sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

lavanda

r-r-r-r
r-r-r-r
r-r-r-r
r-r-r-r

Clarice acordou com toque do despertador quebrado. Tirou a máscara de dormir dos olhos; arrependeu-se - quanta claridade, seus olhos até doíam. Fazia um tempo desde a última vez que vira a luz do sol. Olhou para o lado - Marcelo já havia levantado. Olhou para o outro - lírios brancos. Que brancura. Que vida. Que perfume.

Que dor de cabeça.

Era seu aniversário.

Ouviu passos pelo corredor. Foram ficando cada vez mais altos e passaram reto pela porta de seu quarto; depois pararam e voltaram.
"Ah, ótimo! Você acordou". Ele foi até ela e a beijou na testa. Sua cabeça quase explodiu; por que ele falava tão alto? "Está se sentindo melhor? Sua família está chegando para o almoço. Apronte-se.". Falou isso segurando o queixo de Clarice e saiu, fechando a porta.

Que dor de cabeça.

Levantou-se de lado e colocou os pés no chão. Sentiu um arrepio ao sentir o piso frio em vez de suas pantufas. Tateou-o um pouco até achá-las e as pôs. Abriu o armário, não se sentiu atraída por aquelas roupas, não se sentiu disposta para trocar-se, e, por fim, colocou o roupão por cima da roupa de dormir. Mas que claridade!, o sol emitia tanta luz assim sempre? Como é possível não se incomodar?
Ela pensara, depois de ontem, que tinha se libertado. Ela pensara que deixar o sangue escorrer um pouco fosse fazer seus fantasmas escorrerem para fora de seu corpo com ele. Olhar o líquido espesso e vermelho descer por seus dedos e gotejar no piso branco do banheiro fora relaxante, a sensação de transbordamento acabou. Sentiu-se com a cabeça leve, e por um momento não pensou em mais nada além da própria respiração. Se é assim que a morte é, então era realmente o que ela achava. Até que tudo apagou. Acordou em sua cama, com curativos no braço. A sensação de leveza foi creditada à falta de sangue e de oxigenação no cérebro; a preocupação com a respiração foi definida como instinto de sobrevivência.
Antes de descer e ter que lidar com tudo aquilo, tentando ignorar seu incômodo com a luz do sol, Clarice foi até a janela e abriu-a. Foi invadida por um cheiro de lavanda que conseguiu alcançar os cantos mais sombrios e escondidos de sua memória - memória de tempos em que ela fora feliz, sem tormentos, sem dúvidas, só a certeza de uma vida pela frente. Argh, que vontade de vomitar. Felicidade - que raiva, que ódio. Por que ela tivera sua dose de felicidade? Tudo seria mais fácil se ela não tivesse experimentado de sua essência. Assim, ela não saberia que é infeliz. Assim, não escutaria em sua cabeça um eterno papagaio com transtorno de ansiedade dizendo "braaah, você é infeliz, braaah, você é miserável".
O sol queimava sua pele. A luz insistia em tentar penetrá-la. Mas Clarice não queria deixar.
De um instante pra outro, uma corrente de ar decidiu entrar pela janela, trazendo consigo aroma das flores do jardim de Clarice, da hortelã que Marcelo plantara, do bolo de chocolate sendo feito na cozinha, além de ter carregado algumas folhas secas para o parapeito da janela. Olhando aquelas folhas sendo carregadas pelo vento, sentiu um impulso de misturar-se a elas, de se tornar também uma folha seca, cujo rumo é decidido apenas pelo vento; sentiu um impulso de fundir-se àquele vazio, àquela ausência. Fechou os olhos. Parece que, ao fazê-lo, perdeu um pouco da sensibilidade ao sol, à luz, e sua pele parou de arder. A luz, as folhas, a hortelã, a lavanda. A calda do bolo de chocolate. Murmurava palavras incompreensíveis para si mesma, ou talvez para o vento levar aos ouvidos de alguém.

"Clarice, você está me ouvindo?". Foi trazida de volta à real realidade pelas mãos de Marcelo em seus ombros. "Estou falando com você há certo tempo, sabia?". Ela tinha o olhar confuso, mas balançou a cabeça. "Você nem se vestiu ainda, Clarice. Vamos, eu a ajudo."
"Marcelo...", sua voz saiu como um sussurro. Ela sentiu que teve de fazer um esforço muito grande para sair de seu próprio mundo e conseguir pronunciar o nome de seu marido. Foi como se ela tivesse de emergir muitos metros para chegar à superfície da água, onde se encontra a realidade. Ele parou e encarou-a, incentivando-a a continuar falando. Clarice permaneceu ali, de boca aberta, sem saber por que razão abrira a boca - ela sabia que queria falar com ele, mas não sabia sobre o quê, nem por quê. "Eu... eu queria..."
"Sim, querida?". Essa palavra a desestruturou completamente. Sentiu-se muito culpada, por qualquer motivo, e abaixou a cabeça, para encarar os próprios pés.
"...queria agradecer-lhe pelas flores. Sei que sabe que são minhas preferidas. Obrigada pela demonstração de atenção.". E tentou sorrir.
Ele retribuiu a ação, beijou-lhe a testa e abriu o armário. "É seu aniversário de trinta e cinco anos, você precisa estar bonita. E não se preocupe, Clara já está pronta."
Passos suaves e ritmados que andavam pelo corredor pararam à porta. "Chamou, papai? Ouvi meu nome.". A menina tinha grandes olhos castanhos amendoados. "Está melhor, mamãe? Fiz um desenho pra você."
Ao olhar para aquela menina, aquele projeto de indivíduo, aquele pedaço dela mesma, a vontade de fundir-se às folhas esvaiu-se, e tudo o que Clarice queria era fazê-la feliz, fazê-la tão feliz que ela nunca precisaria ter lavanda plantada no jardim. Mas não se sentia capaz pra fazê-lo. Na verdade, sabia que não era capaz. Nem sua filha, nem seu marido saberiam o que é felicidade estando a seu lado. Se eles fossem livres, talvez pudessem aproveitar a luz do sol e o cheiro da lavanda.

Mas essa dor de cabeça...

..continua

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

now you say you're sorry

O delegado abriu a porta da sala de interrogatório. Vitória podia ver seu vulto, com os ombros pesados e os punhos cerrados.

"Eu tinha de ver com meus próprios olhos. O que você está fazendo aqui, Vitória? Como foi deixar isso acontecer?"
"O quê, Paulo? Ele quis se matar. A vida é dele, quem sou eu pra impedir?"
"Você é uma médica, isso que você é! Agora vai ter de enfrentar uma acusação de homicídio doloso, porque você foi negligente!"
"Se eu não fosse médica, eu estaria passando por isso?"
"Provavelmente não"
"Por que não? Qualquer um sabe que cicuta é veneno, e que veneno mata."
"Mas você é médica e podia - aliás, devia ter prestado socorro."
"Prestar socorro? Ele não pediu socorro!"
"Vítimas de acidentes também não pedem socorro"
"Vítimas de acidente não são suicidas, mentalmente instáveis, totalmente doentes!"
"Olha, Vitória, a questão é que é seu dever prestar ajuda a quem visivelmente se encontra na iminência da morte."
"Eu acho que é meu dever ajudar a quem pediu ajuda, ou a quem está à beira da morte por culpa de outra pessoa que não elas mesmas. Não é meu dever impedir um suicida de realizar seu desejo."
"Se ele era totalmente doente, então ele não estava em pleno juízo para tomar decisões, logo, não era responsável pelas consequências de seus atos. Sendo a consequência, bem, a morte, e a responsabilidade não é dele, então de quem é?
"Não sei, de deus?, por tê-lo colocado justo no meu caminho?"
"Sua, Vitória. Sua. Muito sua, porque você sabia de ambas a condição psicológica do homem e suas intenções quando ele foi à sua casa. Então eu  não diria que você foi apenas negligente... você foi egoísta. Desumana."

Vitória poderia ter saído da cadeira num pulo e parado no pescoço do delegado perante aquela afirmação, mas decidiu manter-se calma, no aparente controle da situação. Afinal, não se combate ignorância com ignorância.

"Não, Paulo. O que aconteceu foi que eu fiz um favor a mim, a ele, à humanidade. Ele estava ficando mais louco do que já era e estava me deixando louca também. E se o suicídio foi calculado ou foi puro impulso não faz diferença - ele não precisava da ajuda da minha especialidade médica, mas sim de um psiquiatra. Não havia nada que eu pudesse fazer. Se eu o tivesse impedido de tomar cicuta, ele provavelmente teria tomado alguma atitude agressiva para comigo, começaria um solilóquio interminável, eu o expulsaria da minha casa, ele ficaria atordoado com minha atitude e acabaria sendo atropelado saindo do meu prédio."
"Vitória, nada disso importa. Não existe 'se' em um julgamento. Não existe 'se' quando se trata de morte. O fato é que um homem se matou na sua frente, no seu apartamento, no apartamento de uma médica, e sua falta de interferência equivale ao consentimento e, portanto, à negligência."
"Se eu tivesse interferido e o impedido de se matar, eu estaria cerceando sua liberdade."
"O quê?"
"Sim. Pois o corpo era dele e eu não tinha o direito de dizer o que ele deveria ou não deveria fazer."
"Mas ele era doente mental, Vitória! O corpo não era mais dele, por assim dizer!"
"Então era de quem? Quem deveria tomar as decisões por ele, se ele mesmo não podia fazê-lo?!"
"Eu não sei, Vitória. Eu não sei. E não é minha obrigação saber. Eu só sei, e você também deveria aceitar esse fato, que você não agiu de acordo com seus deveres, e, portanto, vai ser julgada por isso."
"E eu vou refutar isso até o fim, porque ainda acho que a vida é dele e ele faz o que quiser com ela."
"Você está comprando briga"
"Pago à vista"

Paulo, o delegado, saiu da sala batendo a porta atrás de si. Vitória, sabendo que estava sendo observada através daquele espelho, tentava, com todas as fibras de seu ser, conter o impulso de gritar frustração perante aquilo tudo. Ela queria gritar que o canalha merecia morrer, que tudo seria melhor agora sem ele, que agora ela poderia viver de verdade, sem um encosto, sem um fardo, sem um medo constante; mas conteve-se. Respirou fundo, porque era a única coisa que ela podia fazer. Respirar.
Por fim, levantou-se, bateu com a ponta dos dedos duas vezes no espelho, "tenho direito a voltar pra casa enquanto espero, bem, por tudo?"
A porta foi aberta, "tem sim, pode vir comigo".

Entrou na viatura da polícia e foi conduzida até seu apartamento. Não havia mais viatura nenhuma lá, eles provavelmente já tinham levado o corpo embora. Seis horas da manhã, o sol estava nascendo - isso deveria significar alguma coisa? Não, Vitória estava cansada de tentar achar significado pra tudo. Melhor tentar dormir, hoje era dia de plantão.

...cry me a river, cry me a river, I cried a river over you

- FIM -

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

told me love was too plebeian


(continuação)

Remember, I remember all that you said: told me love was too plebeian, told me you were through with me

"Eu vou fazer isso, sabe. Ninguém pode me impedir. Nem você."
"Vá em frente, então."
"Eu falo sério."
"Eu não ligo."
"Bom, eu não esperava que você ligasse. Eu não esperava reação nenhuma de você... porque eu também não ligo - não ligo pra você, Vitória. Nunca liguei. Estive com você por distração. Quero dizer, você realmente acha que eu alguma vez a amei? Por favor, Vitória, um homem como eu amar um projeto de mulher feito você? Amor... amor é pra pessoas carentes, inseguras, que necessitam o tempo todo de aprovação. Eu não preciso disso. Nunca precisei."
"Que bom, cara. Que bom. Assim, vou me sentir menos culpada de ter deixado você se matar na minha frente."
Ele piscou duas vezes. Talvez ele não tivesse considerado a possibilidade de que ela realmente não se importava mais com ele. Seu braço direito, antes esticado para a frente, mostrando frascos na mão - num deles lia-se cicuta -, caiu ao lado do corpo. Cerrou o punho esquerdo. Fechou a boca, antes aberta de espanto.
"Então é isso, Vitória?" - e seu olhar ganhou repetina ternura. Agora que não estava mais embriagada de paixão, compreensão e até certa pena, ela podia ver o quanto ele podia ser manipulador, cruel, mesquinho. Como podia fingir tão bem aquelas emoções? Como conseguia transfigurar seu rosto do nojo, da ojeriza, para a ternura, a doçura?


and now you say you love me. well, just to prove you do, come on and cry me a river, cry me a river... I cried a river over you

"Vitória, olha pra mim. Vitória, você não me ama mesmo?"
"Não. Você me dá nojo. Me dá pena. Quero distância."
"Mas você já me amou"
"Talvez"
"Talvez?", ele agia como se tivesse levado um tapa no rosto. "Talvez? Você não me amou naquele dia em que eu te trouxe aquelas margaridas? Nem no dia em que te fiz uma surpresa no hospital e fomos viajar? Nem no dia em que mandei entregar aqui no seu apartamento aquela cesta de café da manhã? Nem mesmo, Vitória, naquele dia de chuva em que fomos ao parque e eu te empurrei no balanço?"
Mas que ótimo ator. Ela não podia negar que quase, quase se deixou balançar por aquelas palavras. Mas respirou fundo e tentou se lembrar de quem ele realmente era.
"Sabe, você devia ter tentado carreira artística."
O semblante dele se desfez. Voltou aquela expressão transtornada.
"Então está certo. Não sei por que perdi meu tempo vindo aqui."
"Também não sei. Estou ocupada. Você conhece a saída, certo?", e virou de costas. Enquanto andava da sala de televisão até seu quarto, ouviu um baque surdo e inferiu que ele virara o frasco de cicuta. Sentou-se na cama, lixou as unhas. E foi até a varanda. Jogou o maço de cigarros varanda abaixo, e lá ficou, por tempo indeterminado, que pode ter sido um minuto ou uma hora, ela não saberia dizer.

Quanto barulho. Agora não eram mais só as buzinas; parecia haver um grupo andando de forma muito pesada no corredor de seu andar. Passos ritmados. Seria a polícia?
Batidas na porta. "Vitória Fragoso, abra a porta. É a polícia.". Ela andou tranquilamente até a porta, passando cuidadosamente por cima do corpo estendido no chão, e a abriu. "Posso ajudar, policiais?"
"Uma vizinha ligou, disse ter ouvido discussões e ameaça de suicídio. Viemos verificar a veracidade da den..." e então o olhar do policial recaiu sobre a figura no chão, rodeada de vômito e frascos.
"Ele se suicidou, senhor. Não pude fazer nada. Pode verificar - não há digitais minhas no frasco"
"Mesmo assim, pedimos que venha conosco. Vamos pegar suas digitais, amostras das substâncias... conhece seu direito de ficar calada, tudo o que disser pode e será usado contra você."
"Mas sou inocente até que se prove o contrário"
"Sim"
"Muito bem, então. Prenda-me.". Apresentou os pulsos. O policial, confuso com sua calma, algemou-a.
"Ramos, chame a perícia. Fique aqui. Vou levá-la à delegacia, lá vamos ver o que podemos fazer". Vitória olhou o corpo pela última vez. Quem iria ao funeral? Não tinha família. Amigos? Dificilmente. Ele morreria sozinho. Por mais sádico que isso parecesse, Vitória contentou-se com esse pensamento enquanto era empurrada para dentro da viatura.

(continua)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

cry me a river

(pra ser lido ao som desta música)

Now you say you're lonely; you cry the whole night through

Vitória olhava para aquele corpo inerte do outro lado do cômodo. Não sentia remorso, muito menos culpa. Sentia pena. Pena dele, do que ele tinha se tornado, e pena dela, e do que ela tinha permitido que fizessem com ela. Bufou. Abriu a porta de correr que dava para a varanda; o quarto começava a ficar sufocante. Pegou o maço de cigarros e o celular e foi se sentar na varanda. Colocou uma seleção de jazz para tocar e, contrariando as expectativas do leitor, atirou o maço pela tela de proteção da varanda. Observou enquanto ele caía por 15 andares. Ela já não mais precisaria dele - não havia mais ansiedade para ser tratada com vícios.

Well, you can cry me a river, cry me a river... I cried a river over you

Curioso. Poucos  minutos antes, ele chorava e repetia as mesmas palavras que disse quando se conheceram.
"Eu vou fazer isso, sabe. Ninguém pode me impedir. Nem você."
Na situação do primeiro encontro, Vitória trabalhava como paramédica e impedira que ele cometesse suicídio, por overdose de antidepressivos, após um surto psicótico. Ou seja, tendo como base a forma como se conheceram, era de se esperar que Vitória tivesse entendido que o indivíduo era absolutamente instável e maníaco, mas não, leitor. Ele apareceu no hospital em que ela trabalhava, duas semanas depois, com flores em uma mão e um documento atestando sua plena capacidade mental em outra. Agradeceu à moça que salvou sua vida por tê-lo feito e a convidou para jantar. Certo, ela disse, que vamos comer? Qualquer coisa de sua preferência que não leve antidepressivos na receita, ele respondeu, e assim começou a (in?)felizmente curta história conturbada que acabou com um corpo inerte num apartamento de cobertura do Rio de Janeiro.
De mentalmente capaz ele não tinha nem nunca teve nada. Sempre surtando, sempre em crise, sempre recusando ajuda, sempre jogando a responsabilidade pelas lágrimas de Vitória sobre sua condição "complicada". E ela tentava entender, tentava acreditar. Ela era formada em medicina e lembrava-se de ter visitado alguns hospitais psiquiátricos, sabia como era triste a situação de pacientes "complicados". Por isso tentava ser complacente. Por isso derramou rios de lágrimas por ele.

Now you say you're sorry for bein' so untrue... well, you can cry me a river, cry me a river... I cried a river over you

Entre vícios e traições, mentiras e desculpas, rosas e chocolates, a relação dos dois se desenvolvia. Nos primeiros meses, ela foi compreensiva. Depois ficou apreensiva. Ele começou a ficar violento. Vitória temia que, se ela pusesse um fim à relação deles, ele iria atrás dela atrás de explicações e voltaria pra casa com um mandado de prisão por homicídio. Depois tornou-se apática. Tinha seus próprios problemas no trabalho e no mestrado e cansou-se de ser a babá de alguém. E foi então que ele, de violento, regrediu; começou a ficar dependente demais. Vivia doente, para que ela dele cuidasse - Vitória não sabe dizer quando a linha entre fingimento e sintomas reais, causados por ele mesmo, foi cruzada. No fundo, ela não se importava. Talvez esse fosse o jeito doido dele de pedir desculpas pelo comportamento antigo, talvez fosse sua forma de mostrar que queria atenção. Tudo de forma bem doentia. Mas nunca verbalizou um sentimento sequer. Na verdade, a primeira e penúltima vez que Vitória o viu chorar foi quando ele estava prestes a se matar.
E a última foi quando ele de fato o fez.
Céus, qual era o motivo de tantas buzinas às três horas da manhã?!

You drove me (nearly drove me) out of my head, while you never shed a tear

(continua)

domingo, 23 de dezembro de 2012

2012, 2013

Cara, 23 de dezembro de 2012.
Não sei o que me deu pra escrever aqui. Acho que saudades. Culpa por não ter escrito durante tanto tempo. Vontade de escrever pensamentos regurgitados sem precisar colocá-los em ordem. Nostalgia de ouvir o barulho do bater incessante no teclado .
Mas eu gosto de fazer um balanço de final de ano.
Esse ano foi bem diferente do que eu esperava.
Conheci pessoas novas, entre elas, uma que me fez muito bem. Fiz novas amizades, fortaleci outras mais antigas. Surtei muito. Decidi o que queria prestar, mudei de ideia, me decidi de novo, fiz inscrição, não dava mais pra voltar atrás. Ultrapassei meus limites físico-psicológicos ao estudar. Consegui achar certo tempo pra diversão. Não consegui achar tanto tempo para leitura. Não consegui achar fôlego pra me distrair a ponto de criar uma estória e postá-la aqui, apesar de constantemente inventar situações, inícios de contos, personagens, paisagens, momentos. Decepcionei-me comigo mesma quanto a isso. Amadureci muito. Mudei de opinião algumas vezes, conheci outros pontos de vista, identifiquei-me com uma filosofia ou outra. Percebi como algumas opiniões vêm da maturidade. Percebi como algumas atitudes vêm da maturidade. Vez ou outra quis desistir. Senti falta de não viver em função de algo tão prático. Senti falta do lirismo. Fiquei (e estou) de saco cheio de ciências. Senti falta de ter um momento em que não precisasse fazer nada e pudesse só olhar pro céu. Senti falta do cheiro da chuva. Senti falta de nadar. Senti saudades do frio. Viajei. Sinto falta do Rio de Janeiro. Frustrei-me mais com Ribeirão Preto. Frustrei-me mais com as pessoas de Ribeirão Preto. Percebi que Ribeirão Preto é assim e não tem jeito. Pintei o cabelo diversas vezes. Mudei completamente de estilo de roupa. Cansei de ser chamada de "adolescente" e de não ser levada a sério. Cansei dessas pessoas que subestimam as outras por estas não terem graduação ou idade. Cansei de gente que acha que entende de literatura, cinema ou filosofia por ter lido um livro, visto um filme, lido um ensaio. Cansei de muita coisa, percebi que minha revolta não é evanescente. Quis dormir.

Quero dormir.

Quero paz. Não paz sinônimo de prosperidade econômica ou afetiva, mas paz de saber que estou no caminho certo, que vai dar tudo certo, que eu vou conseguir, que eu não vou estar sozinha, e que não vai me prejudicar se eu quiser tirar um dia pra deitar no quintal de casa e ficar olhando as nuvens indo de um lado a outro.
Quero viver por mim, não pela sociedade.
Quero conhecer (mais) gente que me aceite como sou, revoltada, chata, nerd e deslocada.
Quero ler mais.
Quero ser menos egoísta, menos impulsiva, menos dramática, menos ansiosa.
Quero passar no vestibular, pra que eu não precise passar por tudo o que eu descrevi de novo.

Quero voltar a escrever. Quero ter tempo pra voltar a escrever. Quero voltar a ter disposição pra voltar a escrever. Quero não precisar ter de escrever mais nenhuma dissertação na minha vida.

Eu preciso, preciso muito resgatar pedacinhos de mim que foram fragmentados e empoeirados ao longo do ano. Porque precisar decorar zoologia animal fez anular a bruna espontânea. Porque decorar a lei dos cossenos fez anular a bruna lírica. Porque decorar a geografia da China fez anular a bruna inventiva, imaginativa. Porque esse ano me estragou completamente.

Não respirei. Respira. Respiro.

terça-feira, 19 de junho de 2012

escolhas

Ainda é cedo, amor... mal começaste a conhecer a vida...

Ana e Caio prosseguiram andando pelas estreitas ruas não-turísticas de Paris. Estar lá era melhor do que ela pensara, pois estava realmente acontecendo. A realidade é sempre melhor do que o melhor dos sonhos. Durante o passeio, passaram por muitos jardins; estar cercada por flores e não mais por cana certamente era um sentimento interessante.
Ela observava os nativos passeando pelas ruas com expressões totalmente apáticas. Triste pensar que, quando o belo é cotidiano, ele deixa de ser belo. Viver em uma cidade tão histórica, tão bonita, tão completa e ignorar esse fato por simplesmente estar em contato com ele todos os dias. Claro que, mais cedo ou mais tarde, tudo cai na rotina, tudo torna-se convencional - mas por isso devemos deixar de apreciar o que esse "tudo" tem pra oferecer, apresentar, emocionar?
Se esses parisienses fossem morar alguns dias em São Paulo, "selva de pedra" e asfalto, cinza, muito cinza e fria, certamente sentiriam falta de Paris.
Engraçado isso, de as pessoas precisarem perder para valorizar. Como se só a ausência demonstrasse que era pra haver algo ali. A permanência de algo em nossas vidas acaba virando rotina, acostumamo-nos com a rotina e passamos, egocentricamente, a acreditar que, se algo mudar, não fará diferença. Mas faz. Sempre faz.

"Olha só, um hostel"

Depois de algumas horas andando, Ana e Caio encontraram um lugar para ficar. Não era cinco estrelas, não ficava na avenida mais bonita da cidade, não era o prédio mais bonito da cidade, o caminho que levava até lá não era o mais fácil de se encontrar - e menos fácil e atrativo ainda de se seguir. Mas era o hostel que eles queriam, de que eles precisavam, e que eles podiam pagar.

Muitos fatores definem nossas escolhas. Nossos valores, nossas necessidades, nossas limitações - e o  que era mais triste: havia uma tendência atual muito crescente de se fazer escolhas baseando-se no número de empecilhos entre você e sua meta, sendo esta geralmente o sucesso (econômico, acadêmico, existencial). Esses empecilhos podem ser o tempo, a quantidade de estudo ou a quantidade de habilidade necessários para se atingir a meta. E quanto maior cada empecilho, menos esse caminho é escolhido - e mais à margem da sociedade em questão ele vai ficando. Não é à toa que pouquíssimas pessoas escolhem a docência - estudo demais, tempo demais, suor demais investido em algo que não é socialmente reconhecido como deveria ser. E também não é à toa que a procura pela participação em reality shows é tão grande: fama e dinheiro fáceis, rápidos e a qualquer custo, quem não quer?

Mas afinal o hostel, por dentro, não era ruim. Era confortável, caseiro e tinha cheiro de café. Ana e Caio logo sentiram que fizeram a escolha certa, e que era ali mesmo que deveriam ficar. Descobriram que dividiriam o quarto com outras três pessoas: um francês, de Marseille, uma iraniana, de Teerã, e um japonês, de Osaka. Nunca Ana tinha ficado em um só quarto com três culturas, ideologias e etnias diferentes. Nenhum dos três estava no quarto - compreensível, por serem quatro horas da tarde.
Caio, como de costume, levara mais livros do que roupas na mochila, e abriu um aleatório assim que terminaram de se acomodar.

Ana olhava pra Caio e se perguntava por que demorou tanto para conhecê-lo. Gostava muito de tudo o que a entrada de Caio proporcionara em sua vida - passou a se entender mais, a refletir mais, a analisar-se mais. Ele era muito parecido com ela, inclusive nos aspectos negativos. Eles aprendiam um com o outro e iam se reconstruindo em cima das bases que construíam juntos.

...já anuncias a hora de partida sem saber mesmo o rumo que irás tomar...

(continua)

terça-feira, 12 de junho de 2012

café de flores

Deixe-me ir, preciso andar; vou por aí a procurar... rir pra não chorar.


Outro aeroporto. Aquela multidão. Ficar ali, em pé, desafiando o fluxo de movimento das pessoas com o ato de simplesmente ficar parado, estático, é algo engraçado de se fazer. Ficar ali, em pé, torna totalmente compreensível e palpável a ideia de se estar sozinho mesmo quando rodeado de centenas de indivíduos.


Ana sentiu um arrepio.


Detestava aquele sentimento. Já o havia sentido muitas vezes, mais do que o suficiente pra entender que não é prudente fazer sua felicidade depender de outras pessoas.
Na verdade, estar em meio a uma multidão aflorava muitos sentimentos contrários em Ana. Ela gostava muito de andar pela rua, olhar para as outras pessoas e imaginar a história de suas vidas. Imaginar por quais problemas elas passam, o que elas estão pensando naquele momento. Essa atividade a fazia se sentir menos melancólica - Ana tinha essa tendência a aumentar muito a proporção de seus problemas, e imaginar que outras pessoas também têm tantos problemas quanto ela levava-a de volta à realidade. É como subir ao topo de uma montanha: os problemas de verdade, os realmente grandes, podem ainda ser vistos de lá de cima, e todo o resto perde importância. Sair andando pela rua, também, sempre fora uma prática muito produtiva, muito frutífera e inspiradora - algumas das filosofias mais complexas de Ana surgiram enquanto ela andava o quarteirão da Lafaiete até a Prudente de Morais, um quarteirão com nada que pudesse inspirar pensamento algum, mas as melhores ideias e contos sempre vêm em momentos de ócio e distração.
Por outro lado, Ana podia sentir-se extremamente sozinha enquanto cercada por tanta gente. Perceber que se é apenas mais um para alguns é reconfortante, mas, para Ana, é desesperador. Aquele sentimento de impotência. O nervosismo que nos toma conta, a vontade que dá de berrar "parem de andar, parem, sentem-se, respirem!", aquele caos, a turbulência... Ana tinha uma pastora extremamente bucólica dentro de si, por mais que odiasse reconhecê-lo. E, principalmente nos últimos meses, a vontade de fugir para um campo de clima temperado só vinha aumentando.


Pegaram um táxi até o centro da cidade. Como levavam pouca bagagem, decidiram andar e reconhecer se Paris era tudo aquilo de que sempre tinham ouvido falar.
"Você fez reserva em algum hotel?"
"Não. Você fez?"
"Não"
"Que faremos?"
"Andar por aí, respirar, tomar um café, e parar no primeiro hostel com que nos depararmos"
Isso podia às vezes atrapalhar, mas as espontaneidade e despreocupação de Caio vinham em bom momento naquela situação. A última coisa de que Ana precisava era de um neurótico, estressado, que não saberia lidar com a situação de simplesmente não ter uma cama garantida quando a noite caísse.


Era primavera em Paris. Alguns prefeririam passar um Outono em Nova Iorque, e lá estava Ana, na primavera em Paris.


Eles começaram a andar. Talvez fosse por pura frescurite, por puro placebo, porque cidades são cidades em qualquer lugar do mundo, e nem o trânsito nem as pessoas seriam a diferença entre Paris e São Paulo - mas Ana sentia que havia algo mais. Algo que não pode ser tocado. Talvez fosse pela arquitetura tão característica da cidade, ou pelo fato de que tantos eventos já se passaram lá historicamente, tantos grandes filósofos já se sentaram naqueles cafés, tantas ideias já circularam por aquelas ruas que, nossa. Passar pelo arco do Triunfo, pela torre Eiffel, pelo Café des Flores, quem sou eu perto dessa cidade?
Andaram. E andaram. Que é o que precisa ser feito para conhecer a cidade a fundo. Andar por ela, conhecer suas ruas tortas, seus prédios, suas galerias, seus jardins. Quem anda só de táxi ou de ônibus não conhece a essência da cidade nem de perto.
Ana, num sobressalto, parou de andar.
"O que foi, Ana?"
Ela encarou a extensão da rua à frente de si.
"Tem uma moça, andando de bicicleta, com um mochila cheia de jornais, passando por aqui", ela começou a falar, "que fica subindo e descendo as ruas que cortam a rua em que estamos"
"E qual o problema?"
"Isso está me deixando nervosa"
"Por quê?"
"Porque por mais que nós andemos, ela sempre está na nossa frente, e isso me deixa nervosa"
Caio encarou-a meio sem entender se Ana estava falando alegoricamente ou se aquele era um dos seus ataques de neurose. Ana era assim, costumava falar em metáforas e fazer analogias de seus próprios sentimentos, mas outras vezes era só um ataque de histeria.
"Mas o pior", continuou Ana, "é que eu sei que vou me sentir estranha quando nós a alcançarmos, pois agora me acostumei a sempre estar distante dela. Quando o encontro chegar, e chegará, fatidicamente, bem..."
"Então você vai encará-la, olhos nos olhos, e comprar um jornal."

(continua)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

quero nascer, quero viver

Ouvir os pássaros cantar; eu quero nascer, quero viver.

Ela levava em sua mochila algumas poucas trocas de roupa, dois livros, um caderninho e música. Além de documentos, dinheiro e toda a tralha burocrática de que se necessita quando se viaja ao exterior, é claro. Mas ela não precisa de muito mais do que isso. O mais importante levava consigo, intocável - a vontade de fugir, que faria a viagem ser muito bem aproveitada.
Entre multidões estéreis, finalmente ele apareceu.
"Demorei?"
"Demorou"
"Mas pelo menos apareci"
"Em todos os sentidos"
Trocaram sorrisos. Ana e Caio se conheciam há pouco tempo, mas - e digo isso da forma mais clichê e piegas possível - identificaram-se um no outro logo no primeiro contato. Extemporaneidade e gênio difícil eram suas principais semelhanças. Digamos que, aprendendo a lidar um com o outro, aprenderam a lidar consigo mesmos - e poucas coisas são mais eficientes para se alcançar qualquer objetivo do que aprender a lidar consigo mesmo, aceitar-se, enxergar-se, conhecer-se.
Ana levantou-se e, ao lado de Caio, foi andando até a plataforma de embarque.
"Você tem certeza, Ana?"
"Por que as pessoas ficam me perguntando se eu tenho certeza ou não? Eu sei o que eu quero, e eu quero ir embora daqui, dar um tempo de tudo, sentir-me viva de novo, e se pra isso eu preciso ir até Paris é isso que eu vou fazer"
"Tá certo, então vamos"
"E você?"
"Eu o quê?"
"Tem certeza do que está fazendo?"
"Certeza do quê?"
"De que quer ir comigo"
"De tudo o que vem acontecendo comigo, uma das minhas únicas certezas é que eu quero estar com você"
"Hum, ok, certo. Boa resposta."
Ana suspirou. Engraçado isso, gostar de alguém.
Sentir-se viva de novo. Ana tinha dito isso quase sem pensar, mas analisando bem, era realmente este o problema: há tempos ela não se sentia viva; sentia-se apenas existente. Sim, pois entre viver e existir há uma grande distância filosófica e também prática. Viver exige muito mais coragem. Viver é fazer escolhas e assumir suas consequências. Viver é sentir. Viver é escolher seu próprio rumo (claro que dentro de certas limitações; ninguém é integralmente livre). Pois se nós não escolhermos nosso próprio rumo, quem o fará? A sociedade? Nossos pais? Nossos amigos? Se havia algo que tirava Ana de órbita era a sombra do pensamento de que ela não estava no controle de sua vida. Pobre menina idealista.
Podia ser idealista ideologicamente, mas no âmbito das relações pessoais as ideias tomavam outro rumo. Sua filosofia era de não esperar nada das pessoas -  nem atitudes boas, nem ruins. Ela simplesmente não esperava ser surpreendida por ninguém. Isso era, muitas vezes, ruim, pois fazia Ana subestimar indivíduos que acabam se mostrando muito, digamos, dignos de sua afeição. Mas, por outro lado, Ana preservou-se de muitas decepções agindo assim.
Já estavam procurando seus lugares no avião. Como se praxe, Ana sentara-se junto à janela, para poder, sem perturbar mais ninguém, olhar o quanto quisesse para o mar, o céu, a escuridão.
"Olha só", disse Caio, apontando para a tela de computador no assento da frente. "Frank Sinatra"
"Tá, mas quando estivermos chegando, vou colocar Piaf"
"Exatamente o que eu ia falar"
"Ia nada"
Caio bufou, e Ana riu.

A inexplicável sensação de estar sobrevoando o mar, e nada mais importar além do próprio ato de viajar. As paisagens vistas, as emoções sentidas, as reflexões e confabulações, e, é claro, o destino.
Porque viver é isso. Não se pode chegar ao destino final sem se ter aproveitado a viagem. Qual a vantagem de viajar de janelas fechadas, não enxergando mais nada, porque nada mais importa do que o final? Da mesma forma, por que viajar só por viajar, só para curtir a paisagem, sentir o sol no rosto e aproveitar a calma de não se ter compromisso nenhum até se chegar ao destino? O ato completo de viajar engloba tudo: aproveitar a viagem, não se deixar cegar por um só objetivo, permitindo-se olhar para os outros lados e ver inclusive outros destinos que poderia ser alcançados; mas não perder de foco o objetivo final - que, depois de uma viagem bem aproveitada, será infinitamente mais valorizado.
E isso, isso era o que estava faltando; viver pelo simples ato de viver - não por trabalhar, enriquecer, ter de se sustentar economicamente, apenas por viver, aproveitar a viagem.
O engraçado é que as pessoas não sabem viver. Quando não têm compromissos, perde-se a noção de vida. Domingos são o maior exemplo disso. O fenômeno do Ócio Dominical é justamente aquele pensar "não tenho que estudar, trabalhar, fazer contas, nada - o que eu faço comigo mesmo?", e perde-se a noção do quando parar, pensar e respirar fundo é bom. Ler um livro e saboreá-lo. Ouvir uma música e internalizá-la. Sentar na grama e perceber todo o organismo que o circunda.
Por isso Ana gostava de praias. Nada melhor do que sentar na areia e passar horas ouvindo o som do mar.

"Ei, acorda, nós chegamos"

(continua)

domingo, 3 de junho de 2012

anacronismo ambulante

Deixe-me ir, preciso andar; vou por aí a procurar... rir pra não chorar.

Ana estava sentada no chão, ao lado de uma mochila e uma bolsa pequenas, do aeroporto de Congonhas. Ela encarava as passagens recém-compradas e absurdamente caras para Paris. Ela não pensara racionalmente sobre o assunto; sabia que, se o fizesse, ela mudaria de ideia e voltaria para sua vida - e isso estava fora de questão.
Quem a visse de fora prontamente a consideraria uma menina mimada, insatisfeita com a própria insatisfação e inventando mágoa porque a própria vida nunca proporcionou-lhe nenhuma. Mas a verdade é que Ana era um anacronismo ambulante e tinha consciência de sua condição desde, bem, sempre. É ruim sentir-se extemporâneo, principalmente quando o próprio motivo de Ana sentir-se extemporânea é extemporâneo. Entende? Ana adorava pensar, e pensar nos torna tristes, e ninguém gosta de gente triste. Mas o pensar era tão intrínseco, tão inerente a ela; não tinha como combater as náuseas que constantemente a assolavam.
As pessoas passavam e a encaravam. Ela virava os olhos; já se acostumara a olhares curiosos de pessoas pequenas.
Paris. Por que Paris? Fora uma decisão quase subconsciente. Paris é história e filosofia em seu estado mais puro, é beleza, é lirismo, é tudo de que Ana precisava. Precisava dar um rumo para sua própria história, um sentido para seu próprio viver. Ah, sim. Isso também causaria estranhamento. "Por que isso, Ana?", as pessoas diriam. "Você já tem um apartamento, um estágio bem remunerado e um carro, de que mais precisa?". De muita coisa. Do essencial.
Cadê o Caio?
Seu celular não parava de vibrar. "Marina ligando". Recusar chamada. Hoje era a festa de aniversário surpresa de uma colega sua, e Ana tinha confirmado presença. Marina, a organizadora, provavelmente estava ligando para dar uma bronca em Ana, chamá-la de egoísta e mandá-la ir para a festa naquele instante. Não pelo fato de que Ana era querida, mas porque festas só têm graça se há vários convidados.
Colegas.
Ana tivera muitos colegas em sua vida. No colegial, na faculdade, no estágio e agora no curso preparatório. 22 anos, três escolas depois, quatro ambientes de socialização frequentados atualmente e nada mais do que dois amigos. Deprimente, certo? Sim. Insuportável? Não. Situação difícil de se encarar? Talvez. Mas Ana, depois de um tempo, e por mais melancólico que isso soe, aprendeu a ser um pouco mais autossuficiente, mesmo isso não preenchendo a exiguidade de não realmente ter alguns semelhantes com quem repartir suas misérias, abstrações e até júbilos, eventualmente.
O aeroporto estava impressionantemente movimentado para uma quarta-feira no meio de março, pensando bem. Passou um homem com a expressão tão triste que Ana teve vontade de abraçá-lo. Passou uma mãe de mãos dadas com o filho, já adulto, que tinha a expressão mista de felicidade, tristeza e antecipada saudade mais bonita do mundo. Passou um casal que com certeza estava saindo em lua-de-mel, julgando pelas suas expressões de que mais nada existia além deles e de suas passagens.
O celular vibrava de novo. Dessa vez era a mãe de Ana.
"Ana, você tem certeza?", a mãe repetia. "É claro que eu te dou apoio, só preciso de que você me dê certeza de que sabe o que está fazendo". Não, Ana não tinha certeza.

Quero assistir ao sol nascer, ver as águas dos rios correr...


(continua)

terça-feira, 29 de maio de 2012

tic tac

"This is your life, and it's ending one minute at a time"

Noutro dia, resolvi reparar em como eu estava andando. Eu estava no shopping e olhando para meu próprio reflexo nas várias vitrines. Eu via uma menina andando a esmo, como quem possui um destino mas não tem direção, como quem tem necessidade mas não tem vontade. E senti pena. E eu odeio sentir pena de mim mesma. Mas por mais que eu odeie, eu sinto, forçosamente.

Olhei no relógio.

E, de repente, todo o lirismo cessou.

E de repente tudo ficou tão lógico, claro, óbvio, dissertativo, tão irritante, tenho um destino tão claro, definido e fatídico que, nesse ano, viver tem sido sem graça.
Porque eu acordo, alimento-me, estudo, estudo, estudo e estudo mais um pouco, então eu me alimento e durmo. E minha vida se resume a isso de segunda a sexta-feira. E isso lentamente vai empurrando pro lado toda a tortice que é tão intrínseca a mim.
Eu não tenho mais tempo pra parar... e parar. E pensar. Não tenho mais tempo para sentar e ler um livro, e saboreá-lo, e tirar dele toda a sua essência e espalhá-la por toda a minha essência, não tenho mais tempo de assimilar conteúdos e pensamentos, porque eu simplesmente não mais os tenho.
Viver, para mim, tem-se limitado à pura atividade de sobreviver e resistir, não mais existo.
E eu estou cansada, estou muito cansada de ficar na internet, navegando de forma letárgica, só comentando o que as pessoas escrevem ou entrando em sites de humor.

Sou só mais uma maquininha de decorar fórmulas necessárias para passar no vestibular.

E eu estou cansada de viver minha vida em função de vestibular, e de ler livros em função do vestibular, e de estudar em função do vestibular, e ler notícias de jornal em função do vestibular. Minha vida NÃO É o vestibular. Eu EXISTO. Eu PENSO e não aguento mais submeter minha vida a um sistema de seleção tão furado e atrasado como o vestibular.

E eu estava atrasada para minha adorável aula de redação. Para o vestibular.