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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

sintonia

Pra ser lido ao som desta música.

Felicidade é conseguir esquecer e parar de pensar. Pois nem se ele quisesse ele conseguiria pensar em mais alguma coisa, naquele instante.
Não importava os compromissos que ele tinha dali duas horas, ou o deslumbrante palestrante para quem ele devia telefonar dali três horas, ou o sapato apertado. Só importava que sua cabeça estava apoiada nas pernas dela, e que as mãos dela eram macias, e que a irritação que ela demonstrava quando o vento batia em seu cabelo, desarrumando-o, deixava-a ainda mais bonita.
Não importava nem o medo que ele sentia. O medo que aquela sensação de não pertencer a si mesmo causava. O medo de decepcionar.
As unhas dela eram tão bonitas. E aquele vestido de festa preto, discreto, dava-lhe um ar de elegância que às vezes se confundia com a confusão e a ingenuidade em seus olhos. O sorriso no canto da boca a entregava.
Sentir o carinho. Sentir aquele perfume que o fazia ir até a Índia e voltar. Ela estava com os olhos semicerrados e encarava o horizonte. E tão linda.
- Que cara é essa?
- Nada, não.
Tudo cabe nesse nada. Ele sabe disso. Ela não precisava ficar explicando. Bastava o momento.
Carinho no rosto. Um beijo na testa.

* * *

Felicidade é aquele intervalo de tempo entre preocupações. Ela constatou isso, naquele instante.
Naquele instante em que captou com os olhos, com a consciência, com o âmago da sua própria alma a beleza do momento; porque tudo, ali, era bonito. O lugar - ela já fora lá muitas vezes, mas havia algo de diferente -, o vento que batia no seu cabelo e ficava tirando sua franja do lugar, o cheiro de grama recém-molhada de orvalho e recém-cortada, a cor de um céu que acabava de acordar.
E ele, ali, deitado em seu colo.
Os cabelos dele, ali, por entre os dedos dela. O cheiro dele de roupa limpa e de perfume. O sorriso dele que tentava se passar por maroto, mas que ela sabia que era tímido. O coração dele, batendo forte por baixo da camisa social.
Passar as mãos no cabelo dele. Sentir o vento.
Sentir o calor do sol - ele está nascendo.
- Que cara é essa?
Ela sorriu. Como explicar que seu coração já não cabia mais no seu peito? Que agora ela encontrara um caminho que a levaria pra se descobrir - pois ela sabia que, no fundo, somos o intervalo entre as decisões que fazemos e suas consequências? Que ele tinha um sorriso bonito e gostava de seu hálito de hortelã?
- Nada, não.
Carinho no rosto. Um beijo na testa.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

not too late

(pra ser lido com esta música de fundo: not too late - norah jones)

"Kira, você tá bem? eu ainda to acordado, quer que eu vá aí pra sua casa?"
"Saí de casa, Gui. Minha melhor amiga insistiu demais pra que eu saísse, então eu cedi."
Mensagem enviada.

Eram cinco e meia da manhã. Ela por sorte encontrou um café aberto, comprou um capuccino para viagem e saiu vagando pela rua. Loucura andar às cinco e meia da manhã sozinha na Nove de Julho, mas o tempo pedia pra que ela ficasse. Os primeiros raios de sol apareciam no horizonte, e as gotas de orvalho se misturavam com as gotas de chuva ralas que caíam incessantemente. Ela olhou para o termômetro mais próximo. Dezesseis graus. Mas a atmosfera, sem dúvida, era bonita. Poucos momentos do dia são tão bonitos quanto aquele que vêm logo antes do amanhecer.
Uma bebida quente pra derreter o coração gelado, congelado, e restaurar suas esperanças já derretidas. O que aconteceu? Mais uma decepção... quando se tem decepções demais você acaba se acostumando, mas ela dessa vez realmente achava que ia ser diferente.

"Você quer que eu vá aí ficar com você, Ki? To indo trabalhar daqui a pouco, posso sair mais cedo pra tomar café com você."
"Não, mana, não precisa. Estou bem."
Mensagem enviada.

Sim, todos eles sempre falam que são diferentes, que vão ser diferentes, e as mulheres que ainda têm alguma pureza, inocência e decência no coração sempre acreditam. Os efeitos de uma decepção se tornam ainda piores quando se é romântica. Aí parece que o seu mundo vai acabar. Sim, mudar é muito difícil, mas primeiramente é preciso assumir que a mudança é necessária. E ele a iludiu, a iludiu durante todo o tempo que a curta relação durou. Mas Kira, por mais que queira deixar transparecer uma força que com certeza existe dentro dela, é frágil. Não fraca, mas frágil. E, sabe, deveria ser um pecado decepcionar pessoas como Kira.

As nuvens foram se dissipando, embora ainda chovesse.

Mas ela continuou andando, respirando aquele ar gelado e eventualmente dando um gole em seu capuccino que não poderia estar mais doce. Ela sabia que eventualmente ia ficar enjoada da bebida justamente por ser doce demais. Será que esse era seu problema? Doçura em excesso? Sim, ela pensou, eu acho que devo começar a ser mais amarga, mais enjoada, vou confiar menos e esperar menos das pessoas, ah, vou. Mas, Kira, se fosse assim tão fácil mudar um caráter tão pueril. Ela começou a sentir frio. Desejou ter pego aquele casaco flanelado que estava pendurado atrás da porta, mas sua cabeça estava em outra órbita.

A chuva agora mal podia ser sentida.

O volume de carros começou a aumentar. Kira parou numa pracinha e sentou-se num dos bancos. Estava molhado, mas ela não ligou. Ela ainda sentia como se seu coração tivesse diminuído de tamanho, como se a capacidade volumétrica do seus pulmões tivesse diminuído, estava difícil de respirar, estava difícil conciliar a respiração com as tentativas falhas de reprimir o choro... é claro que na sua cabeça a única coisa que acontecia era uma discussão entre sua consciência e sua vontade. E é claro que a consciência estava ganhando, e dando uma lição de moral na vontade, e dizendo a Kira que ela precisava deixar de ser estúpida, e que ela agora tinha mais é que levantar a cabeça. A cada gole de café a discussão ia ficando menos intensa, seus nervos começaram a se acalmar. Terminar um relacionamento às quatro da manhã por skype não é fácil, ainda mais quando não foi você quem terminou. Ah, Kira, mas se todos fossem igual a você, o mundo seria melhor.

O sol começou a aparecer... o ambiente estava confuso: os raios de sol com certeza mostravam que queriam aparecer e limpar o céu, mas a chuva persistia em ficar ali, e essa bonita indecisão durou tempo suficiente para Kira terminar de tomar seu café.

Ela estava se levantando quando viu seu melhor amigo, Guilherme, aproximando-se dela.
- Eu queria te ver, aí recebi sua mensagem falando que você não estava em casa, então vim direto pra cá.
- Como você sabia que eu estaria aqui?
- Porque seu café preferido é a alguns quarteirões daqui, e você adora beber café quando está triste. E você me trouxe aqui quando a Aline terminou comigo, também.
Pela primeira vez em alguns dias, Kira esboçou um sorriso.
- Me dá um abraço, Ki.

A chuva parou por insistência dos raios de sol, que finalmente saíram do horizonte e agora iluminavam a cena com força.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

o despertar

Trilha sonora: Clair de Lune - Claude Debussy

Foi abrindo os olhos lentamente. Queria aproveitar o sentimento único de transição entre o mundo dos sonhos e o real. Enquanto a imagem se focava, sentiu a brisa gelada acariciando as maçãs de seu rosto. Sorriu. Estava tudo perfeito. Sentou-se na cama, olhou para sua direita - uma janela aberta por onde a brisa entrava -, olhou para sua esquerda - onde um anjo dormia tranquilamente -, olhou para frente - onde encontrava-se uma bandeja de café da manhã com direito a morangos e torradas.
Olhou através da janela. Não poderia existir paisagem mais bonita. Por alguns instantes, compreendeu toda a ideologia árcade e deixou-se entregar pelo sentimento bucolista que a envolvia. Entendeu o que é uma natureza em harmonia. Entendeu o significado de fugere urbem. Era outono, época das cores mais bonitas do ano. Folhas em tons de marrom, laranja, vermelho, alguns verdes e amarelos. As flores que ainda restavam tinham cores contrastantes com a paisagem; aquela cena, aquele instante perfeito do sol surgindo por entre as árvores daria uma fotografia maravilhosa.
Olhou para o anjo que dormia ao seu lado. Não poderia estar com o semblante mais sereno. Uma ótima noite de sono depois de um amor ardente tinha como consequência um dia tranquilo e perfeito, fora o bom-humor característico. Recém casados. Recém realizados. Sonhos e sonhos pairavam em sua mente. Mas queria focar-se no presente, não queria esquecer-se nunca daquela primeira manhã de sua (tão ansiada) lua-de-mel. Beijou-lhe o rosto e, cuidadosamente, foi em direção à bandeja de café da manhã.
Sentiu o ar gélido da manhã de Quebéc roçar-lhe a nuca. Lembrou-se de colocar o roupão. Aquela paz. Aqueles morangos tão grandes e vermelhos, o chá quente e acolhedor - riu-se fazendo a comparação do chá com o corpo do recém marido. Inclinou a cabeça para o lado. Sim, estava muito feliz. E não havia passado nem um quarto de hora desde que levantou.

Isto, sim, é carpe diem.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

sobre o céu, o vento, swanage


A primeira coisa que constatei depois de alguns poucos dias em Swanage foi que o céu era lindo.

Todos os dias havia algo a ser feito, pela escola, alguma atividade, geralmente em outra cidade. Às vezes voltávamos antes do previsto, e eu ia para um monumento, em memória dos cidadãos de Swanage que lutaram nas guerras mundiais, que ficava em frente à praia. Em volta desse monumento havia quatro bancos, e o meu preferido era o que ficava de frente para o mar.
O clima em Swanage era agradável. O calor do sol não deixava a pele ardendo, não estava frio, e não choveu nem meia dúzia de vezes. O constante vento, típico de cidades litorâneas, era muito bem-vindo, e vez ou outra as nuvens saíam do caminho e me deixavam ver o sol.
Sentava-me lá, muitas vezes sozinha. Mas era uma solidão muito por mim apreciada. Eu respirava calmamente, para deixar registrado na minha memória todos os odores que eu podia sentir. Olhava para o mar. Uma imensidão azul e verde. De lá dava pra ver a praia inteira, de ponta a ponta. Eu via o píer, perto de onde eu costumava comer crêpes de Nutella de jantar ou pizza, eu via as Old Harry's Rocks, eu via todas as lojas a que eu gostava de ir. Era o lugar perfeito.
Sem nenhuma distração, companhia ou algo a ser feito, eu não fazia muito além de olhar o céu.
E foi lá que eu tomei tanto gosto pelos fenômenos naturais diários, o pôr e o nascer do sol, o vento, a forma como a luz incidia nas nuvens. Eu me percebi cercada de tantas coisas bonitas, e me perguntei como não tinha visto aquilo antes.
O vento provocava as mais bonitas reações no ambiente. As nuvens, bem devagar, se mexiam. As ondas iam se intensificando; consequentemente, a música de fundo produzida por elas. As árvores balançavam de um lado para o outro, como se estivessem dançando, ou me convidando para dançar. Eu podia ver algumas pétalas de flores sendo levadas pelo vento, viajando pelos ares da cidade. Havia pássaros planando a alguns metros de mim. A areia saía da praia e ia fazer desenhos bonitos na rua asfaltada. A grama me dava a impressão de que queria sair debaixo dos meus pés e pairar por aí como as pétalas e os pássaros. E tudo isso em alguns instantes.
Eu gostava muito de poder ficar ali, sozinha, assistindo ao espetáculo natural que acontecia em volta de mim. E gostei muito de ter vivenciado tudo isso, pois voltei da viagem com outros olhos. Agora em vez de olhar para o carro da frente, eu olho para as nuvens; em vez de olhar para o trânsito, eu olho para os pássaros. Foi necessário que eu viajasse para outro continente para que isso pudesse acontecer.
O céu é diferente a cada dia. O céu transmite uma sensação diferente a cada dia. O pôr-do-sol mais bonito é no inverno, quando forma-se um arco-íris gigante acima do sol; o mais alegre é na primavera, quando as cores predominantes são laranja e rosa; e o inesquecível é, com certeza, o de Swanage.
Ficam aqui a minha saudade e o resultado das várias epifanias que tive ao assistir ao pôr-do-sol de lá.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

happy ending, part 2 - final

Annie apertou os olhos e mordeu o lábio, quase fazendo-o sangrar, de raiva. Detestava sentir que não estava mais no comando. Detestava sentir principalmente que não comandava mais a situação com Tiago. Disse a coisa mais cínica que veio-lhe à cabeça.
- É. Parabéns. Você devia fazer psicologia!
- Annie. - Tiago as mãos na cabeça, em sinal de rendição. - Vamos parar com isso, certo?
Ela olhava para ele, encorajando-o a continuar. Ele olhou para cima, fechou os olhos, e tentou esquecer seu medo de ser ridicularizado, não correspondido ou desprezado. Andou até Annie e colocou suas mãos no rosto dela.
- Certo, vou te dizer o que eu estou pensando. Primeiro, não sei de onde você tirou que eu gostava da sua irmã de um jeito diferente. Segundo, não sei de onde você tirou que você gostava do meu irmão. E, terceiro... - Ele suspirou, como se juntando forças para continuar - não sei por que apaixonar-se por mim parece-te uma ideia tão absurda e... ruim. Porque, sabe... tudo seria tão mais simples, quero dizer, se você gostasse de mim, e... recíproco...
Ele tirou suas mãos do rosto dela e esperou por uma reação. A cada palavra dita por Tiago, Annie torcia mais forte a barra de seu casaco. E quando Tiago terminou seu discurso, a primeira coisa que fez foi separar as mãos dela do casaco. Os dois ficaram lá, de mãos dadas, encarando-se, pensando qual seria a próxima coisa a ser feita.
Tiago, observando a reação, ou falta de ação de Annie, decidiu soltá-la.
- Certo. Se isso é o que você quer, então eu não toco mais no assunto. - Tiago ameaçou voltar para a sala de televisão, mas ouviu a voz fraca de Annie.
- Calma, espera, Ti... - Annie quase nunca chamava Tiago pelo apelido. - Eu... é que...
Tiago encarava-a com uma expressão de riso. Ele sabia que ceder, admitir e perder coisas nunca fora o forte dela. Annie encarou-o com um olhar suplicante, que dizia "eu tenho mesmo de passar por isso?", e Tiago lançava-lhe um que podia ser interpretado como "sim, você tem".
- É que, Ti, eu não queria gostar de você.
- Ótimo começo.
- Cala a boca, você sabe que isso é difícil pra mim. Por que faz isso comigo? Que idiota, você sempre faz isso e...
- Continua, Annie, não muda de assunto.
Annie apertou os olhos. Ficou parada um instante, olhando pra cara de zombador de Tiago. Olhou para baixo, respirou fundo, depois deu dois passos à frente, alcançando Tiago, então aproximou-se dele suavemente, e, por fim, beijou-o.
Tiago, surpreendido, demorou a perceber que aqueles lábios macios colados aos dele eram de Annie. E demorou a perceber que aquele sonho de beijá-la, que ele tinha desde a sétima ou oitava série, finalmente estava se realizando. Ele então tocou o rosto de Annie, com delicadeza, quando se separaram, e pôde ver o brilho nos olhos dela. E ela pôde ver o quão corado ele estava. E no rosto de ambos estava estampado um semblante óbvio de que eram, sem dúvidas, apaixonados um pelo outro. De certa forma, sempre foram.
- Ti... é que, eu...
- Eu sei. Eu também.

xx Fim! :D

happy ending part 1

Annie chegou à frente da porta de Tiago e lá ficou, sem coragem pra mover o braço e tocar a campainha., torcendo a barra de seu casaco. Ironicamente, Tiago estava parado do outro lado da porta, sem coragem para sair. Ao mesmo tempo que ela toca a campainha, ele abre a porta. Encararam-se com um sorriso tolo durante algum tempo que pode ter sido de alguns segundos a vários minutos. Annie abriu a boca para falar alguma coisa, mas nada saiu além de um suspiro. Mas enfim tomou coragem.
- É, então, eu vim aqui pra...
- É... tô vendo. Então...
- É.
- Ahn... então as coisas não deram certo com meu irmão? - Tiago disse rispidamente, como se estivesse com algo azedo na boca. - Eu te disse que ele não prestava.
- Na verdade, ele é um cara legal. - Annie pensou em dizer isso, mas tudo o que saiu foi: - É, né...
- Hã, quer entrar?
- Ah, claro. - Annie disse,
torcendo a barra de seu casaco.
O clima estava péssimo. Estava óbvio que os dois tinham certos assuntos para resolver, mas nenhum dos dois tomava iniciativa. Tiago porque era tímido e não sabia dos sentimentos de Annie, e esta porque não queria ser impulsiva e não sabia dos sentimentos de Tiago. Entraram, sentaram-se nos grandes pufes na sala de televisão e ficaram encarando os próprios pés. E Annie torcendo a barra de seu casaco.
- Sabe - Tiago começou -,pra falar a verdade, eu não gosto da sua irmã.
Annie sentiu-se aliviada. Então ela não precisaria começar o assunto. Isso não precisava ser tão difícil.
- Ah, é? Então você não está apaixonado por ninguém no momento? E mentiu pra mim?
Tiago encarou Annie com raiva. Ele sabia o que ela estava fazendo. E não gostou disso.
- Eu não falei que gostava da sua irmã. Eu fiquei quieto. E eu não menti, eu gosto de alguém, sim.
- Então por que não me revela a identidade dessa sua amada?
- Por que você não me revela a identidade do SEU amado?
- Acho que você não se importa, porque está ocupado demais tentando esconder as coisas de mim!
- Ótimo, então, se é isso que você pensa!
- Ótimo!
Annie se levantou, torcendo a barra de seu casaco freneticamente, e começou a andar em passos largos até a porta. Mas parou antes de sair.
- Sabe, não sei por que eu me dei ao trabalho de vir até aqui. Foi uma total perda de tempo.
- Mas você veio. - Tiago olhou para Annie de forma intensa. - E você, por algum motivo, teve a necessidade de parar antes de sair e me dizer isso. Você quer que eu saiba que era importante para você vir aqui.

(continua)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

annie's love sick

Saí bufando da casa de Tiago e fui pra minha. Fui direto ao meu quarto e, como sempre, me joguei na cama, de barriga para cima, encarando o meu teto estrelado. Meu cabelo estava molhado, mas pelo menos trouxera um cheiro de chuva agradável pra dentro do quarto. O que exatamente aconteceu?

Marcelo não fizera nada. Tiago sempre me falou que ele era um vagabundo e coisas do tipo, mas ele não agiu dessa forma comigo. Na verdade, o que aconteceu foi que ele me disse que não se permitia gostar de mim daquele jeito. Eu saí andando, mas ele me parou no meio da rua. Comecei a gritar e gesticular, perguntando o porquê de todos os sinais que me foram enviados, o porquê da relutância, o porquê de tudo, mas ele continuava de braços cruzados, e vez ou outra olhava para a janela do quarto de Tiago, ou falava "não posso fazer isso". Então desisti.

Eu não sei mais o que estou sentindo. Confusão demais pra uma tarde só, nossa. No começo da tarde, achava que estava arranjando Tiago para minha irmã. Depois, pensei que eu quisesse Marcelo. Agora, não sei se quero que Tiago fique com minha irmã... ah.
E sempre, sempre quando eu mais precisava, e, claro, sempre muito convenientemente começava a tocar NeverShoutNever! no meu celular.

"Dear, I wrote you a song despite the fact, you did me wrong. And dear, I don't know what the hell is going out with you, but something ain't right..."

Era Tiago me ligando. Eu mesma coloquei essa música de toque. Ele é quem me mandou essa música, uns meses atrás, e eu até pensei que pudesse significar alguma coisa, mas não dei muita atenção. Meus sentimentos por Tiago são muito, muito instáveis. Eu não sei se o que eu sinto é um carinho muito grande ou se é amor. O fato é que meus namoros nunca duram mais de dois ou três meses, porque eu sempre me pego pensando, "será que o Tiago faria isso?". Nunca me imaginei ficando com ninguém além de Tiago, mas sempre atribuí isso ao fato de que crescemos juntos e eu realmente não consigo imaginá-lo fora de minha vida.

"...you tell me that you love, then you go and leave me, why do you do this to me? Baby, I'm lovesick..."

Meus sentimentos são confusos, mas também não é como se o Tiago já tivesse me dado claras insinuações de sentimentos mais profundos por mim. Eu teria captado. Ou não? Ou será que eu não captei nada? Tiago nunca teve muitas amigas, todas as minhas tentativas de apresentar alguém a ele foram falhas, e além de mim, ele conversa com minha irmã, a mãe dele e a professora de violão (cujo sexo na verdade é meio duvidoso)... Ele poderia gostar de mim. Isso explicaria os "não posso" de Marcelo e os olhares de relance pra janela do quarto de Tiago.
Uns meses atrás eu me peguei apaixonada por ele de fato, mas desencanei porque todas as minhas investidas falhavam de alguma forma. Não sei, é muito chato isso! Eu não sei o que fazer, se devo dar o primeiro passo, se espero, se escrevo na minha testa "me beije" ou alguma coisa do tipo...

"...I just can't sleep, just can't eat, can't do much of anything at all 'cause I'm sick and in love with you, dear."

Ao ouvir esse trecho da música, resolvi me olhar. Que deprimente. Jogada na cama ao som de um toque de celular, cabelo molhado ensopando o travesseiro, maquiagem borrada, olhando para o teto curtindo minha depressão.
Isso não tem absolutamente nada a ver comigo. Por mais confusa, frustrada, brava e ainda assim, feliz por ter percebido o que eu realmente sinto, decidi sair dali e ter uma conversa esclarecedora com Tiago. Não sei de onde eu tirei coragem e força suficiente para me levantar, mas o fiz. E andei a passos lentos, embaixo de chuva, até a porta dele.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

she's got style

"If it's not those cowboy boots in the summer, oh, my God, I pray for another chance to drive down back highways until I stumble upon your beautiful face. Your presence isn't what kills me; it's that artistic gleam that's taking over my scenery, dream by dream..."

Ao ouvir a conhecida música tocando no meu celular, esbocei um sorriso. Estava começando a chover. Aliás, começara a chover logo que pisamos dentro daqui de casa, pois minha vizinha, Annie, havia resolvido que queria meu irmão alguns minutos antes, na sorveteria. Então subi aqui pro meu quarto com alguma desculpa idiota.
A música me fazia lembrar bastante da Annie. Ela havia selecionado a música como meu toque de celular para quando ela estivesse ligando. Tão conveniente.

"...You might think I'm incapable of loving a soul like yours. You might think I'm a fool for you..."

Isso era surpreendentemente verídico. Annie chegou mesmo a suspeitar de que eu estava apaixonado por ela, mas despistei, dizendo que estava apaixonado pela irmã dela. Eu não queria ser um obstáculo no caminho da Annie, pois achava que ela sentia alguma coisa pelo meu irmão mais velho. Sempre achei que eu nunca seria suficiente.

"...'cause girl, you got style, and that's what I love about you. the way that you sit back, oh, how you sit back, and watch this grow..."

É, Annie sempre foi muito diferente das outras. Nunca fui de ter muitas amigas, mas ela era visivelmente melhor que qualquer uma. Não ligava para o que os outros iriam pensar dela, andava por aí olhando para tudo e todos com aquele olhar enigmático que só ela sabia fazer, às vezes dava um meio sorriso. A verdade é que ela dava a impressão de sempre estar ciente de tudo.

"...you got dreams, and therefore I believe in you. All the small town people with their big remarks ain't got jack to say about my movie star, she's got style..."

Isso também. A cidade em que morávamos não era tão pequena, mas Annie era de vanguarda. Nunca se contentou com as opções daqui. Depois de fazer 16 anos, resolveu viajar pelo estado inteiro, e me arrastou junto em todas as viagens. Isso mexeu bastante com a imagem dela, as pessoas a viam como "moderninha" e essas idiotices de gente que mora em cidade pequena, mas eu sempre a admirei bastante. Ela tem estilo.
A música continuava tocando e eu me perguntava por que ela me ligava, se estava no andar de baixo da minha casa. Eu não ia atender. Privei-me de ouvi-la falar sobre o quão demais e maravilhoso meu irmão, galinha e estúpido, é. Esse relato inteiro é incrivelmente clichê e previsível, e pra fechar com chave de ouro: o Marcelo não merece a Annie. E meu celular havia parado de tocar.
Ouvi um barulho estranho vindo lá de fora. Olhei para baixo. Era Annie, e ela aparentemente estava discutindo com meu irmão. Ela gritava e gesticulava, enquanto ele ficava na defensiva, de braços cruzados, e feições irredutíveis. O que aconteceu?

domingo, 24 de outubro de 2010

- pelo ponto de vista de tiago -

- Então você pode contar qualquer coisa pra mim, e eu pra você? - Annie disse, parecendo um pouco nervosa.
Estávamos sentados, Annie e eu, numa sorveteria em frente à casa dela - que era ao lado da minha -, ainda de mochila nas costas, pois tínhamos acabado de chegar da escola. Ela faz o estilo "dezessete anos e fugiu de casa", e eu finjo que também sou assim, meio que "odeio ficar em casa, me sinto preso, sou rebelde". Ela gosta.
Eu não sabia muito bem o que responder. Eu não sabia aonde ela queria chegar, e dependendo da minha resposta, ela podia interpretar as coisas de uma forma errada. Darei uma resposta vaga, então, assim ela pensa o que quiser.
- Sim, claro. Você sabe que eu te considero demais... - foi a minha resposta. Não sei se foi impressão, mas eu poderia jurar que ela pareceu meio tensa ao ouvir minhas palavras. Eu disse algo errado?
- Certo. - ela respondeu. Não sei se estava tão certo assim. Ela parecia nervosa comigo. Aliás, eu não sei, ela parecia nervosa, mas ao mesmo tempo estava totalmente corada; estava com os punhos cerrados, e ao mesmo tempo, balançando a perna de nervosismo. - Em quem você está pensando? Em alguém que você odeia, certo?, julgando pelos seus punhos cerrados e seu anel do humor. Preto.
Adoro observar o efeito que minhas frases têm sobre ela. Ela parece realmente afetada pelo que eu digo, de vez em quando. O que é estranho, pois Annie sempre se comportou de forma tão... descolada. Não sei. Gosto de balançar com sua cabeça.
- Só fica preto quando estou com você, trouxa. - Ela respondeu. Eu sabia que era verdade, ela sempre faz questão de me mostrar seu anel do humor quando estou com ela. - Acho que eu te odeio, então.
Não gostei de ouvir isso. Ela sempre dá um jeito de sair por cima. Que irritante!
Então, como vingança, fiz uma cara de "cachorro abandonado", como Annie gosta de chamar, que eu sabia que ia mexer com ela. Sou bom ator, então forcei algumas lágrimas, e pronto. Pude ver a raiva se esvaindo dos olhos dela. Então lancei a bomba.
- Mas eu acabei de dizer que te considero tanto... - Disse, olhando para meus pés. Típico coitado.
Mas depois de a raiva ter se esvaído, foi como se ela tivesse voltado com mais força ainda. Parecia que a Annie estava se controlando para não me dar um soco. Foi frustrante. Plano fracassado.
- Você sabe que pode me contar o que tá acontecendo, né? - Disse. Foi minha última tentativa de absolvição. Joguei essa frase acompanhada do meu sorriso mais sincero.
- Nada - Annie respondeu. - É que eu estava só mentalmente constatando que eu nunca soube por quem você está apaixonado.
Ah, agora já era. O que eu respondo? Tenho que dar um jeito de deixá-la com a ilusão de controle da situação.
- Ah - eu disse, fingindo-me de surpreso. - Achei que você soubesse.
Isso não era completamente falso. Eu realmente sempre achei que ela soubesse por quem eu sou e sempre fui apaixonado. Olhei para a casa dela. Quantas vezes eu já não fui lá, fiquei conversando com a irmã mais nova, só para fazer a Annie perceber o quão bom partido eu sou, comi o brigadeiro que ela faz, ajudo com a lição de casa, saio para passear com os cachorros, faço de tudo. E não faço isso por mais ninguém.
Mas então ela interpretou meu olhar de forma errada.
- Eu sabia! - ela levantou, apontando pra mim, e depois para a casa dela, e depois pra mim. - VOCÊ GOSTA DELA! Eu achava que você ia lá em casa porque gostava de mim e do meu brigadeiro, MAS ERA SÓ PRA FICAR PERTO DELA! - Ela apontava para sua irmã mais nova. Abaixei a cabeça. Que ótimo. Bom, é isso o que ela quer enxergar. Então eu percebi. Ela olhava para meu irmão. Que droga. Ela gosta dele, claro que gosta dele. E ele gosta dela, também. Por mais que eu ache que ele não presta, não posso controlar com quem ela deve ficar ou não.
- Vai lá. - eu disse. - Antes que ele pense alguma coisa sobre... hum, nós.
Ela me lançou um olhar que podia ser interpretado como um típico "valeu, cara". Eu sei que todas as garotas preferem meu irmão. Ele faz o tipo bonitão, pegador, estudioso da faculdade. Como competir?
- Fico feliz que nós não somos mais um daqueles casais adolescentes que aparecem em clipes de cantoras loiras que cantam Pop - disse, tentando parecer indiferente.

Tocava a música "She's Got Style" na sorveteria. Segurei a lágrima que teimava em escorrer pelo meu rosto.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

mais um (a)típico conto adolescente,

(não sei de onde eu tirei coragem pra escrever e postar esse conto besta)

- Então você pode contar qualquer coisa pra mim, e eu pra você? - Eu disse, temendo pela resposta.
Estávamos sentados, Tiago e eu, numa sorveteria em frente à minha casa - que era ao lado da dele -, ainda de mochila nas costas, pois tínhamos acabado de chegar da escola. Nós dois fazemos o estilo "dezessete anos e fugiu de casa", pois ambos odiamos passar muito tempo em nossas respectivas.
- Sim, claro. Você sabe que eu te considero demais... - ele respondeu. Foi difícil não desmanchar meu sorriso. Aquela adrenalina, que percorreu o meu corpo durante os segundos relutantes entre a pergunta e a resposta, agora era uma onda fria de decepção. Não era nem frustração.
- Certo. - Respondi. De certa forma, seria estranho se não pudéssemos contar um com o outro, ele é meu vizinho desde que eu me entendo por gente, temos tanta coisa em comum.
- Em quem você está pensando? - Ele disparou, para minha surpresa. Devia ter percebido que eu estava corada. Nunca fui muito boa em esconder emoções, ainda mais dele. - Em alguém que você odeia, certo?, julgando pelos seus punhos cerrados e seu anel do humor. Preto.
- Só fica preto quando estou com você, trouxa. - Eu disse. E era verdade. - Acho que eu te odeio, então.
Então ele fez A cara. A cara matadora, que sempre conseguia o que queria. Eu não poderia resistir. Sem chance. Seus olhos castanhos ficavam ainda mais realçados com as lágrimas forçadas. A típica cara-de-cachorro-abandonado. Tão doce.
- Mas eu acabei de dizer que te considero tanto...
Me deu uma vontade tremenda de virar os olhos e esmurrar o nariz dele. Era justamente por isso que eu estava nervosa. Idiota. Talvez eu realmente o odiasse.
- Você sabe que pode me contar o que tá acontecendo, né? - Ele disse, e me lançou aquele sorriso que era só dele.
Acho que a maior realização de uma garota seria conseguir fazê-lo sorrir daquele jeito para ela, por ela.
- Nada - respondi. - É que eu estava só mentalmente constatando que eu nunca soube por quem você está apaixonado.
Eu não sei por que pergunto essas coisas! Maldita impulsividade. Não era a hora certa, ainda.
- Ah - ele aparentemente foi pego de surpresa. Acho que isso é bom. - Achei que você soubesse.
Opa. Isso eu não sei como interpretar. Pelo jeito é alguém óbvio. Ele é tímido, então deve ser alguém que ele conhece faz tempo.
Então eu o olhei. Olhei de verdade. E vi para onde ele estava olhando.
Pra minha casa. O olhar dele estava mirado na minha irmã mais nova. Um ano mais nova, só.
- Eu sabia! - Eu levantei, apontando pra ele, e depois pra minha casa, e depois pra ele. - VOCÊ GOSTA DELA! Eu achava que você ia lá em casa porque gostava de mim e do meu brigadeiro, MAS ERA SÓ PRA FICAR PERTO DELA!
Ele corou e abaixou a cabeça. Suspirei de alívio. Meu plano cupido havia funcionado. Eu temia que ele gostasse de mim, mas, afinal, eu sou só a melhor amiga. Então me peguei olhando pro quintal da casa dele. Pro irmão dele, que nos encarava com um olhar distante... Na verdade, quando nossos olhares se cruzaram, ele pareceu confuso e até um pouco triste. Senti a repentina vontade de sair correndo e abraçá-lo.
- Vai lá. - Tiago disse. - Antes que ele pense alguma coisa sobre... hum, nós.
Lancei-lhe um olhar cúmplice. Quero dizer, Tiago é uma graça, mas nem se compara ao seu irmão, Marcelo, que faz faculdade há dois anos, já.
- Fico feliz que nós não somos mais um daqueles casais adolescentes que aparecem em clipes de cantoras loiras que cantam Pop - Tiago disse. Sim, analisando bem, seríamos o típico casal de melhores amigos que demoram pra assumir que gostam um do outro.

Totalmente chato.

Porque, cá entre nós, o Marcelo...

quarta-feira, 7 de abril de 2010

frio

- Alguém me escuta? - Bruna berrou e suspirou. Após isso, perdeu todas as suas forças. Estava muito frio, e juntar forças para gritar daquela altura, intensidade e força demorou. Com certeza em vão, quem estaria nas proximidades naquele instante, naquele frio?
O aquecedor começava a dar problemas. O frio tentava dominar aquele lugar, Bruna podia ver as massas de ar congelante entrando e saindo de seus pulmões. Seus lábios estavam roxos, assim como as pontas dos seus dedos. Perdera toda sua sensibilidade, não conseguia chorar - a lágrima esfriava ainda mais seu rosto, já vermelho de frio. Desejava ser uma máquina. Bom, de certa forma, ela já era uma máquina.
Bruna olhou ao redor do que era para ser o chalé em que ela passaria suas férias de inverno. Agora era apenas uma casinha de onde não era possível sair. As portas e janelas estavam todas impossíveis de serem abertas por dentro. Só com a ajuda de alguém de fora ela conseguiria sair daquele lugar tão frio.
Passou algum tempo. Impossível dizer se foram instantes, minutos ou horas, mas ela ficou ali, sentada, esfregando as mãos perto do que restava de fogo e ocupando sua mente com o que restava de esperança.
- Tem alguém aí? - Bruna ouviu uma voz de fora. Primeiro achou que estava ficando louca, depois fez o máximo de silêncio para ouvir a voz de novo. - Oi, tem alguém aí dentro?
- Tem sim! Eu estou presa! - Bruna disse com a voz surpreendentemente rouca, e rezou para que a voz escutasse. - Por favor, me ajude a sair daqui...
- Fique calma, eu vou tentar te tirar daí - a voz era masculina. - Vou tentar abrir a porta, e depois a janela.
Bruna suspirou. Seu rosto ficou mais liso. Até apareceu um esboço de sorriso ali naquela boca torta. Agora ela tinha alguma chance de sair dali e de viver de novo. Enquanto ouvia a voz cavando a neve e realmente se esforçando para tirá-la de lá, sentiu-se desmerecedora de toda aquela atenção. Sentiu-se preguiçosa. Levantou-se e foi até a porta, para tentar abri-la também.
- Sem chance de entrar pela porta. Tem uma camada imensa de água congelada aqui, moça - a voz masculina disse. - Vou tentar abrir a janela.
Mesmo sabendo que ele não via seu rosto, ela balançou a cabeça, consentindo. Foi até a janela, embaçada, esperar. Foi quando viu o rosto de seu salvador. Combinava bastante com a voz. Seu sorriso passava uma segurança que agora ela tinha certeza absoluta de que sairia dali. Ele retirou muita neve da janela, do lado de fora. Quando conseguiu chegar ao vidro, fez um pouco de força mas o vidro cedeu e quebrou, abrindo uma enorme passagem. Bruna estava livre. A voz masculina deu um sorriso, ofereceu-lhe luvas e disse:
- Ah, meu nome é Pedro.

sexta-feira, 5 de março de 2010

encontro

O turno estava acabando. As horas passavam devagar e pesadamente naquele ambiente de trabalho. Apesar de ser tudo muito rápido e esquemático, o tempo se arrastava. Mas finalmente o turno acabava! Onze horas da noite. Algumas horas de sono e um feriado pela frente. 30 horas de folga! Há tempos nenhum deles tinham um descanso assim.

- Bom fim de semana, Sandra - o Chef da cozinha, já de idade, disse para uma moça jovem, de uns 20 anos, que no momento tentava tirar seu avental (sem sucesso) e a rede do cabelo.
- Bom descanso, Jorge. Você merece - Sandra respondeu com uma piscadela.

Sandra se concentrou em desamarrar o avental (coisa que ela nunca levava menos de dez minutos pra fazer) e começava a mentalizar o que seria feito no feriado quando foi interrompida.
- Com licença? Quero lavar minhas mãos. - Um moço se encontrava atrás de Sandra. Só então ela se deu conta de que estava bloqueando a pia.
- Ah sim, me desculpe. - Ela se mexeu, sem jeito. - Então, feriado, hã? O que pretende fazer?
- Estudar. - O moço percebeu a expressão de Sandra, um ponto de interrogação estava estampado em sua testa. - Eu faço faculdade de manhã. Só estou trabalhando aqui pra conseguir me sustentar. A faculdade é pública, mas eu tenho contas pra pagar, certo? Ah, e meu nome é Marcelo.
- Sim... certo - Sandra olhava atentamente para os traços de Marcelo. Não era um Deus grego, mas tinha traços bonitos. - Eu também faço faculdade. Faço à tarde, então trabalho aqui de manhã e de noite.

Os dois conversaram um tempo enquanto Marcelo lavava suas mãos. Ele fechou a torneira, e pegou o pano.
- É impressão ou você demora demais pra secar as mãos? - Sandra brincou.
- Ah! Eu demoro mesmo. É que, sabe, seco dedo por dedo. Odeio quando...
- ...a água fica entre os dedos - Sandra completou. Os dois trocaram um sorriso cúmplice.
- Isso mesmo.
Os dois olharam para a pia um instante.
- Então... bom, até depois de amanhã - Sandra disse, já ficando envergonhada de encarar Marcelo por tanto tempo.
- Ou antes. - ele respondeu com um sorriso maroto.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

aos 30

Eu estava passeando com meu marido e com minha filha de 5 anos quando passam por mim figuras dignas de atenção: um jovem casal de namorados. Minha filha parecia olhar curiosamente para o casal, que, por sua vez, parecia não notar o mundo ao seu redor.

Eu me lembro de quando tinha meus 15 anos, meu primeiro namorado. Primeiro e único, estou com ele até hoje. Quando eu tinha 15 e ele 16 anos éramos tão cheios de vida, felizes, despreocupados. Eu o amava tanto. Eu entendo esse casal de namorados andar como se não notasse nada nem ninguém, eu era igualzinha. É tão bom ser jovem. É tão bom ter vitalidade e bochechas rosadas 24 horas por dia.

- Mamãe, porque aqueles dois estão de mãos dadas? - minha filha perguntou.
- Porque eles são namorados, filha. Eles se amam e resolveram ficar juntos por causa disso - respondi assim. Nós duas e meu marido nos sentamos numa cafeteria próxima, e eu pedi um café com chantilly - minha filha adora chantilly.

É engraçado pensar naquilo... "Eu o amava muito". Eu ainda o amo, mas com certeza alguma coisa mudou... Nós crescemos, e acho que esquecemos como é amar incondicionalmente e inconsequentemente, de certa forma. Conforme crescemos a vida vai ficando mais difícil e severa, e nós somos forçados a pensar em outras coisas além do amor.

Por isso é tão bom ter 16 anos. Vendo aquele jovem casal, acho que me lembrei de como eu era aos meus 16. Peguei um pouco de chantilly com meus dedos e passei no nariz de meu marido. Ele olhou pra mim, riu, e vi em seus olhos a expressão de que tanto gostava quando éramos jovens. Como nós dois mudamos... Acho que assim é melhor. Precisamos crescer e amadurecer, acordar para a vida. Mas eu desejo tudo de bom para aquele jovem casal. Eles nunca vão se sentir assim de novo.

- Estou me sentindo velha - eu disse para meu marido.
- Você sempre vai ser aquela boba de 15 anos para mim. - Ele disse, com um sorriso. - Agora você tem mais celulite, só isso, mas eu ainda te amo.

Eu lhe dei um tapa mais não pude resistir ao sentir a risada vindo de dentro de mim.

Como na natureza nada se perde; tudo se transforma; o amor também não é perdido ou esquecido. Por ser algo natural de nós, humanos, o amor se transforma de acordo com nossa vida e nossas necessidades (e com as pessoas, também). Por isso existem diferentes formas de amor, mas não deixam de ser amor.

Meu marido pediu a conta, e fomos embora de lá.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

aos 5

Eu estava lá, andando de mãos dadas com minha mãe, quando vejo um moço e uma moça andando juntos, de mãos dadas também, como minha mãe e eu. E eu fiquei pensando. A moça não parecia ser a mãe do moço. E ele não parecia ter alguma dificuldade pra andar. Então por qual motivo os dois estavam de mãos dadas?

Minha mãe me ensinou a não ficar encarando as pessoas, mas eu não conseguia parar de olhar pra aquele moço e aquela moça. E os dois não faziam nada além de andar, se olhar e sorrir. Que graça tem em ficar andando, se olhando e sorrindo? Eu faço isso com minha mãe também. Então porque o moço não está com a mãe dele? Ou a moça com a mãe dela? Não faz sentido.

Será que os dois são irmãos? É, pode ser. Ou não. Eu não me dou bem com meu irmão que nem esses dois, aí. Nossa, que saco. Esses dois estão me seguindo? Eles estão em todo lugar que eu estou... Não, acho que não... Eles parecem nem notar minha presença. Aliás, eles parecem não notar que o mundo está ao redor deles. E o mundo está girando. E a máquina de algodão doce está fazendo algodão doce. Mas nada disso parece importar pra eles. Que coisa.

- Mamãe, porque aqueles dois estão de mãos dadas? - eu pergunto para minha mãe.
- Porque eles são namorados, filha. Eles se amam e resolveram ficar juntos por causa disso - ela respondeu.

Ah, então eles são namorados. Engraçado. Essa palavra é engraçada. Eu já ouvi falar desse negócio de "namorados" na televisão, na escola... Mas não eram iguais a esses dois. Esses dois se olhavam de um jeito diferente. Parecia que só de ficar perto deles você ficava mais feliz. Não paravam de sorrir e de se abraçar. Parece ser tão gostoso, como será que é se sentir assim? Esse negócio de amor?

Eu amo minha mãe, meu pai e meu irmão, mas acho que não é a mesma coisa. Eu não beijo meu pai e minha mãe na boca. Mas eu já vi papai e mamãe se beijarem na boca. O que diferencia? Será que é um amor diferente? Mas o nome é o mesmo: amor. Então acho que por dentro é a mesma coisa, mas a forma de expressar é diferente? Que confuso. Que bom que eu sou criança, não quero um "namorado" tão cedo.

Apesar de que eles pareciam bem felizes juntos... Como papai e mamãe.

domingo, 10 de janeiro de 2010

03/04/1985

Certo. Não sei bem o que devo escrever em um diário... Mas visto que estou sozinha, não há muito a se fazer. Se eu não coloco as coisas no papel, se eu explodir não vai ser uma grande surpresa, mas enfim.

Nasci em 1940. A passagem da minha infância para a adolescência foi marcada por aquele glamour falso dos anos 50 - carros brilhantes, saias rodadas e muitos neons. Mas eu nunca gostei daquilo, não. Me lembro de que eu ia todo fim de semana ao cinema para fazer nada mais, nada menos do que entregar panfletos visando chacoalhar a cabeça das pessoas um pouco. Sabe? Acordá-las para a vida. Fazê-las saírem daqueles carros enormes, e olharem para quem está sentado na calçada.

E foi numa dessas vezes que eu vi meu marido (bom, ex-marido) pela primeira vez. Ele ia assistir a um filme qualquer, não me lembro bem. Ah, mas de uma coisa eu me lembro: dos olhos! Os olhos de quem não estava realmente naquele lugar. Os olhos de quem fantasiava e sonhava muito, mas não sonhos inúteis - sonhos de revolução. E eu estava certa, de fato.

Então em 1965 - ano seguinte do golpe militar, como todos sabem - resolvi fazer parte de algum grupo para ver se a situação mudaria no nosso país. Entrei em um dos MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário) e lá fiquei. Acho que foi a fase mais produtiva da minha vida. Organizávamos passeatas, distribuíamos panfletos, driblávamos a imprensa, atiçávamos o governo... e eles nunca nos pegavam! Nunca me senti tão viva e útil. Foi incrível.

Em 1967, então, resolvem criar pseudônimos, para preservar nossa identidade. Eu escolhi o meu - Maria. Interprete minha escolha como quiser. Bem, durante uma das reuniões, eu o vejo novamente - o moço que estava aquele dia, no cinema. Seu pseudônimo era João, ironicamente. (Na verdade, só fui saber seu nome 4 anos depois). Ele era um dos membros mais antigos do MNR. Era realmente fantástico. Muito forte e confiante. Me apaixonei, é claro.

Mas também é claro que nada desse tipo de intimidade era permitido em nosso grupo. Tive de me conter um ano. Mas em 1968, eu soube que ele também me amava. Não podia ser a hora mais errada... Com a liberação do AI-5, tínhamos de tomar muito, mas MUITO cuidado em nossas passeatas - pois quaisquer atividades ou manifestações sobre assuntos políticos eram expressamente proibidas. Também não podíamos mais votar. E nossas casas foram escolhidas, nossa liberdade vigiada... Tivemos de renunciar de nossos nomes para vivermos decentemente - ainda que clandestinamente. Um absurdo eu ter de renunciar do meu nome, que me tornava um indivíduo, brasileiro, para conseguir morar em paz no meu país... Que vergonha. Que absurdo. Não fosse a passeata dos Cem Mil, em junho, eu teria abandonado o país.

(continua)

domingo, 3 de janeiro de 2010

1968

- Você! Parada! Mãos para cima e joelhos no chão!
É simplesmente ÓBVIO que eu não obedeci ao policial. Meu grupo de revolucionários já havia lutado contra a polícia várias vezes... E essa é apenas mais uma vez... Nossas revoltas não estavam tendo muito sucesso, mas não podíamos ficar parados, sem fazer nada. Não podíamos sentar e assistir enquanto nosso país era dominado por militares e inflação. Não, isso era demais pro nosso orgulho!

Enfim, eu corria pelas ruas - as ruas que eu já conhecia muito bem, depois de tantas fugas - e procurei por algum rosto amigo que pudesse me mostrar uma saída, atalho o "passagem secreta" - que era como chamávamos esgotos e túneis subterrâneos - que me levasse ao meu exílio. Meu e dos meus companheiros. Mas não achei nada.

Virei uma esquina, segui reto, após saltar um muro ganhei uma boa distância do policial e consegui escapar. "Isso está ficando cada vez mais fácil", pensei comigo mesma, "mas devo começar a maneirar, já estou em muitos cartazes". Cheguei ao bar cujo dono era amigo meu. O bar era no térreo de um prédio cujo quarto andar era meu exílio.

- E aí Zé, muito movimento hoje? - eu pergunto ao meu amigo, o dono do bar.
- Nada! Com essa opressão toda pra esses lados, quase ninguém tem vindo aqui... Você e seu grupo um dia terão de pagar por todas as cervejas que eu não tenho vendido! - ele me respondeu. No fundo, eu sabia que ele estava brincando, e que apoiava qualquer tipo de ação/revolução tanto quanto eu. Respondi com uma piscadela, e subi as escadas até o quarto andar.

Abri a porta, e o vi. Ele era forte, íntegro, batalhava por uma mudança no sistema como nenhum de nós conseguia. Sempre sabia o que fazer, como agir, o que dizer, o que divulgar. Ele tinha tudo em suas mãos. Inclusive eu. Eu o amava. A segurança que ele transmitia, a confiança, mas principalmente os sonhos, me deixavam suspirando em meu quarto todas as noites. Mas é claro que eu não poderia dizer isso! Qualquer tipo de ligação entre os membros do MRN-03, do qual eu fazia parte, era expressamente proibido por ser perigoso para os membros.

- Maria? - ele me chamou pelo meu nome fictício ou pseudônimo.
- Diga, João. - João era, ironicamente, seu pseudônimo.

Ele se aproximou, e pude sentir seu olhar cair sobre meus ombros, que estavam machucados graças ao arame farpado pelo qual passei durante a fuga. Colocou sua mão direita em meu ombro direito. Uma mão firme, quente, segura. Me senti como se pudesse pegar sua mão e sair pra guerra, porque com ele, eu estaria segura. Uma lágrima brotou dos seus olhos, tirando-me do transe.

- Eu temo muito pela sua vida. Isso, em que estamos envolvidos, é tão perigoso... Sinto que você faria coisas grandiosas se esperasse tudo isso passar, e resolvesse trabalhar na imprensa ou num futuro governo. - Eu ouvi cada palavra. Sua voz de veludo, profunda, me deixava embriagada.
- Não se preocupe, João, eu sei me defender...
- Maria - ele me interrompeu -, se algo acontecer a você, eu nunca vou me perdoar.

Olhei pra ele com ternura e me perguntei se ele me amava como uma irmã mais nova ou como... amante.

Então eu soube.

Ele pegou minha mão, e me abraçou. E naquele momento, naquele milésimo de segundo, senti uma fagulha dentro de mim me dizendo que ele me amava. Que ele me amava com tanta ou mais intensidade do que eu. E que nós estávamos destinados a encarar juntos esse mundo, esse mundo tão frio, controlado e corrompido no qual nós vivemos... E eu também soube que a vida sempre seria uma aventura ao seu lado. E eu também soube que se eu morresse na próxima hora, dia, semana ou mês, eu morreria satisfeita de saber que eu encontrei meu amor verdadeiro antes de morrer.

Então ele me guiou até o sofá, ligou a TV, e começamos a assistir.

sábado, 2 de janeiro de 2010

O que poderia dar errado?

Eu simplesmente saí andando a esmo pela avenida, à espera de algo que eu sei que nunca poderia acontecer. Minhas esperanças se limitavam a desejar que eles voltassem... Pois não me restava mais nada no mundo. Eu só tinha a eles, e eles, a mim. Mas eles se foram. Minha vida se resumia a comer, beber, dormir, e passear por avenidas como esta, que me inspiravam um pouco de alegria... Ou o que eu achava ser alegria.

Era uma avenida bem movimentada... Sua continuação era uma estrada estadual, ou seja, o tráfego de carros era bem maior comparado com as outras avenidas da cidade. Obviamente, muitos acidentes aconteciam, por conseqüência de desamor à vida ou simples pressa. O fato é que as pessoas estavam tão concentradas em seus destinos, que não prestavam atenção ao caminho. Como se os fins justificassem os meios, quando eu achava o contrário.

Então eu me sentei num banco, num dos raros desocupados bancos daquela avenida, e olhei para o céu. Qualquer um enxergaria bonitos tons de azul, amarelo e nuances de branco no céu, mas não eu. Eu enxergava tudo em escala de cinza, pois nada mais tinha graça, depois da minha impossibilidade de ver os olhos verdes de minha mãe sorrindo para mim.

Foi quando eu os vi... uma família andando de mãos dadas, com roupas coloridas, sorrisos brilhantes, e mãos seguras e quentes. Eu queria, eu precisava me juntar a eles, me sentir parte de alguma coisa de novo, me sentir ali... Me levantei do bando, olhei para o céu, e, devagar, cheguei à sarjeta. Olhei para meus pés, a alguns centímetros acima da rua, e decidi tirar meus sapatos. O fiz. Um passo após o outro, fui andando em direção àquela família...

E encontrei a minha.

sábado, 28 de novembro de 2009

encontros

Olhei pela janela. Haviam muitos carros em volta.

Dentro dos carros, dos muitos carros, pessoas. Com seus destinos em mente, com sua agenda, programação, horário, responsabilidades, tarefas, e afazeres. E passa mais um carro, com mais uma pessoa. E outro, e outro. São tantas pessoas, e tantas situações diferentes em que elas vão se encontrar daí alguns minutos. Milhares de pessoas moram na mesma cidade que você. Milhares de pessoas vezes milhões de possibilidades de caminhos a seguir, escolas em que estudar, lugares para frequentar. As chances de desencontro são incalculáveis.

As de encontro então, nem se fala. É incrível pensar que, numa cidade tão grande, com infindáveis ruas e lugares e lojas e escolas, eu consiga achar pessoas tão certas. Não só amigos certos, mas conhecidos certos, com sorrisos e olhares reconfortantes. É engraçado como não paramos nunca pra pensar nisso.

E mais engraçado ainda é quando não nos damos conta de que a pessoa é a pessoa certa - e precisamos dar um giro de 360º pra perceber que tudo o que você queria estava na sua frente o tempo todo. Ou, no meu caso, na sala ao lado.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

o brilho nos olhos

Nenhuma tarde, noite, dia, madrugada ou lusco-fusco eram mais em vão. Todos os seus dias agoram tinham um propósito, um significado e um hino. Todas os seus minutos eram iluminadas por música, todas as suas ações eram preenchidas por graça, todas as suas palavras eram coloridas por melodia.

A mudança no seu humor, espírito e sorriso estavam bem aparentes. Estava mais doce, mais suportável, até mais bem-humorada. O sorriso agora sorria, acompanhado pelos olhos e pelo coração. Mas os olhos...

Novamente, aquele brilho nos olhos, que raras vezes fora conquistado. Ele caracteriza muita coisa. Ela estava feliz de novo. Mas uma felicidade não concreta - dotada de explicações. Algo que ela simplesmente sentia. A felicidade a que me refiro é o impulso que te leva a cantar de repente uma música bonita, o reflexo de sorrir a qualquer movimento, a vontade de gritar a todos pulmões sem nenhum motivo aparente.

E ela estava ali, vivendo, com seus olhos brilhando, com seu peito estufado, mas principalmente, com o coração preenchido.