segunda-feira, 6 de junho de 2011

impulsos

Um feixe de luz entrando através da cortina de camurça e vermelho-sangue e pousando numa pele macia e rosada. Um ambiente fétido, repugnante, medíocre, em oposição a delicadas mãos. Um homem indo embora deixando dinheiro dentro dos sapatos da moça, em oposição à ternura e inocência com que ela se encontrava encolhida em posição fetal na cama. Essa era Luana.
Franziu as sobrancelhas ao perceber que já era dia. Levantou-se preguiçosa e relutantemente, em movimentos lentos e calmos, até que - oito e meia? - já? - vestiu-se - penteou-se - onde está o dinheiro? - ele deve ter pago a diária - saiu e deixou aquele lugar para trás.
Sim, finalmente, chegou a sua casa. Foi direto para o chuveiro, limpou-se de toda a sujeira da noite passada - limpou-se a consciência - limpou-se das memórias, dos sentimentos, da selvageria, do caráter animal e impulsivo - limpou-se da mágoa e do remorso de ser tão paradoxal, primitiva e sem auto-controle - pois era um novo dia e sempre há muito trabalho para ser feito na escola em que trabalhava.
Um tipo diferente de escola, em que as crianças de 4 a 8 anos têm aulas juntas, fora as de matemática e ciências. Esse compartilhamento de experiências e aprendizado era muito rico, e Luana adorava seu trabalho. Às vezes iniciava reflexões e guiava as crianças por uma linha de pensamento, outras vezes dava aula de música, e de tempos em tempos reunia-se com as outras três ou quatro professoras para discutirem o processo, os métodos e os progressos feitos.

O tema das aulas ao decorrer da semana seria sobre controle de seus instintos e noção de público e privado.

É sempre muito difícil explicar para crianças o porquê de certas convenções e coerções. A criança, tendo uma personalidade e um quê primitivo dentro de si, não entende facilmente por que razão certas coisas são públicas e outras são privadas, ou ainda por que deve-se controlar certos impulsos e instintos.

- O que diferencia nós, pessoas, seres humanos, dos macacos e outros animais, além de nossa aparência?, Luana perguntou.
- Macacos têm uma família só muito grande!
- É, os animais estão sempre em bandos, muito grandes.
- Eles não vivem em casas que nem a gente.
- Eles não sabem ler nem escrever. Nem desenhar!
- Então nós, de certa forma, somos mais evoluídos que os macacos, certo?, Luana perguntou. E o que mais? Onde os macacos fazem o número 1 e o número 2?
- Em qualquer lugar!
- E onde eles têm filhos? Um macaco casa-se com uma macaca para sempre e eles têm apenas alguns filhos, ou não?
- Eu outro dia vi na televisão que não existe isso de casar entre os macacos. Um macaco pode ficar com várias macacas ao mesmo tempo.
- Isso tudo, crianças, nos diferencia dos animais. Nós temos controle de nossos impulsos e instintos. Nós sabemos que não podemos simplesmente abaixar as calças e fazer o número 2 na rua, certo? Sabemos que existem certas regras e que devemos respeitar essas regras de convivência. Cada vez mais, quanto mais envelhecemos, nos damos conta de que nós somos donos de nossas vontades e impulsos, e que não devemos nos deixar dominar por eles. Vocês estão acompanhando?
- Um dia ouvi minha mãe dizer pra uma amiga dela que meu pai não sabia controlar seus impulsos sexuais e que por isso eles estavam se separando, porque ele precisava ficar com outras mulheres, que nem o macaco precisa ficar com outras macacas. E ele é velho, professora.
Luana procurou não voltar suas atenções para tal comentário. Desconversou e logo o sinal bateu. As crianças foram todas embora, mas Luana ficou ali, sentada na sala, observando o círculo no chão em que as crianças sentavam na hora das reflexões. Ela lembrava-se claramente da noite passada. Lembrava-se nítida e racionalmente de tudo o que fizera, mas algo a impedia de digerir tudo aquilo, de processar, de sentir novamente o que era estar naquele lugar. Um bloqueio, uma trava de emoções ligava-se toda vez que Luana saía à noite, de forma que a Luana da noite era diferente não comunicava-se com a de dia. Uma forma de defesa, talvez?, pois sem os dois lados da história não era possível refletir-se a respeito, então ambas Luanas seguiriam com sua forma de vida sem culpa ou consciência de suas falhas de caráter.

(continua)

terça-feira, 31 de maio de 2011

o fenômeno de ocidentalização

(o texto a seguir eu fiz para a aula de redação da minha escola. tirei 9,5 e tive meu momento de glória, pois considero minha professora um tanto quanto exigente. aqui vai.)

Globalização, geopoliticamente falando, significa livre fluxo de informações, capitais e pessoas entre os países. Com a revolução tecnológica da internet (que agiliza o fluxo de informações), abertura de países isolados economicamente e expansão do neoliberalismo alguns Estados tornaram-se dependentes do capitalismo e dos valores agregados a ele - tanto econômica quanto culturalmente. Certos padrões ocidentais tornaram-se a representação de "poder", e o motivo por trás disso pode ser compreendido através de uma análise histórica e ideológica.

Historicamente, o ocidente, representado por europeus e norte-americanos, está ligado a explorações, conquistas, avanços tecnológicos e revoluções. A Europa simboliza o avanço social, e os EUA, o econômico. Com toda a sua história e passado tendo construído a base de seu atual sucesso (em termos), não é de se espantar que o ocidente esteja ligado à ideia de poder.

Consequentemente, se o ocidente e sua política neoliberalista são a visão de progresso, sucesso e poder; o oriente (e qualquer outra cultura que vá de encontro aos "valores" capitalistas) e sua cultura seriam a visão do atraso e do fracasso. Com o fortalecimento da globalização, que tende a unificar e igualar culturamente o mundo, o fenômeno contrário, de regionalização, enfraquece - e, com ele, os governos e culturas demasiadamente regionais. A população tende a negar sua cultura para não se sentir "atrasada".

Outras consequências da globalização e da relação dominador/dominado são a exclusão ou anulação de culturas e a padronização - da beleza, dos produtos, da língua, dos valores, das roupas -, a qual está ligada à divulgação de um modo de vida ocidental. A padronização ocorre através de internet, filmes, revistas, até livros, que divulgam valores capitalistas, levando os cidadãos a pensar que seu modo de vida não é adequado por não ser igual ao "American way of life". Assim, para superar o sentimento de exclusão e marginalidade, uma japonesa morena e conservadora assume a aparência de uma francesa consumista.

Vistos todos esses âmbitos (histórico, ideológico e psicológico), compreende-se melhor a dominação ocidental sobre outras culturas. Conclui-se que o ocidente está, por inúmeros motivos e em inúmeras áreas, ligado à ideia de "poder", e por isso os indivíduos tendem a ocidentalizar-se, por exemplo na aparência, reflexo óbvio e visível (e risível). Até que ponto essa ocidentalização continuará é difícil dizer, mas pode-se afirmar que, no futuro, o globo será composto por três hemisférios: setentrional, meridional e ocidental.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

a ponte e fim

Eduardo pôs as mãos na cabeça. Precisou respirar fundo algumas vezes, sentia-se um pouco tonto. Um pouco depois, foi despertado pelos passos do garçom, aproximando-se de sua mesa.
- Qual a forma de pagamento, senhor?
- Vamos dividir. À vista.
O garçom pareceu confuso. Seus olhos subitamente adquiriram uma expressão oblíqua, depois de riso, e ele perguntou:
- Seu acompanhante retirou-se e já volta, ou...?
- Não, meu jovem, vou dividir a conta com... - e ao fazer o movimento com a mão indicando os bancos vazios ao seu redor, se deu conta de que estava sozinho. Piscou os olhos lentamente e procurou indícios da presença de Dibs, Fitz, Hermann ou da moça. Quando não foram encontrados, Eduardo sinalizou para o garçom trazer a conta e ponto final.
Pagou a conta e saiu do bar, perturbado. Havia dormido? Bebido demais? Estava sonhando? A última coisa de que se lembrava nitidamente antes de chegar ao bar era de entrar em uma igreja. Será que havia caído no sono dentro da igreja mesmo?
Eduardo andava enquanto pensava tudo isso, e quando o turbilhão de dúvidas em sua mente cessou, começou a prestar atenção no caminho. Parecia que não saía do lugar. Parecia que estava andando pela ponte sobre o lado prateado há vários minutos - a ponte não era tão grande assim. E ainda encontrava-se no meio do caminho! Curioso! Eduardo começou a correr, mas quanto mais ele corria, mais a outra margem afastava-se, mas ao olhar para trás, não tinha saído do lugar. Sentou-se devido à exaustão.
Foi então que reparou nas roupas que estava usando. Os sapatos de Dibs, o terno de Hermann e os cabelos e gravata de Fitz. Fora suas mãos, que eram iguais às da Dama.
Algo fez Eduardo levantar o olhar e virar-se para o início da ponte. Lá estava Dibs. Ele parecia não notar a existência de Eduardo. Estava lá, com seu olhar romântico, perdido, indeciso entre apreciar o caminho pelo que veio ou a ponte a que estava se dirigindo. Mesmo assim, parecia estar na iminência de fazer uma decisão, o que exalava força e autoconfiança de seu indeciso sorriso.
Então notou alguém de pé ao seu lado. Era Fitz. Não olhava para nenhum dos lados da ponte, não olhava para o tão bonito lago, não olhava para a lua - olhava para os próprios pés, para as próprias mãos. Parecia tão triste e tão decepcionado. Olhou para o fim do caminho, olhou para o começo, e em sua expressão ficou muito claro que queria estar em qualquer dos dois lugares, menos no que estava - no meio do caminho. Não exalava a autoconfiança de Dibs, na verdade, apesar de tentar disfarçar, parecia estar muito indeciso e infeliz. Eduardo sentiu pena de Fitz.
E então viu Hermann, no final da ponte. Mãos nos bolsos, olhava de cima pra baixo para a ponte, parecia sentir-se superior por ter conseguido chegar ao outro lado inteiro. Mas lançava olhares tristes para o lago, para a lua, para as pedras de que era composta a ponte, como se estivesse arrependido de não ter notado esses detalhes enquanto estivera atravessando-a. Focou-se em atravessar a ponte dignamente e de cabeça erguida que perdeu o lado humano e curioso de aproveitar o caminho. Parecia tão triste quanto Fitz, mas sua postura orgulhosa disfarçava-o bem.
Eduardo não queria chegar ao outro lado da ponte decepcionado, também não queria ficar ali no meio indeciso ou arrependido sobre o que fez ou deixou de fazer. Olhou para Dibs, que parecia tão natural, tão pronto para a vida, e percebeu que não devia tê-lo deixado para trás. Fitz parece ter deixado seu Dibs interior para trás, e as consequências disso são visíveis, risíveis. Ainda havia tempo, havia metade da ponte para ser percorrida, muitas luas e muitas marés passariam e Eduardo poderia voltar a aproveitar dignamente sua passagem. E então, num piscar de olhos, todos os três homens desapareceram, e ele percebeu a aproximação em passos lentos e suaves da Dama, carregando um lampião, que iluminava a ponte inteira. Ela estava sempre por perto, guiando seus pensamentos, guiando-o pela travessia da ponte. Embora não tivesse se feito muito presente no início da travessia, agora lá estava ela.
- Decidiste? A ponte ficou mais clara agora?
Eduardo fez que sim com a cabeça.

No instante seguinte, encontrou-se na poltrona vermelho-sangue, numa sala muito bem iluminada por uma luminária grande que agora estava no centro da sala.

FIM \o/

terça-feira, 24 de maio de 2011

a paz

- Antes de eu encerrar esse encontro - Dama começou - queria perguntar-lhes: como alcançar a paz?
- A paz de espírito? - Eduardo perguntou. - É um conceito bem... complicado. Não ouso dizer que seja inalcançável, mas até hoje temo que eu não tenha encontrado um método que me guie à paz de espírito...
- Depende do seu conceito de paz de espírito. - Hermann começou. - Acredito que nossa vida seja um círculo vicioso: temos um objetivo, batalhamos, alcançamos, nos entediamos e logo encontramos um outro objetivo, e por mais nobre, mais complexo que seja tal objetivo, a tendência é de nos frustrarmos quando alcançamos tal, pois sempre parece que o esforço foi maior que a recompensa. Superestimamos a recompensa, quando o contrário é que devia ser feito, mas, enfim. Acredito que a paz de espírito, olhando desse ponto de vista, seja alcançada quando conseguimos aproveitar mais a viagem do que o destino, o esforço do que a recompensa, o processo do que o grand finale.
- Acredito que a paz de espírito está no coração dos ignorantes. - Fitz disse, pausadamente. - Para aqueles que não saem da "cotidianice", que olham para seus problemas por um prisma egoísta e totalmente não-relativista. Não ter o peso do intelecto e de séculos de reflexões sobre seus ombros é, sem dúvida, a maior paz de espírito que existe.
- Algumas religiões e filosofias orientais acreditam que você pode se libertar de todas as angústias e problemas desapegando-se de tudo o que é material - Dibs disse - e isso inclui não só bens e objetos, mas também envolve que você não se relacione com ninguém, seja esse relacionamento familiar, amoroso ou amigável. O ato de desprender-se, de certa forma, de toda a sua vida implicaria uma paz de espírito constante por não haver com o que se preocupar. Tudo é passageiro.
- Não gosto dessa ideia. Se eu me desprendesse de toda a minha vida, eu me desprenderia também de mim e de minha identidade, minha história. Eu realmente teria paz de espírito, porque não teria de refletir nem de me preocupar com nada, já que tudo é passageiro! - Apontou Eduardo. - Eu, quando jovem, gostava de pensar que eu alcançaria a paz o dia em que estivesse fazendo algo bom para mim e útil para o fator externo, seja esse fator a sociedade ou minha família. Esse equilíbrio, assim como Hermann disse, tendo a acreditar que só pode ser acessível quando começamos a pensar o valor das coisas por que passamos na nossa vida. Isso está incluso no gigante pacote definido por "aproveitar a viagem". Acho que essa determinação do que é válido e do que não é só pode ser feita se olharmos para nossa vida de fora, de cima, como se estivéssemos no topo de uma montanha: o que é pequeno some, apenas grandes formações continuam visíveis, e são essas grandes formações que merecem nossa atenção.
- Mas para alcançar-se essa forma de visão, tão cósmica, primeiro precisa-se reconhecer que, apesar de tudo por que passamos ter certa influência, mesmo que minúscula, na nossa identidade, deve-se aprender a valorizar acontecimentos ou reflexões realmente importantes: formadores de caráter, questionadores de nossa ética... e isso exige um certo desprendimento, sim, da predominância das emoções, as quais geralmente influenciam no nosso juízo de valores do que é realmente importante e o que pode ser considerado fútil - Fitz disse. - Tal atitude só pode ser esperada dos mais ricos intelectualmente. Não sei vocês, mas eu vivo em constante angústia e, apesar de eu também não gostar de utopias, como Dibs, tendo a pender para o lado cético da questão, o lado que grita "estás louco?!, paz de espírito é para parvos, sem grandes questionamentos ou grandes angústias!".
- Vocês acham que tudo na vida é muito fácil. - Dibs disse, de forma disparata. - Tudo é ou inalcançável ou só digno de idiotas. Não é você mesmo que estava falando sobre aproveitar a viagem, Hermann? E não é essa a beleza? Acompanhar a sua evolução como ser humano, (racional, social e de alma muito rica), enquanto busca a paz de espírito, a solução dos problemas e uma forma mais saudável de encarar a vida? Não é isso o que torna a vida cheia de significado e aprendizado? Você acha, Fitz, que a vida de um parvo, em seu final, terá muito significado? Não que eu esteja desvalorizando vidas, cada um a aproveita da forma que bem quiser, só que um ser que se questionou e refletiu durante toda sua existência tornará sua vida muito mais significativa do que alguém que só cumpriu sua função biológica de existência. - Dibs então parou para tomar fôlego. - E não me venham com a ladainha de "mas o destino inexorável de todos é a morte". Isso só deveria fazer com que aproveitássemos mais, tendo a consciência de que, provavelmente, essa será nossa primeira e última chance.
Dibs revelava-se e os outros três homens encolhiam-se em suas roupas, envergonhados por terem deixado morrer dentro de si o Dibs que ali um dia esteve.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

sobre personalidades

O homem definitivamente é composto de várias facetas que coexistem - nem sempre em plena harmonia, mas coexistem, uma não anulando a outra. Definir-se como tendo uma, duas ou dez faces é limitar todo o processo eterno de formação e expansão de seus caráter, personalidade e alma. Por mais que alguns dos lados do indivíduo seja evanescente, efêmero; as características que o compõem não o são, e continuarão existindo, pertencentes a outras facetas, dissolvidas na imensidão de nosso universo particular.
Tendemos a achar que nossa personalidade é dividida em vários âmbitos, tipificados, com uma ou outra característica mais marcante, tornando assim mais fácil o processo de reconhecimento de tal faceta. Mas tal faceta não é composta por só uma característica, por só um tipo, por um só sentimento predominante. Há uma história por trás desse sentimento e dessa característica, há motivos por trás da determinação e da formação de tal face, tornando cada uma das faces uma micropersonalidade, uma ramificação da síntese personalítica - mas não menos complexa.

Sendo assim, quanto mais vivências, questionamentos, experiências, leituras, reflexões, situações, atritos, conflitos e decisões passamos ou temos de fazer, uma nova ramificação se forma, partindo da mesma raiz sólida e concreta que são nossos valores, princípios, ideais e sonhos.

Essa infinidade de lados existe por um motivo. Quanto mais rica a personalidade, quanto mais diferentes e variadas forem as formas de olhar para uma mesma questão; mais pertinente, útil e benéfica para todas as micropersonalidades a decisão final será - mas também mais difícil de ser feita e de ser aceita. Uma pessoa que não tem acesso ao conhecimento científico a respeito de tal doença aceitará a morte como sua única possibilidade e seu destino fatídico - é porque deus quis. Já quem tem acesso a todos os livros, bulas, teses e médicos possíveis fará o máximo para que haja outros caminhos, outras alternativas, uma sempre melhor que a outra.
E por mais que haja algum traço que não nos agrade em nossa personalidade - algum traço que não precisava existir e que continua lá, por algum motivo, como um vício -, ele é tão necessário para o processo de autodescobrimento quanto os traços que nos são úteis e que se sobrepõem aos outros. Justamente os de que não gostamos ou que não aceitamos em nós mesmos é que nos afastam das outras pessoas que possuem semelhantes. Quando aprendemos a lidar com o que nos incomoda - quando damos nomes aos nossos fantasmas - é que passamos a viver em harmonia com tal traço em nós presente.

Mas, no final das contas, sejam as ramificações evanescentes ou cicatrizes, o conjunto todo forma o sujeito, que dará frutos, responderá às estações e se desenvolverá de forma única e diferenciada.

terça-feira, 10 de maio de 2011

dibs pronuncia-se

- Sabem o que eu acho? - começou Dibs. - Acho que os tolos aqui são vocês. Vocês é que são o hedonistas e escravos do capitalismo, os manipulados, os infelizes, os insatisfeitos e os ingênuos! Vocês - até você, Hermann - é que se deixam cegar pela ganância, prepotência, ignorância e pseudo-busca por um sentido da vida. Não os culpo! Acho que o tempo tornou-os duros e de certa forma cegos ao que realmente importa. Mas é muita agnosia da parte de vocês acharem, que por serem mais velhos e estudados do que eu, que sabem mais sobre a vida ou que têm o futuro mais apropriadamente traçado. Filósofos, pensadores, psicólogos e sociólogos de muitas gerações já afirmaram que devíamos ver o mundo com o olhar das crianças, não no sentido de um olhar sem malícia, mas de um olhar de quem aproveita o que está vivendo, de quem tem sonhos no coração e procura concretizá-los da forma melhor e mutuamente benéfica possível... quando crianças é que aprendemos a amar, sentir, sonhar e planejar corretamente... esses valores todos vão se dissolvendo dentro de nós com a idade e o falso conceito de maturidade... Portando, do meu ponto de vista, ingênuos são vocês, que se acham bons o suficiente para viverem sozinhos!
Não é preciso dizer, caro leitor, que a atmosfera ficou cheia de tensão e indignação. Hermann sentia-se envergonhado por ter recebido uma lição de moral de tão jovem criatura, Fitz sentia-se indignado e já calculava respostas para cada sentença dita por Dibs, e Eduardo estava realmente refletindo sobre o que Dibs dissera. Mas, de forma geral, o que cada um se perguntava era: e se Dibs estiver realmente certo? E se aqueles valores mencionados por ele tornassem a vida realmente mais proveitosa e menos difícil?
Eduardo começava a sentir vontade de bater sua cabeça contra a parede. Trinta e tantos anos, vinte e tantos investidos em agradar a terceiros. Os últimos dez anos de sua vida empregara apenas em reverter suas habilidades em algo que poderia ser útil apenas aos outros e que não lhe dava nenhum prazer. Alguém que passa tanto tempo assim ou é realmente ignóbil e não dá valor à própria vida ou é alguém que aterroriza-se só com a ideia de fazer algo por si próprio, de seguir os próprios sonhos independentemente de sua utilidade ao capitalismo atual, se arcar com as consequências das próprias escolhas.
Hermann tentava calcular onde é que tinha errado. Tudo aquilo parecia tão óbvio, mas Hermann acostumou-se a olhar através do óbvio, então muitas vezes não capta as coisas mais simples. Tanta complicação, tantas desculpas, tantos motivos para não aproveitar a vida; que Hermann esqueceu-se do valor-mor, instintivo, primitivo e poético em todos os sentidos: simplesmente aproveitá-la, pois não teria outra. Tornar-se escravo das próprias ideologias, epifanias, medos, hipóteses e obrigações para com a tal sociedade também é uma forma de anular-se. Prender-se à tarefa sem aproveitá-la é tão herege quanto não fazê-la.
Fitz não queria aceitar que sim, talvez Dibs esteja certo, talvez afastar as pessoas não seja a atitude mais certa a se tomar. Julgar o caráter das pessoas baseado em seu nível intelectual é tão errado. Prova disso era ele mesmo - extremamente dotado intelectualmente, mas não serviria como referência de cidadão moral. Tampouco seria um amigo de verdade. Tendo sua existência marcada por solidão e muitas contradições dentro de si, Fitz concluiu que sim, há um método alternativo, a felicidade é possível, arrogância não é sinônimo de superioridade.
Dibs era, sem dúvida, o jovem que um dia os outros três foram, mas abandonaram por conveniência ou falta de utilidade, e aquela conversa resgatara valores há muito esquecidos...

quinta-feira, 28 de abril de 2011

o sentido da vida

- Utopias me deixam extremamente frustrado. - Eduardo continuou. - Se eu detesto o sentimento de não ter conseguido cumprir uma meta, me sinto ainda pior quando percebo que tal meta é inalcançável.
- Quando sua meta passa a ser algo inalcançável, alguma coisa está errada. - Fitz comentou. - Quero dizer, quem em sã consciência passa a desejar algo que não pode nunca ser atingido? É masoquismo!
- Acho que uma pessoa já muito realizada tende a, cada vez mais, sonhar mais alto, consequentemente exigindo mais de si e empenhando-se mais na conquista de seu objetivo... - Dibs disse.
- Não. Acho que desejar algo inalcançável não significa que a pessoa seja realizada, significa falta de humildade e sentimento de onipotência. Em outras palavras, estupidez. - Fitz disse.
- Se todos pensássemos assim - Hermann começou - ninguém não buscaria nem encontraria um sentido para a própria vida, visto que a busca pelo mesmo geralmente leva bastante tempo e muitas vezes parece inatingível.
- Mas encontrar um sentido para a própria vida é algo muito mais profundo e complexo do que simplesmente considerar-se admirável o suficiente para atingir todo e qualquer objetivo almejado - disse Fitz. - O indivíduo pode muito bem ter um objetivo moral para cumprir durante sua vida sem começar a achar que é capaz de cumprir com todos as suas metas.
- Mas então - disse Hermann, e começou a desenvolver a frase vagarosamente:- o que torna uma busca por um sentido na vida diferente de uma outra meta qualquer?
Os outros três puseram-se a pensar. Dibs resolveu pronunciar-se.
- A busca por um sentido deve basear-se nas suas aptidões, gostos... Deve ser uma união do útil com o agradável, ao mesmo tempo pensando de que forma se estará contribuindo ao mundo ao seu redor. Seja esse mundo composto por 6 ou 6 bilhões de pessoas, tudo o que você faz é de certa forma importante para pelo menos uma pessoa... independentemente da área de sua atuação, deve-se sempre segurar sua lâmpada, seja pra iluminar uma pequena área ou um ambiente inteiro...
- Então, basicamente, devemos todos empregar nossas habilidades e o que gostamos de fazer para o bem? Para a melhoria do mundo? - Fitz soava incrédulo. - Isso é tão romântico.
- Perdão pelo clichê, mas se todos fossem como Dibs, senhor Fitzwillian, o mundo de fato seria melhor. - disse Hermann.
- Olha, meu caro, minha melhor habilidade é a manipulação, e o que eu mais gosto de fazer é fazer o que eu quero. Como isso pode ser revertido para o bem?
- Você é um pobre coitado que precisa de muita ajuda para livrar-se desse seu lado que foi esculpido por conveniências, negócios e seu pai. Fitzwillian, você sabe bem que manipulação não é seu maior dom, e que se você investisse um mínimo de tempo em um processo de autodescoberta você seria um homem completamente diferente. - Hermann disse, deixando Fitz a olhar pela janela, vermelho. - E você, Eduardo? Já descobriu um sentido para sua vida?
Os olhos se voltaram para Eduardo. Hermann olhava-o curiosamente.
- Na verdade, não. Passei tanto tempo sendo o que o mundo queria que eu fosse que me perdi no meio do caminho.
- Você não tem uma esposa e filhos?
- Sim... posso dizer que depois de um tempo pude sentir que começou a florescer alguns traços de amor dentro de mim, por ela. Casamo-nos por conveniência social. Ela é tão perdida quanto eu, mas mostra-se, dentro de casa, uma mulher decente e ótima mãe... E meu filho, meu filho provavelmente é o único motivo pelo qual eu continuo seguindo com minha vida de fachada.
- Você não acha que isso é um ótimo sentido para sua vida? - Dibs perguntou. - Viver para fazer alguém feliz, viver sendo feliz porque o outro está feliz. Mesmo que sua busca seja eterna e que você nunca se conheça por completo, sua vida não vai ter sido um completo desperdício, pois você terá compartilhado-a com sua esposa e filho. Uma vida com amor nunca é vazia, pois o amor é o sentimento mais nobre e satisfatório que existe.
- Dibs, você é um eterno romântico, ingênuo, tolo. - Disse Fitz. Ele olhava pela janela novamente, mas não conseguiu disfarçar que as palavras do mesmo haviam atingido-o - ele, cuja vida esteve repleta de tudo, menos de amor.

sábado, 16 de abril de 2011

liberdade

- Ao menos eu sou livre, Fitzwillian.
Essa foi a resposta dada por Hermann, uns tensos segundos depois das explosão e confissão de Fitz.
Dibs tinha suas orelhas vermelhas e as mãos juntas em seu colo.
Eduardo encarava Fitz e Hermann como se estivesse acabado de assistir um diálogo entre ele e ele mesmo.
A Dama observava toda a composição da cena com um êxtase profundo.
- Que diabos, Hermann! - Fitz agora encarava-o como se fosse louco. - Eu sou livre, legalmente livre e responsável por mim mesmo e por qualquer outro alguém desde que completei vinte e um anos de miserabilidade!
- O que quer dizer com isso? - Eduardo interveio. - Você supõe que algum de nós não seja livre?
- Eu sou livre porque sou escravo das minhas virtudes e dons. Vocês são escravos do que a nossa sociedade, hedonista e que padroniza, impõe que sejam. Vocês são escravos do trabalho e do dinheiro, são escravos da falsa ideologia (que atua como uma pseudo-crença a ser seguida) que lhes é imposta todos os dias por todos os meios de comunicação, são escravos de seus impulsos e desejos carnais e materiais, são escravos de uma falsa necessidade de atualização. São pobres seres racionais que são enganados a todo instante. Mas vocês todos, todos, são ignorantes a ponto de não saber que, se vocês são escravos de si mesmos (de um eu idealizado e requerido pela sociedade), são também os donos de si mesmos, possuidores da única chave para sua própria libertação. Libertação essa que exigiria muita reflexão e desprendimentos, mas que traria uma recompensa para toda a vida.
Ficaram todos, exceto Fitz, encarando os próprios sapatos, como crianças que acabaram de levar uma bronca moral da mãe. Dibs mostrava-se incrivelmente maravilhado de ter acabado de escutar toda aquela profecia ditada por Hermann. Não conseguia esconder a admiração e, ao mesmo tempo, a pena que sentia pelo homem.
- Se você é escravo de suas virtudes, Hermann, você também pode estar sendo ludibriado pelo que acha ser um bom motivo para continuar vivo. Se você acha que ser escravo de sua inegável habilidade para refletir criticamente acerca das coisas, escrever sobre o comportamento humano, cercar-se de cultura e embriagar-se de poesia modernista são virtudes, provavelmente o pensa porque são atitudes não tão comuns em nossa sociedade. Logo, você continua sendo escravo da mesma - no caso, é escravo do que não é requisitado ou apreciado. - Fitz concluiu, finalizando sua fala num tom estranhamente reflexivo e não tão sarcástico.
- Hermann, também há a possibilidade de você cegar-se tanto acerca de suas virtudes que se esqueça de trabalhar seus defeitos. - Dibs disse. - Ou você acha que é completamente normal e são estar total e completamente alternativo à sociedade? O homem é um ser social, vive em sociedade e de uma forma ou de outra deve fazer parte dela, e você precisa parar de acreditar que assistir à programação que passa em seu televisor ou comer fast food de final de semana acabaria por corromper seu rico caráter.
Ficaram quietos, refletindo. Era muito conteúdo em um demasiadamente curto espaço de tempo.
- Mas então - Eduardo quebrou o silêncio - o que é ser livre?
- Acredito que seja não prender-se a nada. Não prender-se a valores como se fossem a única verdade do mundo. - Fitz disse. - Acho que um homem realmente livre é aquele que consegue enxergar e refletir acerca de ideologias e opiniões diferentes, e, por fim, montar, como num mosaico, sua própria tese acerca da vida.
- Mas como? Como uma pessoa pode montar seu caráter e ter uma posição definida, se ela não se prende a ideia nenhuma? Uma pessoa assim seria indecisa pelo resto da sua vida! Estaria destinada a ficar em cima do muro em todas as decisões que envolvam uma moral, por toda a sua vida! - Hermann disse. - Ser livre é ser indefinido?
- Não, Hermann. É totalmente possível que se tenha um ponto de vista mesmo não se prendendo a uma só teoria. E esse é o real valor da liberdade que Fitz está tentando nos mostrar. A liberdade é um valor acima de todos, e só é possível alcançá-la quando nos libertamos dos nossos preconceitos e passamos a olhar tudo por cima, conseguindo compreender tudo à nossa volta, porque temos nosso olhar livre o suficiente para analisar uma situação sem nos prendermos à uma ideia totalmente contra ou totalmente a favor a ela. O indivíduo livre não é aquele indeciso, pelo contrário, é aquele que reflete e pensa e define muito mais do que qualquer um, pois tem sua mente aberta a tudo. - Foi a vez de Eduardo manifestar-se. - Utópico. Não acredito que alguém consiga atingir esse estado. Talvez Buda, Gandhi, Maomé ou Jesus Cristo, mas não nós.
- Não gosto de utopias. - Dibs pontuou.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

felicidade

A atmosfera ia ficando cada vez mais carregada de faíscas e tensão entre Eduardo e Hermann. Comentários cínicos e indiretas ficando cada vez mais frequentes. Dibs olhava-os de forma confusa, Fitz tinha seus pés apoiados na mesa e consumia seu segundo charuto. Dama passava os dedos ao redor da sua taça meio cheia (ou meio vazia, dependendo da corrente filosófica do leitor). Tomou fôlego, hesitou, mas levantou a voz.
- Eu queria propor-lhes uma troca de ideias...
- Deus me livre!, para citar Mário Quintana, mademoiselle. Prefiro abster-me da discussão. - Suponho que o leitor já saiba de quem foram essas palavras.
Fitz soltou a fumaça pela boca com um estalo.
- Qual seria o tema?
- Felicidade.
- E se eu não souber o que me faz feliz? - Dibs pronunciou-se.
- Acho que é mais provável que nenhum de nós saiba o que é a felicidade porque a possibilidade de alguém aqui ter sido feliz alguma vez é mínima - Eduardo disse, num tom baixo, calmo, controlado e até vago.
- Não é possível ser feliz -, máxima lançada por Fitz.
Dama encarou-o.
- E por que não?
- Pois a felicidade é algo a que sempre almejamos e sempre almejaremos, e quando superamos um obstáculo para alcançá-la surge sempre outro e outro, por mais que esses obstáculos sejam colocados por nós mesmos. O homem não quer e não merece ser feliz.
- Essa quantidade de obstáculos surge quando não se sabe o que quer - Eduardo disse, encarando Fitz e surpreendendo-se com a similaridade entre os dois. - quando se tem um objetivo em mente, não surgem novos obstáculos, esses só vão ficando cada vez mais complexos, exigindo cada vez mais de nós, e é esse desgaste que nos impede de alcançar o êxtase.
- Eu não sei vocês, mas - Dibs disse, timidamente - eu sou feliz quando estou amando alguém e consequentemente amando-me. Eu... acho que vocês só afastam a felicidade quando pensam muito sobre ela...
Fitz e Eduardo calaram-se. O garoto tinha uma opinião. O garoto tinha uma opinião a respeito de um assunto complexo e labiríntico como felicidade, e expressou-se de forma clara e modesta. Fitz mostrou-se balançado, Eduardo tinha uma expressão nostálgica em seu rosto. Via seu eu adolescente em Dibs.
- A felicidade - Hermann começou a falar, devagar, como se estivesse escolhendo as palavras certas - está na busca pelo que achamos que ela é. A felicidade está no processo, em tudo que conquistamos achando que só no final seremos felizes. Se a busca terminasse, qual seria o motivo para continuarmos vivos? A incessante busca por algo mais nos motiva e deve sempre nos motivar, o problema é que muitos se perdem no caminho e acabam não apreciando a verdadeira beleza da vida, que é o viver, e não o terminar...
No rosto misterioso de expressão quimérica esboçou-se um sorriso. Dama parecia satisfeita.
- Eu não... me considero feliz. Não faço o que eu quero, nunca fiz o que eu queria, e a única certeza que eu tenho é de que eu não gosto de como minha vida está - Eduardo disse.
- Isso é um começo, oras... ao menos você sabe do que você não gosta. - Dibs disse, encarando os próprios sapatos.
- Se o verdadeiro proveito encontra-se na busca pela tal felicidade, então por que eu não sou feliz, Hermann? - Fitz perguntou.
- Talvez você esteja procurando no lugar errado. - Hermann respondeu com um sorriso terapêutico. - Se começasse a viver sua vida por você e não pelos outros talvez você aproveitasse o que eu chamo de processo de descoberta.
- Isso não está certo. Eu tenho meu objetivo em mente. Eu sei o que eu quero. E eu sempre consigo o que eu quero. Na verdade, eu já conquistei meu último objetivo - Fitz disse. - Não é como se eu ligasse também.
- Objetivos superficiais e fáceis. Pela forma como você diz, você deve morrer de medo de desejar algo mais difícil e frustrar-se se não o alcançasse. Fitz, é normal e bom falhar às vezes. Torna-nos humanos.
- Você é um hippie doido! Quer o quê? Que eu me desprenda da sociedade vá viver no campo lendo poesia do século quatorze? Que eu passe a admirar cada segundo do meu dia entediante e sem novidades? Que eu chegue atrasado ao trabalho e quando meu pai pedir uma explicação, eu diga que estava apreciando o milagre da vida ao ver um pássaro sair de um ovo? - Fitz ficou vermelho e fumava cada vez mais compulsivamente. - Poupe-me, Hermann! Eu não quero acabar como você.

domingo, 3 de abril de 2011

sobre Hermann

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!

E não há verso que poderia expressar melhor a ideologia de Hermann para com o restante do mundo. Hoje Hermann era um senhor de meia idade com uma carreira acadêmica brilhante e alguns prêmios de excelência dados pelas mais ilustres organizações de sua área. Fã de aforismos e de conclusões objetivas e claras, apesar de não ser nem de longe tão pragmático quanto Fitzwillian. Porém, note que o processo, a evolução do pensamento, as conexões e assimilações eram incrivelmente demoradas e eram a parte mais apreciada por Hermann.
Tinha um espírito investigativo, característica sua desde adolescente. Passou inclusive por várias fases e várias ideologias. Após uma breve fase niilista, Hermann percebeu que vida nenhuma pode ser desprovida de sentido, então empenhou-se para que a sua própria tivesse algum. Ele questionava e instigava não para chegar ao nada absoluto e à destruição completa da moral, mas porque queria entender tudo, seu funcionamento - queria aperfeiçoar as artes, a ética, a moral, a filosofia, a psicologia, a ciência. As pessoas. Queria aperfeiçoar as pobres pessoas de espírito fraco.
Muito idealista. Extremamente idealista. Se sua atividade não levasse ao bem e apenas o bem, não poderia praticá-la. Se não fosse totalmente ético, o rumo de sua vida a partir dali tornaria-se uma espiral cujo final era a inevitável corrupção de espírito. Riam-se os colegas de Hermann, admiravam-no e sentiam pena seus professores.
A busca por um sentido na vida tornava-se cada vez mais desgastante e complexa conforme vai se envelhecendo. O que de certa forma não faz tanto sentido para as mentes das pessoas comuns, porque o raciocínio lógico e socialmente aceito é que quanto mais se estuda e trabalha, mais específica sua atuação no mundo vai ficando e, consequentemente, mais específica e definida sua visão e planos para o futuro. Mas Hermann, que surpresa, era diferente. Quanto mais ele estudava, mas sentia que havia déficit de investimentos sociais em várias áreas da sociedade, mais sentia que precisava estar em todos os lugares a todos os instantes, e menos sabia onde em que exatamente queria fazer sua contribuição. Pode-se dizer que este é um dos motivos de Hermann ter seguido carreira acadêmica - lendo, pesquisando, pensando e escrevendo - e nunca realmente lançou-se no mercado por vontade e gosto próprio (pois trabalhara com o pai, rico).
E com a crescente complexidade de sua busca, a frustração com relação às pessoas também ia aumentando. Pensar que ninguém tinha os mesmos questionamentos e objetivos que ele era muito desencorajador. Sua área de interesse era realmente extensa - sua paixão era por Humanas. Escreveu artigos sobre filosofia, psicologia, ética, moral, história, sociologia, antropologia, história da arte - especializou-se em filosofia porque achava que isso o ajudaria a decidir que rumo, que corrente tomar.
O desespero. Hermann vinha lidando com o desespero. Tentava reprimir, lutava contra, estrangulava a vontade mais pura que havia dentro de seu ser - desistir de tudo porque não restava mais esperança, não se podia acreditar no potencial das pessoas porque elas não tinham um potencial. Esse desespero que originava crises de angústia, de existência - sentia-se incontrolavelmente tentado a voltar à sua filosofia Niilista. Seria tão mais fácil.
A idade chegando, Hermann foi tornando-se uma caricatura de si mesmo, porque não fazia muito além do que sempre fez (ler, pesquisar, pensar e escrever). Esse tipo de quase excelência moral e intelectual não costuma ser um atrativo ao orgulho de pessoas medíocres, então foi se tornando recluso e alternativo à sociedade. Não era e nunca foi sociofóbico e misantropo, mas uma parte do seu ser relutava e ganhava toda vez que sentia necessidade de assistir a um filme ou tomar um café forte.

O tempo passa, as perguntas mudam junto com os interesses, as visões de mundo, a maturidade e a alma, mas algo que Hermann se perguntava desde tenra idade até aquele momento era: Por quê? Por que as coisas são assim? Não há bagagem sociológica que explique o mundo em que vivemos e sua total inversão de valores com a passagem das décadas, e Hermann não estava nem perto de se conformar com a resposta "porque sim".