poro daquela criança! Muito triste ele ter de tomar um banho de realidade em seus tenros 4 anos.
"É sobre isso que eu quero falar com você, meu anjo". A mãe tomou fôlego e tentou manter sua aparência forte. Ele precisaria disso agora, de muita força. "O papai não vai voltar.".
O menino piscou os grandes olhos. "Como assim, não vai voltar? Ele vai morar pra sempre no hospital?", ele voltou sua atenção para os bloquinhos. "Aquele quarto é muito triste, nós podemos levar coisas pra deixá-lo mais feliz?".
Ao ouvir aquelas palavras, ela sentiu seu coração, já partido, se esfarelar. Que menino doce! Ele realmente não precisaria ouvir isso dela agora, está tão cedo, preciso arranjar alguma forma de tornar o acontecimento menos... menos o quê?
"Meu amor", ela começou a falar, com cuidado. "O papai... ele não vai mais voltar. Ele foi embora do hospital, mas ele não vem aqui pra casa, ele não vai mais continuar... aqui. No nosso mundo."
"Como assim? Ele não vai mais ficar aqui, com a gente?"
"Ah, não, meu anjo. O papai sempre estará com a gente. No nosso coração. Mas nós não vamos mais poder vê-lo ou tocá-lo.". Um grande suspiro. "Aconteceu uma coisa com o papai que nós chamamos de morte. Isso, para algumas pessoas, significa que ele desapareceu pra sempre. Mas pra nós significa que... que ele já realizou grande parte dos sonhos dele, e foi decidido que ele precisava ir embora, pra muito, muito longe... Ele te amou muito, e vai sempre te amar, mesmo de lá longe, no lugar onde ele está agora. E antes de ir viajar, ele me pediu para nós não o esquecermos, porque enquanto nós nos lembrarmos dele, ele vai estar, de certa forma, aqui, conosco..."
O menino pareceu digerir bem a ideia da viagem. Continuou com seus bloquinhos. O problema viria depois.
"Mas, mamãe... eu vou poder sentir o papai no meu coração, mas... eu não vou mais poder jogar futebol com ele, vou?"
"Não, meu amor, não vai". Como ela poderia falar sobre morte com uma criança de quatro anos? É tão cruel! "Um dia todas as pessoas fazem essa viagem que o papai teve de fazer. Um dia eu vou fazer, e você também. Algumas pessoas partem antes do que deveriam, como o papai, e só o que podemos fazer é torcer para que isso não aconteça conosco e torcer para que nós alcancemos a felicidade antes de ir. O papai alcançou a felicidade que ele queria. Ele disse que ele só ficaria em paz e ficaria contente em partir se você crescesse bem e se tornasse uma boa pessoa. E apesar de não estar aqui com a gente, eu tenho certeza que ele vai olhar por você, por nós, e que ele vai ficaria muito orgulhoso de você de lá onde ele está..."
"Mas como ele pode me ver, mas eu não posso vê-lo?"
"Porque ele já passou por aqui. Pense nisso como se você estivesse andando em um corredor escuro, que vai se iluminando conforme você vai andando. Você só é capaz de enxergar os lugares por onde já passou, os lugares que você já conheceu, pois há várias luzes acesas, mas você não consegue ver aonde você está indo. Você não sabe onde esse corredor termina, nem o que tem ao longo dele. Entende?"
"Sim, mamãe."
Ela suspirou, aliviada. Afinal, não tinha sido tão difícil assim.
"Mamãe... você acha que ele pode nos escutar?"
Melhor responder o que vai fazê-lo se sentir melhor. É só uma criança. "Acho que sim, meu anjo".
"Então toda noite antes de dormir vou contá-lo sobre meu dia. Assim, o desejo dele de me ver crescer e me tornar um bom garoto vai se realizar antes, não acha? Porque eu vou estar sempre contando tudo pra ele..."
A mãe abraçou-o, com força. Aquele pequeno ser que era parte do ser que a deixara. O jeito meigo de olhá-la ele herdou do pai.
"Nós dois vamos sentir muito a falta dele, não é, meu anjo?"
"Você está chorando, mamãe?" Lucas encarou-a. "Não se preocupe. Eu posso tentar fazer sua refeição favorita que o papai faz. Vai ficar tudo bem."
Sim, ficaria tudo bem. Paola reparou nos bloquinhos do filho. Ele havia feito um foguete.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

também sou suicida.

Minha vida baseia-se na minha necessidade de sentir-me útil.
E cada sofrimento, cada angústia, cada sentimento que me deixava inquieto era um impulso para uma reflexão e, por conseguinte, uma decisão ou conclusão.
Também sou suicida, e considero isso uma fraqueza. Mas sou tão suicida que sigo uma filosofia na verdade propensa à vida, sou tão paradoxal que transformo minha maior fraqueza na minha maior fonte de forças. Sei que não faz sentido, pois todo indivíduo suicida é aquele que ultrapassou todos os próprios limites e que não enxerga mais um sentido na própria vida... mas minha vida é tão insignificante (no sentido literal de "sem significado" da palavra) e minha busca tão quimérica que me pergunto quais são os meus limites. Até que ponto um homem pode aguentar? Qual nível de sofrimento é necessário para que o homem desista de sua vida? De certa forma, apesar de minha vida não ser digna de um sentido, mantenho-me vivo por um propósito. E não, viver por uma ideia não significa necessariamente que essa vida tem algum sentido.
Matar-se é relativamente fácil e caseiro; e a ideia de que essa porta de saída de emergência está constantemente aberta só me instiga a permanecer vivo, a testar-me os nervos, a provar que sou mais forte que qualquer dor já vivenciada. E, em último caso, ou não.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

vida de modelo

O desfile acabou. Após entrarmos batendo palmas, eu e minhas companheiras seguimos pelo backstage para descobrir o que faríamos a seguir. Enquanto uma mulher tirava minha roupa, a outra minha maquiagem, um cara desarrumava meu cabelo, um tentava tirar minhas botas e dois ou três fotógrafos pesquisarem ângulos bons, ouvi de longe meu agente dizendo minha programação para essa semana. Eu teria duas horas de sono, depois seguiria para 3 castings seguidos, depois vôo para Milão, depois voltamos a Paris, depois ensaio fotográfico com mais 4 marcas diferentes e vôo para New York. Tudo bem, eu pensei. A temporada do ano passado, em que eu era novidade, consegui fazer mais coisas ainda. Com ajuda da metanfetamina, claro. Muitas amigas minhas usam cocaína ou meta. Não sabiam?
Mas eu não sabia se queria fazer tudo isso. Olhei ao meu redor. Eu com meus 24 anos já era uma das veteranas dali. Moças, não, meninas de 14 anos desfilavam ao meu lado. Deve ser difícil, quero dizer, e se pedirem para ela fazer uma pose sensual, uma expressão sensual? Como ela vai fazer, se ela provavelmente nunca fez sexo? E todos os abusos que eu já sofri em ensaios fotográficos? Elas estão psicologicamente prontas para isso? Não sei.
Não sei se eu ligo. Isso me entristece. Sinto-me muito vazia, às vezes. Quero dizer, recebemos toda essa atenção, estamos tão acostumadas a mimos, a motoristas, a tendo alguém para controlar nossa vida, que me pergunto se eu saberia, se eu conseguiria viver sozinha amanhã. Já visitei todos os continentes, mas não sei pegar um ônibus. Eu não saberia administrar meu dinheiro, porque nunca precisei. Acho que nunca vivi.
Convivo com essas meninas que são consideradas maravilhosas, mas nem elas são tão bonitas como elas mesmas. Quero dizer, toda a beleza delas é uma combinação de produção com edição. E às vezes eu fico imaginando a repercussão disso tudo... pois tenho certeza de que essas meninas bobas de 13, 14 anos realmente acreditam que é saudável ter 1.75m e pesar 45kg, ou que é normal uma modelo de 17 anos não ter absolutamente nenhuma espinha. Quero dizer, em alguns castings aos quais eu vou a privada do banheiro fica entupida de vômito.
Às vezes me sinto só um corpo. É assim como sou vista. Um corpo que desfila roupas chiques, porque estas caem bem nesse. A agência, os agenciadores, meu agente, eles não ligam para meu estado, para minha saúde, eles só querem ganhar dinheiro em cima da minha imagem. É muito estressante às vezes, quero dizer, eu só paro para trabalhar quando preciso tomar soro no hospital...
Penso que às vezes seria bom se eu recebesse atenção por outro motivo que não fosse meu corpo, sabe? Quero dizer, sempre me perguntam com quem eu estou, quanto eu peso, quantos anos eu tenho, qual minha marca favorita e qual minha cor de esmalte preferida, nas entrevistas, mas nunca me perguntam o que eu gosto de ouvir, ler, assistir, fazer... Eu sou uma pessoa, sabe? Apesar de toda a materialização do meu corpo, eu ainda sou uma pessoa, eu choro, eu como, eu me arrependo, eu fico cansada, eu fico doente, eu choro mais... porque você acha que modelos usam tanto óculos escuros?
Mas apesar de tudo isso, eu nunca sei o que fazer, se eu continuo trabalhando e ganho dinheiro ou se paro e, sei lá, corro atrás de estudo... ambas opções são muito difíceis, pois, como a maioria das modelos, parei de ir à escola muito nova... além do mais, vou fazer faculdade do quê?
Bom. Acabou meu intervalo. Meu agente disse que ultimamente tenho passado um exagero de tempo no banheiro. Ele diz que mais rumores sobre uma possível anorexia ou bulimia poderiam arruinar de vez minha carreira.
Mas não é como se eu ligasse.

(baseado em um documentário que vi outro dia na GNT.)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

carta suicida

Não estava chovendo, não estava nublado, o ambiente não estava denso por causa de um clima triste. Não havia nenhuma gota de álcool em volta dele, muito menos drogas, muito menos remédios para dormir. Nada que pudesse justificar tal atitude.
Na verdade, o dia era definitivamente muito bonito, claro e ensolarado, quente, aconchegante, um perfeito fim de tarde de primavera com cheiro de baunilha. A hora do dia era aquele momento entre o crepúsculo e o fim da tarde; quando o sol está lá no horizonte e a cor do céu fica indefinida por um dégradé do azul quase preto para o verde.
Quando encontraram-no já era tarde, estava inconsciente e seus lábios estavam azuis. Uma carta foi encontrada.
A carta foi publicada num jornal nacional no dia seguinte à morte.

"A todos e qualquer um que se importe, de alguma forma, ao ponto de ler esta carta.
Eu não ligo se a minha morte entristeceu-te, alegrou-te ou enraiveceu-te. O importante é que você foi afetado. A minha vida inteira tentei afetar as pessoas, e seria uma ironia se só em morte eu conseguisse, de fato.
A questão é que senti que minha batalha foi perdida em algum momento de fraqueza... tantas pessoas me dizendo o que e como fazer chegou a me tresloucar, eu estava sendo mais afetado do que estava afetando as pessoas, entende, caro leitor?
A causa da minha morte é simples. Trancarei-me na garagem e inalarei monóxido de carbono. Entende? O monóxido aos poucos me envenenará, me tomará por completo, assim como o veneno da minha infelicidade e insatisfação. Não busquei refúgio em drogas, pois sei que o cigarro e os alucinantes seriam uma saída finita. Não busquei substituir água por álcool, pois morrer aos poucos por causa de uma cirrose não seria agradável. Escolhi uma tarde simples e perfeita, uma tarde que não me faria mudar de ideia, uma tarde que não me faria sentar numa varanda e pensar sobre como sou (fui?) miserável.
A questão, novamente, é que fiquei louco depois de começar a trabalhar no jornal. Sim, faz anos, e sim, eu dizia a todos que estava feliz, mas é óbvio, devido às circunstâncias atuais, que era uma mentira. Poder finalmente dizer minhas ideias sem me esconder foi ótimo, mas as críticas me corroíam e me faziam perder minha fé nas outras pessoas. Diziam-me para escrever sobre atualidades, ninguém quer saber sobre o fascismo, as pessoas querem saber das novelas e das celebridades... como se tudo que acontece hoje não dependesse do que aconteceu anos atrás. Novamente digo, perdi a fé nas pessoas. Estavam, aliás, são tão ocupadas em criticar, em não refletir e em vituperar tudo que não vai de acordo com seus valores superficiais que até olhavam para meus textos, mas não os liam. As pessoas são tão ocupadas em provar que elas mesmas estão certas que agem da forma errada.
Veja bem, amigo ou amiga, ignorância é uma bênção, de fato. Mas a ignorância pura, como a das crianças. A partir da adolescência não é possível encontrar indivíduos ignorantes. Todos são espertos, mas tão espertos que sabem que a alienação é o caminho mais fácil e indolor. E por eu não ter escolhido esse caminho, bem, cá estou, frio e inconsciente. Eu, finalmente, inconsciente! Ah, as ironias da vida... ou da morte.
Eu sei que você, leitor, lerá esta carta, olhará para o horizonte, balançará a cabeça e refletirá por alguns instantes. Mas depois sua vida vai voltar ao normal e seu pensamento nunca mais retornará à minha morte, pois é isso que as pessoas fazem.
Mas eu não estou escrevendo isso por você. Eu faço isso por eles, aqueles jovens que estão prestes a percorrer o mesmo caminho que eu percorri. É nesses jovens que a minha nova esperança instalou-se. E o meu conselho é: vendam-se. Vendam-se bastante. E quando estiverem totalmente comercializados, quebrem toda essa hipocrisia e mediocridade, chacoalhem a cabeça das pessoas, essas pessoas que um dia foram suas fãs. Afetem quem quer ser afetado, e acreditem, eles vão querer ser afetados por uma celebridade. Vão ao talkshow da Oprah, dêem-lhes o que eles querem, depois mostrem o quão estúpido superficial é o que eles querem. Afetem esses seres. E, por obséquio, realizem esse pequeno desejo desse cadáver putrefato: usem a minha morte para afetar as pessoas em vida.
À sociedade o que é da sociedade. Minha breve existência e último suspiro"

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

annie's love sick

Saí bufando da casa de Tiago e fui pra minha. Fui direto ao meu quarto e, como sempre, me joguei na cama, de barriga para cima, encarando o meu teto estrelado. Meu cabelo estava molhado, mas pelo menos trouxera um cheiro de chuva agradável pra dentro do quarto. O que exatamente aconteceu?

Marcelo não fizera nada. Tiago sempre me falou que ele era um vagabundo e coisas do tipo, mas ele não agiu dessa forma comigo. Na verdade, o que aconteceu foi que ele me disse que não se permitia gostar de mim daquele jeito. Eu saí andando, mas ele me parou no meio da rua. Comecei a gritar e gesticular, perguntando o porquê de todos os sinais que me foram enviados, o porquê da relutância, o porquê de tudo, mas ele continuava de braços cruzados, e vez ou outra olhava para a janela do quarto de Tiago, ou falava "não posso fazer isso". Então desisti.

Eu não sei mais o que estou sentindo. Confusão demais pra uma tarde só, nossa. No começo da tarde, achava que estava arranjando Tiago para minha irmã. Depois, pensei que eu quisesse Marcelo. Agora, não sei se quero que Tiago fique com minha irmã... ah.
E sempre, sempre quando eu mais precisava, e, claro, sempre muito convenientemente começava a tocar NeverShoutNever! no meu celular.

"Dear, I wrote you a song despite the fact, you did me wrong. And dear, I don't know what the hell is going out with you, but something ain't right..."

Era Tiago me ligando. Eu mesma coloquei essa música de toque. Ele é quem me mandou essa música, uns meses atrás, e eu até pensei que pudesse significar alguma coisa, mas não dei muita atenção. Meus sentimentos por Tiago são muito, muito instáveis. Eu não sei se o que eu sinto é um carinho muito grande ou se é amor. O fato é que meus namoros nunca duram mais de dois ou três meses, porque eu sempre me pego pensando, "será que o Tiago faria isso?". Nunca me imaginei ficando com ninguém além de Tiago, mas sempre atribuí isso ao fato de que crescemos juntos e eu realmente não consigo imaginá-lo fora de minha vida.

"...you tell me that you love, then you go and leave me, why do you do this to me? Baby, I'm lovesick..."

Meus sentimentos são confusos, mas também não é como se o Tiago já tivesse me dado claras insinuações de sentimentos mais profundos por mim. Eu teria captado. Ou não? Ou será que eu não captei nada? Tiago nunca teve muitas amigas, todas as minhas tentativas de apresentar alguém a ele foram falhas, e além de mim, ele conversa com minha irmã, a mãe dele e a professora de violão (cujo sexo na verdade é meio duvidoso)... Ele poderia gostar de mim. Isso explicaria os "não posso" de Marcelo e os olhares de relance pra janela do quarto de Tiago.
Uns meses atrás eu me peguei apaixonada por ele de fato, mas desencanei porque todas as minhas investidas falhavam de alguma forma. Não sei, é muito chato isso! Eu não sei o que fazer, se devo dar o primeiro passo, se espero, se escrevo na minha testa "me beije" ou alguma coisa do tipo...

"...I just can't sleep, just can't eat, can't do much of anything at all 'cause I'm sick and in love with you, dear."

Ao ouvir esse trecho da música, resolvi me olhar. Que deprimente. Jogada na cama ao som de um toque de celular, cabelo molhado ensopando o travesseiro, maquiagem borrada, olhando para o teto curtindo minha depressão.
Isso não tem absolutamente nada a ver comigo. Por mais confusa, frustrada, brava e ainda assim, feliz por ter percebido o que eu realmente sinto, decidi sair dali e ter uma conversa esclarecedora com Tiago. Não sei de onde eu tirei coragem e força suficiente para me levantar, mas o fiz. E andei a passos lentos, embaixo de chuva, até a porta dele.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

a busca pela felicidade

A busca do homem pela excelência é refletida em suas ações, pensamentos e escolhas. Minha teoria é de que as pessoas, no geral, buscam melhorar sua personalidade, aprimorar suas habilidades, expandir seu conhecimento; na área considerada mais importante ou interessante; e acham que, com isso, terão alcançado, enfim, a felicidade. O que move a existência do ser humano é um sentido pra vida. Até aí tudo bem. A questão é: quando isso deixa de ser saudável? Quando a busca pela felicidade e excelência passa a tornar o homem infeliz? Ou, quando essa busca é, de fato, inexistente?
Na minha cabeça, essa busca é feita de três formas, nessa ordem: primeiro ocorre o ato de definir o que seria a felicidade, o que nos torna feliz; depois viria o ato de descobrir ou procurar os meios de se alcançar essa felicidade; e, por fim, viria a busca em si, o ato de buscar, a ação de tentar melhorar o próprio caráter. Ênfase nessa última palavra. Caráter. Logo, eu acho que toda essa busca deve ser por algo existencial, ideológico; e não por coisas materiais. Na minha opinião, o homem deve tentar sempre ser o melhor que tem capacidade de ser, mas agindo com autonomia, e não com heteronomia. Explicando.
Essa busca pode e torna o homem infeliz quando é feita por aparências ou vontades de terceiros. Então, nesse caso, a busca, em si, não existe - o homem está apenas se condenando a um destino insatisfatório, longe de seu ideal de felicidade, satisfazendo apenas os valores de um terceiro. E isso é surpreendentemente comum. Ao chegarem ao terceiro colegial, indivíduos escolhem fazer medicina por pressão dos pais. Fazem medicina. Passam anos trabalhando naquilo, se tornam os melhores, e, de repente, têm um surto de frustração e largam tudo pra ir atrás de algo mais. E isso é triste, porque todos os anos investidos em manter outras pessoas felizes não tiveram significado nenhum para o indivíduo. Foram anos desperdiçados.
O homem busca pela sua função no mundo. E quando essa função não é bem sucedida ou simplesmente encontrada, ele se sente vazio e inútil. Acho que esse é o pior sentimento que existe. Sentir-se inútil torna a vida sem sentido, sem objetivo, e se você não tem um objetivo, pra que viver? Quando você vive pelos outros, e não por você, o quão infernal deve ser acordar todos os dias sabendo que você vive uma vida que não tem significado?
A busca por felicidade por meios materiais também não tem sentido. Depois de comprar o televisor mais moderno do mercado, dois meses depois esse produto será desvalorizado. O indivíduo estaria constantemente infeliz e insatisfeito, mas pelos motivos errados. Ele não estaria preocupado com o seu interior, o seu caráter, e sim pela sua imagem. A procura por uma felicidade que é baseada em uma melhoria na própria imagem é incoerente. É procurar algo que não pode ser encontrado. A felicidade não pode ser palpada, como bens materiais. A felicidade é mutável e imprevisível.
É curioso, essa necessidade do ser humano de sempre precisar ter um objetivo; eu queria ser capaz de me acomodar. Mas acho que é a vontade de algo mais que move revoluções, inovações e descobertas. Se todos estacionássemos no momento de vida em que estamos, seria uma sociedade sem movimentação - como em Admirável Mundo Novo, em que as pessoas não têm aspirações.
Então, para finalizar, eu digo: eu, Bruna, estou em constante busca pela minha felicidade, e o meu conceito é completamente mutável, pois varia de acordo com a fase pela qual estou passando. Sou feliz, mas não sou acomodada; quero ser tudo que posso; quero mudar o mundo; quero ser filósofa; quero fazer as pessoas acordarem pra vida; e meu objetivo de vida está demarcado numa área que é o misto de tudo isso. Já parou pra pensar qual o seu ideal de uma vida feliz?

domingo, 5 de setembro de 2010

eu e o sadismo

Eu odeio muitas coisas. Tenho rancor de muitas coisas.

Tenho mania de achar defeitos nas pessoas e de apagá-las da minha vida, do meu orkut, da minha vida. Divirto-me em apontar seus defeitos (em uma sala privativa, em minha mente) e procuro motivos para justificar por que sou melhor que essas pessoas. Todas. Ridicularizo-as, transformo-as em personagens dentro de minha cabeça, personagens abióticos, estúpidos; uma segunda versão de sua verdadeira existência - ou a minha sincera opinião sobre sua personalidade.

Eu PRECISO me sentir maior e melhor. Eu PRECISO de alguma coisa que me diferencie dessas pessoas. EU NÃO AGUENTO a idéia de ser comparada com pessoas das quais eu não gosto. EU NÃO SUPORTO o fato de que somos da mesma espécie; então invento motivos para dividir as pessoas em castas, um nível mais especializado do que espécie, sub-espécie ou raça.

Em parte, essa necessidade, sadismo, estranheza, metidez... tudo mascara uma mistura de insegurança com uma ânsia por auto-afirmação que são muito características minhas. Minha necessidade de me expor aqui também expressa a vontade por mostrar ao mundo como penso, como sou diferente, como, apesar de tudo, preciso que me compreendam, que compreendam como eu sou, e que me deixem em paz.

domingo, 25 de abril de 2010

(continuação do encontro)

Tina bufou, mas riu. Luna sempre tivera essa mania de ligar coisas sem ligação. Luna fingiu não ligar e continuou.
- É, é sério. De repente eu ouvi barulhos vindo do túnel por onde eu entrei, e vi um grupo de umas 7 pessoas entrando, homens e mulheres, com roupas pretas e máscaras que pareciam ser de carnaval, eram todas coloridas com muitos detalhes em prata. Por isso não consegui reconhecer ninguém. Eu não consegui me mexer, fiquei parada, atônita. Quando me viram lá, pararam de andar, então um homem com a máscara mais imponente gritou "Peguem-na!", e eu poderia jurar que era a voz do diretor da minha escola!
Tina piscou os olhos duas vezes, bem devagar, enquanto tomava seu chocolate quente, que já esfriara.
- Eu saí correndo, obviamente, quando vi três brutamontes com máscaras que lembravam gárgulas correndo pra cima de mim. Eu contornei a mesa e entrei pelo outro túnel. Comecei a subir uma escada, e vi uma luz no fim, dava pra biblioteca. Os três pararam de me perseguir mas eu continuei correndo, e ao chegar no último degrau, eu dei um passo em falso e quebrei a perna. Teria sido o maior mico, eu saindo de um túnel embaixo da biblioteca, mas coincidentemente não tinha ninguém na sala. E também...
Luna se interrompeu. Tina ia perguntar por que, mas Luna tampou sua boca. Ela apontou com a cabeça para a mesa ao lado da delas, e apenas com os lábios falou para Tina escutar, e que aquela era a voz do cara com a máscara imponente. Era realmente o diretor da escola, e ele estava com mais dois homens.
Eles falavam delas.

tina e luna se encontram

O trem de Tina chegou à estação. Ela estava bem cansada depois de horas de viagem. Um avião, um táxi e um trem para chegar até Luna, que a esperava na entrada da estação. As duas se olharam. Tina fitou a perna quebrada de Luna e apertou os olhos, numa expressão mista de desconfiança e preocupação. As duas não se viam havia seis meses, e antes de Tina se mudar para outro continente, eram melhores amigas. O clima era estranho.
- Então, quando você pretende me contar o que aconteceu pra você quebrar a perna, Luna? - Tina por fim falou.
- Vamos a um lugar mais privado, Tina - Luna respondeu.
As duas foram até um café ali perto mesmo. Era uma segunda-feira de tarde. Estava frio e ventando de uma intensidade desagradável, logo, havia poucas pessoas transitando pelas ruas. Andaram silenciosamente, cada uma concentrada em controlar a batida dos dentes e a falta de calor de suas mãos. Chegaram ao café.
Um ambiente quente, sombrio porém convidativo as recebeu. Luna escolheu uma mesa no canto, afastada das outras, para terem mais privacidade. Cheiro de bolinhos, café e chá faziam o lugar cheirar a casa de avó.
- Tina, eu entrei nas passagens secretas da biblioteca - Luna disse, depois de pedirem um chocolate quente cada uma.
- E o que tem lá de ligação com a Sangue e Tinta? - Tina respondeu, depois de bebericar seu chocolate quente e constatar que faltava açúcar. - Ou Tinta e Sangue, que seja.
- Bom, é como uma sede, ou clube. Não sei. Todas as passagens secretas têm túneis ligando umas às outras, isso não consta no mapa, mas eu descobri. Cada sala tem dois túneis. Elas são pequenas com sofás vermelhos e pretos, estantes de livros aparentemente proibidos na biblioteca e quadros, muitos quadros do que eu presumi serem membros honorários da Sociedade. Vi um quadro da Maria Cristina.
- E o que tem nos livros? Você os folheou?
- Claro que não, Tina! - Luna olhou para Tina como se ela fosse louca. - Faltavam várias salas ainda pra eu visitar. Enfim. Eu cheguei a uma sala que não estava no mapa, que fica bem embaixo do salão principal da biblioteca. Tipo, EXATAMENTE embaixo. Tem até o formato do piso do salão principal. Enfim, de novo. Acho que deve ser a sede da Sangue e Tinta daqui, porque tinha vários sofás e poltronas, muito mais livros e uma mesa enorme, com muitos assentos, com muitos papéis em cima. Os papéis eram planos, leis, projetos de leis, combinados, acordos, mas no geral planos da Sangue e Tinta. E foi aí que eu quebrei a perna.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Tina

Isso é um telegrama. Devo escrever pouco. Na próxima carta virá uma descrição da Sociedade. Fui me infiltrar nas passagens da biblioteca. Fui surpreendida. Quebrei a perna. Venha logo. Estou assustada. Conhecemos mais membros do que sabemos. Preciso de ajuda. Não descobri muitas coisas além de planos políticos. Não posso escrever mais.
XXX
Luna

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Sangue e Tinta, Luna!

Esse é o nome da sociedade da qual querem que a gente participe. Que nome, hã? Não é muito convidativo. Tenho minhas incertezas com relação a essa coisa toda.
Mas, sobre a carta. Olha só. Eu fui dar uma vasculhada no livro da minha família (um livro em que estão escritos todos os nomes das pessoas da minha família, numa gigantesca árvore genealógica) e eu achei uma Maria Cristina. Ela era irmã da minha bisavó. Aqui diz que ela morreu jovem, não foi especificado de quê, com vinte e poucos anos de idade, e sabe, algo me diz que isso é mentira. Descobri mais uma coisa. Somos da mesma família. Temos um parentesco bem distante, mas ele existe. A Maria Cristina era prima de segundo grau da Luna. Engraçado, certo? Somos parentes.
E tem mais. Esse livro está na casa que era da minha bisavó Amanda (irmã da Maria Cristina). Minha bisavó está meio afetada pela idade já, mas outro dia, quando perguntei a ela sobre a Maria Cristina, ela só se levantou da cadeira de balanço dela, andou até o quarto, abriu a primeira gaveta do seu criado mudo e me entregou um diário.
O diário da Maria Cristina.
Tem tudo lá. Desde o dia em que ela entrou na sociedade. Ela relata que coisas bem estranhas aconteciam com ela no começo, assim como com a gente. Mas não gostei do que li. Ela diz que todos levam tudo bem a sério, e que seu maior medo era de ficar assim também. (Pela carta que ela mandou para Luna, podemos supor, né, que...)
E o mapa que você encontrou? Você ainda não me falou quais são essas salas secretas, se já as explorou, ou alguma coisa do tipo.
E eu vou te fazer uma visita daqui duas semanas. Já está programado.
Se cuida, Luna.
Tome cuidado. Esse povo é sério.
Live long and prosper.
Tina

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Tina. Pasme.

Aqui, a carta. Eu não modifiquei nada. O Roberto "traduziu" a carta que você achou pra mim, aqui é a letra dele mesmo. Eu fiquei muito assustada quando li. Isso deve responder algumas das suas perguntas. Os nomes são bem estranhos. Devem ser pseudônimos. Ah, Roberto disse que descobriu, usando o mapa que eu achei, como transformar os pseudônimos em nomes reais, ele disse que há uma regra. Não entendi nada do que ele fez, mas, pasme!, "Aluneta" fica "Luna" e "Etinália" fica Tina. Ou seja, nossos antecessores se chamavam respectivamente Luna e Cristina. Minha bisavó se chama Luna. Será que é ela?
Enfim. Eis aqui a carta.
Até mais,
Luna

Cara Aluneta,
Acho que os maçons não gostaram do que você fez. Parabéns, agora você vai desencadear uma briga entre sociedades que viveram 200 anos em paz. Parabéns! E tudo isso por qual motivo? "Ah, Etinália, eu acho que seria divertido criar umas mentiras sobre eles, quem sabe assim os policiais não saem do nosso pé". Pra quê você foi falar que foram os maçons que saíram distribuindo todos aqueles cartazes anárquicos pela cidade? Não faz nem sentido. São todos burgueses. Você nos ferrou. Mal entramos na sociedade já seremos expulsas, Aluneta. Uma linhagem de três gerações de nossa família na sociedade será quebrada por sua culpa.
Desde o começo você estava tão empolgada, não é? Com essa história de sermos ativistas e coisa e tal. Você deve estar se achando "a" intelectual. Metida. Muito metida. Só porque decifrou os criptogramas que nos levaram à sede acha que é a maioral. Acorda, Aluneta.
Você só está na Tinta e Sangue agora pela diversão de fazer protestos às escuras com um moço de cabelos e cabeça rebelde ao seu lado, certo? Eu estou pela política, Aluneta, nós podemos mudar no mínimo nossa cidade, podemos acabar com a hegemonia maçônica por aqui. Eles são muito influentes por aqui. Há maçons no governo. Todos tiranos, burgueses. Precisamos fazer alguma coisa.
Pense bem no que você vai deixar para seus netos.
Com carinho, Etinália.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Como assim, Luna?

Como assim, perseguidos políticos rebeldes intelectuais? Eu conheço a minha árvore genealógica inteira e detalhadamente, e não lembro de ler sobre nenhum perseguido político. Deixa quieto.
Querem que a gente faça parte de uma sociedade... certo. O símbolo que estava na carta em que eu achei devia ser da sociedade, certo? Descobriu o significado das letras S e T no símbolo? A sociedade então é para intelectuais. Consideram a gente intelectuais por quê? Ou existe algum tipo de treinamento? Pode me mandar uma tradução da carta e do seu mapa? Tantas perguntas.
Eu dei uma pesquisada aqui... E descobri uma coisa absurda. Minha cidade não tem nenhuma ligação (documentada) com a sua. Ou seja, acho que esse negócio de sociedade secreta é pra valer. Luna, eu não sei o que achar dessa história toda. Quero dizer, eu me mudei há dois anos. E tudo isso começa a acontecer agora. Por que não aconteceu antes? Será que a idade é importante nessa tal sociedade? E o que nós temos de especial (além de descendentes) que nos torna aptas a entrar nessa sociedade? Tantas perguntas.
Não sei se isso é importante, mas outro dia eu fui à biblioteca e reparei que em cima da porta, do lado de fora, há a inscrição "com tinta se arma, com tinta se desarma" e por dentro está escrito "com sangue se dá, do sangue se tira". Acho que dá pra relacionar com toda a esquisitice que está acontecendo. Certo?
Quero logo uma cópia da carta e do mapa.
Faça pesquisas por mim, por favor.
Ah, com toda essa história, estou pensando em voltar.
Por uns dias.
Live long and prosper.
Tina

terça-feira, 13 de abril de 2010

Tina,

Sem tempo pra falar. Essa carta chegará rápido. Criptogramas decifrados. Tradução: perseguidos políticos rebeldes intelectuais. Ligação conosco: somos descendentes deles. Te explico na próxima carta. Querem que a gente faça parte de uma sociedade. Não descobri a ligação com a biblioteca. Depois te explico a falta de tempo e de caracteres. Aguardo uma resposta rápida. Luna.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Querida Luna,

Desculpe por não ter escrito. Eu não tenho tido muito tempo. As coisas por aqui também estão bem estranhas, pra falar a verdade. Quando li sua carta, fiquei muito assustada. Sabe, eu tenho trabalhado voluntariamente no asilo daqui. Outro dia, um senhor que eu nunca tinha visto estava andando quando deixou cair uma carta. Eu a peguei com a intenção de devolvê-la, mas vi o nome da nossa cidade e da biblioteca municipal no verso e algo me disse que eu deveria ficar com essa carta. Não sei o que está acontecendo, Luna, acho que tem alguém brincando conosco...
...Mas como a pessoa estaria brincando com nós duas ao mesmo tempo? Quero dizer, moramos em continentes diferentes agora. Vou fazer algumas pesquisas e ver o que nossas cidades têm em comum. Eu também me pergunto por que nunca fizeram nada disso com nós duas juntas.
Mas voltando. Abri a carta, e eu não entendi nada do que estava escrito. Presumo que sejam os mesmos criptogramas do seu mapa. Então estou mandando-a também, peça pro Roberto traduzi-la pra gente.
Mas Luna, faz uma coisa. Eu sei que na biblioteca tem uma sessão de livros de códigos e enigmas (já passei muito tempo lá com o Roberto, ele lendo e eu organizando, você sabe), você podia pesquisar sobre esse código das cartas especificamente... Veja de que época é, por quem era usado, ligue os pontos com a nossa cidade, com a biblioteca, com o que quer que seja, e me fale. Isso é realmente muito estranho. Eu vou tentar fazer a mesma coisa aqui.
Última coisa. Você conhece algo cujo símbolo é um S e um T entrelaçados por uma rosa, uma caneta dessas de tinta e um punhal?
Eu respondi o mais rápido que pude.
Então não me faça esperar muito.
É sério.
Felicitações,
Tina

domingo, 11 de abril de 2010

Querida Tina,

Por que você resolveu sumir? Sinto sua falta. Tenho tanto pra contar... Coisas bem estranhas têm acontecido comigo ultimamente, sabe? Desde que você mudou, parece que o mundo está conspirando. Apenas conspirando, ainda não sei se a meu favor ou contra. Parece que todos os meus passos foram anteriormente calculados por alguém. É meio estranho, uma sensação meio Matrix. Você vai me entender.
Mas enfim. Deixe-me te contar. Outro dia eu estava lá na nossa escola, no mesmo banco em que nós costumávamos sentar, ao redor daquela árvore grande, quando notei algo estranho no interior oco do tronco. Tão clichê isso, certo? Quero dizer, se estivesse lá há muito tempo, nós duas teríamos visto. Mas não. Aquilo simplesmente APARECEU lá depois de você se mudar.
E, você sabe, sou muito curiosa. Obviamente eu coloquei a mão lá dentro e peguei a coisa. Era uma carta com um mapa desenhado da biblioteca municipal. Era antigo, datado de 1938. A carta era toda escrita em criptogramas, não consegui decifrar, você sabe que sou péssima em códigos e enigmas. Mas eu a passei pro Roberto decifrar, lembra dele? É, ele gosta de desafios...
Eu fui até a biblioteca. Passeei por lá e entrei na sala de leitura. Você já tinha reparado num quadro que é na verdade a planta da biblioteca? Pois é. NEM EU! Tirei o meu mapa do bolso e comparei com a planta do quadro, e adivinha, tinha coisas a mais no meu mapa.
Como se fossem passagens secretas.
E enquanto eu andava na biblioteca, parecia que todos os funcionários me olhavam, mediam, espionavam, encaravam. Por toda estante de livros pela qual eu passava eu achava que um livro ia cair e que eu ia entrar em uma sala secreta.
Fui correndo pra casa analisar direito o mapa. As salas eram nomeadas com a linguagem enigmática do resto da carta, então o dei para Roberto também. Ele disse que me devolve depois de amanhã. Tina, o que você acha disso? Você é que sempre gostou de aventuras. Por que isso está acontecendo só comigo?

Espero sua resposta logo.
Com carinho,
Luna