quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

sobre 2011

Vejamos.
Junto a 2004, 2008 e 2010, um dos piores anos da minha vida. Só não sofri do tanto que sofri em 2008 porque passava todos os dias da semana fora e conseguia manter minha mente ocupada com outras questões. Foi o ano em que percebi que a solidão que eu sinto provavelmente não tem cura, só tratamento - que, por sinal, pode ser bastante eficiente e que funciona como um analgésico ou anestésico do problema. Pensei, pensei, e pensei bastante sobre tudo o que me faz sentir sozinha, pensei e repensei se vale a pena continuar viva, questionei por diversas vezes o motivo e o valor da minha existência, entrei em contradição interna outras diversas vezes, percebi que a dualidade que existe dentro de mim é bem maior do que eu pensava, fiquei de luto muito tempo por muitas perdas.
2011 também foi um ano de intensas leituras, reflexões e questionamentos, que trouxeram consigo um doloroso amadurecimento. Muitas brigas e reconciliações. Com o passar do tempo, percebi quem realmente era importante pra mim - e também consegui perceber para quem EU sou importante. Repensei muitas vezes meus valores, minhas atitudes, minhas convicções... abri mão de algumas crenças, questionei minha intolerância e acredito que mudei em muitos aspectos.
E aliada a tudo isso, aquela imensa preocupação com o meu futuro e com o vestibular.

All in all, o ano foi uma merda e a única coisa que me anima para continuar viva em 2012 é que não dá pra piorar. (aliás, esta passou a minha filosofia de vida: sempre pode ficar pior, então anime-se com o fato de que qualquer melhora é alguma coisa)

E para o que der e vier, IN OMNIA PARATUS. Vou tentar encarar tudo de cabeça erguida.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

náusea

A náusea.
E tome remédios, faça terapia, entre na mais atualizada rede social. Isso tudo pode mascarar, mas não deleta a náusea. A náusea é um ser superior, que me olha de cima pra baixo, que gosta de me manter sob seu controle, que gosta de me puxar pelo cabelo e impedir-me de fazer qualquer movimento para dela escapar.
Quando ela ataca, fico impotente, apática e ao mesmo tempo infeliz. Estranho como fisiologicamente ficamos nauseados quando há um excesso dentro de nós - mas essa náusea psicológica alcança seu pico quando eu estou o mais vazia possível - vazio esse obtido depois de tempos e tempos de dar e não receber.
Mas o que ela é? Um cansaço, talvez? Preguiça, desistência sociais? Talvez tudo isso.
Só sei que ela tem estado aqui há tanto tempo que eu me esqueci o que significa não estar nauseada. Minha velha amiga - inimiga -, companheira - traiçoeira -, que definitivamente - definitivamente - está sempre, sempre aqui. E ela é astuta, quer ocupar todo o espaço dentro de mim, e se passa por consciência, por intuição, por raciocínio lógico. E é claro que todos os seus pseudo-conselhos, toda a sua pseudo-moralidade levavam a um único e óbvio objetivo: manter-me sozinha. e vazia.
Mas eu cansei, náusea. Eu cansei de você. Apesar de eu saber que você sempre vai me acompanhar - pois você é um desdobramento de mim mesma - eu decidi usar você contra você mesma. Vou vomitá-la e, com isso, fazer vários remendos nos buracos que você deixou em mim.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

solidão

- Que isso, essa é a melhor fase da sua vida!
- Não, não é.
- Você vai sentir falta de ser adolescente, vai sentir falta do colegial.
- Não, definitivamente não vou.
- Ah, pára com isso. Aproveita.
- Se com "aproveitar" você quer dizer "tornar menos insuportável", eu venho tentando fazê-lo há tempos.

Eu realmente não gosto da época pela qual estou passando. Não gosto mesmo. Eu não sirvo pra nenhum grupo, não agrado a maioria dos espécimes da minha tenra idade, não gosto das opções de lazer comumente utilizadas e só pra piorar, só pra servir de cereja do sundae, eu assumo tudo isso.
Consequentemente, sinto-me frequentemente - mais frequentemente do que a maioria das pessoas podem pensar - absurdamente sozinha. A maioria pensa que isso é fruto de uma arrogância, de eu achar que não há ninguém "do meu nível", mas não. Eu não sou ignorante e masoquista a ponto de acreditar que ficar sozinha é a melhor das opções. Não sou misantropa. Não sou sociofóbica. Não sou arrogante, pelo sangue de Cristo! Eu só me sinto sozinha.

Pare você, adolescente muito bem integrado e com uma vida social razoavelmente invejável, como você se sentiria se sentisse vontade de assistir a um filme com alguém e não conseguisse pensar em ninguém, ou não tivesse coragem de pedir pra quem você quer, por medo de ser ridicularizado do tipo "nossa, quem assiste esse tipo de filme?". Pense como é você se sentir constantemente ridicularizado - não diretamente, mas quando alguém tira sarro de algo que é realmente importante pra você, ou que realmente parece lhe fazer sentido, ou que se encaixa perfeitamente à situação pela qual você se encontra passando. Já questionei minha sanidade muitas vezes - um absurdo, pois hoje a sanidade se mede pelo tanto que você se difere do resto, porque este se anula completamente para ser, bem, o resto!
Pense como é ser o único que você conhece a ler os livros que você lê, a assistir aos filmes que você assiste, a gostar das músicas de que você gosta, a pensar nas coisas em que você pensa, a ter os mesmos questionamentos com relação à existência que você tem. Pense como é viver ininterruptamente querendo falar e pensando duas vezes. Pense como é viver com medo de dar sua opinião. E como seres humanos não vivem sozinhos, por mais que eu ame expor minhas opiniões, eu prefiro ficar quieta e ser aceita a me pronunciar e ser excluída - o que, diga-se de passagem, já aconteceu antes.

Venho praticado há muito tempo a fabulosa arte da tolerância. E eu me esforço tanto pra gostar dos outros, pra me enxergar nos outros, pra encontrar pontos em comum, e nunca parece ser recíproco. O mundo não me quer. Então eu também queria não querer o mundo.
Eu realmente, realmente queria não ligar pra tudo isso. Eu queria não me importar de ficar sozinha, queria me conformar com o fato de que provavelmente vou ser sozinha pelo resto da minha vida. Eu queria ser capaz de achar que todas as pessoas que eu conheço são sacos de merda ambulantes perdidos no caos da vida, mas eu não consigo.
Eu tento entendê-las e achar justificativas para seu comportamento abestalhado. Mas ninguém tenta ME entender e dar justificativas para o MEU comportamento. Ninguém, por UM SEGUNDO SEQUER, pára e pensa "mas por que será que ela age assim?". NINGUÉM, antes de me criticar, coloca-se no meu lugar e tenta imaginar como é.

Eu realmente já cansei. Nesse momento, estou preferindo ser apática do que miserável.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

o tempo

O tempo. O tempo escorrendo pelas minhas mãos, dançando pela superfície de um plano intocável como mercúrio à temperatura ambiente, zombando de minha incapacidade de segurá-lo, achando graça de meu desespero, e, ainda assim, seduzindo-me a ponto de me fazer querer saber qual é a sensação de tê-lo sob controle.
E ele passa. E ele passa e dança, e ele não quer saber se você está preparado para vê-lo dançar ou não, ele simplesmente vai, vai e o abandona como uma amante que deixa seu homem na cama; mas o tempo é frágil. E ele o sabe forçosamente. E ele teme e respeita aqueles que sabem moldar suas vidas a partir da fragilidade e evanescência dele, ah, sim. E esses indivíduos são aqueles que sabem aproveitar de forma certa a vida, com sapiência, que sabem que tudo tem sua hora, que não tem pressa, que o tempo é que tem que se apressar as pessoas e não as pessoas que têm que apressar o tempo, e que se deve fazer acontecer mais do que deixar acontecer. Porque o tempo zomba, o tempo ri de quem é ingênuo o suficiente pra achar que tudo vai se resolver sozinho.
O tempo é que deve se adequar às pessoas, ou as pessoas ao tempo?
O tempo é uma entidade que assusta. Eu às vezes tenho medo de como o tempo vai se comportar - ele será piedoso? compreenderá minhas necessidades? colaborará para que eu tenha qualidade de vida? ou simplesmente continuará rodando, rodando, de forma assustadora que faz-nos sentir absurdamente impotentes, inconsoláveis? juntamente a esse ritmo de vida moderna, vida essa que nos exige rapidez, fluidez, atualização e movimento constante, constante, constante, r-r-r-r-r-r-r-r-r, como se eu fosse uma máquina que pudesse ser reparada com um simples aperto de brocas e óleo nas engrenagens.
E enquanto eu dava vazão a todas essas ideias o tempo passou por mim, passou e não deixou marca nenhuma a não ser pela vaga sensação de vazio, de impotência, de ter algo nas mãos mas que o ato de tê-lo nas mãos não me é útil em nada, absolutamente nada, e eu fico aqui, no ta-ta-ta-ta-ta-ta das teclas do teclado sendo apertadas e no z-z-z-z-z-z-zumbido na minha cabeça que constantemente me diz palavras de despedida e de provocação.

Devo eu viver como se o tempo fosse acabar amanhã ou como se amanhã o tempo fosse acabar comigo?

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

(continuação)

Vinte minutos desde o golpe.
"Ora, ora, ora, Peixoto. Desde quando você é crente de que a ética não existe?", uma voz zombadora entrou na sala saída da garganta de um homem magro de dentes amarelos. "Você me dava um soco no olho direito toda vez que eu insistia em dizer-lhe isso há trinta e cinco anos."
O diretor sentiu seu corpo inteiro enrijecer ao escutar aquela voz que mais parecia um sibilo.
"As pessoas mudam, Igor. O mundo muda junto com elas. A sociedade brasileira de trinta e cinco anos atrás não sabia o que era ética ou se ela existia porque havia sido privada dela em 1964, quando nem eu nem você tínhamos idade o suficiente para saber o que significava um golpe daqueles!", e o ponto de exclamação da frase foi demarcado por o diretor levantar-se da mesa e tentar, em vão, servir-se de café.
"Droga de café...", ele resmungou baixo, enquanto constatava que não havia mais café na garrafa térmica. Suas mãos tremiam de abstinência. "Sônia, me faz café! Cadê a Sônia? Cadê o cara da papelada???!"
"O que é isso, Peixoto? Não fique tão nervoso! Sua horda de pseudo-cultos, pseudo-jornalistas e pseudo-democratas precisa de você para guiá-la por esse túnel escuro que o Brasil acabou de se tornar..."
"Igor, só porque você se vendeu para a política e se tornou um homem sem escrúpulos e rico não significa que eu o inveje por isso.". Peixoto foi caminhando até o homem, abriu a porta e apontou para fora. "E essa é uma reunião particular. Saia."
Igor por um instante pareceu abalado pela atitude firme de Peixoto, mas apenas lançou-lhe um olhar frio e se retirou. Peixoto pensou ter ouvido algo do tipo "eu tenho amigos no governo", mas deixou essa vaga frase sublimar-se de sua mente.
Pouco depois de a porta fechar-se para Igor, ela se abriu novamente. Uma mulher entrou, com os óculos tortos no rosto e pastas na mão.
"Sônia, cadê o cara da papelada e cadê o café?!"
A mulher respirou fundo e saiu, fechando a porta novamente.
"É isso, diretor!", uma voz difundida na massa de pessoas ali começou. "Em vez de falar diretamente do regime, o que nos traria o risco da censura, poderíamos falar de portas que se abrem e portas que se fecham nesse novo sistema. Como uma lista de prós e contras mais metafórica, e em vez de colocar o texto como uma reportagem comum, colocamos no espaço de editorial. Assim, estamos, mas não estamos reportando sobre o golpe."
Mais uma vez, desencadeou-se uma onda de vozes.
"Isso é absurdamente covarde"
"É a nossa única escolha"
"Metáforas? Num país com uma porcentagem absurda de analfabetos funcionais?!"
"É muito presunçoso, além do mais, quem lê o editorial?"
"Manifestos na forma de folhetins!".
Todos se calaram.
"Sim, folhetins. O jornal será composto de todos os seus cadernos habituais, mas na segunda página colocaremos o início de nosso manifesto - que será composto de nossa opinião a respeito do golpe com realismo - e todos os dias, ou toda semana, desenvolveremos o tema na forma de um romance. Se atingir massas é uma preocupação", ela continuou, ao ver pessoas tomando fôlego para protestar, "alternaremos com relação à dificuldade do texto. Complexidade moral semana sim, semana não. O que acham?"
Peixoto tentava conter o tremor das mãos. Ele estava prestes a se manifestar quando a porta foi novamente aberta. Um homem parecendo confuso, de olhos bem azuis, segurando uma maleta semi-aberta, foi empurrado para dentro, atrás dele entrou bufando Sônia, que já não usava mais seus óculos e parecia muito nervosa.
"Aqui está o cara da papelada, Peixoto! E eu não sou garçonete para trazer-lhe café!"

sábado, 17 de setembro de 2011

o Jornal do Povo

Havia gente em demasia na sala. Cinco pessoas por metro quadrado no mínimo, considerando que uma mesa gigante ocupava praticamente um terço da sala, e que quem não tinha onde se sentar devia permanecer de pé, ou na ponta do mesmo, pois aquela era uma reunião extraordinária que mudaria o destino daquela empresa. Sim, pois o Jornal do Povo deixara de ser d'O Povo havia muito tempo - pelo menos desde que deixou de ser estatal e foi comprado por um milionário dono de alguns milhares de hectares de plantação de soja.
- Muito bem, muito bem - o homem sentado a uma das pontas da mesa começou. Fracassado em su tentativa de instaurar o silêncio, recomeçou, dessa vez mais alto e agressivamente: - Muito bem, senhoras e senhores! Creio que todos aqui saibam o motivo dessa reunião.
Ele fez uma pausa dramática e passou os olhos por cada rosto presente na sala.
"Vocês sabem que há exatos seis minutos foi declarado um golpe de Estado feito pelo senhor Presidente. Ele, há seis minutos e meio, instaurou o - em suas palavras - Socing. Agora digam-me, pelo amor que vocês têm à suas mães, que vocês sabem o que é Socing."
Uma dúzia de mãos trêmulas levantou a mão. O homem olhou para eles, incrédulo.
"Como?, vocês fizeram jornalismo, filosofia e ciências sociais e não leram sobre o Socing?"
Pausa dramática.
"Sônia, demita-os e traga o cara da papelada.", ele disse à mulher sentada à sua direita.
Com a saída dos seis, as pessoas tiveram a liberdade de inalar mais oxigênio por centímetro cúbico de ar do que antes, e suspiraram aliviadas.
"Não mais perderei tempo explicando o que é Socing, visto que ninguém mais se manifestou. Agora, a pauta da reunião é..."
"Mas, senhor", uma jovem que não devia ter mais de 1,55m e com cabelos muito pretos falou, "nós estamos no Brasil, e não na Inglaterra. O nome não deveria ser... Não sei, Brassoc, ou Socrasil, ou alguma coisa assim?".
Ele encarou-a por alguns instantes. "Exatamente, moça. Sua fala será o primeiro parágrafo, depois do lead, da manchete da capa. Tente pensar em um nome melhor que esses, mas se não conseguir, usaremos Brassoc de qualquer jeito. Mais algum comentário?".
Não, a sala respondeu com seu silêncio.
"A primeira coisa que precisamos nos decidir é: do lado de quem estamos?", e, ao ver a cara descrente de alguns recém-formados em jornalismo ali, continuou "e sejamos realistas, pois a 'ética do jornalismo' deixou de existir há muito tempo.".
"Mas, senhor", um moço que ajeitava nervosamente os óculos no rosto disse, "se nós deixamos de ser uma empresa estatal há 15 anos, não há por que defendermos o governo, e, ainda por cima de tudo, devemos aproveitar a nossa liberdade 'plena', pois se o senhor Presidente levar a termos literários, literais e fiéis o Brassoc, então começaremos a ser censurados em pouco tempo".
Um muxoxo de aprovação e concordância com o que o moço disse percorreu a sala.
"Você tem um ponto válido, filho. Você se esqueceu apenas de uma coisa: jornais já foram censurados antes, e nem por isso eles deixaram de divulgar propagandas anti-governo".
"Mas qual porcentagem da população entenderia as mensagens implícitas anti-governo contidas em nossas reportagens banais? Esse é o Jornal do Povo, senhor, e deveríamos dar ao povo o que o povo tem de saber", disse uma moça conhecida por achar que toda discussão é uma briga entre o certo e o errado, e não um conflito entre duas opiniões diferentes. Depois de seu comentário, várias outras vozes irromperam da sala, algumas falando mais alto, outras tentando se esconder atrás dessas vozes.
"Se for assim, podemos nos declarar desempregados, pois o governo acabará com a empresa assim que farejar um fagulha de insatisfação!"
"E o que o dono da nossa empresa dirá? Ele pode nos demitir se nossa postura não lhe agradar!"
"As pessoas já têm conhecimento desse golpe? Elas têm noção do que isso representa?"
"Qual! Devíamos considerar também que a maioria simplesmente não liga para o que acontece ou deixa de acontecer em Brasília!"
"Por outro lado, se nós fizéssemos propaganda positiva do governo, suas rédeas para conosco ficariam mais frouxas"
"Mas a imprensa deve denunciar a realidade, e não encobri-la!"
"Se eu me envolver nisso e isso desagradar ao governo, vou ficar com meu histórico manchado pelo resto de minha vida e nunca mais vou arranjar emprego!"
"Nós devemos expor a verdadeira realidade, mostrar ao povo o que significa Socing ou Brassoc, eles têm o direito de saber no que o país deles vai se tornar!"
"Eles tinham o direito."
"Ora, SEJAMOS REALISTAS!". O brado do diretor acalmou a sala. "Vocês estão pensando eticamente! Não existe ética. Cidadãos, há alguma ética em dar um golpe de estado ignorando o princípio da democracia e outorgando uma nova forma de controle estatal sobre as pessoas?"
É, aquilo devia ser pensado.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

discursos em javanês

- Pobre Bola-de-Neve. Pobre Goldstein. Pobre Jerônimo, pobre José, pobre Escobar. - Suspirou. - Tenho dó de vocês. Não por... vocês, mas por o que vocês representam. E vocês sempre acabam levando a pior.
Mais um suspiro.
Aquela noite especificamente estava com uma aura diferente. Podia ser efeito dos relaxantes, podia ser porque era a primeira noite de chuva em muitas semanas, podia ser porque acabara de ler livros e poemas e textos que a deixaram demasiadamente embriagada de pesar, mas aquela noite teve alguma coisa de diferente.
Tchaikovsky começou a tocar. 1812 Overture. Clássica representação de resistência. A trilha sonora perfeita, como já insinuou V, para uma revolução, mas que não necessariamente envolvesse uma explosão de um prédio público, pensou.
Começou a imaginar muitas cenas. Revoltas, cartazes, gritaria, hipertensão, tiros, tochas, tridentes, cachorros, todo tipo de armamento distribuído em muitas infantarias. Sim, seria fantástico conseguir mobilizar tamanha multidão para um propósito plausível. Todos lá, exercendo sua "liberdade de expressão", exigindo melhores condições e mudanças na atual situação, protestando contra a total pândega que o sistema se tornara, proclamando vergonha dos projetos sociais vigentes.
Obviamente; apenas algumas pessoas se encaixariam nas ações descritas no período anterior - seus líderes. A maioria estaria só repetindo axiomas, aproveitando o momento para gritar como animais no cio, gozando de um momento de liberdade e permissividade ao vandalismo - pois é tudo por um "bem maior" -, berrando a plenos pulmões frases repetitivas conjugadas no presente do indicativo e, falando a fria verdade, captando superficialmente ideias previamente mastigadas.
Seria um líder revolucionário apenas mais um político? Seria esse líder o professor de javanês de Lima Barreto? Seria esse líder apenas um político carismático com muita lábia e habilidade de nos mover com suas palavras melífluas? Seria ele apenas mais um manipulador qualquer, que pode não mentir, mas que omite os verdadeiros "porquês" e os verdadeiros "e depois"?
Suspirou. Mas essa manipulação por um discurso ideológico se faz necessária devido à grande indolência que assola a mente das pessoas quando se trata de ponderar-se a respeito de algo. Se uma mudança quer ser vista, uma atitude tem de ser tomada. Essa atitude, para ser maciça, precisa ter um estímulo. Esse estímulo vem de um discurso que foi feito para agradar e motivar as massas. E aqueles que detêm o conhecimento - agradar para motivar, agradar para ser seguido - são perigosos. O princípio de "pão e circo" é com certeza anterior ao Império Romano, ainda existe e continuará existindo na posterioridade.
No final, tudo fica nas mãos do melhor professor de javanês. E, como de costume, ao vencedor, as batatas.
AH, isso cansa! E a música chegava ao fim.
- Fazer o quê, Mikhail? Fazer o quê?
Olhou para a imagem do senhor barbudo e pomposo que brilhava na tela do seu computador.
- Por que vocês são sempre barbudos?, ela perguntou à imagem. Na ausência de resposta, desligou o monitor, fechou o livro e foi tomar um remédio para a enxaqueca que teimara o suficiente para conseguir voltar.

domingo, 21 de agosto de 2011

palavras

E quando a riqueza de palavras da língua portuguesa se extinguir e as coisas se resumirem a boas ou ruins? E um sentimento, terá de se encaixar entre "positivo" e "negativo", apenas? E quando aquela sensação de "não ter palavras pra descrever" se tornar real e literal? E se a tendência atual da simplificação de, em sua maioria, adjetivos, tomar proporções inimagináveis e a nossa língua começar a cada vez mais perder palavras?
Poderemos considerar por finado o trabalho de escritores e psicólogos. Rimas raras serão um conceito vazio, e a literatura se resumirá a textos que uma criança conseguiria escrever. Não haverá mais sentido tentar dar um nome para o que se sente porque esse nome não mais existirá. Chegar-se-á a um ponto em que as pessoas ficarão cada vez mais planificadas e previsíveis.
Portanto, eis meu apelo: não matem o português. Não transformem "pedaço" em "peda", "obrigada" em "obri" e "por favor" em "purfa". Não definam tudo como "top" ou "muito louco", e se perguntarem-lhe como você se sente, tente não responder como "ah, sei lá, sabe, tipo assim".
p.s. você é professor de gramática? não, né? então faça-me o favor de ir às favas com suas correções gramaticais.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

seus olhos

Um homem pálido, com várias tonalidades de olheiras, cabelos ainda úmidos, ombros tensos e os braços inertes sobre a mesa. Seu olhar vazio encarava a xícara de café a sua frente.
- Então? Você vai falar como fez, ou nós vamos ter de adivinhar e te dar uma pena muito maior do que você legalmente merece?, disse um homem de altura média, um pouco acima do peso, com o rosto muito vermelho e com uma veia no pescoço saltada, denunciando seu nervosismo.
A sala era pequena e claustrofóbica. Acho que isso pode explicar por que razões tantos segredos eram ditos ali: as paredes fazem uma pressão tão grande que você não aguenta e entrega o jogo.
- Sete tiros. Três na cabeça, três no peito, um no ventre. Três facadas. Duas no peito e uma no pulso direito. E ainda assim, nenhum sinal de estupro, diga-me, como você fez isso?
- Isso... o quê?
- Estuprá-la e não deixar rastros! Você tem pinto pequeno ou o que, cidadão?
- Eu... eu não a estuprei.
O delegado encarou-o com impaciência e frustração. Que velhaco! Que canalha! Estava ali, sentado, encarando sua xícara de café, sem nenhum sinal de remorso ou agitação!
- Então diga-me, colega. Por que tantos tiros e facadas?
- Ela... ela não sofreu. Eu a esfaqueei depois de tê-la posto para dormir.
O delegado fitou-o, incrédulo.
- Posto pra dormir?, e ele bateu com todas as suas forças na mesa. A sala inteira vibrou. Posto pra dormir?! A vítima era uma moça decente, nunca havia feito mal para ninguém, ela, entre muitos, merecia viver e continuar com seu bom trabalho! Você tira a chance da sociedade de aprender com uma pessoa admirável, e você a pôs pra dormir? Você tira uma noiva e uma mãe, e você a pôs para dormir?! Você a assassinou, brutalmente, e a estuprou! Você é um assassino, problemático, psicótico, mais por ter matado justo essa pessoa do que por ter de fato matado alguém!
O homem fechou os punhos com muita força. Fechou os olhos. Levantou a cabeça com calma e olhou fundo nos olhos do delegado, que estremeceu. Mesmo num olhar tão frio conseguia-se captar um relance de infantilidade e insegurança.
- Eu não a maculei. Eu... eu não faria isso com ela.
O delegado virou-se para a parede que continha um grande espelho e jogou os braços para cima, num sinal de rendição. Ouviu-se um barulho e ele saiu pela porta. O homem continuava com os punhos cerrados, completamente quieto. O delegado encontrou-se com os outros policiais, observando o homem através do espelho.
- Ele não vai falar mais nada, Roberto, o delegado disse, limpando a testa com um lenço.
- Eu já esperava isso. Roberto tinha sua testa franzida e segurava o queixo com a mão esquerda. Foi um crime passional, Carlos, assassinos desse tipo geralmente são ou já foram obcecados por suas vítimas; são completamente psicóticos, isso quando já não foram oficialmente diagnosticados com algum distúrbio...
Uma moça conservava-se quieta, no fundo da sala. Tirava, colocava e retirava a tampa de sua caneta. Tinha seus cabelos muito pretos presos em um rabo-de-cavalo baixo e visivelmente feito com pressa.
- Sabem; ela começou; eu dei uma olhada nas fotos da cena do crime e nos relatos de conhecidos desse homem e da vítima... E isso não me parece um crime passional qualquer. Quero dizer, parece que aconteceu todo um ritual. Vocês não percebem que os tiros e facadas foram em lugares previamente escolhidos e que provavelmente têm um significado? Por que outro motivo ele daria três tiros na cabeça, três no peito e apenas um no ventre? Pensem. Ela pode ter feito alguma escolha racional e emocional que o desagradou. Ou ela seguiu um caminho diferente do dele. E a facada no pulso direito, a vítima estava noiva, e o anel de noivado usa-se...
-... na mão direita; Roberto completou.
- Eu realmente acredito que ele não a estuprou, a obsessão dele por ela era provavelmente algo mais espiritual, mais platônico, algo até maternal, talvez? Pelo que eu li, ela era pediatra, e ele era seu faxineiro havia mais de cinco anos. O que a secretária disse foi que ele demitiu-se depois de encontrar a vítima tendo relações com o noivo no banheiro do consultório.
- E a vítima tinha quantos anos mesmo?
- Vinte e sete. Se formos pelo raciocínio de que o assassino projetou na vítima uma imagem de mãe, ele provavelmente decepcionou-se depois de vê-la com o noivo, pois isso sujaria a imagem que ele havia feito dela.
Ela parou de falar e observou as feições de Roberto e de Carlos. Ambos pareciam extremamente absortos em seus pensamentos. Ela mentalmente sorriu satisfeita por ter conseguido impressioná-los.
- Pode ser, Fernanda. Pode ser. Mas nós não podemos ficar só no "pode ser", temos de extrair a verdade do homem.
- Posso falar com ele? Sim?
Ela saiu da sala, entrou naquela claustrofóbica e sentou-se na frente de homem.
- Que coisa horrível pra se fazer, certo?
Ele encarou-a. Aquele quê de infantilidade estava ali de novo.
- Quero dizer, fazer aquelas coisas com o noivo no banheiro do consultório? Isso não é coisa que uma mãe devia fazer. E se as crianças vissem? Na verdade, ela não devia fazer aquele tipo de coisa de jeito nenhum. É repugnante.
- Ela me tratava muito bem, sabe. Elogiava o meu trabalho e sorria para mim.
Ele parou e fungou.
- Mas aí eu a vi fazendo... aquilo, sabe?! E aí pensei que se ela faz aquilo com o noivo, deve fazer com qualquer um. Eu vi que ela passou as mãos no cabelo do marido da mesma forma como ela passava as mãos nos cabelos das crianças, seus pacientes. E aí eu pensei que ela fosse que nem a minha mãe.
Fernanda olhava-o impressionada. Ela estava ouvindo muito mais do que esperava.
- E aí eu fiz o que eu tinha que fazer, né... quero dizer, ela mereceu, ela me decepcionou.
- E por que você não a estuprou?
- Porque quando é com uma mãe não é estupro, é amor. E não se mata alguém com amor.
- Sua mãe... sua mãe foi quem te disse isso?
- É, sim... Ela me amava muito.
Fernanda olhou para o espelho. Viu sua própria expressão; uma mistura de pena com repugnância. Saiu da sala claustrofóbica e voltou para aquela com os policiais.
Roberto estava com a mão esquerda no vidro e a mão direita no quadril, analisando o homem; Carlos limpava o suor da testa com o lenço.
- Não vai conseguir se livrar da cadeia, mas a pena provavelmente poderá ser reduzida se a defesa alegar insanidade mental, o que é claro que há nesse caso.
- Vamos encaminhá-lo para uma avaliação psicológica... e procurem registros que envolvam o nome da mãe dele... vamos ver se essa história é verdadeira.
Fernanda não estava realmente escutando, ainda encarava o homem. Tão perturbado, tão complexo! A escolha dos lugares para os tiros e facadas, se foi inconsciente, revela toda a sensibilidade daquele indivíduo. E se foi consciente, quão brilhante!
Balançou a cabeça, como se quisesse afastar aqueles pensamentos. O homem é um assassino. É perturbado, sim, mas é um assassino. Pode não merecer, mas precisa de ajuda, sim. A relação de Fernanda com assassinos passionais era bem instável.
Na semana seguinte, Fernanda ficou sabendo que dois dias antes do julgamento com o júri o homem se suicidou, intoxicado de monóxido de carbono. Foi encontrado deitado na posição fetal. Seus últimos registros em seu diário diziam que ele precisava ir dormir.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

cegueira

- O que é ver?
Por essa eu não esperava. Éramos amigos havia uns dois anos e foi a primeira vez que ele me perguntou isso.
- Quero dizer, como é? Dói?
- Não, não dói, Beto. Na verdade, você não sente nada.
- Como, não sente nada? Quando eu encosto em algo cortante, eu sinto dor. Quando você... vê algo ruim, você não sente dor?
Fiquei alguns segundos hesitante. Não é que ele tinha razão? Não é que ele sabia mais sobre a visão do que eu?
- Ah, Beto... sim, quando eu vejo algo triste eu fico triste, mas não é uma dor física, é uma dor, digamos, espiritual, moral, sabe? Essa dor, se ficar muito tempo dentro de você, pode virar uma dor física, mas num primeiro momento, ver não dói.
- Mas, Carol, já ouvi tanta gente dizer que preferiria ser cego do que ver todas as misérias que existem no nosso mundo. Como você explica isso?
- Existem várias formas de se ser cego. Uma das formas é a literal, literalmente não conseguir enxergar, mas outra, a mais comum, é uma epidemia crescente na nossa geração: as pessoas se recusam a enxergar a própria realidade, e simbolicamente fecham os olhos pra tudo, entende? Você tem mais visão do que metade das pessoas que eu conheço.
- Tá, mas agora eu quero saber como é, mesmo, sabe? O que são cores? O que é ser bonito?
Eu nunca me sentira tão privilegiada por enxergar antes na minha breve existência. Só de pensar em nunca ter visto um pôr-do-sol, um céu estrelado, um sorriso, uma lágrima, pássaros voando, o vento batendo nas árvores, as mudanças de expressão das pessoas...
- Você sabe muito bem o que é ser bonito, Beto.
- Mas é diferente.
- Exatamente! É diferente! E o seu conceito de beleza é muito acima do conceito de beleza das pessoas que enxergam, pois a partir do momento que se enxerga o rosto da pessoa, a roupa que ela usa, como ela anda ou as caras que faz enquanto fala, você já tem uma pré-ideia de como essa pessoa é, você a julga, entende? Quando não se enxerga, não há outra forma de conhecer a pessoa que não seja pela conversa, e por esta, sim, pode-se conhecer alguém de verdade e dizer se ela é bonita ou... feia.
Beto bufou. Ele não parecia satisfeito com minhas respostas. Acho que ele esperava coisas mais materiais e objetivas. A conversa estava sendo muito mais enriquecedora para mim do que para ele.
- Carol... eu sou bonito?
Olhei para ele. Seus olhos azuis extremamente claros encaravam o nada, o vazio, mas ele se curvava na minha direção e tinha seus joelhos apontados para mim.
- Claro que é, Beto! Você é uma das pessoas mais admiráveis que eu já conheci, sem falar...
- Não, Carol. Eu quero dizer bonito para quem enxerga.
Sim, muito bonito, inclusive. Sobrancelhas delineadas, grandes cílios, boca bem desenhada, cabelos castanhos sedosos, maxilar forte. Se ele soubesse o quão bonito é fisicamente não teria nem metade do caráter que tem. A grande tendência de hoje é de a beleza corromper imensamente as pessoas.
- Sim, Beto, mas você não devia se ligar a isso, sabe? Muitas meninas se aproximam de você só por causa da sua beleza, mas quando percebem que você é mais do que um rosto bonito e que você não liga para o quão loiras tunadas elas são, elas meio que se assustam. Sabe, Beto? Acho que a sua cegueira é um dos maiores presentes que você tem. Não só você, mas todos ao seu redor.
- Tá, Carol, mas só uma vez, só uma única vez, eu queria poder enxergar.
- Pra ver o que, Beto? Não há nada nesse mundo pra ver que você já não conheça de uma forma ou outra... claro, eu não abriria mão da minha visão, porque algumas imagens valem muito, mas não por serem imagens, mas por o que elas causam, entende? Eu acho incrível que você não precise ver o rosto de alguém pra saber como a pessoa está se sentindo, você entende?
- Mas conversa nenhuma vai me fazer ver o seu rosto.
Senti meu coração partir em dois. Quase deu pra escutar o som dos meus batimentos cardíacos acelerando. O rosto ingênuo de Beto denunciava que ele ainda não tinha captado o que eu senti ao ouvir aquela frase dele.
- Meu rosto?... por que razão você iria querer ver meu rosto, se você já viu tanto além dele?
Beto tateou pelos meus braços até colocar-se na posição certa e abraçou-me.
- Você é incrível, Carol, por que diz que sou seu único amigo?
- Ah, você não entenderia.
Enquanto me despedia dele, passei meus dedos pela profunda cicatriz que cortava meu rosto na diagonal. "Você não entenderia mesmo.".